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Postagens

Grilo

O grilo, sempre simpático, sempre falante, apareceu na nossa sala, sobre o ventilador. Precisamos tirar esse grilo daí, ele precisa voltar para o jardim. Chegamos perto do ventilador e o grilo se virou para nós e levantou suas assas. Esse grilo não está para brincadeira. Ele seria capaz de matar uma pessoa. Muita sacanagem fez Deus a jogar milhares deles sobre o povo egípcio. Mas o grilo não pode ficar aí. Jogamos um pouco de veneno no grilo. Ele fica meio tonto e conseguimos jogá-lo para fora. Pouco depois vemos ele subindo a parede. Uma máquina. Uma máquina mortífera. Mais tarde vemos o grilo agonizando até a morte. O veneno não o mata instantaneamente, mas sim lentamente. Ele treme e pouco depois morre. Que morte horrível. Por que fizemos isso? Me sinto um ser humano predador da natureza e vou dormir com peso na consciência.

Museu da Língua Portuguesa

Em setembro de 2007 eu estava de férias em São Paulo e fui ao Museu da Língua Portuguesa com um tio e uma prima. Não sei se tinha muita expectativa em visitar aquele prédio histórico com um museu que homenageia algo tão intangível quanto uma língua. Sei que tive uma experiência moldadora de caráter lá dentro. Primeiro na exposição temporária, sobre Clarice Lispector, que me deixou espantado com dezenas de frases e me levou a comprar um livro dela que eu li com muito esforço. O impacto das frases de Clarice Lispector naqueles paredes permanece maior em mim do que qualquer livro ou post de Facebook. Descobri várias coisas lá dentro, naquele ambiente interativo. Uma visita ao Museu da Língua Portuguesa me valeu tanto conhecimento sobre o assunto quanto alguns anos de colégio. Deveria ser uma visita obrigatória para alunos de escolas públicas. Voltei até lá uma outra vez, em 2014. Antes de que o prédio fosse consumido pelas chamas. O prédio pode ser reconstruído, a maior parte de seu...

Bwana

Bwana era uma Força da Natureza. Aquele pequeno filhote que chegou aqui em casa sem nome e que cabia em uma mão logo cresceu e passou a ser capaz de mover vasos, arrancar árvores, roer canos, mover o eixo do planeta. Bwana tinha força para atravessar a piscina, caçar folhas em poças de água, pular muros e portões, rastrear qualquer presença de pão de queijo em um raio de dois quilômetros. Aos poucos, a idade foi chegando e toda essa força foi se dissipando. Até que hoje sua energia terminou. Foram doze anos desde que Bwana chegou aqui em casa e desde então nossas vidas não foram mais as mesmas. Eu era um estudante de 2º ano do Ensino Médio, que nunca mais entrou na piscina sozinho. Entrei na faculdade, me formei, me casei. Mas Bwana foi uma presença tão forte por aqui, que parece que ela sempre existiu e sempre existirá, com seu melancólico, esperançoso e companheiro olhar de labrador.

Rogério Ceni

Como quase todo são-paulino, vivi uma relação de amor e ódio com Rogério Ceni até um certo dia de dezembro de 2005. Certo que qualquer resquício de ódio já havia desaparecido com a conquista da Libertadores e sua comemoração extasiada em campo, dizendo que poderia ir embora, que nada mais importava a partir daquele dia. Mas a final do mundial de 2015 foi marcante. Até então, Rogério Ceni era o goleiro artilheiro, de boas defesas, algumas falhas, muita marra e poucos títulos. O cara zoado por se ajoelhar em lances cara-a-cara com o adversário. Que viveu um mau momento ali em 2001/2002 - curiosamente quando fez parte do elenco campeão da Copa do Mundo, que falhou no jogo que eliminou o São Paulo contra o Once Caldas na semifinal da Libertadores de 2004. Era também o cara que fez milagres em alguns jogos do Campeonato Brasileiro de 1999 - contra Grêmio, Inter e Ponte Preta (na fase de classificação e também em um mata-mata surreal). Do gol de falta contra o Santos no Paulista de 2000....

Uma temporada que prometia e foi sofrível

Terminado o ano de 2015 para a Fórmula 1, só resta uma comemoração: a de que terminou. Escrevi após a primeira corrida do ano que a temporada prometia ser sofrível e a expectativa se confirmou com sobras. Creio que 2015 foi uma das piores temporadas da Fórmula 1 que eu já assisti. A Mercedes fez um carro amplamente superior a concorrência, como fizeram a Ferrari em 2004 e 2002, a Williams em 1992 e 1993 e a McLaren em 1988, ou mesmo a Red Bull de 2011 e 2013. Mas em 2002, 2004, 2011 e 2013 as outras equipes conseguiam incomodar em determinadas situações e não vimos em Rubens Barrichello e Mark Webber, pilotos comparáveis a Nico Rosberg, a facilidade para andar na frente do resto dos pilotos. Em 1992 e 1993 a Williams era muito superior e faria dobradinha em todas as 16 corridas da temporada, mas os carros sofriam mais com problemas mecânicos, possibilitando algumas zebras históricas e disputadas nas posições intermediárias. O atual domínio da Mercedes só é comparável a McLaren de 1...

Dez anos de Ronaldinho - ou sem Ronaldinho

Os jornais não me deixam esquecer que foi em 19 de novembro de 2005 que Ronaldinho Gaúcho viveu sua maior atuação na história, uma das maiores de qualquer jogador em qualquer tempo. Uma lendária vitória do Barcelona sobre o Real Madrid, por 3x0, em pleno estádio Santiago Bernabeu, com dois gols do gaúcho. Volto para os 31 minutos e pouco daquele jogo que foi assistido pelo mundo. O placar já apontava 2x0 e todos ainda estavam maravilhados com o primeiro gol de Ronaldinho, quando ele recebeu a bola na intermediária. No momento em que a bola chegou até ele, todos sabiam que o gol iria sair. Os dois gols de Ronaldinho naquele jogo estão umbilicalmente ligados. O segundo provocou uma enorme sensação de Deja Vu, com sua arrancada pela meia esquerda, cortando zagueiros rumo ao gol. Foram duas jogadas em que o R10 arrancou para o gol como se fosse um míssil teleguiado. O gol era o seu destino final e nada seria capaz de interceptá-lo. O segundo gol de Ronaldinho era óbvio, porque era uma ...

Sexta-feira 13

Sob a sombra de uma árvore, um gato preto enterrava suas necessidades no gramado do Palácio Paiaguás. Satisfeito, ele saiu correndo e só não passou pela minha frente porque eu cheguei antes ao espaço pelo qual ele pretendia passar. Para os supersticiosos, um preságio de azar. No meu caso, apenas o preságio de um almoço muito ruim. Mais tarde, atiradores e homens bomba matariam mais de 150 pessoas em Paris numa série de ataques terroristas coordenados. Os corpos ainda estavam quentes quando a internet começou a ser inundada por comentários preconceituosos e xenófobos, de pessoas que não tem o mínimo de compaixão. O Brasil ainda se recupera do mar de lama tóxica que invade Minas Gerais e o Espírito Santo, devastando toda forma de vida pela frente, quando um terremoto atinge o Japão e passa desapercebido pela situação francesa. Enquanto isso, em Cuiabá, Jair Bolsonaro desfila seu discurso de ódio em uma palestra sobre Direitos Humanos em um evento de produtores de calcário. Pode não...

Coisas que já não são a mesma coisa

Ter a ESPN Brasil como seu canal de esportes favoritos não era uma preferência, mas uma opção de vida. De um lado estavam os programas puxa-sacos, cheio de celebridades dos comentários, ex-jogadores sem nada a dizer e polêmicas baratas. Do outro estava o trabalho sério, as opiniões fortes e o compromisso com a verdade - a ESPN. Mas as coisas mudaram, ah como mudaram. A ESPN não é mais aquele canal apaixonante que era lá pelos idos de 2005, 2006, até mais recentemente, talvez. Não me lembro bem quando foi que o José Trajano deixou o comando do canal, que passou a ser do João Palomino. Seguiu-se com a polêmica no caso Flávio Gomes e Arnaldo Ribeiro e uma busca cada vez maior pela audiência, ao invés da informação pura e simples. Os programas foram sendo remodelados incessantemente, o bate-bola mudou de cenário umas 14 vezes até se chegar aonde está hoje. PVC, símbolo do canal, foi embora. As transmissões dos programas agora estão cheias de ex-jogadores de futebol, numa fórmula que ...

O Bar mais sinistro do mundo

Promoção Um Baguncinha R$ 6,00 2 Baguncinha R$ 10,00 O cartaz me chamou a atenção e não tenho dúvida de que foi uma boa estratégia de marketing. Nesse mundo moderno e hiperinflacionado, é difícil encontrar um baguncinha por um preço justo e competitivo. A promoção é importante para chamar a atenção em uma rua cheia de bares, pequenos bares. Quem não é de Cuiabá não deve estar acostumado com o que é um baguncinha: um pequeno sanduíche que comporta tudo o que a mente humana imaginar. Não existe receita para o baguncinha. O bom baguncinha é aquele que utiliza todos os ingredientes possíveis. Nos áureos tempos ele chegou a custar um mísero real, mas estes eram outros tempos e pouco importa. Esse texto não é sobre baguncinhas. É sobre o bar que realiza essa promoção. Ele está localizado no novo bairro onde agora moro. Na avenida principal desse bairro. Passo em frente a ele  todos os dias quando vou para a minha nova academia e em um desses dias prestei atenção no cartaz. Pensei...

Este pequeno latifúndio, meu mundo

Sua figura é marcante e inesquecível. Impossível não notar aquela senhora com uma barriga tão avantajada que parece uma corcunda invertida em seu uniforme azul. Impossível não pensar que quando ela senta, aquela barriga sólida e compacta seria capaz de segurar um prato, um copo, quem sabe uma bigorna. Impossível não reparar nessa figura mal-humorada que carrega um cigarro numa mão e uma pá e uma vassoura na outra. Cigarro fumado com força, que fica preso apenas nos lábios nos momentos em que ela varre o chão. Nos pés, uma sandália havaiana cor de rosa, com miçangas enfeitando suas alças. Seu trabalho é varrer a calçada da loja da Mitsubishi, retirar as folhas que teimam em cair no chão e se alojar naquela calçada. Cada movimento da vassoura é repleto de raiva. Cada interrupção é motivo para que ela pragueje, contra os carros que manobram na calçada e interrompam seu trabalho. Sua figura inspira medo, o medo de passar na calçada que ela limpa com tanto carinho e que as pessoas sujam...

Novos Walters

Fomos bons amigos pelo tempo em que vivemos juntos. Nossa amizade deve ter durado bem entre a oitava série e o fim do segundo grau, tempo em que convivíamos diariamente, fazíamos trabalhos em dupla e em grupos. Éramos um grupo feliz nas nossas ideias, dúvidas, capacidades e incapacidades. O segundo grau terminou e começamos a nos afastar, como eu sempre me afasto das pessoas com quem não tenho convívio diário. Nunca sei se isso ocorre por minha culpa, por culpa das pessoas, de todos nós, ou se o mundo é que assim. Mas ainda nos encontrávamos com alguma frequência, para jogar bola, sinuca, visitar um amigo doente ou em alguma festa. Compartilhávamos algumas conquistas comuns a nossa idade, como a carteira de motorista. Lembrávamos do que vivemos juntos, as bebidas e as festas que nunca mais são iguais as que fazíamos quando tínhamos 16 anos. Ele foi na minha formatura, eu fui na sua e então não sei mais. O tempo passou e já não saberia dizer quando foi a última vez que eu o vi, ...

O Brasil nas Olimpíadas

Faltando menos de um ano para os jogos olímpicos do Rio de Janeiro, o Comitê Olímpico Brasileiro trabalha com a expectativa de que o Brasil tenha o seu melhor desempenho na história no quadro de medalhas, tanto no número de medalhas de ouro, no número total de medalhas e na posição geral. A expectativa do COB é que o Brasil termine entre os dez primeiros colocados. Uma meta ousada. Se formos ver os quadros de medalhas das últimas Olimpíadas, perceberemos que para chegar lá o Brasil precisará de pelo menos sete ou oito medalhas de ouro (seria um recorde) e mais um punhado de pratas. Os melhores desempenhos do Brasil aconteceram em 1920, com o 15º lugar geral, em 2004 com cinco medalhas de ouro e em 2012 com 17 medalhas no total. Desde os jogos de Moscou, em 1980, o Brasil vem patinando entre a 17ª e a 25ª colocação, exceção feita aos jogos de 2000, quando amargamos um 53º lugar, sem nenhuma medalha de ouro. Para conseguir oito medalhas de ouro, mais de vinte medalhas no total e alca...

Usain Bolt

Usain Bolt é provavelmente o maior atletas de todos os tempos. Atleta eu digo entre aqueles que praticam o atletismo, sem um sentido amplo que englobe os praticantes de qualquer modalidade esportiva. Mas, eu não estaria exagerando se falasse que nunca existiu um esportista como ele. Bolt conseguiu transformar as provas de 100 metros em um acontecimento ainda mais especial. A prova mais rápida do mundo, que define o homem mais rápido do mundo, sempre foi charmosa, o momento máximo do atletismo. Parávamos para ver aquela disputa de dez segundo em que tudo poderia acontecer. Hoje, nós paramos para ver Bolt correr. Para ver Bolt correr durante menos de dez segundo em que sabemos que ele vai vencer, não importa o que aconteça. Pense em quantos esportistas nos motivávamos a ver um jogo apenas por ele. Pelé, Messi, Michael Jordan, Roger Federer, são poucos, que geralmente dominam esportes mais artísticos, que combinam força física, inteligência tática e habilidade extrema. Bolt faz isso e...

Decepções na natação

Sempre gostei das provas de natação. Não sei a razão. Talvez por ter nadado na infância, mas acho que vai além disso. Sempre gostei de acompanhar as provas em Olimpíadas, Pan-Americanos, Mundiais. Acompanho com alguma frequência como estão os tempos, vejo os resultados. Confesso que sou um iludido. Sempre fico na expectativa por um bom resultado brasileiro em alguma competição mundial, mas dificilmente ela vem. Quando vem, geralmente é em alguma prova não olímpica. Ou nos menos importantes jogos pan-americanos, quando os atletas parecem se dedicar mais. Vejo que Felipe França nadou para 59,21 no Pan. Se melhorar um pouco ele pode beliscar uma medalha no Mundial, duas semanas depois. No entanto, ele força demais o ritmo tentando acompanhar o recordista mundial e não aguenta, fica de fora até da final. Vejo o revezamento feminino fazendo um bom tempo no Pan, mas na hora do mundial o tempo é 3 segundos mais alto. Como que você nada em quase 56 segundos, Graciele Herrmann? Ok, ok, qu...