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Os Beatles e a Irlanda

As raízes irlandesas estão entre as muitas coisas que uniram John Lennon e Paul McCartney. John era bisneto de irlandeses e McCartney, como o nome não pode esconder, também descendia de imigrantes da ilha vizinha. (Bem, George Harrison também tinha parentes lá, o que diz muito sobre a portuária Liverpool).

Os conflitos entre britânicos e irlandeses são conhecidos, apesar de serem difíceis de entender para quem não vive nas ilhas. Diferenças religiosas, sentimentos opostos em relação à monarquia, um longo tópico que eu seria incapaz de resumir em poucas linhas.

Um dos ápices desse confronto foi o evento conhecido como “Domingo Sangrento”, ocorrido em 30 de janeiro de 1972 na Irlanda do Norte. Vinte e seis civis, não armados, foram atingidos por soldados britânicos durante um protesto pacífico, sendo que 13 deles morreram. Todos católicos.

Este foi o quarto evento denominado Bloody Sunday na história irlandesa. Há um período de quase 30 anos conhecido como “The Troubles”.

O Domingo Sangrento de 1972 foi provavelmente o primeiro a ser televisionado, o que gerou grande comoção no meio artístico. Em 1982 o U2 lançou a música Sunday Bloody Sunday que é, sem dúvidas, a manifestação cultural mais famosa sobre o evento.

No entanto, ainda em 1972, Paul e John voltaram a se unir, pelo menos em pensamento artístico, diante do massacre dos seus antepassados.

No álbum Some Time in New York City, seu trabalho mais político, John Lennon canta duas músicas sobre o tema. Uma é The Luck of the Irish (Se você tivesse a sorte do irlandês ia preferir ser inglês. Centena de anos de torutra. Uma terra maravilhosa estuprada pelos ingleses). A outra é justamente Sunday Bloody Sunday (deixe a Irlanda para os irlandeses, mande os ingleses de volta para o mar).


Até aí, tudo normal no universo Beatle. John ocupava o posto de membro político e rebelde do grupo, restando a Paul McCartney o rótulo de romântico. Afinal, o homem escreveu Here, There and Everywhere, enquanto John fazia o bed-in, convocava manifestações antiguerra e outras coisas mais.

Mas, o que podemos dizer sobre o fato de que o primeiro single da nova banda de Paul, os Wings, é uma música chamada Give Ireland Back to the Irish? Lançada no dia 18 de fevereiro de 1972, apenas 19 dias depois do massacre. A banda entrou em estúdio 48 horas depois do evento, em 1º de fevereiro.


A urgência explica o clima espontâneo e raivoso da música, incomum para Paul. Ele cantava no calor dos fatos. Nenhuma música de um membro dos Beatles foi tão politicamente explícita. “Devolva a Irlanda para os irlandeses, faça a Irlanda irlandesa hoje”, diz o mote principal. Paul incentiva a desobediência civil questionando se, diante do que acontecia no país, os irlandeses deveriam se deitar, não fazer nada ou enlouquecer.

O single foi o 16º mais vendido no Reino Unido, mas na Irlanda chegou ao topo das paradas. A BBC baniu a música e outros canais de rádio e televisão a seguiram. As letras geraram revolta do público mais nacionalista. O lado B do single continha uma versão instrumental da canção, porque Paul previu que as rádios poderiam vetar a letra, mas teriam que mencionar o nome da canção sem voz.

(Curiosidade: o guitarrista Henry McCullogh era norte-irlandês e protestante. Prova das nuances do conflito).

Meses depois, as canções de Lennon também não foram bem recebidas. Consideradas tentativas simplistas de provocar polêmica, até a escolha estilística de John por cantar com sotaque norte-americano feriu o ego nacionalista britânico.

Paul McCartney nunca mais gravou canções tão claramente políticas, enquanto Sometime in New York City foi o auge do John ativista. Depois disso ele também deu um tempo, entrou em um processo de autodestruição e sumiu. Reapareceu em 1980 no papel de pai de família e foi assassinado. Não sabemos o que ele poderia pensar de situações políticas posteriores, ou mesmo da versão do U2.

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