17/04/2018

Algumas poucas palavras sobre Naná

Naná morreu um dia antes do aniversário de Cuiabá, vítima de leucemia felina. Repentinamente me peguei sem palavras para falar sobre esta gatinha com quem convivi durante 14 anos.

Talvez porque depois que eu me casei e sai de casa, eu mal a tenha visto. Naná não superou muito bem a minha traição, o fato de eu ter abandonado o nosso relacionamento construído arduamente após uns bons três anos em que ela me ignorou.

Lembro dela ainda filhote agarrada na janela do meu quarto. Eu havia acabado de chegar do colégio, um pouco mais cedo, muito provavelmente porque era semana de provas. Ao abrir o portão me deparei com ela grudada na janela do meu quarto e miando, enquanto os cachorros babavam de ansiedade embaixo. Ela ainda não estava enturmada com os cachorros, tinha pouco tempo de casa e nem era para estar ali, devia ter fugido.

Depois que eu a resgatei, o que ficou de mensagem para ela não era que ela não deveria encarar os cachorros ou o que fosse: ela entendeu que toda vez que pulasse na minha janela e começasse a miar, um portal mágico se abriria e alguém a colocaria para dentro de casa. Sendo assim, durante umas duas ou três semanas, todo dia, religiosamente, ela se jogava na minha janela e começava a miar às 5h da manhã.

Quando vi que isso não iria mudar, tive que começar a jogar água nela para que ela não me acordasse de maneira apoteótica  toda madrugada.

Isso talvez ajude a explicar porque ela me ignorou durante uns bons três anos.

04/04/2018

A vida de Cristina

Cristina, ou melhor Maria Cristina, é uma mulher que recebe muito telefonemas de cooperativas de crédito. Ela morava em Pedra Preta, mas decidiu se mudar para Campo Novo do Parecis em dezembro do ano passado, contratando um caminhão para fazer a mudança entre as cidades mato-grossenses.

Antes de se mudar, ela decidiu vender uma moto Fan 2014, anunciando-a em um grupo de WhatsApp. Agora em Campo Novo, ela mantém amizade com o Cassiano (caubói) e com a Sirley, que é muito insistente nas mensagens de bom dia.

Certamente Cristina tem algum descendente que estuda na turma do 5º Ano A. Ela participa de retiros espirituais, que podem durar o sábado inteiro, em que cada um deve levar sua bíblia e deixar o celular em casa. Ela também tem aulas no sábado, no PAP Cursos.

Maria Cristina entrou na minha vida por meio das ligações por engano. Eram tantas e tão frequentes, que passei a desconfiar de que alguma coisa estava errada. A partir do momento em que os contatos começaram a ser feitos por WhatsApp e traçando o caminho da mudança de cidades, não tive dúvidas: o número dela deveria ser igual ao meu, só que com um DVD diferente. De fato, o DDD 66 é algo relativamente recente em Mato Grosso. É adotado em Rondonópolis, mas não em Campo Novo, sua nova casa.

Não tive dúvidas e adicionei o número no contato "Cristina?". Observei sua foto de perfil em frente a uma estante com muitas imagens santas.

Os contatos não paravam, de cada três ligações que eu recebia, pelo menos uma era direciona a Maria Cristina. Inclusive uma criança muito insistente. Então, resolvi logo perguntar para o meu contato se ela era a Maria Cristina. Ela confirmou o fato, mesmo com estranheza.

Desde então, sempre que alguém me liga para falar com ela, informo que o seu DDD é 66. Isso talvez, que pena, faça com que eu tenha menos informações sobre a sua vida.

Acabei me transformando em secretário particular de Maria Cristina.

24/03/2018

Questão de Tempo

Seiscentos e sessenta e quatro milésimos. Essa foi a diferença que Lewis Hamilton colocou na concorrência direta no primeiro treino classificatório do ano, na Austrália. Traduzindo, Hamilton será pentacampeão do mundo no fim do ano. Não há de onde as equipes adversárias tirarem essa vantagem. Correndo contra um companheiro, Bottas, claramente inferior, Hamilton só não será campeão se despirocar no meio do campeonato, e olhe lá.

Vamos comparar a diferença da Mercedes em relação a concorrência em relação aos últimos anos, exceção feita a 2014, quando choveu na Austrália (depois choveu na Malásia e só no Bahrein, no primeiro treino com condições normais, a Mercedes enfiou quase nove décimos no adversário mais próximo).

- Em 2015, quando a Mercedes passeou apesar do incômodo constante de Vettel, a diferença foi de 1,397 para o adversário mais próximo. Nos treinos seguintes a diferença se manteve em uma média de oito décimos.

- Em 2016, quando a Mercedes só não venceu todas as corridas por conta de uma batida na Espanha e uma quebra de motor na Malásia, foram 838 milésimos. Nas corridas diferentes a diferença se manteve na casa de seis décimos.

- Em 2017, quando finalmente ocorreu alguma disputa no campeonato, a diferença foi de 268 milésimos. A diferença variou muito de pista para pista.

Ou seja, por mais que a diferença da Mercedes em relação a concorrência seja historicamente um pouco maior na Austrália em relação as outras corridas (dois décimos), neste ano estamos muito mais próximos de 2016 (19 vitórias em 21 corridas) do que de 2017. Pode haver uma zebra aqui e ali, mas não há o que os outros possam fazer. Hamilton será campeão. Sem um companheiro minimamente competitivo, pode ir atrás do recorde de 13 vitórias em uma temporada.

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Vamos ver a diferença que equipes dominantes impuseram aos adversários em outras temporadas recentes:

- Em 2013 a Red Bull começou o ano com 680 milésimos de vantagem. No começo do ano o desgaste dos pneus era um componente importante das corridas e a vitória terminou com Raikkonen da Lotus. Depois de uma metade inicial competitiva, uma série de explosões de pneus na Inglaterra mudou a fabricação dos compostos e Vettel venceu as últimas 9 corridas do ano.

- Em 2011 a Red Bull colocou 778 milésimos de diferença.

- Em 2009 a Brawn GP abriu o ano com Button colocando 628 milésimos na concorrência.

- Em 2004 foram 590 milésimos da Ferrari na Williams mais próxima.

- Em 2002 foram 436 milésimos de vantagem pró-Ferrari.

- Em 1996, primeiro ano de corridas em Melbourne, a Williams teve 0,518 de diferença para a Ferrari.

- Indo mais longe, em 1992 a Williams de outro mundo largou na pole com 0,741 de vantagem. (Com o desenvolvimento do Carro, logo no Brasil seriam 2,2 segundos de vantagem. A diferença seria superior a um segundo em 10 corridas do ano).

- Em 1988 a lendária McLaren-Honda teve 536 milésimos de vantagem. (Perto, não? Na Corrida seguinte foram inacreditáveis 3,352 segundos. 2,687 segundos em Mônaco. A diferença foi superior a um segundo em 8 das 16 corridas do ano).

Há claro, anos em que as coisas não são como elas pareciam que seriam:

- Em 1993 Prost superou Senna por apenas 88 milésimos. Logo a diferença padrão seria algo em torno de 1,5 segundo pró-Williams.

- Em 1997 Jacques Villeneuve foi 2,103 segundos mais rápido do que Schumacher, terceiro colocado. Pois bem, a Williams foi frequentemente 1 segundo mais rápido que as adversárias no começo da temporada, mas a partir do Canadá a Ferrari encostou e o título só foi decidido no final.

- Em 1998 foram sete décimos de vantagem de Mika Hakkinen sobre a Ferrari. Essa foi a tônica do começo da temporada, mas eram outros tempos: existiam os testes liberados, e novamente a partir do Canadá a situação se equilibrou e Schumacher levou a disputa do título até a última corrida.

- Em 1999 Hakkinen teve 1,3 segundo de vantagem. Demorou duas corridas para a Ferrari equilibrar e IRVINE disputar o título até a última corrida.

- Em 2000 novamente a McLaren começou o ano com meio segundo de vantagem. Só que a Ferrari era muito mais confiável nas corridas e também logo equilibrou nos treinos.

- Em 2003 Schumacher começou o ano com 1 segundo de vantagem sobre os adversários. Mas esse ano foi muito louco e não serve de parâmetro para nada.


08/03/2018

Quem ganha com a intervenção?

Michel Temer é um senhor idoso que por vezes flerta com a senilidade. Mesmo ostentando recordes de rejeição - é praticamente humanamente impossível alguém ser tão rejeitado quanto o senhor Elias Lulia - ele sonha com a possibilidade de ser candidato a re-eleição. Possibilidade, claro, que só pode ser aventada por pessoas com falhas cognitivas e que vivam completamente alienadas do mundo.

Durante muito tempo o nosso presidente pensou que conseguiria o sucesso por meio de medidas impopulares que lá na frente se mostrariam eficazes e fariam que o povo brasileiro, em massa, o aclamasse presidente. A re-eleição, era só isso que ele queria, nem fazia questão dos pedidos de desculpas. No entanto, com o tempo passando e sua aprovação patinando no lodo do fundo do poço, ele percebeu que medidas impopulares não aumentam a popularidade e resolveu apelar para um novo artifício, mexendo com um assunto que está sempre pulsando na mente humana: a insegurança.

Até o momento a economia parecia ser o assunto principal das próximas eleições: desemprego, geração de renda, retomada do crescimento, as próprias reformas do Temer. A corrupção era outro assunto por conta da interminável operação Lava-Jato e também por conta da participação do Lula. O candidato aí que se mostrasse mais capaz de enfrentar esses dois problemas, certamente sairia fortalecido no processo.

A Segurança Pública, por sua vez, é uma preocupação constante da população, mas sempre passou alheia das eleições presidenciais. Afinal, a República responde pela segurança nacional e não há nenhuma demonstração de que o Brasil vá entrar em guerra em um momento próximo. Questões sobre segurança sempre se fazem mais presentes nas eleições para governador e no eterno debate improdutivo do poder Legislativo.

Quando criou o ministério da Segurança Pública e determinou a intervenção militar nesta área no Rio de Janeiro, Michel Temer inverteu essa lógica. Trouxe a questão da Segurança para os braços da presidência e jogou uma pressão em seu sucessor. Como todo esse embate se trava no mais midiático dos estados brasileiros, a intervenção de Temer acaba por jogar a Segurança Pública no centro da discussão sobre a sucessão presidencial, substituindo a economia.

Sim, de certa forma é a chance de sobrevida que Temer quer. Dependendo do sucesso do projeto e, principalmente, do tratamento midiático para a intervenção, a imagem pública do vampiro presidente pode melhorar. Matérias no Jornal da Globo mostrando populares satisfeitos, dizendo que viram resultados e que agora se sentem mais seguro, conseguem ver a presença do Estado no combate à criminalidade, podem permitir a candidatura de Temer. Sim, isso é bem difícil, mas em um bom cenário pode garantir uma boa candidatura de uma pessoa indicada pelo presidente. No pior dos cenários, faz com que o seu PMDB seja um partido minimamente ouvido na disputa.

Por outro lado, a centralização da Segurança é positiva para um candidato específico: sim, ele, o Messias Bolsonaro. Seu discurso inflamado de extermínio dos criminosos e de qualquer tipo de sub-gênero humano bate forte no imaginário popular de resolução dos problemas da criminalidade.

Se der tudo muito certo e a imagem da sensação de segurança for vendida corretamente, quem se fortalece é Bolsonaro, porque quem se fortalece são as Forças Armadas. O Exército diminuiu a violência no Rio, o que nós precisamos? De uma presença mais forte do Exército. Quem é o Exército na sucessão presidencial? Bolsonaro.

Se por outro lado, tudo der muito errado e a situação continuar problemática, quem é que se fortalece? Bolsonaro. Porque o fracasso da intervenção ficará associada a falta de pulso e autonomia para as Forças Armadas e o único nome que pode conduzir com mão-de-ferro o combate a violência é o do Messias.

Em suma, a jogada marqueteira de Michel Temer para impulsionar a própria imagem criou um jogo no qual só haverá um vencedor.

01/03/2018

Estatísticas da Copa: Maiores Artilheiros

Eis uma lista dos 50 maiores artilheiros, entre os jogadores que podem disputar a Copa do Mundo de 2018. Constam na lista jogadores convocados no último ano pelas 32 seleções classificadas para a disputa. Por isso aparecem alguns jogadores que provavelmente não estarão lá (David Villa e Diego Tardelli) e ficam de fora àqueles que aparentemente não estarão lá, apesar de ainda jogarem futebol (Ibrahimovic).

Nessa lista (que sim, confirmo, não é a mais exata do mundo e pode ter distorções) também ficam de fora vários jogadores badalados, mas ainda jovens, ou mesmo àqueles que fazem muitas jogadas e poucos gols. Entram uma série de centroavantes natos e bem desconhecidos, artilheiros cuja vida foi construída na base de gols no campeonato panamenho.

A ordem decrescente:

50) Jamie Vardy (Inglaterra) 149 gols - 31 anos
49) Shinji Kagawa (Japão) 152 gols - 28 anos
48) Alfreð Finnbogason (Islândia) 153 gols - 29 anos
47) Giovanni Moreno (Colômbia) 155 gols  - 31 anos
46) Youssef El-Arabi (Marrocos) 157 gols - 31 anos
45) Eden Hazard (Bélgica) 158 gols - 27 anos
44) Shinzo Koroki (Japão) 158 gols - 31 anos
43) Mohammad Al-Sahlawi (Arábia Saudita) 159 gols - 31 anos
42) Shinji Okazaki (Japão) 160 gols - 31 anos
41) Mbark Boussoufa (Marrocos) 162 gols - 33 anos
40) Harry Kane (Inglaterra) 162 gols - 24 anos
39) Nikola Kalinić (Croácia) 164 gols - 30 anos
38) Diego (Brasil) 168 gols - 33 anos
37) Antoine Griezmann (França) 170 gols - 26 anos
36) Moussa Sow (Senegal) 170 gols - 32 anos
35) Diego Costa (Espanha) 175 gols - 29 anos
34) Teófilo Gutiérrez (Colômbia) 176 gols - 32 anos
33) Roberto Nurse (Panamá) 182 gols - 34 anos
32) Javier Hernández (México) 182 gols - 29 anos
31) Viðar Örn Kjartansson (Islândia) 188 gols - 27 anos
30) Hamdi Harbaoui (Tunísia) 190 gols - 33 anos
29) Jefferson Farfán (Peru) 194 gols - 33 anos
28) Romelu Lukaku (Bélgica) 198 gols - 24 anos
27) Dries Mertens (Bélgica) 203 gols - 30 anos
26) Luis Tejada (Panamá) 208 gols - 35 anos
25) Diego Tardelli (Brasil) 210 gols - 32 anos
24) Tim Cahill (Austrália) 218 gols - 38 anos
23) Thomas Müller (Alemanha) 223 gols - 28 anos
22) Oribe Peralta (México) 223 gols - 34 anos
21) Olivier Giroud (França) 226 gols - 31 anos
20) Mario Mandžukić (Croácia) 229 gols - 31 anos
19) Marcus Berg (Suécia) 231 gols - 31 anos
18) Paolo Guerrero (Peru) 239 gols - 34 anos
17) Carlos Bacca (Colômbia) 249 gols - 31 anos
16) Nasser Al-Shamrani (Arábia Saudita) 258 gols - 34 anos
15) Blas Pérez (Panamá) 261 gols - 36 anos
14) Aritz Aduriz (Espanha) 278 gols - 37 anos
13) Lee Dong-gook (Coreia do Sul) 282 gols - 38 anos
12) Radamel Falcao (Colômbia) 287 gols - 32 anos
11) Jermain Defoe (Inglaterra) 292 gols - 35 anos
10) Gonzalo Higuaín (Argentina) 310 gols - 30 anos
09) Mario Gómez (Alemanha) 315 gols - 32 anos
08) Neymar (Brasil) 322 gols - 26 anos
07) Edinson Cavani (Uruguai) 354 gols - 31 anos
06) Sergio Agüero (Argentina) 359 gols - 29 anos
05) Robert Lewandowski (Polônia) 371 gols - 29 anos
04) David Villa (Espanha) 412 gols - 36 anos
03) Luis Suárez (Uruguai) 413 gols - 31 anos
02) Lionel Messi (Argentina) 609 gols - 31 anos
01) Cristiano Ronaldo (Portugal) 634 gols - 33 anos

País com mais jogadores na lista: Colômbia, com 4
Países sem jogadores na lista: Rússia, Egito, Irã, Dinamarca, Nigéria, Suíça, Costa Rica e Sérvia.

(Quem sabe com as convocações definidas, eu me animo a fazer uma lista mais completa e correta).

20/02/2018

Intervenção

Os números do anuário de segurança pública mostram que o Rio de Janeiro é o 10º Estado mais violento do Brasil. Os dados estatísticos mostram que o número de ocorrências policiais na capital Rio de Janeiro caíram um pouco em relação ao ano passado e despencaram em relação a dois anos atrás. Os números, portanto, mostram que não há nenhuma excepcionalidade na situação de violência do Rio de Janeiro. Isso mesmo com a superexposição das imagens de arrastões, roubos e ataques violentos contra as pessoas no carnaval, imagens que se somam a sensação de caos generalizado provocado pela crise econômica que arrasa o Estado. Não há nada científico que justifique uma intervenção militar por lá, pois o problema é o mesmo de sempre.

No entanto, a violência do Rio de Janeiro é mais assustadora pelo fato de que ela é visível. É visível por ser uma cidade enorme, cartão-postal brasileiro no exterior, e é visível porque a violência ocorre nas áreas ricas da cidade. Ao contrário de outras capitais brasileiras, em que os assassinatos e ações violentas se concentram nas franjas invisíveis da cidade, no RJ ela ocorre no meio das áreas ditas civilizadas.

Pode ser uma visão preconceituosa, ou uma análise mais fria, mas o fato é que ninguém - quando digo ninguém falo de uma certa consciência coletiva, incluindo a imprensa, se importa quando os pobres que moram longe estão morrendo ou sofrendo qualquer violência, lá longe, em um lugar em que ninguém consegue ver. A violência no centro da cidade, no entanto, é intolerável.

João Pessoa, a simpática capital paraibana é a 16ª cidade mais violenta do mundo e o turista que anda pela tranquilidade do Tambaú/Cabo Branco não consegue imaginar isso. Há uma sensação de tranquilidade e ordem ao se caminhar nessa zona turística, tal qual há tranquilidade para quem anda na praia de Ponta Negra em Natal, a 13ª cidade mais violenta do mundo. Ali, onde os turistas estão no seu dia-a-dia, em restaurantes caros, pode haver um ou outro assalto que assusta a população, mas não há nenhum cadáver.

No entanto, no caminho para o aeroporto é possível perceber onde estão todos esses assassinatos. Na periferia. Assustadora, sombria, sem nenhuma presença do Estado. Estão lá longe, longe dos olhos da mídia, dos cidadãos de bem e ordeiros. Ninguém se importa. Veja o caso de Brasília: há o pacífico plano piloto, enquanto que nas cidades satélites cinco pessoas são assassinadas por noite. Mas, quem se importa com Sobradinho?

Na capital fluminense, a periferia está no meio da cidade. A Rocinha está do lado de Ipanema e do Leblon. O morro do pavão desce em Copacabana. Os principais pontos turísticos da cidade estão rodeados pela favela. Então, tem arrastão na rica zona sul. Gente levando facada na Lagoa Rodrigues de Freitas. Não há zonas de segurança, de paz e ordem para o cidadão de bem. Está todo mundo sitiado. Se todos os assassinatos do RJ estivessem concentrados na baixada fluminense, ninguém se importaria. Seria uma zona violenta, que deve ser evitada, o crime estaria invisível.

***

Fora isso, há claro o fator de marketing. A violência e a segurança pública viraram as principais preocupações do cidadão de bem - até este termo horrível voltou à tona. Faltando oito meses para eleição e sem conseguir tornar palatável sua pauta antipopular, Michel Temer resolveu tomar uma ação populista e eleitoreira. Ao invés de tentar se emplacar como o "reformista", o vampirão resolveu se transformam no "Homem que combateu a violência". Pior é que isso realmente pode aumentar a popularidade do homem, porque o brasileiro está muito doido.

14/02/2018

MC Loma

Depois de décadas de domínio da música produzida na Bahia com Ivete Sangalo, Asa de Águia, Daniela Mercury, Chiclete com Banana e seus derivados, ocorreu um processo de descentralização do Hit do Carnaval, que já passou pelas mãos de Michel Teló e abraçou cada vez mais o sertanejo universitário e o funk. 

Além de sair de sua terra natal - fruto talvez do crescimento do carnaval de rua em várias outras cidades do país? - a popular música festeira brasileira saiu da mão de seus hitmakers consagrados e passou a cair nos colos de One Hit Wonders, como Psirico (Lepo Lepo), Banda Vingadora (cujas metralhadoras desapareceram) e o saudoso MC G15, que talvez tenha morrido de tanta onda e nós nem ficamos sabendo. Artistas que acertam apenas um tiro certeiro e alcançam o estrelato nacional proporcionado por emplacar um Hit de Carnaval (matérias nos jornais, convites para festas e shows, dinheiro, superexposição midiática).

Parecia ser justamente o caso de Juju Toddynho que pareceu surgir do nada no momento certo com Que Tiro foi Esse para substituir a insossa Vai Malandra de Anitta e uma dezena de convidados. Mas, em um movimento ainda mais surpreendente da gosto popular, eis que surgiu MC Loma com Envolvimento para desbancar a artista mainstreem e a alternativa. MC Loma é uma alternativa da alternativa, a extrema alternativa e o sucesso de Envolvimento beira o inexplicável.

Se Toddynho ainda contou com alguma produção e divulgação seu hit hashtagiano, MC Loma gravou uma música imperativa em autotune e gravou um vídeo praticamente amador que subiu ao Facebook despretensiosamente. Fez tanto sucesso que ganhou um videoclipe produzido e dirigido pelo diretor-ostentação Kondzilla e as duas obras audiovisuais já somam 47 milhões de visualizações. (Anitta conseguiu 193 milhões com a divulgação mundial de Vai Malandra).

O grande mérito da pernambucana de 15 anos é que Envolvimento é um pequeno choque de realidade dentro da sociedade brasileira. Enquanto Vai Malandra é um retrato tipo exportação do Brasil, com sua favela cenográfica, bundas ostentação, danças estilo Beyonce teletransportadas para a Rocinha, cantores gringos falando sobre bundas e a velha ladainha das letras de Anitta (vou te seduzir, vamos ver onde essa porra vai chegar, duvido que você aguenta o meu fogo), Envolvimento é vida real.

A pobreza glamourizada tipo exportação da Anitta é contraposta por uma alegria genuína de quem não tem muita coisa na vida e talvez por isso tenha tudo. Um humor genuíno e espontâneo, o carisma puro da cantora e de suas primas dançarinas, sua dificuldade de dicção e mensagens difíceis de serem decifradas como tal "Cebruthius" - esta corruptela de Bluetooth, confusão tão besta quanto a sua inclusão repetitiva e sem sentido, mas cuja explicação sincera a torna extremamente simpática.

Provável que agora MC Loma perca sua autenticidade - essa é a palavra - e vire um personagem, uma cópia dela mesma, entre em uma espiral de repetição e fique para sempre perdida nesses dias mágicos do começo de fevereiro.

09/02/2018

Amsterdã

Havíamos acabado de cruzar a fila da imigração e a sensação era a de ter conquistado o mundo. O enorme aeroporto com seus corredores iluminados e idiomas misturados, as placas com uma língua incompreensível. Sento no banco para conectar o wi-fi e me certificar do trajeto do trem, com a sensação de que há uma vida inteira para ser vivida. Ali eu estava, em Amsterdã, com a pessoa que eu mais gosto no mundo prestes a iniciar os 20 dias da viagem mais planejada de todos os tempos.

Observava o Albert Heijn sem saber como eles dominam o país. O trem era algo tão diferente para nós que só tivemos certeza que tinha dado certo quando chegamos no hotel. Deixamos nossas coisas por lá e saímos. Era um dia de sol, de um sol maravilhoso que não iríamos ver pelos próximos dez dias. Caminhamos pelo De Pipj e já estávamos suficientemente encantados com aquelas muralhas de prédios cor de telhado e o tram que passava o tempo inteiro e as pessoas tão bonitas em suas incontáveis bicicletas.

Então chegamos nos canais. Singel era o nome do primeiro que vimos e ficava perto da fábrica da Heineken. Margeando o canal havia um parque ou talvez fosse apenas um jardim e algumas flores ainda resistiam àquele começo de outono, as folhas já começavam a se depositar sobre o gramado impecavelmente verde. O sol refletia nos canais e caminhando por sua margem logo chegamos no Rijksmuseum e logo estávamos no letreiro famoso e o sol continuava a brilhar de uma maneira que era impossível não ser feliz.

Dali nos perdemos em seu labirinto hipnótico de canais e a cada momento encontrávamos uma construção surpreendente e nos apaixonamos pelo Jordaan, sentamos na Dam Square e fomos soterrados pelos pombos e mesmo assim tudo parecia perfeito naquele instante, enquanto coffees shops seguiam sua atividade, garotas seguiam na janela e os moinhos continuavam a girar em um local imaginado. A vida era perfeita e nada mais.

06/02/2018

Geografia da Copa

Uma compilação de dados inúteis  curiosos relacionados a geografia, geopolítica, economia na Copa do Mundo de 2018.

Área
A Rússia, anfitriã do torneio, é o país com maior dimensão territorial. São mais de 17 milhões de km².
1) Rússia 17.075.200 km²
2) Brasil 8.515.767 km²
3) Austrália 7.692.024 km²
4) Argentina 2.780.400 km²
5) Arábia Saudita 2.149.360 km²

Por outro lado, com apenas 30 mil km², a Bélgica é o menor país da Copa. Ou seja, dentro da Rússia cabem 559 bélgicas.

1) Bélgica 30.528 km²
2) Suíça 41.285 km²
3) Dinamarca 42.931 km²
4) Costa Rica 51.000 km²
5) Croácia 56.594 km²

O território da Rússia é equivalente ao de outros 29 países do torneio.

População
Com 208 milhões de habitantes, o Brasil é o país mais populoso do torneio.
1) Brasil 208.243.982
2) Nigéria 185.989.460
3) Rússia 144.463.451
4) Japão 126.672.000
5) México 119.530.753

Já o país com a menor torcida do torneio é a Islândia, com 332 mil habitantes. Portanto, para cada islandês há 626 brasileiros.

1) Islândia 332.529
2) Uruguai 3.444.006
3) Panamá 4.034.119
4) Croácia 4.154.200
5) Costa Rica 4.857.274

A Islândia é tão pequena, que há 10 uruguaios para cada islandês.

Densidade
Quando o assunto é densidade, a Coreia do Sul é o país mais povoado da Copa. Em cada km² do território sul coreano há 513 habitantes.
1) Coreia do Sul 513,4 h/km²
2) Inglaterra 420,5 h/km²
3) Bélgica 370,3 h/km²
4) Japão 335,2 h/km²
5) Alemanha 230,6 h/km²

Já o país menos povoado é a Austrália, com 3 habitantes em cada km². Dá pra dizer que no espaço em que um australiano vive, há 160 sul-coreanos habitando.
1) Austrália 3,2 h/km²
2) Islândia 3,2 h/km²
3) Rússia 8,4 h/km²
4) Arábia Saudita 15,4 h/km²
5) Argentina 15,7 h/km²

O Brasil tem 24 habitantes em cada km². Oitavo país menos populoso da Copa.

Riqueza
Os suíços são os mais ricos na disputa de futebol.
1) Suíça US$ 61.360
2) Arábia Saudita US$ 55.229
3) Islândia US$ 52.150
4) Alemanha US$ 50.206
5) Austrália US$ 49.882

Do outro lado, Senegal é o país mais pobre da competição. É preciso juntar 22 senegaleses para atingir a renda média de um suíço.
1) Senegal US$ 2.733
2) Nigéria US$ 6.351
3) Marrocos US$ 8.330
4) Tunísia US$ 12.065
5) Egito US$ 12.560

Sim, os cinco países mais pobres na disputa do torneio são os cinco africanos. Depois aparecem os latino-americanos, com uma exceção europeia perdida no meio: Sérvia.

Desiguldade
A Islândia é o país menos desigual da Copa do Mundo, de acordo com o índice de Gini.
1) Islândia 24
2) Suécia  25,4
3) Bélgica 26,3
4) Dinamarca 27,5
5) Alemanha 29,5

Do outro lado da lista, a Colômbia é o país mais desigual.
1) Colômbia 51,7
2) Brasil 51,3
3) Panamá 51
4) México 48,2
5) Peru 44,3

Todos latino-americanos. Não há dados sobre a Arábia Saudita.

Desenvolvimento Humano
A Suíça pode se orgulhar de ser o país mais desenvolvido, pelo menos de acordo com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).
1) Suíça 0,939
2) Austrália 0,939
3) Alemanha 0,926
4) Dinamarca 0,925
5) Islândia 0,921

Os menos desenvolvidos? Os cinco africanos.
1) Senegal 0,494
2) Nigéria 0,514
3) Marrocos 0,647
4) Egito 0,691
5) Tunísia 0,725

Idioma
O espanhol é o idioma mais falado por países da Copa, oito: Argentina, Espanha, Peru, Colômbia, México, Uruguai, Costa Rica e Panamá. Depois vem o árabe, falado por Tunísia, Egito, Marrocos e Arábia Saudita.

Coreia do Sul, Croácia, Dinamarca, Bélgica, Islândia, Japão, Irã, Polônia, Rússia, Sérvia e Suécia não compartilham seus idiomas com nenhum outro país.

Religião
17 países católicos
7 países islâmicos
3 prostestantes
2 ortodoxos
1 anglicano
1 xintoísta
1 indefinido (Coreia do Sul)

29/01/2018

Cidadão exemplar

O síndico do meu condomínio - nem sempre ele foi síndico - mas ele sempre despertou uma sensação estranha em mim, um desconforto com alguma coisa que eu não sabia explicar direito. O jeito como ele falava nas reuniões - mesmo quando ele não era síndico - me passava uma sensação de que ele se considerava um cidadão exemplar. Sabe aquele cara que adora contar para os outros como ele é totalmente correto e justo em suas ações.

Um dia, encontrei ele no restaurante do bairro e percebi que ele tinha uma tatuagem em cada um de seus antebraços. Percebi que eram nomes de um homem e de uma mulher. Do seu casal de filhos, de sua esposa e do seu filho, dos seus pais, não sei, não perguntei. Isso só me reforçou que ele além de um cidadão exemplar ainda é um cara que faz tudo para defender sua família.

Posso imaginá-lo irritantemente em uma reunião com amigos usando seu senso de justiça e correção para justificar todo e qualquer ato. "Você sabe que eu faço o que é certo", diz. Acusou a doméstica de roubar um ovo e fez ela chorar até descobrir que o filho mais velho deixou um ovo cair no chão? "Eu sou muito justo com as pessoas". "Eu fui atrás do contrato para fazer esse muro no condomínio, eu podia ter fechado com uma empresa que me ofereceu dinheiro, mas eu sou muito correto". Sua vida é uma eterna provação de sua correção.

Sua lealdade, hombridade, honestidade. O cidadão exemplar certamente concorreria ao prêmio de cidadão mais correto do mundo. Porque todas suas ações foram embasadas em sua fé cristã e também na defesa da sua família.

Sua família, o cidadão exemplar certamente será ainda mais justo quando a questão envolver a sua família, pela qual ele é capaz de fazer o que for preciso para garantir sua segurança. São atos banais, mas que na vida do cidadão exemplar parecem verdadeiras provações. Pela segurança da sua família ele é capaz de instalar uma câmera de segurança na porta da sua casa, instalar um alarme no seu carro, colocar uma grade na janela da frente, lutar pela implantação de um sistema de cadastro biométrico na portaria. "Pela minha família eu faço o que for preciso", como se a instalação de uma câmera se comparasse a ir no Vietnã resgatar um bebê resgatado por terrorista do Sendero Luminoso com pouco senso de navegação.

Essa, aliás, é uma característica do cidadão exemplar: superestima suas atitudes. Pagou o dinheiro combinado com uma pessoa pela prestação de um serviço, porque afinal, ele é muito justo e correto, jamais daria um calote. Pagou o amassado que seu filho provocou na porta do carro do vizinho, porque ele faz o que é certo, não importa quem seja o envolvido.

Descubro o nome completo do meu síndico e entro no seu Facebook e descubro que ele fez uma campanha extremamente forte pelo fim do Ministério da Cultura, foi um árduo defensor do impeachment, o que realmente só confirma todo o senso de Justiça que ele tem. Ele quer o que é certo, ele quer acabar com a bandidagem, ele vai protestar pelo o que é bom para a família dele. Procuro algum compartilhamento de vídeo do Bolsonaro, mas logo percebo que ele não atualiza seu Facebook a mais de um ano, ou que ele bloqueou o conteúdo para quem não é amigo dele.

Um exemplo.

22/01/2018

Vitórias contra o Big Four

Depois de definidas as quartas-de-final do Australian Open, com uma pré-definição da repetição da final do ano passado entre Federer e Nadal, algumas pessoas chamaram a atenção para um nome que poderia evitar isso: Tomas Berdych. O tcheco está há anos no top-20 mundial, passou outros tantos no top-10 e costuma sempre a fazer campanhas dignas nos Grand Slams. No entanto, tem uma estatística ruim contra os tenistas do Big Four. No entanto, quem tem bons números contra esses caras?

Fiz um apanhado para saber quem são os tenistas que tem melhores resultados contra os quatro jogadores que dominam o esporte há mais de uma década. Estabeleci alguns critérios: ter enfrentado Federer, Murray, Nadal e Djokovic pelo menos duas vezes cada, em um total de pelo menos 10 jogos contra os nomes do Big Four. Pré-selecionei os tenistas entre o top-20 atual e aqueles que disputaram os ATP Finals desde 2006. No total, 31 nomes se estabeleceram nos critérios e entre ele, o que tem o melhor desempenho é: Nick Kyrgios. Sim, o polêmico australiano tem 35,71% de aproveitamento nos jogos, ainda que seja da lista o que tem menos jogos, apenas 14.

Confira o top 10:
1) Nick Kyrgios: 5 vitórias e 9 derrotas - 35,71% de aproveitamento.
2) David Nalbandian: 13 vitórias 25 derrotas - 34,21% de aproveitamento.
3) Dominic Thiem: 6 vitórias e 13 derrotas - 31,57% de aproveitamento.
4) Nikolay Davydenko: 14 vitórias e 36 derrotas - 28% de aproveitamento.
5) Fernando González: 8 vitórias e 21 derrotas - 27,58% de aproveitamento.
6) Juan Martín del Potro: 18 vitórias e 48 derrotas - 27,27% de aproveitamento.
7) Jo-Wilfried Tsonga: 18 vitórias e 49 derrotas - 26,86% de aproveitamento.
8) Andy Roddick: 14 vitórias e 40 derrotas - 25,92% de aproveitamento.
9) Ivan Ljubicic: 10 vitórias e 31 derrotas - 24,39% de aproveitamento.
10) Stanislas Wawrinka: 19 vitórias e 65 derrotas - 22,61% de aproveitamento.

Por outro lado, os 10 com o pior aproveitamento dentro do critério estabelecido:
1) Richard Gasquet: 6 vitórias e 51 derrotas - 10,52% de aproveitamento.
2) John Isner: 4 vitórias e 28 derrotas - 12,5% de aproveitamento.
3) Gilles Simon: 6 vitórias e 41 derrotas - 12,76% de aproveitamento.
4) Milos Raonic: 5 vitórias e 34 derrotas - 12,82% de aproveitamento.
5) Marin Cilic: 6 vitórias e 39 derrotas - 13,33% de aproveitamento.
6) Tommy Robredo: 5 vitórias e 31 derrotas - 13,88% de aproveitamento.
7) David Goffin: 3 vitórias e 18 derrotas - 14,28% de aproveitamento.
8) Grigor Dimitrov: 5 vitórias e 30 derrotas - 14,28% de aproveitamento.
9) Kevin Anderson: 3 vitórias e 20 derrotas - 15% de aproveitamento.
10) Fernando Verdasco: 8 vitórias e 45 derrotas - 15,09% de aproveitamento.

Os 10 com mais vitórias, independente do aproveitamento.
1) Stanislas Wawrinka 19 (8 em 10 contra Murray)
2) Tomas Berdych 19 (apenas 3 em 28 contra Djokovic)
3) Jo-Wilfried Tsonga 18 (apenas 2 em 16 jogos contra Murray)
4) Juan Martín del Potro 18 (5 em 14 jogos contra Nadal)
5) David Ferrer 17 (não venceu nenhum dos 17 contra Federer)
6) Nikolay Davydenko 14 (6 de 11 contra Nadal. 2 em 21 contra Federer)
7) Andy Roddick 14 (apenas 3 em 24 contra Federer)
8) David Nalbandian 13 (8 em 19 contra Federer)
9) Ivan Ljubicic 10 (vênceu 3 dos 7 contra Murray)
10) Fernando González 8 (jogou apenas três vezes contra Murray e Djokovic, vencendo 2 de cada)

Por último, os 10 que mais enfrentaram o Big Four, o que pode ser um sinal de consistência, pelo menos.
1) Tomas Berdych: 93 jogos
2) David Ferrer: 88 jogos
3) Stanislas Wawrinka: 84 jogos
4) Jo-Wilfried Tsonga: 67 jogos
5) Juan Martín del Potro: 66 jogos
6) Richard Gasquet: 57 jogos
7) Andy Roddick 54 jogos
8) Fernando Verdasco: 53 jogos
9) Nikolay Davydenko: 50 jogos
10) Gael Monfils: 48 jogos (venceu 8 e perdeu 40. Desempenho 0x14 contra Djokovic)

Aliás, agora sim por último, uma curiosidade: o aproveitamento dos próprios membros do Big Four contra eles próprios:

4) Andy Murray: 29 vitórias e 56 derrotas em 85 jogos, com 32,94% de aproveitamento.
3) Roger Federer: 51 vitórias e 57 derrotas em 108 jogos, com 47,22% de aproveitamento.
2) Novak Djokovic: 74 vitórias e 57 derrotas em 131 jogos, com 56,48% de aproveitamento.
1) Rafael Nadal: 64 vitórias e 48 derrotas em 112 jogos, com 57,14% de aproveitamento.

(Sem Assunto)

Se há alguma verdade na minha vida, é que passei os últimos 10 anos imerso em uma grande maré de tranquilidade e felicidade. Naveguei na calmaria de não enfrentar o medo de um dia se ver sozinho diante do mundo. Vivi com a certeza de que sempre teria alguém para contar nos momentos em que a loucura mundana parecesse incontrolável e que quando o futuro parecesse intransponível, teria alguém para ajudar a decifrar os caminhos e manter o controle da vida.

Estou há 10 anos ao lado da Ana Rosa, arrastando malas por calçadas alheias, descobrindo como queijos são melhores no dia seguinte – depois de passarem uma noite enrolados em guardanapos dentro de uma bolsa, levantando de restaurantes quando percebemos que estamos diante de uma cilada – sim estamos há anos descobrindo juntos as ciladas da vida e aprimorando nosso feeling para evitá-las. Conhecendo tantos lugares e voltando a tantos outros, na expectativa que um dia todas as esquinas do planeta tenham uma lembrança de nós dois.

Mas também ficando em casa e descobrindo que a centrífuga de salada é o maior invento da história da humanidade e o valor de uma boa frigideira. Tudo isso enquanto tento evitar que Ana Rosa compre a loja da Havan inteira.

“Mas no meio de tudo isso, fora disso, através disso, apesar disso tudo – há o amor. Ele é como a lua, resiste a todos os sonetos e abençoa todos os pântanos”. Sim, porque em 20 de janeiro de 2008 a vida talvez ainda não fosse vida – ou pelo menos a vida como hoje a conhecemos – e mesmo minha boa memória tem dificuldade de relembrar os detalhes desse mundo tão distante e abstrato. Desde aquele dia no banco do saguão do IL nunca mais estivemos sozinhos.

31/12/2017

2017 - o ano que parecia que não ia existir

Para mim, 2017 parecia ser o ano que nunca iria existir. Falávamos tanto sobre a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016, que parecia que quando esses grandes eventos terminassem, o mundo iria acabar junto. Às vezes, sem perceber me pego chamando 2017 de 2018.

Completei 30 anos em 2017 e não vi muita diferença. Finalmente tirei do papel uma viagem que planejava faz algum tempo e poderia aqui contar em detalhes as maravilhas da torta de maçã de Amsterdã, ou sobre toda a carga histórica que senti ao ver o Muro de Berlim, a estação de Grunewald ou a Casa de Anne Frank. De como é impressionante ver as pinturas de Van Gogh (o maior perdedor da história) e Monet, ou como a Mona Lisa é superestimada. Ou ainda sobre meu amor por Barcelona, mesmo tendo sido pela primeira e pela segunda vez na minha vida (com uma diferença de apenas dois dias) atingido por fezes de pombos enquanto eu estava lá.

O ano foi terrível no meu trabalho, com um ambiente completamente destruído pela presença de um líder nocivo e uma trama que me fez chegar a acordar no dia mais difícil do ano e ser intimado a depor no Ministério Público.

Mas, sim, se eu for me lembrar de 2017 será pelo dia em que a Gaia fugiu da casa dos meus pais e pelas buscas nos 30 dias seguintes, pelas inúmeras caminhadas pelas ruas do Jardim das Palmeiras, em meio as memórias de infância, os pensamentos negativos e alguns momentos de esperança. Aquele 09 de março quando a encontrei em um canteiro de obras foi desses momentos inexplicáveis que parecem fazer com que toda a aleatoriedade do planeta tenha algum sentido.

(na foto um gato que apareceu aqui em casa e achamos que estava perdido. No dia seguinte, quando ainda pensávamos no que iríamos fazer com ele, outro gato apareceu no quintal. E então, no dia seguinte o primeiro gato foi levado pela mãe, que voltou novamente ao longo do dia para buscar o segundo. Depois disso, passamos alguns dias como uma espécie de creche felina, em que gatos apareciam e sumiam do quintal, sem que nunca víssemos a responsável por isso. Se eles acabassem ficando por aqui, decidimos que seriam chamados de José Arcádio e Aureliano Buendía ou então de Amaranta Úrsula)

13/12/2017

Ta lá o corpo estendido no chão

Saio para correr de manhã e na primeira subida, vejo que ocorreu um acidente no primeiro cruzamento. Há um Honda Civic parado bem no meio do cruzamento, a ponta do carro invadindo a pista, um senhor mexe no carro, uma mulher de calça de ginástica e tênis está em pé na calçada utilizando chapéu, uma criança de sete anos sentada na posição de buda no chão da calçada, um homem sentado no asfalto, encostado em sua moto.

No chão há uma peça que parece um vidro lateral estourado e duas peças que não consigo identificar, mas que se parecem com apêndices da motocicleta que se perderam durante o impacto.

Faço o contorno lá em cima, começo a descer e vejo novamente a cena, que permanece aparentemente imóvel, exceção feita a criança, que parece sentada virada para outro lado e a ao homem que já não está no carro, mas parado na calçada olhando tudo aquilo.

Enquanto desço, faço uma espécie de reconstituição mental do lance e penso que o carro avançou o cruzamento sem perceber a aproximação da moto, que acabou se chocando de alguma maneira pouco provável com o vidro da porta do motorista que se espatifou, tal qual o motoqueiro, que agora permanece sobre o asfalto, a camisa levantada, deixando as costas livres. Observo e não consigo perceber nenhum machucado grave.

Observo que há um carro, um Vectra, parado um pouco a frente, provavelmente dirigido pela mulher de calça legging que veio prestar socorro ao homem que se envolveu no acidente, ou talvez ao próprio homem que veio prestar socorro a mulher que não viu o motociclista. A criança parece extremamente tranquila.

Faço a curva a direita e entro em outra rua e enquanto vou me distanciando do local do crime, começo a pensar que o acidente não foi nada de grave, que o motociclista está aparentemente bem e que deveriam retirá-lo dali e levá-lo para um hospital, já que não me parece que ele tem uma fratura ou qualquer lesão que precise ser estabilizada antes do transporte, que não há razão para sobrecarregar o Samu nessa manhã de quarta-feira, que ainda bem que não há muito trânsito no local, caso o contrário o congestionamento estaria infernal.

Faço o contorno no fim da rua e começo a retornar em direção ao acidente. Quando chego perto, percebo que há um triângulo sinalizando o acidente, ainda antes do cruzamento. O triângulo me parece tão minúsculo e insignificante, incapaz de sinalizar qualquer coisa. Todos permanecem no local e eu só consigo pensar que a situação está se prolongando muito ali, já se passaram quase 20 minutos desde que eu sai de casa.

Faço a curva para retornar ao meu local de partida e percebo que há um novo carro estacionado, logo atrás do Vectra e que esse é um enorme furgão da Funerária Santa Rita e então eu tento ver se meus olhos não estão vendo menos do que deveriam ver, que será que é possível que há um morto no local e eu não fui capaz de ver? Estou de costas para o acidente agora e só me lembro do homem resignado, da mulher de chapéu tentando demonstrar tranquilidade, da criança impávida sentada no chão e do motociclista sentado no asfalto, sem nenhuma expressão de dor ou de desespero. Não há gente amontoada em volta do cadáver ou qualquer sinal da comoção que aparece em um acidente de trânsito. Todos estão tão tranquilos que chego a cogitar a hipótese de que marcaram apenas um piquenique no cruzamento.

Faço novo contorno e início mais uma volta, olhando para o carro funerário e as pessoas que permanecem no cenário do acidente esperando o inesperado. Observo que há um novo homem no local, segurando um capacete, que não sei se é o do motociclista, ou se é dele próprio, ou se é da vítima oculta deste pequeno incidente de trágicas proporções. Observo o carro funerário e vejo que ele é o do cerimonial da funerária, penso se haverá alguma cerimônia fúnebre nesse local ou se esse é procedimento padrão para casos assim.

Começo a subir novamente com esse mistério preso na minha cabeça e depois do retorno, volto a descer buscando alguma relação, trabalhando como perito involuntário do transtorno. Carros e principalmente motos passam devagar ao lado do acidentado. A mulher está de pé e conversa com o homem que segura o capacete, enquanto o outro homem segue parado na calçado, ao lado da criança que agora também está em pé observando tudo. Só o motociclista segue sentado no chão. Não há sangue espalhado, confirmo.

Volto para casa e uma hora depois saio para o trabalho. O carro não está lá, nem o outro carro, muito menos o funerário. A moto foi retirada, a criança voltou para casa, não há ninguém sentado no chão, onde restam apenas alguns estilhaços de vidro. O corpo já foi retirado.