14/09/16

Sem mais Strike

Nos anos 90 o Brasil foi repentinamente tomado por uma febre do boliche. De uma hora para a outra, passou a ser um programa bem interessante para os jovens, irem até um lugar em que eles jogassem boliche. Não sei explicar, os motivos, só sei que aconteceu.

Em Cuiabá não foi diferente e o nosso primeiro boliche foi o lendário Fred's Bowling no Shopping Goiabeiras. Fui lá apenas umas duas vezes e confesso que não sei quando é que ele encerrou suas atividades.

Diferente era o Strike Boliche, que surgiu um pouco depois. Localizado na Avenida Fernando Corrêa, era perto da faculdade e relativamente perto da minha casa e da casa de vários dos meus amigos.

Além do boliche, o Strike ainda tinha suas mesas de sinuca, videokê, um monte desses jogos de salão que eu não sei o nome, aquele negócio em que as pessoas tinha que apertar botões com os pés enquanto dançavam uma música. Diversas e variadas opções de lazer para todos os gostos.

Fui lá quando era estudante do colégio, quando estive na faculdade. Acho que a última vez que eu fui lá foi na noite da minha formatura e realmente acho que o Strike está diretamente ligado a vida de estudante. Afinal, com uns 20 reais você conseguia se divertir minimamente, comer alguma besteira e conversar com os amigos.

Em quantos aniversários eu não fui por lá? Uma ótima oportunidade de aproveitar a promoção que dava uma hora de graça na pista para os aniversariantes. Fiz alguns strikes, ganhei algumas partidas, comi as pizzas ruins que eles vendiam, tomei várias Pepsis, já que esse era o refrigerante que eles vendiam por lá. Ah sim, sem dúvida eu fui muito feliz quando tinha meus 20 anos lá no Strike.

Os tempos mudaram é claro.  Não sei o que os jovens fazem hoje em dia, mas provavelmente não jogam mais boliche, essa febre passou.

No último domingo o Strike fechou suas portas, diante do cenário de crise econômica. Sua enorme estrutura será um fantasma, em breve uma igreja evangélica ou algo assim. Velhos, eu e meus amigos passaremos por sua porta e diremos "fomos muito felizes aqui dentro".

11/09/16

11 de setembro, 15 anos depois e a história

Chego em casa e ligo a TV. Minha aula havia acabado às 11h30 e eu voltava a pé para casa pelo trajeto de 1,5 km. Entre o tempo da caminhada, chegar em casa, pegar um copo de guaraná e ligar a TV não se passaram mais do que 25 minutos. Não devia ser mais do que 11h55 quando, para minha surpresa, a televisão não mostrava o Globo Esporte e sim a imagem de um prédio em chamas.

Já haviam se passado mais de duas horas desde que os terroristas chocaram dois aviões contra o maior prédio de Nova York e eu incrivelmente não sabia de nada. Nem eu, nem nenhum dos meus colegas de sala, meus professores. Poucos tínhamos celulares, nenhum com qualquer acesso a internet. Quinze anos não parece tanto tempo assim, mas para quem estava lá parece inacreditável que um fato dessa magnitude, ocorrido durante a hora do recreio permanecesse tanto tempo desconhecido para tantas pessoas. Não duvido que muitas pessoas só souberam do atentado quando chegaram em casa a noite. Se foram dormir sem assistir o jornal, talvez só souberam no dia seguinte.

O mundo mudou muito nesses 15 anos.

***

Meu pai me liga com uma voz de enterro. Três dias depois, na sexta-feira, nós iríamos viajar para Barcelona. Meu pai participaria de um congresso de saúde e eu iria junto, aproveitando umas economias de alguns anos.

Ele estava imprimindo o banner de sua apresentação, quando viu na TV as imagens dos prédios em chamas, a confusão total, as pessoas se jogando. Meu pai sempre tenta manter a calma nesses momentos, enquanto por dentro não sabe o que fazer. Seu pessimismo, hereditário, calcula que tudo deve ter acabado. Que não haveria viagem. De certa forma, a sensação era a de que o mundo iria acabar nos próximos dias.

E isso porque nem havia Whatsapp naquela época.

***

Em 2001 eu estava na 8ª Série do Ensino Fundamental, que provavelmente hoje é conhecida com outra terminologia. Dentro do ciclo de ensino de História, chegávamos à história contemporânea. Depois de passar pela pré-história, gregos, romanos, idade média, conquista da América, independência do Brasil, unificação germânica, revolução industrial, duas guerras mundiais, Getúlio Vargas, ditadura militar, chegávamos a redemocratização do Brasil, Glasnost, Perestroika.

Em pouco tempo chegaríamos até a queda do Muro de Berlim - como eu gostava muito de história, sempre folheava os livros até o final para saber o que vinha pela frente. Naquela época, a queda do muro de Berlim parecia o último grande acontecimento da história. O último momento chave que a humanidade enfrentou. Acho que vivemos sempre com a sensação de que a história nunca ganhará novos fatos e ainda mais hoje em dia, banalizados pelo excesso de informação, com a sensação de que nada merece realmente entrar para História com H maiúsculo.

Em 2001 nem eu nem nenhum dos meus colegas havíamos presenciado a queda do Muro de Berlim. Éramos novos demais para se lembrar daquele acontecimento ocorrido quando tínhamos dois anos de vida. Aquele distante acontecimento de doze anos antes, que foi gravado nos livros de História assim que ocorreu.

Os atentados de 11 de setembro já completaram 15 anos. Creio que na época, nós não percebemos como aquele era um fato histórico, da História mesmo.

Lembro das discussões do dia seguinte, sobre a relevância daquilo. Vivíamos então com um grande sentimento anti-americano, de certa forma reforçado com George W. Bush. Muita gente via naquilo uma farsa, muita gente estava chocada. A história ainda não havia sido escrita, com seu ar oficial.

Tenho curiosidade para saber o que os jovens que estudam história hoje aprendem sobre o tema. Eles, que ou eram muito novos ou sequer haviam nascido quando os aviões se chocaram contra as torres gêmeas, para a perplexidade de Carlos Nascimento e todos os âncoras de televisão.

Qual será a narrativa histórica do 11 de setembro? O que entra para a História, dos acontecimentos que nós vivemos?

***

Quinze anos depois, mesmo parecendo tão recente, não dá pra negar que o mundo mudou muito. Uma parte pela revolução tecnológica que faria impossível não tomarmos conhecimento de um fato tão marcante em muito menos tempo. Soubemos dos ataques em Paris quase instantaneamente.

Mas, o 11 de setembro realmente trouxe o terror para o cotidiano da humanidade. Mudou a maneira como nós viajamos de avião e tem mudado tantos outros aspectos do cotidiano, principalmente nas grandes metrópoles, pelo medo de que um maluco armado resolva dizimar a população presente.

Já se passaram 15 anos.

23/08/16

Para se lembrar

Olimpíadas sempre são inesquecíveis. É praticamente impossível que uma competição desse porte não tenha jogos marcantes, momentos de superação e histórias que serão lembradas para sempre. As Olimpíadas do Rio não foram diferentes, é claro.

Por vezes, temos a impressão que jamais iremos nos esquecer das coisas, que as grandes lembranças ficarão em nossas retinas para sempre. De vez em quando é verdade, mas muitas vezes o tempo fragiliza as memórias. Escrevo abaixo coisas para se lembrar dessa competição.

Se lembrar da cerimônia de abertura, que conseguiu ser Brasil como poucas vezes o Brasil foi. O voo de Santos Dumont, a mensagem ambiental, a emoção de Guga, Vanderlei Cordeiro de Lima acendendo a mais bela pira olímpica de todos os tempos.

Se lembrar de Michael Phelps ganhando cinco medalhas de ouro, quando todos se perguntavam se ele ainda era o maior. Lembrar de sua atuação no revezamento 4x100 - a prova que menos tinha sua cara, quando ele deu a vitória para os Estados Unidos com sua virada. Seu choro e seu cansaço, o lado humano de uma lenda.

Das pessoas que fizeram história nas piscinas: Katie Ledecky, Katinka Hosszu, Adam Peaty.

De Usain Bolt comprovando, para quem ousava duvidar, que ele é o maior de todos os tempos, que ele nasceu para correr. O recorde impressionante de Wayde van Niekerke nos 400 metros.

A inesquecível vitória de Thiago Braz no salto com vara. O momento em que o brasileiro superou a marca dos 6,03 metros é uma das grandes cenas do esporte nacional em todos os tempos. Jamais me esquecerei.

As manhãs com Isaquias Queiroz em busca da história. A chegada alucinante da regata que deu o ouro para Martine Grael e Kahena Kuzne.

A agonia da disputa dos pênaltis entre Brasil e Austrália no futebol feminino.

O choro comovente de Diego Hypólito após conquistar uma medalha que parecia que jamais seria sua.

Os pulos inimagináveis de Simone Biles, que faz com que todas as outras atletas das Olimpíadas pareçam amadoras naquela competição.

Os finais tensos dos jogos de Handebol e do Basquete. Aquele final eletrizante de Brasil e Espanha que terminou com a vitória brasileira. O épico entre Brasil e Argentina que terminou com a vitória argentina após duas prorrogações. Aquela cesta do Nocioni.

A redenção de Rafaela Silva, dando uma resposta para aqueles que não merecem ser respondidos.

O momento em que o narrador do Sportv anunciou que um brasileiro já havia garantido medalha no tiro esportivo e, afinal, quem era esse cara?

A surpresa com o polo aquático.

Os muitos jogos de vôlei tensos. A tristeza com a derrota da equipe feminina, a felicidade com a vitória da equipe masculina, que parecia improvável depois da primeira fase.

As madrugadas do vôlei de praia e as muitas viradas improváveis das duplas brasileiras.

Essas são coisas para não se esquecer.

22/08/16

A redenção do Big Star

Nas Olimpíadas de 2012 eu passei o olho pelos nomes dos cavalos, uma diversão de sempre nos jogos olímpicos, quando vi que Nick Skelton, britânico, montaria Big Star na competição de saltos do hipismo.

Um nome aparentemente banal, acho que "Estrelão" é um nome que combina bastante com um cavalo. Pouco me importava, passei a acompanhar os resultados do jóquei e sua montaria que carregava o nome da banda de Alex Chilton e Chris Bell.

Para melhorar, Big Star se mostrou um ótimo cavalo, tão bom quanto um Third/Sisters Lovers. Passou zerado em todas as fases preliminares, garantindo inclusive a medalha de ouro na competição por equipes. Zerou a primeira etapa da final e estava zerado na segundo etapa, prestes a vencer a competição quando derrubou o último obstáculo. Sua única falha na semana lhe derrubou para a quinta posição, uma vez que a final começava com todos zerados. Uma falha, o inferno. Um jóquei suíço que havia derrubado três obstáculos na semana acabou com o ouro. Era a maldição do nome.

Quatro anos depois, eis que Nick Skelton chega ao Rio de Janeiro novamente montado em Big Star. Logicamente, iria lhe acompanhar novamente.

As coisas não começaram bem. Big Star cometeu falhas nas etapas classificatórias, na prova por equipes a Grã Bretanha não conseguiu sequer o pódio. Parecia que o tempo havia passado para nosso cavalo de 13 anos - Thirteen.

Mas, aos trancos e barrancos, Skelton e Big Star chegaram a final. Foi um dos últimos classificados e na final, todos já sabemos, a pontuação é zerada.

E dessa vez, a sorte sorriu para o cavalo. Seus adversários de campanha melhor cometeram erros na final e a grande estrela estava entre os seis animais que conseguiram zerar o percurso duas vezes. Quatro anos depois, as portas glória se abriam para Big Star.

Cinquenta e três centésimos. Esse foi o tempo pelo qual Big Star superou seu adversário, chamado All In e montado por um sueco, os dois que conseguiram zerar o desempate. Por pouco mais de meio segundo o ouro veio para Big Star. Um reconhecimento tardio, tal qual a banda, mais ainda em vida.

Nunca antes um Big Star havia chegado ao posto.

Hold On, Big Star. Ain't no one is going to turn you round

Lembranças de três títulos

A conquista da medalha de ouro no vôlei masculino brasileiro traz uma curiosidade: doze anos separam cada um deles, 1992, 2004 e 2016. Talvez por alguma dessas questões relacionadas a modernidade, a distância entre o primeiro e o segundo pareçam muito maior do que a entre o segundo ou o terceiro. Ou talvez seja o fato de que Bernardinho esteja lá esse tempo todo.

Fato é que eu assisti todos eles e tenho lembranças das finais.

Do primeiro lembro que foi provavelmente um dos primeiros jogo de vôlei que eu vi na minha vida, lembro de assistir aprendendo o que era aquele sistema de vantagens, o que eram os saques queimados, quem era o levantador. Me lembro bem mesmo é do saque final de Marcelo Negrão. Um pouco antes, se eu não me engano, o Tande tinha forçado o saque e mandado no meio da rede.

Um time que depois aprendi como histórico e que entrou para a mitologia do esporte brasileiro.

Em 2004 eu acompanhava vôlei bem, assisti praticamente todos os títulos do Brasil na Liga Mundial durante aquele ciclo. Talvez o maior time de vôlei de todos os tempos: Nalbert, Giba, Dante, Giovanni, André Nascimento, Anderson, André Heller, Rodrigão, Gustavo, Ricardinho, Maurício e Serginho.

Lembro do domingo da final, acompanhada com ansiedade porque este era um ouro certo brasileiro. A final com a Itália foi relativamente tranquila, exceção feita ao segundo set e o título veio com um toque na rede. Não cheguei a ver o pódio direito, porque naquele dia eu iria fazer o Enem. Quando saí da prova, perguntei ao meu pai sobre a Maratona e ele me contou sobre o famoso caso do Vanderlei ser agarrado por um maluco de saias.

Agora, 2016. Certamente o menos brilhante de todos os times. O que passou mais sustos. Mas que cresceu na hora certa. Com o Lipe trazendo um toque de insanidade, com Wallace certeira e a superação de vários atletas que não são exatamente brilhantes. Até por isso, talvez o mais emocionantes.

16/08/16

Agonia Olímpica

O salto com vara sempre foi uma das minhas provas de campo favoritas no atletismo. Porque há um clímax, um desafio que deve ser transposto. A vara lá no alto, em uma altura absurda. Há um ritual de corrida, de movimentos, que resultarão na superação ou não do obstáculo. Além de ser um esporte curioso daqueles que você imagina como é que alguém teve a ideia de fazer isso.

Os poucos segundos que se passam entre o encaixe da vara, o início da decolagem, o contorcionismo para superar a barra e o sucesso ou o fracasso durante a queda no colchão são de uma agonia extrema. Os movimentos para o sucesso são precisos. Qualquer leve esbarração em qualquer momento do movimento pode derrubar tudo.

Thiago Braz escreveu uma história emocionante nesse esporte tão agoniante. A cada salto em que ele superava alturas inimagináveis, até a ousadia de pular para 5,03 metros e conseguir algo que nunca conseguiu na vida, deixando o francês paranoico. (De certa forma, digo que acho vaias em esportes individuais uma maldade sem fim. Uma crueldade contra uma pessoa que está sozinha contra o mundo em um momento para o qual ele se preparou por toda a sua vida. Mas ao se comparar com Jesse Owens, o francês praticamente justificou retroativamente as vaias recebidas).

***

Que agonia é a trave da ginástica artística. Sim, os caras fazem muita força nas argolas, o salto é a mais plástica de todas as modalidades e qualquer morreria ao saltar do cavalo ou tentar uma acrobacia nas barras paralelas. Mas a trave não dá. Olha a espessura daquele negócio em que mal dá pra se equilibrar em cima.

As atletas giram, pulam, dão cambalhotas sobre aquele pequeno pedaço e a sensação de que elas podem cair a qualquer momento provoca náuseas. É como aqueles caras atravessando cordas por sobre precipícios. Mas dando cambalhotas por lá.

***

O basquete mata. Eis uma verdade da vida. Se eu pudesse der algum conselho para qualquer pessoa, esse conselho seria: não assista basquete. A agonia dos minutos finais do basquete irá tirar vários meses da sua vida.

***

Os pênaltis, o momento mais agônico do futebol. O craque batendo o pênalti. Essa crueldade histórica que faz com que os craques desperdicem pênaltis decisivos. Marta erra a cobrança e, por deus, ela não merecia ser a responsável pela eliminação. Ninguém merecia, é claro, mas não a Marta. A maior jogadora de futebol feminino de todos os tempos não precisava passar por isso depois de tudo o que ela fez, do tanto que ela carregou a modalidade nas costas.

A goleira Bárbara a salvou e voltou a pegar o pênalti decisivo, depois de uma das séries mais desgastantes do ponto de vista emocional do torcedor em todos os tempos.

***
A agonia no rosto de Juan Martín del Potro. O gigante argentino que colocou o coração em quadra e chegou a final olímpica depois de quase se aposentar por conta das lesões que o perseguiram durante os últimos anos. Batalhou como deu, mas não conseguiu a suportar um Andy Murray incansável. Jogo tão desgastante que no final ninguém sabia se chorava, comemorava, ou aplaudia. Como é bom ver Del Potro de volta ao circuíto mundial.

***

Quanto sofrimento no vôlei, no vôlei de praia, no handebol. Quanta agonia nessas Olimpíadas.

15/08/16

Prata por se manter em pé

Quando Diego Hypólito começou sua apresentação na final olímpica do sol, juro que eu só torci para que ele não caísse no chão. Só isso já estaria bom. Diego não era mais favorito a nada, não era o melhor do mundo como era em 2008, ter chegado na final já era uma bom resultado. Que ele fizesse uma apresentação simples e terminasse em sexto. Mas que ele não caísse no chão.

De certa forma, acho que ele talvez pedisse por isso. Imagino que ele deve viver atormentado pelas lembranças de Pequim, quando era favorito a medalha de ouro e caiu sentado no chão em seu último movimento. Chegou em Londres sem ser favorito, mas na briga, e desabou de cara no chão ao errar uma pirueta qualquer.

Suficiente para virar motivo de chacota nacional, símbolo da falta de preparo mental dos atletas brasileiros. Somado a homossexualidade, Diego era uma piada fácil para todos, alguém simples de ser humilhado.

Por isso, eu só esperava que ele não caísse de novo. Porque ninguém mereceria viver o que ele viveria caso perdesse o equilíbrio de maneira cruel. A cada salto acrobático vinha o alívio, ele não caiu.

Outros adversários sim caíram. Os dois japoneses favoritos passaram pelo que Diego passou nas últimas Olimpíadas e caíram. Ele sem manteve no segundo lugar até o fim e conquistou uma medalha. E eu só torcia para que ele não caísse no chão. E realmente ele se manteve em pé nesses últimos anos.

12/08/16

Os mesmos 50 metros de sempre de Thiago Pereira

O ano era 2004 e Thiago Pereira fazia sua primeira final olímpica nos jogos de Atenas, nos 200 metros medley. O jovem de então 18 anos era mais um da nova geração de nadadores brasileiros que apareciam naquela competição, que se não rendeu medalhas, pelo menos rendeu resultados com alguma consistência.

Thiago fez uma grande prova, virou os 150 metros na terceira colocação, brigando pelo segundo lugar. Não aguentou o ritmo no final, fez o pior 50 metros entre os oito competidores e terminou na quinta colocação. Todos lamentaram, mas celebraram aquela façanha. Nosso menino de 18 anos tinha um grande futuro pela frente. Virou o símbolo da nossa natação.

Em 2007, durante os jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, Thiago virou o querido da galera. Nadou oito provas, ganhou seis medalhas de ouro. Repetiu a façanha no Pan e 2011 também. Por uma dessas loucuras da mídia nacional, ele chegou a ser comparado com Michael Phelps e sua obsessão pelos oito ouros olímpicos.

Porém, seus resultados em nível mundial não tinham a mesma expressividade. Acumulou quartos lugares em campeonatos mundiais. Conseguiu chegar ao pódio mundial apenas em 2013, mas com um roteiro parecido: liderou metade da prova, caiu no final e chegou em terceiro. Prata em 2015, depois de lidera a prova inteira e cair nos últimos 50 metros, com a pior parcial da piscina.

Nas Olimpíadas, conseguiu uma medalha, nos 400 medley em 2012. Não sem também cair muito na última parcial, mas contanto com a sorte de Michael Phelps ter quase parado na piscina pelo cansaço.

Nos 200 medley, sua prova favorita, foi quarto lugar em 2008 - caindo muito nos últimos 50 metros, e também em 2012, quando o desempenho nos metros finais não foi tão ruim assim.

Ontem no Rio de Janeiro, mais uma vez: parciais iniciais muito fortes, virada dos 150 metros em segundo lugar, muito perto do Michael Phelps. Queda brusca na metade final da última piscina, caindo para o sétimo lugar. Assisti a prova inteira pensando que ele não aguentaria a última virada, mas as provas de Thiago Pereira são como aqueles vídeos em que nós sabemos que vamos tomar um susto, mas acabamos assistindo até o final, porque queremos ser contrariados ou confirmados.

Depois de tanto tempo assistindo ao mesmo filme, eu digo até que não sei qual é a do Thiago Pereira. Se ele é um cara que tem como única estratégia possível forçar no início para segurar no final. Ou se ele é apenas sem noção, que acha que pode competir com o Phelps pela vitória e pagar para ver se vai aguentar. Juro que eu não sei.

10/08/16

Phelps, eu vi

Entre as coisas que eu direi para meus filhos e netos se algum dia eles se interessarem por esportes, é que eu vi Michael Phelps. Seus números sempre parecerão impressionantes e a quem me perguntar, confirmarei que ele era um fenômeno.

Não vi Michael Phelps com 15 anos em Sidney, porque ninguém sabia quem era garoto que bateu em quinto lugar nos 200 metros borboleta.

Mas eu vi ele em 2004, quando entrou nos jogos de Atenas com o objetivo de conquistar oito medalhas de ouro e todos nos perguntávamos quem era aquele louco com esse objetivo insano, que o fazia até parecer um pouco babaca e quando ele deixou a competição com seis medalhas de ouro, de certa forma pareceu um fracasso.

Também o vi em 2008, quando finalmente conquistou as oito medalhas de ouro. Vi todas as provas e aí já era impossível não admirar a obstinação desse cara e os lugares de onde ele tirou força para conseguir cumprir seu objetivo.

Vi Phelps em 2012, com ares mais humanos sendo incrivelmente derrotado quando todos nós pensávamos que ele jamais chegaria atrás de alguém. Vi Phelps sem fôlego nos 400 medley e parecendo humano como jamais fora.

Soube de Phelps se aposentado como o maior atleta de todos os tempos. Que foi pego fumando maconha em uma festa, exagerou na bebida. Ele voltou a nadar e soubemos depois que ele estava em depressão, que pensou em se matar e não via mais sentido na vida. Ele voltou a nadar para sobreviver e voltou as Olimpíadas.

Vi Phelps praticamente dar a vitória para os Estados Unidos no revezamento. Vi Phelps recuperar o título dos 200 borboleta e chegar ao final quase sem folego. Ampliar uma história que já era impressionante.

Vou dizer que vi Phelps, assim como alguém que diz que viu um extraterrestre.

Brasil x Espanha e uma vitória necessária no basquete

Brasil e Espanha fizeram uma partida emocionante ontem pelo basquete olímpico masculino. Pau Gasol desperdiçou dois lances livres a 23 segundos do fim, Marquinhos pegou um rebote e colocou o Brasil um ponto a frente quando faltavam apenas cinco segundos, os espanhóis ainda tiveram um ataque, mas a bola não caiu. Vitória brasileira contra o segundo melhor time do mundo dos últimos anos e não poderia ser mais emocionante.

Foi um jogo que resumiu em seus 40 minutos corridos toda a emoção que o basquete pode ter, o quanto esse esporte é maravilhoso, tenso e capaz de prender a atenção. Jogo transmitido na TV aberta para tanta gente, com uma arquibancada lotada que vibrou insanamente com a equipe nacional. Um jogo para entender o que é o basquete.

A vitória brasileira no final foi a consagração. Espero que tenha sido um jogo para formar uma nova base de fãs desse esporte, que ajude o basquete a se recuperar e se preparar para os próximos anos.

O Brasil está no fim da sua geração que viveu os anos da miséria, geração de garotos jogados às feras quando tinham 20 anos e hoje, mais próximos da aposentadoria, ainda não viram substitutos a altura de suas próprias limitações. Um time marcado pelas derrotas e até por isso cheio de brios. Uma nova equipe que surgiu com o técnico Ruben Magnano e que é capaz de deixar a vida na defesa. O Basquete em nível mundial se ganha assim, muito mais na defesa do que no ataque - desde que você não seja os Estados Unidos.

O tapa salvador de Marquinhos a cinco segundos do fim pode ter sido uma vitória de salvação nacional desse esporte tão combalido. Quem já gosta dele, não teve como não se emocionar.

05/08/16

Minhas 10 principais lembranças olímpicas

1) O Saque vencedor de Marcelo Negrão
Brasil e Holanda disputavam a final olímpica do vôlei nas Olimpíadas de Barcelona em 1992. Era um tempo diferente, em que o jogo contava com um sistema de vantagens que proporcionava uma interminável troca de bolas sem que um ponto fosse efetivamente marcado. Restava apenas um ponto para o título e os times revezavam vantagens, jogadores forçando o saque para tentar o ponto final. Até que Marcelo Negrão, o destaque daquele time, pegasse o impulso e eu falasse “é agora”. Meu lado vidente se confirmou e eu, com cinco anos, tive certeza que minha palavra pesou para a medalha de ouro. Era dia dos pais. Abracei meu pai na comemoração.

2) Muhammad Ali acende a pira
Abertura dos jogos de Atlanta, 1996. A tocha percorre o estádio olímpico na expectativa de quem será o responsável por acender a pira olímpica. Muhammad Ali. O maior boxeador de todos os tempos, medalhista olímpico que teve a sua medalha cassada por se recusar a lutar no Vietnã foi o responsável. Eu não sabia de nada sobre ele, mas lembro da emoção de todos com o momento, com aquela figura combalida pelo Mal de Parkinson acendendo a pira.

3) Donovan Bailey e o paradigma de velocidade
Ao que consta, o canadense Donovan Bailey não foi o maior corredor do mundo antes e depois de 27 de julho de 1996. Mas, naquele dia, na final dos 100 metros rasos ele cravou o tempo de 9 segundos e 84 décimos, novo recorde mundial e conquistou a medalha de ouro. 9,84. O tempo ficou gravado na minha memória e era o paradigma de velocidade. Os bons, realmente bons, corriam em tempos próximos a esse.

4) Vai Claudinei
Nos sofridos jogos de Sidnei já dava pra perceber que o Brasil não levaria nenhuma medalha de ouro e restava se contentar com pratas e bronzes. Nenhuma medalha foi tão marcante quanto a prata no revezamento 4x100 do atletismo. A corrida em curva de André Domingos entregando o bastão para Claudinei Quirino em terceiro lugar. Sua arrancada final rumo a medalha de prata embalando a madrugada brasileira.

5) O refugo de Baloubet du Rouet
Decepção após decepção, só nos restava Rodrigo Pessoa. Jóquei multicampeão mundial, o melhor do mundo, montado em Baloubet du Rouet. Os dois avançaram pelas fases sempre em posições privilegiadas e na grande final seria o último a entrar na pista. Se zerasse o percurso, era ouro. Se derrubasse um obstáculo iria para o desempate mas garantia medalha. O cavalo ia bem até que de repente parou. Refugou, soubemos ali era o termo correto. Ele ainda estava na briga, mas refugou novamente, simplesmente se recusou a tentar pular por um obstáculo específico e decretou o Brasil sem ouro e colocou o hipismo no centro das discussões nacionais.

6) A queda do brasileirinho
Quando Daiene dos Santos foi campeã mundial de ginástica, ela foi alçada ao posto de símbolo nacional. Mulher negra e corpulenta, uma estranha naquele mundo reduzido das ginastas. Se apresentava ao som do Brasileirinho e executava movimentos complexos dos quais só ela era capaz. O Duplo Twist Carpado. Se tudo desse certo, ela era imbatível. Não sei dizer porque, mas eu sentia que não ia dar certo. Sempre desconfio das medalhas absolutas do Brasil e Daiane acabou desabando no chão ao fim de uma das manobras. Terminou em sexto lugar e virou alvo da ira seletiva nacional que aparece a cada quatro anos.

7) Uma mensagem de Pequim para o mundo
A abertura dos jogos de Pequim são inesquecíveis. A contagem regressiva que resultou na apresentação dos tambores iluminados foi uma das manifestações artísticas mais bonitas que eu já vi na minha vida. Toda a abertura foi impecável, em um nível jamais visto nessas festas. A mensagem era clara: impressionar o mundo. A China saía de trás da muralha e exibia sua grandeza para todos.

8) Phelps e a vitória que enganou os olhos
A história registra as oito medalhas de ouro que Michael Phelps conquistou nos jogos de Pequim. De certa forma, parece que as vitórias eram uma certeza absoluta e seis delas foram razoavelmente tranquilas, pelo menos para quem estava fora da piscina. Entre todas, a mais impressionante foi a conquista nos 100 metros borboleta. Phelps virou os primeiros cinquenta metros muito atrás e estava atrás nos metros finais, quando começou a avançar como se fosse um monstro devorador de água. Os olhos do mundo enxergaram a vitória de Mirolad Cavic, mas as imagens ultralentas confirmaram a vitória em uma última braçada supersônica.

9) Usain Bolt e a relatividade do tempo
Como esquecer a vitória de Usain Bolt na final dos 100 metros em Pequim? Batendo o recorde mundial com um tempo absurdo, com uma vantagem enorme sobre os adversários e ainda batendo no peito. Depois disso ele bateu o recorde e transformou a corrida na casa de 9,6 em algo corriqueiro, mas sua demonstração de superioridade na pista do ninho do pássaro foi um dos maiores momentos da história do esporte.

10) A vitória de uma geração
Brasil e Rússia, quartas-de-final das Olimpíadas de 2010. Jogo tenso, tie break ainda mais tenso e a Rússia conseguia um match point atrás do outro. Foram seis chances de vitória, quase todas revertidas em ataques extraplanetários de Sheila. O ponto da vitória brasileiro veio com uma cravada de Fabiana que tirou o grito da garganta de todos e comprovou que aquele era um time vitorioso e cheio de brios, que conquistou uma medalha de ouro que parecia improvável.

Diálogos perdidos

Enquanto molho a grama, escuto os pedreiros na casa da frente conversando sobre alguma coisa. Creio que é sobre novela. Creio que são três pedreiros.

- Tá loco, na novela de ontem o gordinho beijou o polícia, mas beijou mesmo, até encostrou, cê tá louco.
- Ah, num guento essas coisas não.
- É igual aquela Liberdade, Liberdade.
- Essa Liberdade, Liberdade aí é uma putaria só.
- Tinha os caras se pegando esses dias, com aquele baixinho lá.
- Mas diz que aquele outro lá é veado na vida real também né. Aquele Caio Blat.
- Qual, o mais novinho?
- Será?
- Sei lá.
- Por isso que eu digo, de televisão mesmo a única coisa que eu assisto é o jornal. Novela, programa de auditório, essas coisas aí eu não vejo nada não. Novela é só putaria.

E após essa pequena discussão sobre vários aspectos da comunicação de massa, eles voltaram para assuntos obreiros, maquininhas, qualidade das intervenções e etc.

20/07/16

Pesadelo com Eri Johnson

Não sei dizer ao certo como eu cheguei lá, mas o fato é que eu estava no mesmo ambiente que o Eri Johnson. Se eu não me engano, ele foi o jurado de um concurso de humor que eu assisti e por alguma razão ao fim das apresentações Eri Johnson chegou até mim e começou a comentar sobre os participantes.

Lá estava eu conversando com o Eri Johnson. Eu queria encerrar a conversa, mas não conseguia. Estava preso em uma conversa chata com Eri Johnson no que deve ser até hoje o pesadelo mais bizarro que eu já tive.

Situação que eu teria esquecido e jamais me lembraria, entre tantos sonhos que desaparecem com a luz do sol. Mas de manhã, ao voltar da cozinha a TV ligada me informou que Eri Johnson participava do programa da Ana Maria Braga, cozinhando. E meu pesadelo voltou as minhas retinas.

11/07/16

Breve balanço da Eurocopa

Havia alguma expectativa para a realização do torneio na França. Geralmente a Eurocopa e Copa do Mundo seguem uma tendência de bom ou mau futebol. Exemplo: depois da arrastada Copa de 94, veio uma péssima Eurocopa em 96. A boa Copa de 98 foi sucedida pela eletrizante Euro de 2000. A chata e cheia de zebras Copa de 2002 teve como sucessora a igualmente chata e cheia de zebras Euro 2004 e por aí vai.

Portanto, depois de uma interessante Euro em 2012, uma Copa emocionante em 2014, a expectativa era pelo ótimo futebol no torneio francês. Mas isso não aconteceu.

Difícil será apontar para posteridade alguma grande partida disputada no verão francês de 2016. Pode ter sido culpa do aumento dos times que acrescentou seleções pouco expressivas na fase de grupos? O regulamento que garantia avanço de alguns terceiros colocados, transformando o empate em sempre um grande resultado?

Alguma seleções tiveram bons momentos: A Itália jogou muito bem contra a Espanha, que havia feito ótima partida contra a Turquia. A Croácia jogou um grande futebol na primeira fase mas sucumbiu diante de Portugal, naquele que deve ter sido um dos piores jogos de futebol em todos os tempos. Seleção portuguesa que avançou, aos trancos e barrancos, sem ter sido claramente superior a nenhum de seus adversários no torneio e conquistou o título. Islândia, Áustria, Hungria, Croácia, Polônia, País de Gales e França. Não é um cartel expressivo, mas Portugal só superou na bola a Áustria, em outro jogo francamente horrível.

A França, ampla favorita no começo da competição, foi uma decepção, mesmo com o título. Vitória contra Romênia e Albânia apenas nos acréscimo. Empate sem gol contra a Suíça. Sofrimento no primeiro tempo contra a Irlanda. Bom futebol apenas no segundo tempo contra a Irlanda e contra as zebras islandesas. Contra a Alemanha, conseguiu ser encaixotada no seu campo de defesa e contou com um pênalti aleatório para construir sua vantagem e garantir a vaga na final onde, novamente, fez muito pouco.

A Alemanha não foi brilhante, mas pelo menos mostrou grande volume de jogo em três partidas. Sente falta de um finalizador, o que é uma grande ironia para a história dos panzers alemães.

O que acontece? Equipes talentosas má-treinadas. A Bélgica tinha muito talento e nenhum jogo coletivo. A França não mostrou muita coisa. A Espanha já estava decadente e a Inglaterra foi a Inglaterra de sempre. Sobrou para as equipes mais fracas, conscientes, limitadas mas que jogavam no limite.

Resumindo: foi uma tortura e ainda bem que acabou.