21/03/2017

Federer, novamente uma experiência religiosa

O falecido escritor norte-americano David Foster Wallace era um aficionado por tênis e provavelmente seu maior texto sobre o assunto foi o ensaio "Federer como experiência religiosa". Escrito em 2006, auge (será?) do suíço enquanto tenista, Wallace faz uma longa contextualização sobre a evolução do jogo, dos estilos de jogo, até chegar em Federer, um desses raros casos de esportistas sobre os quais as leis da física não se aplicam.

É notória a sua descrição sobre os momentos Federer, os golpes aplicados pelo suíço que deixam os espectadores impressionados, sobretudo, pela facilidade com a qual ele bateu na bola. No seu auge Federer era exatamente isso, um cara que fazia mágica sem fazer esforço. O ápice deve ter sido aquela final de US Open contra Lleyton Hewitt na qual Federer se sagrou campeão com um sobrenatural 6/0-7/6-6/0.

Claro que surgiu Rafael Nadal, incansável, canhoto com um forehand potente e que conseguia sempre levar o jogo ao limite, saindo das questões meramente técnico e táticas para entrar na esfera psicológica e física, onde o espanhol praticamente sempre venceu o suíço. Surgiu Novak Djokovic e seu estilo assassino. A idade chegou e de repente o Andrea Seppi, o Tommy Robredo e outros tenistas medianos se viam no direito de eliminar Roger Federer em um Grand Slam.

Cortamos para o meio da semana passada quando Roger Federer e Rafael Nadal se enfrentaram em uma precoce oitava de final de Indian Wells, o quinto slam. Se ao longo dos anos houve uma maneira especial de derrotar Federer, esta maneira era forçar o jogo na sua esquerda, forçar o seu backhand - regular, mas que não chegava a ser brilhante. Claro que mesmo sem ser o mesmo de outros tempos, Nadal ainda se lembrava disso e tentou forçar o jogo na esquerda do suíço, imaginando devoluções em slice sem peso, que proporcionariam trocas de bola mais longas e uma possibilidade maior de vitória para o espanhol.

No entanto, uma após outra, todas as bolas na esquerda de Federer foram convertidas em winners. E não qualquer winner, Federer desfilou backhands com ângulos improváveis e deixou Nadal completamente desnorteado e o espectador impressionado. Eram os momentos Federer de volta, assistir Roger Federer jogar tênis voltou a ser uma experiência religiosa.

Claro que o mundo ficou impressionado com as peças artísticas em forma de backhand que Roger Federer expôs ao mundo naquele dia e esse foi um dos principais assuntos da entrevistas pós-jogo. O suíço informou que a mudança se deve a escolha que ele fez em 2014, de jogar com uma raquete diferente e mais pesada, que lhe deu confiança para executar o golpe desta maneira.

Voltamos para 2013. Após o pior ano de sua carreira, na qual ficou de fora da final de Slams pela primeira vez após 10 anos, fechou o ano com um mísero título na grama de Halle e chegou a perder para Stakhovsky em Wimbledon e terminou o ano como número 6 do mundo, Federer inovou e mudou de raquete. Naquele momento, pareceu uma loucura, uma atitude desesperada de um tenista em fim de carreira. Mas, com o tempo ele mostrou que estava certo.

Houve um momento, não podemos negar, em que passamos a torcer contra Federer. Somos sempre simpáticos aos mais fracos e adoramos os fatos incríveis e lá por 2007, 2008, não era nada demais que o suíço vencesse um torneio. Suas derrotas sim eram notícia. Após ser superado por Nadal e Djokovic, ele parecia estar meio acabado e resolveu fazer uma mudança.

Demorou um tempo, acho que foi ali por 2015 quando nós víamos um Djokovic dominante e Roger Federer sendo a única pessoa capaz de enfrentá-lo em grande nível, que voltamos a amar o suíço. André Kfouri comentou sobre isso no Us Open daquele ano "Federer gera amor". Ali não estava mais o melhor tenista de todos os tempos apenas, estava um homem experiente, que já havia conquistado tudo, mas que depois de tudo ainda era um cara capaz de lutar e exibir sua arte.

Os títulos de Slam pareceram distantes diante do tênis jogado por Djokovic e por um 2016 repleto de contusões, mas ele voltou. Aos 35 anos, o maior tenista de todos os tempos não teve medo de se reinventar para voltar a vencer. Uma exemplo de superação e que, mesmo os gênios, até eles, podem evoluir no seu trabalho e ficarem ainda melhores.

17/03/2017

Dória, presidente?

Parafraseando Michael Moore, eu gostaria de estar errado, mas tenho a impressão de que João Dória será o próximo presidente do Brasil. Alguns fatores provocam esta minha impressão.

Algumas pesquisas recentes demonstram um cenário confuso para a eleição do ano que vem. O perfil desejado pela maior parte da população é o de alguém de fora do establishment político, ou outsider, mas que tenha alguma experiência de gestão. Uma figura que não existe, ou que ainda não existia.

Apesar de suas profundas raízes entre o meio político e de ter algum histórico no setor, João Dória passa a imagem de uma pessoa que veio de fora e, exatamente, se elegeu se vendendo como o gestor. Seu um ano e meio a frente da prefeitura de São Paulo podem colaborar ainda mais para reforçar seu perfil.

Há também a operação Lava Jato que está dragando praticamente todos os nomes de peso da política nacional, inclusive seus correligionários do PSDB. Geraldo Alckmin parecia ser o último colega da linha de frente do partido a resistir, mas ao que tudo indicia, será arrastado pela delação da Odebrecht, além de ser prejudicado pela sua falta de carisma.

Carisma que vem sobrando ao João Dória, que em 75 dias de gestão surfa em uma onda de popularidade, é o rei do Facebook, gera engajamento. Todas as suas pataquadas são recebidas positivamente.

Dória também pode unir boa parte do eleitorado por um objetivo em comum. Seu perfil mais a direita agregaria vários votos do centro e inclusive de Bolsonaro, para aqueles que não querem nada tão radical. Mesmo os votos um pouco mais a esquerda podem migrar para ele e se bobear até da esquerda, caso ele pegue um segundo turno contra um Bolsonaro da vida. Enfim, em um eventual segundo turno, ele seria um candidato com muita possibilidade de aglutinar votos difusos. O camaleão Ciro Gomes, Lula, Bolsonaro, Marina Silva, ninguém no momento tem esse poder tanto quanto Dória e as hashtags que ele carrega: gestor, trabalhador, não-político, o Novo.

Com suas ações populistas, João Dória também vai ao encontro de uma tendência mundial de eleger políticos populistas.

Enfim, João Dória parece ser o homem certo na hora certa para corresponder a expectativa de um eleitorado sem rumo depois de dois governos de baixa popularidade (Dilma e Temer).

Infelizmente.

13/03/2017

Sobre perseverança, desistência e como as coisas simplesmente acontecem

Na última quarta-feira, dia 08 de março de 2017, o Barcelona conseguiu uma das maiores façanhas futebolísticas de todos os tempos ao conseguir vencer o Paris Saint-Germain por 6x1 e reverter a derrota de 4x0 na partida de ida das oitavas de final da Champions League. O que impressionou ainda mais nesta vitória já impressionante, foram os três gols nos oito minutos finais, exterminando a folga no placar que o PSG tinha e a classificação escorreu pelas mãos dos franceses.

Claro que é preciso fazer um adendo nessa epopeia para falar da arbitragem, principalmente pelo quinto gol barcelonista, um pênalti inventado desses que chegam a ser constrangedores. Houve ainda outro gol de pênalti, marcação discutível e é justo dizer que se não fosse pela interferência do juiz, o PSG teria se classificado. Mas também é justo dizer que uma equipe que vence uma partida de ida por 4x0, não pode se colocar na dependência da arbitragem para conseguir a classificação. Ninguém pode sofrer seis gols num jogo.

Nas louvações à equipe catalã, uma das frases feitas mais destacadas foi a de que o Barcelona jamais desistiu. O técnico Luís Enrique foi elogiado por jamais desistir. A equipe estava morta aos 42 do segundo tempo quando Neymar acertou a magistral cobrança de falta e fez 4x1. Estava consolada com a eliminação quando o juiz inventou o pênalti e o placar registrou 5x1. Estava em um estado de loucura incontrolável quando Sergi Roberto se atirou na bola para conseguir a classificação.

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No dia seguinte, quinte-feira, 09 de março de 2017, passei por uma das maiores emoções da minha vida. Reencontrei Gaia, cadelinha dos meus pais que havia fugido de casa exatamente um mês antes, no dia 09 de fevereiro, enquanto meus pais viajavam. Neste interminável um mês, passei por noites com dificuldade de dormir, em um dia caminhei por quatro horas seguidas rodando o bairro em busca dela, distribui panfletos em todas as casas do bairro, de carro passei pelo bairro e os bairro seguidos uma incontável quantidade de vezes.

Achei Gaia depois de um telefonema de um encanador de uma obra realizada a 500 metros de onde ela fugiu. Fui conferir a veracidade da informação e de fato encontrei o cachorro próximo aos escritórios do canteiro de obras. Com os olhos marejados, peguei Gaia a coloquei no carro e a levei de volta para casa. Foi o desfecho improvável de uma enorme mobilização, que contou com uma infinidade de posts compartilhados nas redes sociais por amigos, pessoas que eu nem conhecia.

Ao anunciar o fim da busca no Facebook, recebi diversas mensagens de parabéns. Pessoas também falavam sobre como era bom o fato de que eu e minha família não houvéssemos desistido dessa busca.

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A importância de jamais desistir por vezes pode ser um pouco superestimada na sociedade. Grandes feitos que pareciam difíceis ou conquistados após uma longa espera sempre tem a perseverança destacada. Mas, muito provavelmente muitos desses feitos foram conquistados em momentos em que a expectativa já havia baixado.

Pelos relatos dos jogadores que participaram da partida em Barcelona, a equipe da casa já havia jogado a toalha ao levar o gol de Cavani, aos 18 minutos do segundo tempo e que obrigava o Barcelona a buscar outros três para conseguir a vitória. O time perdeu a cabeça, não criou nada de importante e em várias oportunidades esteve próximo de levar um segundo gol. O brilho individual de Neymar e o erro da arbitragem em um espaço de dois minutos e meio colocaram a equipe novamente na partida. Certamente os catalães haviam desistido durante 24 minutos. Mas, de repente a oportunidade apareceu e eles aproveitaram.

Minha situação também. Como disse, havia percorrido o bairro diversas vezes, patrocinado anúncios na internet, entrado em contato com moradores e comércios locais e todas as respostas que havia recebido eram de cachorros no máximo parecidos ao que eu procurava. Passado um mês, claramente eu já havia perdido a esperança, ou se a expressão for muito forte, já não esperava que Gaia iria aparecer um dia. Estaria atento às oportunidades, uma hora ela apareceu e pronto.

Muitas vezes as coisas simplesmente acontecem e não há muita explicação para isso, por mais que tentemos encontrar. Se Neymar houvesse cobrado a falta na barreira, se o encanador jamais houvesse visto o cartaz de procura-se em algum lugar próximo a obra, nada teria ocorrido, as capacidades de nunca desistir não seriam valorizadas. Não houve por assim dizer, uma equipe enlouquecida jogando bola na área por 32 minutos até conseguir o placar que queria. Eu não estive correndo 10 quilômetros toda manhã atrás do cachorro.

Para o bem e para o mal, as coisas simplesmente acontecem e muitas vezes não tem nenhuma explicação. Simplesmente acontecem.

08/03/2017

Top 8 - Músicas cantadas por mulheres

8 Joni Mitchell - In France They Kiss on Main Street
Canção que abre o meu disco favorito da Joni Mithcell, The Hissing of Summer Lawns, de 1975 - muito provavelmente o meu favorito por esta canção de abertura. Uma música sobre andar pelo centro de uma cidade desconhecida, conhecer os seus hábitos. "I said, take me to the dance, do you want to dance? I love to dance".Como resistir a pergunta irresistível feita por Mitchell?

7 Pato Fu - Canção pra você viver mais
Fernanda Takai extrai toda a sensibilidade de sua voz nesta música sobre a morte do seu pai. Fora do drama pessoal, a letra tem uma beleza universal, afinal, todo mundo gostaria de fazer uma canção para que alguém vivesse mais, fazer alguma coisa que está ao seu alcance para que algo dure mais.

6 Pretenders - Brass in Pocket
Música extremamente sensual de uma mulher que quer de alguma forma mostrar para o seu amante que não há ninguém no mundo que seja igual ela. Não sei quem era este homem, mas espero que ele tenha, pelo amor de deus, percebido que Chrissie Hynde é muito especial.

5 Aimee Mann - Save Me
Presente na cena final de Magnolia, é impossível não associá-la ao sorriso da personagem problemática enquanto Aimee canta "como um peter pan, como um superman você virá para me salvar".

4 Tulipa Ruiz - Às Vezes
Um romance completamente sem sentido, uma letra deliciosa e uma voz potente. Uma das melhores músicas brasileiras contemporâneas.

3 Afghan Whigs - My Curse
Marcy Mays não fazia parte da banda, mas emprestou sua voz para esta que é a maior canção dos Afghan Whigs. Uma letra apaixonada e doentia sobre um relacionamento idem. Todos ficamos com sangue em nossos tentes quando mordemos nossas línguas para falar, afinal, escravo é uma palavra que só uso para descrever o jeito especial como eu me sinto em relação a você.

2 Alabama Shakes - Be Mine
Birttany Howard tem 26 anos e é uma força da natureza, não há outra maneira de descrever a potência de sua voz e sua presença de palco. O disco de estreia do Alabama Shakes é uma coletânea de virtuose vocal e paixão transformada em música. Be Mine atualmente é minha favorita, desde que vi suas interpretações ao vivo. A confiança de Brittany é contagiante e no final ela parece perguntar ao público "be mine?" e acredito que ninguém responderia com um não.

1 The Delgados - Accused of Stealing
Emma Pollock tem uma voz cuja beleza transcende a existência humana, ou algo assim. Todos os seus atributos podem ser conferidos nesta canção que começa calma "deixe-me ser os ouvidos para todos os seus pecados. Deixe-me tirar vantagem das suas fantasias". Até explodir no refrão "fui acusada de roubar todas as suas linhas" e o instrumental final que faz com que a vontade seja a de repetir a música eternamente.

16/02/2017

Dória, o prefeito dos nossos tempos

João Dória foi o grande fenômeno das últimas eleições municipais. Ganhou a prefeitura de São Paulo no primeiro turno, em uma cidade que nunca antes havia ficado em casa em um dia de segundo turno. Empresário com múltiplas atuações, nenhuma delas claramente explicável, Dória ganhou a eleição aproveitando o enorme antipetismo da capital paulista e também o sentimento antipolítico que ganhou força neste Brasil pós-Lava Jato.

Nos seus 45 primeiros dias enquanto prefeito da maior cidade brasileira, Dória se notabilizou pela aposta no marketing, em ações de efeito imediato, pelas parcerias com empresas privadas, se envolveu em uma polêmica com grafiteiros e se fantasiou de gari, pedreiro e de tantas outras funções desempenhadas por servidores de uma Secretaria de Serviços Urbanos.

A imagem de Dória vestido de gari, em seu primeiro dia de mandato, ao lado de todos os seus secretários municipais, pode parecer extremamente ridícula para mim e para um eleitorado mais a esquerda. No entanto, as suas fotos geraram milhares de likes nas redes sociais, geraram engajamento como se diz e aumentaram sua popularidade e a imagem de João Trabalhador construída na campanha. Passado o primeiro mês de seu mandato, é possível dizer que João Dória é o modelo de prefeito do tempo em que vivemos e não duvido que seu jeito de ser se transforme em um novo paradigma de administração, para o bem e para o mal.

A revolução tecnológica mudou completamente o mundo, nos acostumamos com a instantaneidade das coisas e esperamos rapidez, agilidade para tudo. Além disso, vivemos uma época de impaciência com a classe política. Os anos de desmando, os atrasos, a falta de avanços claros e tudo mais contribuem para este descrédito. A população quer respostas rápidas para os seus problemas cotidianos, não quer esperar por soluções.

Ao se vestir de gari, ou de pedreiro, Dória dá essa espécie de resposta imediata a população. Mostra que está lá na rua, para tapar os buracos. Cria esse mutirão de respostas rápidas que é o Cidade Linda. Investe na melhora da aparência da cidade e rende um bom marketing.

O Facebook e as outras redes sociais, sabemos, são um espaço de divulgação da nossa vida que deu certo. Um meio de mostrar nossos sucessos, o lado bom da nossa existência, os momentos de felicidade e que devem ser compartilhados com todos. Tampando buracos, varrendo ruas fantasiado, Dória mostra as ações positivas de sua gestão e recebe os seus likes, corações, alcança as pessoas e gera engajamento.

Há de se discutir se um prefeito não tem mais coisas para fazer na vida e certamente tem. Os principais problemas de uma cidade não serão resolvidos rapidamente, mas como foi dito, a população não tem paciência para isso. Existem centenas de servidores contratados para fazer os serviços de manutenção da cidade e é certamente ridículo que o prefeito tenha que varrer ruas por dez segundos, diante de uma multidão televisiva. Mas, gera likes. Suas postagens no Facebook, sempre acompanhadas da #JoãoTrabalhador alcançam mais de 100 mil reações. Um digital influencer.

O estilo mãos na obra de Dória começa a ser replicado por vários administradores. Aqui em Cuiabá o prefeito Emanuel Pinheiro posa para as lentes tampando buracos, tirando lixo da rua ao lado de uma ONG ambiental. Imagino quantos prefeitos do Brasil, governadores, gestores, não estejam fazendo isso potencializados pelo efeito Dória. Não é uma solução profunda, mas gera likes, garante paz para a administração.

Além disso, a exposição das fotos em redes sociais gera um fato novo todo dia. Algo a ser debatido pelas pessoas para o bem e para o mal, mas ainda assim uma amenidade. Desvia o foco de problemas maiores e isso pode ser excelente para a criação de uma imagem. Ao realizar os atos imediatistas potencializados pelas mídias sociais, o não-político Dória pode inaugurar um paradigma administrativo para as futuras gerações que pretendam chegar ao poder e lá se manter. Enquanto se fantasia de gari, o esgoto pode correr a céu aberto na periferia que o prefeito está no centro das atenções.

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Outra questão interessante da gestão Dória é relacionada as parcerias para a manutenção da cidade. João Dória ficou famoso e com fama de bom empresário, graças a sua capacidade de vender negócios, incluindo o seu próprio negócio. Publica revistas que ninguém lê, promove eventos que quase ninguém sabe que existem, mas que se tornam extremamente importante para aqueles que participam. Participar de um evento do grupo Lide significa a possibilidade de conseguir grandes negócios. Participar destas reuniões é uma garantia para as possíveis perdas decorrentes de sua ausência.

Até agora empresas automotivas já forneceram veículos para atuar na fiscalização da marginal Tietê. A Suvinil forneceu tinta para pintar um monumento. A ponte estaiada foi pintada e reformada com a ajuda de um pool de empresas que bancou toda a empreitada. Outra empresa forneceu novos banheiros públicos e por aí vai.

Sempre há uma questão ideológica em toda a parceria público-privada, por menor que seja. Há quem seja absolutamente contra, quem não veja problemas e quem acredita que é preciso alguma forma de controle, para que a relação seja estritamente profissional, sem que gere qualquer tipo de benefícios indevidos para qualquer lado. Neste caso, a parceria não envolve nenhum pagamento financeiro do Estado para as empresas. Os serviços são constatados nos balanços como doações. Mas, o que paga é o marketing.

Questionado, Dória afirmou que estimula a cidadania das empresas. Que o que paga os investimentos é o sentimento de pertencer a algo, de fazer o bem, algo que ele quer resgatar na população em geral. Mas, a cada nova parceria, a cada nova entrega sem custos ao erário público, o prefeito anuncia seu feito nas redes socais. Cita a entrega, o nome da empresa responsável e destaca a eficiência do uso dos recursos públicos e como aquilo será bom para todos.

Um comercial de 30 segundos no intervalo do Jornal Nacional custa mais de R$ 300 mil. Em outras emissoras o valor também pode chegar a R$ 200 mil. Uma campanha da Mitsubishi, por exemplo, com uma semana de exibição comercial em três emissoras pode chegar facilmente a R$ 10 milhões. A doação de meia dúzia de veículos, com direito a citação da empresa pelo prefeito da maior cidade do país supera o investimento feito em publicidade. Além de tudo, a empresa ainda fica associada com uma boa causa. O investimento publicitário vai ajudando a administrar a cidade.

Lógico que poucos prefeitos teriam chance de utilizar essa espécie de extorsão comercial misturada ao investimento publicitário. Acredito que só o prefeito do Rio de Janeiro, no máximo uns cinco governadores, não creio que surtiria efeito para um presidente. Em Cuiabá, por exemplo, que empresa lucraria doando R$ 1 milhão para reformar uma ponte? Não há retorno suficiente com este investimento.
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Com sua ampla divulgação nas redes sociais, tendência ao cosplay, e utilização insana do marketing, acredito que Dória é o prefeito dos nossos tempos, não que isso seja algo muito bom, depende da sua avaliação sobre que tempos são esses. Se o seu jeito de ser conseguir trazer alguns resultados, ou pelo menos omitir a falta deles, abafar as crises com selfies, não tenho dúvida que nas próximas eleições teremos diversos protótipos de Dória disputando eleições executivas no país. E aí, haja paciência dos membros de suas equipes para acordar de madrugada para fazer mutirões de limpeza.

27/01/2017

Aberto Retrô da Austrália

No começo, o Australian Open pareceu um tanto quanto decepcionante. Afinal, o fim do último ano deu a indicar que adentraríamos finalmente na época Murray/Djokovic de rivalidade no tênis e os primeiros dias em Melbourne derrubaram tudo. Um apagado Djokovic foi eliminado por Istomin logo na segunda rodada e até agora não dá pra entender como Murray foi atropelado pelo saque-voleio de Mischa Zverev.

Na chave feminina, em menor grau, a situação era parecida. Angelique Kerber a nova número 1 fez um campeonato apagado e foi eliminada sem brilho. Halep, Muguruza, nenhuma das candidatas a novas estrelas do circuito conseguiu ir longe. Apenas a interminável Serena Williams seguia em frente. Demorou um tempo até percebermos que este Australian Open foi uma espécie de janela temporal para o passado. Que era um evento destino a nostalgia dos grandes confrontos.

Foi apenas quando Venus Williams, navegando por uma chave relativamente tranquila  se colocou na semifinal que todos percebemos que o destino poderia nos brindar com um confronto entre as irmãs Williams na final. Não havia como torcer contra essa possibilidade e ela aconteceu.

Venus é apenas um ano mais velha do que Serena, mas essa diferença jogou a favor da primogênita no começo da carreira das duas. Duas negras dominando o circuito do tênis não deixava de ser uma novidade e os primeiros confrontos entre as duas ganharam grande apelo midiático. Venus dominou a irmã mais nova nos começo, apesar de Serena ter conquistado um Grand Slam primeiro. Venus venceu os três primeiros confrontos em grandes torneios, incluindo a primeira final entre as duas, US Open 2001. Serena venceu Roland Garros no ano seguinte.

Era o começo da rivalidade, antes que todos pudessemos perceber que Venus era "apenas" uma grande tenista, enquanto Serena era um gênio do esporte que iria dominar o circuito por um período impensável. Neste sábado as duas se enfrentarão pela 28ª vez, 15ª em um Grand Slam, nona vez em uma final desses torneios. Isso não acontecia desde 2009 - oito anos - e pode ser que seja a última vez. Vamos aproveitar a última vez.

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Entre os homens, apenas quando as quartas-de-final se confirmaram é que nós percebemos o que o destino estava nos reservando. Foi quando Federer superou Berdych e Nishikori e estava nas quartas-de-final. Quando Nadal também chegou lá que percebemos que o maior clássico do tênis poderia ser disputado em uma final.

E aconteceu. Depois de duas semifinais muito disputadas, ele conseguiram chegar lá. Depois de sete anos Federer volta a uma final na Austrália. Nadal, depois de três e três anos sem disputar nenhum título de Grand Slam.

A rivalidade Federer/Nadal redefiniu o tênis a partir da metade da década passada. O suíço surgiu primeiro e se colocou como candidato ao posto de maior tenista da história. Dominou adversários de uma maneira jamais vista, até que Rafael Nadal surgiu em 2004. Primeiro o espanhol dominou os torneios no saibro e lentamente foi aumentando sua resistência na grama. O resultado foram os confrontos épicos nas finais de Wimbledon em 2007, vencida por Federer, e em 2008, vencida por Nadal naquele que é talvez o maior jogo de tênis da história. Apenas quem viu aquela partida ao vivo se lembra de como a partida foi impressionante em suas quase cinco horas de duração.

A rivalidade aumentou a exposição mundial do esporte, que ganhou uma audiência jamais vista. Atenção multiplicada com as subsequentes aparições de Djokovic e Murray, que levaram o esporte para um nível estratosférico de disputa.

Será o 35º confronto entre os dois, o 12º em Grand Slams, a nona final. Nadal tem vantagem de 6x2 nesse tipo de confronto, que não acontecia desde 2011. Seis anos e agora com um sendo o cabeça de chave nº 9 e o outro o nº 17 (em todos os confrontos anteriores, um dos dois sempre era o nº 1 do mundo).

Pode ser a última vez, é provável que seja a última vez. Vamos aproveitar também. Não é qualquer dia que você vê finais com os maiores ganhadores de Slams masculinos e femininos enfrentando seus maiores rivais.

(Para completar o momento retrô, os irmãos Bryan também voltam a uma final de Grand Slam após três anos).

26/01/2017

Vivendo na Pós-Verdade

Tenho que dizer que estou obcecado com o termo "pós-verdade". Desde que a pós-verdade se popularizou, ao ser escolhida palavra do ano pelo dicionário Oxford, não consigo parar de pensar sobre suas implicações para o mundo atual e para a minha profissão.

Colabora para isso que Donald Trump seja o presidente dos Estados Unidos, reforçando toda a força e significância da palavra. Pode parecer em um primeiro momento que seja um daqueles termos empostados que não significam nada, mas tenho cada vez mais tempo que vivemos na era da pós-verdade.

"Um adjetivo que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”. Esta seria a pós-verdade. Quando a versão é mais importante do que o fato.

Estão aí as redes sociais, o Facebook e o Whatsapp, com as pessoas compartilhando centenas de informações falsas, baseadas na falha crença de "se está na internet, deve ser verdade". Sites e mais sites especializados em inventar informações, mas informações que mantém uma certa conexão com a realidade, que não seriam estranhas se fossem verdade, mas que realmente não são verdade. E essas informações viralizam e acabam se transformando em verdade.

Justamente por manter essa conexão distante com a realidade é que essas notícias falsas são tão perigosas. Elas estão aí para afirmar as nossas suspeitas, as nossas intuições, para confirmar que nós realmente estávamos certos em nossas convicções. Uma confirmação baseada na inverdade, uma ratificação inexistente, mas verossímil. Uma bomba para extremismos, ignorância e intolerância.

Penso na minha profissão, no jornalismo neste cenário. Claro que não podemos negar que a profissão tem uma boa quantidade de pessoas desprezíveis, principalmente entre aqueles que são donos de veículos de comunicação. Mas não acredito que a proporção seja diferente da quantidade de pessoas desprezíveis em tantas outras profissões, principalmente entre aquelas que são empregadoras.

Mas é fato já que o jornalismo de verdade está perdendo a disputa da disseminação para o jornalismo pós-verdade. Afinal, os fatos muitas vezes podem nos desagradar e ir contra o que pensamos. Mas, lá na pós-verdade poderemos achar uma quantidade de palavras para massagear o nosso egocentrismo.

Tenho total convicção que as próximas eleições brasileiras repetirão o fenômeno norte-americano e os candidatos que dominarem melhor a rede de disseminação de notícias pós-verídicas terá uma grande chance de se sagrar vencedor.

Os boatos sempre existiram, os panfletos apócrifos, os jornais comprados para reproduzir mentiras. Mas o poder de alcance nunca foi igual ao que vemos agora em um Facebook da vida. Isso tudo me preocupa, isso tudo ocupa boa parte dos meus pensamentos recentes.

19/01/2017

Barack Obama: Sentiremos Falta

A partir desta sexta-feira, Donald Trump será o novo presidente dos Estados Unidos. Por trás de toda a loucura que nos espera, de todas as dúvidas sobre o futuro da humanidade e questões afins, minha única certeza é que sentiremos falta de Barack Obama.

O primeiro presidente negro norte-americano assumiu seu mandado rodeado por esperança, após os terríveis anos de George W. Bush. É certo dizer que Obama cometeu erros, que não fez coisas que se esperava que ele fizesse, assim como todo e qualquer cidadão que assume um cargo executivo. Mas o principal legado deixado pelo futuro ex-presidente é o bom senso.

Quem foi um adolescentes no começo dos anos 2000, como eu, lembra a imagem que os EUA passavam para o mundo. Era um clichê odiar o país que investia em conflitos bélicos na Ásia, com seus presidente com déficit intelectual e sua política internacional agressiva. Chegou a um ponto em que era quase compreensível entender a Al Qaeda.

Obama mudou essa imagem e hoje os EUA não são mais tão odiáveis. Tentou costurar um acordo de paz em Israel, deixando de lado as decisões que beneficiavam unicamente os judeus. Realizou acordos diplomáticos com o Irã, reatou relações com Cuba, trabalhou para a integração das minorias e nunca propagou o ódio, o que é algo raro nesses tempos de ódio em que nós vivemos.

Talvez isso explique um pouco o amargo do final de sua gestão com a eleição de Trump. Obama foi um presidente cosmopolita, midiático, em tempos de isolamento cada vez maior.

Difícil saber como serão os próximos quatro anos, mas não tenho dúvida que sentiremos falta da leveza existencial de Obama.

12/01/2017

Bernardinho

Bernardinho era o louco que dirigia a seleção feminina de vôlei. Não era tão louco quanto o cara que dirigia a Rússia, que babava e cuspia, chegava quase a agredir fisicamente as suas jogadoras - coitadas, que tinham sempre uma cara de choro contido.

Ninguém duvidava porém das qualidades de Bernardinho naquela seleção feminina. Conquistou duas medalhas de bronze, em Olimpíadas nas quais a equipe masculina havia parado nas quartas-de-final. Fez campanhas brilhantes nas duas competições, tendo apenas um porém: a brilhante geração cubana, tricampeã olímpica, algoz brasileira nas duas semifinais. As derrotas foram em jogos épicos, disputados, derrotas muito doloridas. Não dava pra tirar o mérito, apesar de nossa cultura de destruição dos não vencedores.

Mesmo assim, houve alguma polêmica quando Bernardo Rezende foi escolhido como novo treinador da seleção masculina. Ele nunca havia trabalhado com os homens. As meninas queriam que ele continuasse com elas. Treinadores masculinos se sentiram desprestigiados. Eu sei que eu pensei na época, com 13 anos, que seria uma ótima escolha.

No ano seguinte as expectativas começaram a ser cumpridas: vitória na Liga Mundial, apenas os segundo título brasileiro até então. Lembro da semifinal épica contra a Rússia, em que o Brasil venceu os dois primeiros sets, levou o empate e a conquista veio em um tie-break épico. A final com a Itália foi tranquila, iniciando uma era de freguesia italiana contra o Brasil.

Em 2002 foi o título mundial em outra conquista épica, o primeiro do Brasil. Vitória sensacional contra a então tricampeã Itália nas quartas, contra a Iugoslávia na semifinal e um ace milagroso de Giovanni na final contra os russos. E então ninguém segurou o Brasil.

Aquele time até então apagado se transformou na maior equipe de vôlei de todos os tempos. Giba deixou de ser apenas o bonitinho da equipe e virou o jogador decisivo. André Nascimento virava todas as bolas. Murilo era o monstro dos bloqueios. O louco Ricardinho revolucionou o esporte e talvez seja o maior levantador de todos tempos.

Foram cinco títulos seguidos na liga mundial, o Ouro Olímpico em Atenas, o segundo título mundial conquistado de maneira implacável em 2006. Duas Copas do Mundo. Até que a magia acabou.

A até hoje controversa briga entre Bernardinho e Ricardinho que afastou o levantador do grupo após a conquista da Liga Mundial em 2007 tirou um pouco da magia da equipe. Marcelinho não tinha o gênio do antigo titular. O Brasil passou a pensar nas ligas mundiais - conquistou apenas mais duas e conseguiu a prata nas Olimpíadas de 2008, quando era apenas a terceira força, atrás de EUA e Rússia.

A dificuldade de renovação fez com que o Brasil deixasse de ser a potência absoluta do esporte. Mas o grande mérito de Bernardinho é que a constância do seu trabalho fez com que a seleção sempre chegasse nas fases finais. Campeã do mundo em 2010 e vice em 2014. Terceiro lugar na Copa do Mundo de 2011. Prata nos Jogos de Londres, em uma derrota tão dolorida que ofuscou a campanha de superação. Uma série de pódios nas Ligas Mundiais.

Até que vieram os jogos no Rio de Janeiro. A campanha foi sofrida, como jamais foi. O Brasil ficou perto de ser eliminado na primeira fase. O time era, claramente, inferior a adversários como os EUA e a França.

Mas como em um novo milagre, a equipe se superou. Lipe virou o fator combustível da equipe, Maurício virou a segurança na rede e Bruninho se provou o levantador que a equipe precisava. Wallace e Lucarelli levaram a equipe nos momentos difíceis e o interminável Serginho foi o ponto de equilíbrio. Na fase final o Brasil sobrou contra os adversários e chegou mais um improvável ouro olímpico.

Dezesseis anos depois, Bernardinho se aposenta do Brasil como o maior técnico da história do vôlei entre seleções. Uma lenda.

02/01/2017

Planos para o ano novo

Sempre que um ano novo se aproxima eu penso comigo: um ano novo uma boa época para começar um plano de longo prazo. Não falo de perder peso, fazer exercício, parar de usar drogas lícitas ou ilícitas, ou esses clichês resolutivos do ano novo.

Penso naquelas pessoas que durante um ano tiram uma foto de uma mesma coisa. Uma foto da sua cama, do seu café da manhã, do seu almoço. De uma árvore, sei lá. Ao final do ano será possível comparar as mudanças proporcionadas pelos 365 dias do ano. Não sei porque, esse tipo de projeto sempre me fascinou e toda vez que o fim do ano se aproxima, eu penso que poderia fazer algo assim.

Só que o problema é que eu não sei exatamente o quê fazer, não defino um plano uma meta, não há nada que eu não ache extremamente ridículo.

Assim sendo, quando vou ver, o dia 1º de janeiro já acabou e eu lembro que gostaria de ter feito isso, mas que agora já é tarde demais, já estou na cama dormindo e terei que esperar o próximo ano, quando provavelmente irei esquecer tudo de novo.

31/12/2016

Em 2016

Em 2016 pela primeira vez eu estive em um bloco de carnaval. Se eu pensar friamente no meu ano, este é certamente o fato mais inesperado.

Em 2016 eu paguei a conta de restaurante mais cara da minha vida, mas passei a maior parte do ano comendo no restaurante mais barato que eu conheço. Comi a melhor pizza da minha vida e também a pior. Aprendi a fazer mojitos e molho gorgonzola.

Conheci uma cidade que eu não conhecia. Voltei em outras que já conhecia. Subi no Pão de Açúcar depois de 18 anos. Subi no Morro da Igreja e não vi nada. Entrei no mar e perdi minha aliança no fundo dele.

Encontrei a maior parte das pessoas com quem eu me importo neste mundo e tomei vinho com quase todas elas. Talvez quisesse as ter encontrado mais. Percebi que muitas vezes a distância geográfica pode aproximar.

Passei o ano inteiro ao lado de uma pessoa. Ri muito com ela e tentei animá-la nos momentos de chorar. Discutimos a localização de Sevilha, alugamos um bug e o devolvemos poucas horas depois.

Foi provavelmente o ano da minha vida em que eu menos li, menos escutei música e menos escrevi. Fiz apenas cinco posts no Facebook, fazendo minha parte em um mundo com excesso de opinião.

Corri em 2016 mais do que havia corrido em toda a minha vida. Torci o meu pé esquerdo descendo uma escada para ir na praia, estirei dois ligamentos e dois meses depois ainda não me recuperei totalmente.

Vi um filme francês no cinema e achei uma porcaria. Vi um quadro de Van Gogh ao vivo e me impressionei com as marcas do pincel. Não vi shows que eu queria ter visto. Não fui em lugares que eu queria ter ido. Vi coisas que eu não queria ter visto. Vi a eleição do Trump e outras notícias que alimentam uma angustia existencial. Editei uma matéria que me fez voltar a ter fé na humanidade. Trabalhei muito em alguns dias. Convivi com muitas pessoas que eu realmente gosto e admiro.

Fiquei 15 dias imerso nas Olimpíadas. Assisti a abertura dos Jogos e foi uma das poucas vezes na minha vida em que me senti parte de algo maior. Realmente vibrei quando o Thiago Braz ultrapassou aquele sarrafo posicionado a 6,03 metros. Fiquei realmente abalado com o acidente do avião da Chapecoense.

Altos e baixos, coisas boas e ruins. Sobrevivemos 2016.

29/11/2016

Fragmentos de uma tragédia

Um dia em meado de outubro e eu estou no aeroporto de Guarulhos. Estava no meio de umas férias, talvez no final, em uma dessas tantas conexões que sempre tem Guarulhos como eixo central. Na espera para meu voo, vejo passar a delegação da Chapecoense. Não lembro o dia, mas sei que era uma segunda-feira. A equipe podia estar voltando para Chapecó após uma partida no domingo, ou partindo de Chapecó para algum lugar no mundo. Pouco mais de um mês depois, estão todos mortos.
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Especialistas, sempre eles, falam que tragédias, mortes em acidentes durante viagens estão entre as mais traumáticas que familiares e amigos podem enfrentar. Isso porque, há a lembrança da partida tranquila e não há a volta. Há essa angustia do ente que foi e que não voltou, do avião que nunca chegou, do carro que se perdeu em algum lugar do longo caminho. O saguão do aeroporto sem as pessoas que deviam estar lá, as esteiras das bagagens em uma eterna espera pelas malas que jamais vão chegar.
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Chapecoense, desses times pequenos e simpáticos, para os quais não há como se torcer contra. Time jovem, de cidade pequena, com pouca tradição, mas que faz um trabalho sério. Prestes a viver o maior momento de sua histórias, em uma jornada gloriosa que já seria digna de um filme, que até ontem ainda tinha a expectativa de um final feliz.
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Como seu último ato no futebol, o goleiro Danilo - ídolo maior da torcida chapecoense - fez um pequeno milagre que garantiu a vaga da Chape na final da Copa Sul-Americana. O zagueiro Angeloni do San Lorenzo finalizou a poucos metros do gol e, com o pé, Danilo salvou o gol da eliminação aos 48 do segundo tempo. Defesa que garantiu o momento mais feliz da vida da torcida em Chapecó, provavelmente da vida de Danilo. Uma semana depois ele estaria morto. Resgatado com vida, mas não resistiu aos ferimentos.

Ironia da vida. Se Danilo não alcançasse àquela bola, a Chapecoense teria sido eliminada no último minuto, na maior tragédia futebolística possível. O time passaria uma semana com o amargo gosto do fim do sonho e não teria embarcado para a Colômbia. A glória que precede a tragédia. Ninguém poderia saber. A vida é cheia de ironias, a vida não é para principiantes.
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Chapecó, cidade de 170 mil habitantes no Oeste catarinense. A final sul-americana provavelmente é um dos maiores momentos esportivos para a imprensa local. Muitos estavam no avião para esta grande experiência profissional. Todos mortos. Nada faz sentido.

21/11/2016

O fim de uma era no tênis?

A temporada de 2016 do tênis acabou com Andy Murray alcançado o improvável posto de número 1 do mundo, marca ainda mais impressionante se pensarmos que em maio ele estava 8.000 pontos atrás de Novak Djokovic no ranking. Um segundo semestre perfeito, associado ao baixo rendimento do sérvio, principalmente nos torneios menores, levou o escocês ao posto que ele sempre sonhou, mas que sempre foi impedido pelo azar de viver na era mais espetacular do tênis.

Mas a pergunta que fica é: será que esta grande era está chegando no fim?

Roger Federer, o maior de todos, sofreu com uma rara lesão e terminou o ano em maio, sem conquistar nenhum título, encerrando um ciclo de 16 anos seguidos com conquistas. Mais do que nunca, restam dúvidas se aos 36 anos ele ainda conseguirá voltar a jogar em alto nível.

Rafael Nadal chegou a parecer forte na temporada de saibro européia, mas terminou o ano também em baixa, com mais uma série de lesões e não conseguiu avançar da quarta rodada em nenhum Grand Slam do ano. Desde quando isso não acontecia? Desde 2004.

Novak Djokovic, que começou o ano soberano e conseguiu um domínio sem precedentes ao conquistar o título de Roland Garros e completar o Grand Slam em sequência pela primeira vez na era profissional do tênis, pois o sérvio que parecia imbatível, colecionou tropeços improváveis após o título inédito no saibro e parece sem confiança e sem vontade. Também pareceu sentir lesões pela primeira vez na carreira e não dá pra dizer se elas vão perdurar.

Sobrou Andy Murray, renascido e ao que tudo indica motivado, quando viu a janela se abrir. Se ele fizer tudo certo, garante sua liderança no ranking mundial pelo menos até Wimbledon do ano que vem.

O fato é: há quanto tempo não víamos um top 8 do mundo com apenas dois membros do Big Four entre eles?

Wimbledon foi o primeiro torneio em muitos anos sem ter nenhum confronto entre os membros do Big Four e não há como negar que o torneio perdeu muito da sua graça, sem a expectativa para estes confrontos sempre épicos. Milos Raonic, o postulante ao título naquela decisão, não tem consistência, qualidade ou brilho para chamar a atenção para suas atuações - por mais que tenha sido o melhor jogador não ganhador de Slam do ano.

Ao que tudo indica o Big Four está finalmente chegando ao fim, ano que vem todos terão pelo menos 30 anos. Quem irá substituí-los? A geração de Raonic, Nishikori, Dimitrov e etc já está aí há alguns anos e não dá mostra de ter essa capacidade.

A expectativa fica por conta dos #NextGem que a ATP tanto usa - não é a toa, é a aposta deles para manter o nível de atenção global no esporte. Zverev, Fritz, Coric. Será que eles chegam lá?

18/11/2016

Dez anos de piauí

Lembro-me bem do dia em que eu conheci a revista piauí: 29 de novembro de 2006. Era aniversário de um tio e em sua sala estavam dispostas as duas primeiras edições daquela revista grande, com capas curiosas que eu já havia visto no programa Pontapé Inicial, da ESPN Brasil. Entre uma folheada e outra, me peguei hipnotizado na matéria de Antônio Prata, How do you do, Dutra? Também não consegui me desvencilhar de uma matéria da Vanessa Bárbara sobre os palíndromos. Devo ter sido bem antissocial naquela noite, mas só sei que no mês seguinte eu estava na banca de jornal comprando aquela revista grande e assim o fiz desde então (exceção feita a um breve período em que fui assinante).

Dez anos já passaram e nesse tempo piauí me apresentou alguns dos meus autores favoritos (David Foster Wallace, Daniel Galera), me fez comprar livros, me mostrou que um olhar aprofundado pode mostrar que nem tudo é como parece ser, me fez entender as causas dos acidentes aéreos nacionais, conhecer os vultos da república, me ajudou a votar em uma eleição presidencial e me tornou íntimo dos matemáticos do Inpa e seus sistemas dinâmicos. Me emocionou com tragédias naturais e me fez rir até mesmo com a graça na falta de graça dos quadrinhos do Gotlib e a polêmica que ele provocava na seção de comentários.

Dez anos depois, não sei dizer como teria sido minha vida nesses dez últimos se eu não tivesse ficado tão interessado naquele papai Noel melancólico escutando Osvaldo Montenegro em um shopping de Penedo. Por onde andará esse papai Noel?