12/07/2017

As instituições estão funcionando

As instituições estão funcionando, elas estão funcionando, esse é o mantra repetido por autoridades, especialistas, comentaristas, para dizer que está tudo bem. Como se fossem aquele meme do cachorro dizendo que está tudo bem enquanto tudo ao seu redor pega fogo. As instituições estão funcionando, temos um vice-presidente eleito e que assumiu dentro do que é previsto pela constituição, o legislativo segue legislando e o judiciário continua julgando.

Teoricamente, a democracia prevê a existência de três poderes harmônicos e independentes entre si. No entanto, o que vemos atualmente é um Poder Executivo acuado diante dos outros dois. Ok, podemos dizer que o Executivo fez por merecer e tem sido ineficiente nos últimos anos. Mas, o que os outros fizeram para não serem tão atingidos pela crise representativa nacional?

Acredito que foi o Cássio Cunha Lima - melhor analista do que senador - que afirmou que o Brasil vive em um momento de parlamentarismo improvisado. O centro nervoso de decisões do país está no Legislativo. O presidente não consegue fazer nada se não se perder em uma série de negociações com a enorme base parlamentar, que envolve cargos, liberação de verbas, atendimento de interesses pessoais. Se Dilma Rousseff caiu, mais do que as pedaladas, ou a crise econômica, o grande motivo de seu impeachment foi sua incapacidade de jogar esse jogo.

Michel Temer assumiu e começou a dar prosseguimento as reformas apoiadas pelos financiadores de campanha. Ele sempre quis fazer isso e encontrou o momento favorável na Câmara? Ou decidiu fazer isso para atender os pedidos da Câmara, ter tranquilidade com aqueles que realmente tem o poder político e também financeiro? O fato é que Michel Temer era quem os deputados, senadores, empresários em geral queriam para fazer o que eles quisessem, dentro de uma proposta que dificilmente seria eleita diretamente pelo povo.

Temer não conviveu mais de uma semana sem um grande escândalo, mas sua capacidade de negociar com o Legislativo e suas reformas bem recebidas pelo Mercado (esta instituição intangível) o garantiam no poder. Temer era o fiador de toda essa situação.

No entanto, o presidente foi cada vez mais se afundando no chorume de suas relações políticas e ao invés de ser a solução, passou a ser um problema para a credibilidade que querem que as reformas tenham. Qual é a solução? Tirar o Temer e colocar qualquer besta quadrada no lugar, que só não se envolva em nenhum grande escândalo e deixem que se mudem o Brasil da forma como a Fiesp quer.

A figura do presidente no Brasil é totalmente dispensável nesse momento. Essa parlamentarismo improvisado se transformou em um grande ser de lama, capaz de tomar decisões independente dos nomes. Será assim pelo menos até as próximas eleições.

Mas, as instituições continuam funcionando, dizem todos.

06/07/2017

Imagens da morte

Quando aquela noiva morreu no fim do ano passado, ou no começo deste ano, não sei direito, todos nós ficamos chocados. Claro que não há um bom dia para morrer, mas existem dias que são piores do que os outros. Ninguém deveria morrer no dia do casamento, no dia do aniversário. Aliás, ninguém tem o direito de ter qualquer sofrimento nestes dias, em que desejamos tanta felicidade para os envolvidos. Assim sendo, uma noiva morrer no dia do casamento, enquanto ia para o casamento e os convidados e o noivo a esperavam, isso é o horror. Certamente terrível para a pessoa que morreu, mas ainda pior para os que ficaram aqui e vão viver os restos de suas vidas com estas lembranças traumáticas.

Agora, ficamos todos chocados novamente com as imagens do acidente. A fotógrafa que acompanhava a noiva filmou todo o trajeto fatal, provavelmente para registrar essas imagens da aventura da noiva, que iria fazer uma surpresa para o seu futuro marido que não sabia que ela desceria de helicóptero no local do casamento.

Podemos ver no vídeo a expectativa de todos dentro da aeronave. Como as coisas foram lentamente piorando até o momento em que a aeronave perde o controle aos gritos de misericórdia e a câmera rola pelo gramado enquanto os quatro ocupantes do helicóptero já estão mortos.

Ver imagens tão intimas de um acidente não é algo que faz parte do nosso cotidiano. Nunca soubemos ao certo o que se passou dentro do Fokker 100 da Tam, do avião da Gol, do voo da Air France, no voo da Chapecoense. Agora sabemos exatamente o desespero da noiva, de seu irmão, da fotógrafa e do piloto do helicóptero.

Dias atrás, também acompanhamos a imagem de um acidente, em que um piloto pousou em um rio na Amazônia e o passageiro filmou tudo. O piloto morreu, o passageiro sobreviveu. Que terrível.

Só consigo pensar que cada vez mais, nessa sociedade hipervigiada e hiperfilmada, teremos cada vez mais imagens como essa. De pessoas que diante da tragédia eminente que irá acabar com suas vidas, não terão outra reação que não seja a de ligar o celular e gravar este apocalipse pessoal. Seremos cada vez mais alimentados a estas imagens sensacionalistas, talvez até o dia em que as imagens da morte se tornem banais e não nos impactem mais.

01/07/2017

Pequenas histórias

Em um primeiro momento, o Celso parecia o chefe louco que veio de algum lugar para aterrorizar nossas vidas. Afinal, tinha um personalidade forte e algo extravagante, falava alto como os cariocas, fumava alucinadamente e não fugia de uma briga. Ninguém sabia de suas origens, o que em Cuiabá sempre pode parecer um crime.  Ao longo do tempo foi possível ver que sua personalidade era tão polêmica quanto parecia ser, o que afugentou e provocou ojeriza de muita gente. Não é a toa que ao final da sua passagem pela Secom-MT, ele foi vítima de uma das maiores sacanagens que já presenciei, tudo por conta da briga pelo poder.

Pois bem, o Celso de Castro Barbosa morreu ontem, me informou o Facebook. Perdi algum tempo lendo as lembranças dos amigos, sempre tão saudosas (provavelmente, ele foi meu primeiro contato do Facebook a morrer). Convivi com o Celso durante dois anos, período em que no fim tivemos uma boa relação, em que ele confiou no meu trabalho. Lembro sempre de que no dia do meu casamento, já na parte final da cerimônia, senti o celular apitando no bolso. Só fui conferir depois que era ele dizendo "soube que você está se casando hoje" e me desejando felicidades.

Mas enfim, foi um convívio curto. Pouco conhecíamos sobre sua vida, tirando algumas histórias loucas, os highlights de nossas vidas que costumamos contar para impressionar os amigos. Lendo as lembranças dos amigos, pude conhecer um pouco mais dos pequenos detalhes, aquelas pequenas histórias que muitas vezes ficam restritas a um pequeno grupo de amigos, ou simplesmente a duas pessoas. Achei particularmente interessante um relato sobre a vez em que ele trancou os donos do Jornal do Brasil no refeitório.

De certa forma nossas grandes histórias podem fazer com que fiquemos conhecidos, podem se perpetuar. Mas as pequenas histórias é que ficam naquela lembrança sentimental mais forte.

27/06/2017

Conversa com Darwin

Meus vizinhos tem um cachorro chamado Darwin, que ao que tudo indica, faz coisas que cachorros normalmente fazem: corre alucinadamente, pula incontrolavelmente, destrói alguns objetos e por vezes provoca intervenções paisagísticas dramáticas.

Por fazer coisas que cachorros geralmente fazem, no caso de Darwin, um labrador branco, essa coisa pode ser sua simples existência, meus vizinhos parecem gostar muito de seu animal.

No entanto, essas outras coisas de cachorro, essa parte que envolve destruição e roubo de objetos, não deixam meus vizinhos tão felizes assim. Nesses dias, eles brigam com o Darwin.

Não sei como é a casa do meu vizinho e por isso não posso dizer exatamente como a cena se desenvolve, mas sei que dia desses ele mexeu no lixo. Sim, o lixo, principalmente quando contém objetos orgânicos em estado de decomposição, pode ser um tanto quanto irresistível para um cão. Por outro lado, este objeto de fascínio canino é bastante repugnante para o ser humano. Essa é uma contradição nessa relação de espécies que deu tão certo nos últimos séculos.

Também não sei se há algum contato físico nas brigas do meu vizinho com o seu cachorro - que volto a repetir, parece ser bem amado pelos donos que o chamam de Darwilindo em momentos mais carinhosos - mas nunca escutei barulhos que indicassem tapas, ou choros caninos - ou mesmo choros humanos.

O método do meu vizinho consiste em questionar Darwin. Você mexeu no lixo, ele pergunta. Foi você que fez isso? Darwin, o que você fez? Quem é que fez isso? Muitas perguntas e Darwin jamais respondeu nenhuma delas.

Aí sim, chegamos a grande ironia da história que é um ser humano tentando conversar com um animal chamado Darwin e não obter nenhuma resposta. Da mesma que não sei o que Darwin, o cão, pensa disso, também não sei o que Darwin, o Charles, pensaria disso tudo.

Ok, este diálogo não correspondido, talvez um monólogo interpretado diante de um cão, não é exclusividade do meu vizinho. Donos de animais costumam a conversar com eles, perguntar como eles estão, o que eles querem. E nunca obtém respostas. São desconhecidas situações em que cães tenham respondido cordialmente aos seus donos sobre os seus sentimentos.

(Eu mesmo quando volto a casa dos meus pais pergunto aos cachorros de lá como é que eles estão e também nunca obtive uma resposta, mas encaro o silêncio deles como um sinal de que está tudo bem).

A evolução canina ao longo dos milênios ainda não possibilitou que eles conversem com seres humanos, eles ainda não foram capazes de aprender nenhum dos idiomas dominados pelos humanos. Eles no máximo latem, fazem suas necessidades em lugares inapropriados, constroem enormes buracos e alteram a decoração da casa para uma configuração heterodoxa. Bater um papo em língua portuguesa não está entre estas habilidades.

O que Darwin acha disso tudo?

26/06/2017

Lua Sorridente

No alto do céu, a lua parecia um enorme sorriso.

Uma lua enorme, talvez uma super-lua.

A porção iluminada da lua era ínfima, um simples risco e a posição da lua no céu nos fazia entender exatamente o seu movimento em relação ao sol. Quem brilhava não era o lado esquerdo ou diretio da lua, mas sim sua porção inferior. Pensando uma um pouco, era possível imaginar o sol escondido depois da curva do planeta e sua luz refletindo naquele pequeno pedaço do nosso satélite.

Um sorriso como o do gato de Alice n país das maravilhas.

Um fiapo de sorriso, mas um sorriso perfeito e absolutamente simétrico. Tão enorme, que era impossível manter a atenção no que acontecia na terra.

23/06/2017

Os 30 anos de Lionel Messi

Foi no dia 06 de Abril de 2010. Não havia uma pessoa no mundo que acompanhasse o futebol que não estivesse espantada com o que Lionel Messi havia acabado de fazer. Pelas quartas-de-final da Champions League, o Barcelona venceu o Arsenal por 4x1, de virada, com quatro gols do argentino. Quatro golaços, que transformaram um jogo complicado em um passeio. Depois da partida, um embasbacado Arsene Wenger declarou que Messi era um jogador de videogame.

Duas semanas antes, Messi havia dado outra demonstração de poderes sobrenaturais, durante a vitória por 4x2 contra o Zaragoza. Três gols, sendo que o segundo foi uma demonstração de luta e técnica poucas vezes vista. Naquele momento, estávamos todos encantados com Messi. Ele já era o cara que tinha feito um gol antológico contra o Getafe, marcado três gols no clássico contra o Real Madrid, já era o melhor do mundo eleito pela Fifa. Mas aqueles dias foram decisivos para percebermos que ele não era apenas um grande jogador. Era algo mais, algo difícil de descrever. Algo que Wenger tentou explicar como um jogador de videogame, mas ele estava errado.

Lionel Messi é um dos primeiros craques cujos passos foram acompanhados pelo mundo desde o começo. Eu me lembro do seu primeiro gol, contra o Albacete, recebendo um passe de Ronaldinho Gaúcho e tocando por cobertura com uma frieza impressionante. Poucos minutos antes ele havia feito a mesma jogada, mas o gol foi anulado por impedimento. Sempre que ele entrava em campo, havia uma expectativa, aquela sensação de "vamos ficar de olho nesse cara", mas era difícil apostar que ele viraria o que virou.

Existiu uma época, entre 2009 e 2012, em que quando Messi dominava a bola na intermediária, próximo a lateral, todos nós sabíamos que iria sair o gol. Ele poderia arrancar para o centro deixando todos para trás, tabelar com Daniel Alves e entrar para a área, chutar da entrada da área em curva, bater no contra pé do goleiro, dar um toque humilhante de cobertura. O repertório era incalculável, apenas sabíamos que o gol iria sair.

Messi ainda não tinha completado 23 anos no dia em que destruiu o Arsenal. Outra razão para que ficássemos espantados, era a perspectiva de que ele ainda não estivesse em seu auge e o quanto é que ele ainda poderia fazer. Bem, de certa forma aquele acabou sendo seu auge, depois de uma lesão sofrida em 2013, Messi perdeu alguma dose extra de magia, apesar de continuar fazendo coisas das quais nossas retinas chegam a duvidar.

Essa, aliás, é a principal qualidade de Messi e que me faz discordar da máxima do videogame de Arsene Wenger. Videogames não tem a imprevisibilidade do jogo de Messi. O drible de Boateng e sua consequente queda não existem em Fifas da vida. Cristiano Ronaldo, com suas skills editadas ao máximo e a maneira como joga como um míssel teleguiado em relação ao gol, se parece muito mais com o jogador perfeito de videogame.

Nos acostumamos tão mal com o nível de jogo estabelecido por Messi, que é possível apontar como frustrante uma temporada na qual ele marca 54 gols em 52 jogos. Nos decepcionamos se ele não faz um gol driblando metade do time adversário. Achamos pouco uma assistência genial que acaba desperdiçada pelo centroavante. Questionamos se ele não merece o status de gênio por não ter ganho uma copa. Chegamos nesse estranho paradoxo do tempo atual, em que alguém fracassa por não ser o melhor da história.

Sete anos depois daquele jogo contra o Arsenal, já é possível observar Messi com aquela estranha sensação de que tudo está terminando. Que ele não vai conseguir fazer mais do que já fez até agora e bem, talvez ninguém seja capaz de fazer o que ele já fez até agora. Lionel Messi sempre será daqueles jogadores que nós diremos para as futuras gerações "nós vimos esse cara jogar. Acredite, era inacreditável".

11/06/2017

Vinte anos do Guga

As manchetes dos sites esportivos e o vasto material divulgado nos últimos dias fazem questão de nos lembrar: faz 20 anos que Gustavo Kuerten despontou no cenário do esporte mundial ao conquistar o titulo de Roland Garros pela primeira. Foi em um dia 8 de junho, de 1997, que Guga derrotou Sergi Brugera por 3x0 na final do Grand Slam francês.

Tenho na memória um pouco desse dia. Acordei cedo na manhã de domingo, esse era um costume lá em casa por conta das corridas Fórmula 1. Naquele domingo não havia corrida, mas encontrei meu pai na frente da TV assistindo um esporte diferente. Era a TV Manchete que exibia a final do jogo de tênis.

Meu pai fez um breve apanhado sobre a situação, explicou que um brasileiro estava jogando a final de um dos torneios mais importantes do mundo, que era um jovem, falou algo sobre suas roupas diferentes e enfim. Acompanhei provavelmente um parte do terceiro set, sem entender nada daquele sistema de pontuação maluco. Fiquei feliz quando Guga venceu, afinal, ficamos feliz com vitórias brasileiras aos 10 anos de idade.

Então eu não sabia nada sobre a história do esporte, seu passado aristocrático e como de certa forma Guga seria um dos responsáveis pela popularização do tênis no mundo até. Mas, se esse momento ficou marcado em minha cabeça, é porque certamente ali começaria minha paixão pelo tênis.

Nos anos seguintes, o tenista catarinense passaria a ocupar o lugar de ídolo nacional que estava vago desde a morte da Ayrton Senna. O fato de suas conquistas serem geralmente em manhãs de domingos dava o tom piegas de coincidência histórica.

Acompanhar Guga nos anos seguintes foi um esporte nacional, e meu em particular. Sua eliminação em Wimbledon para um alemão desconhecido. Um título, talvez na República Tcheca, talvez na Itália, ainda em 1997. Uma série de maus resultados nos anos seguintes que o derrubaram no ranking e passaram a ideia de que ele poderia ser apenas um azarão que teve duas grandes semanas uma vez na vida.

As coisas mudaram em 1999 com sua série de títulos no saibro e a derrota para Medvedev nas quartas-de-final do slam francês. Havia uma certeza de que ele poderia ter ganhou aquele torneio. Mas, ele manteve a boa fase naquele ano e prosseguiu em 2000. Nas segundas-feiras eu sempre lia na Folha de São Paulo sobre as suas possíveis finais no dia anterior. Ele perdeu um jogo contra Magnus Norman em um dos Masters europeus do saibro e parecia que este era o duelo esperado para a final de Roland Garros.

Realmente foi, mas não sem muito sofrimento. Lembro de acompanhar seus jogos na ESPN e da agonia que foi o confronto contra Kafelnikov, quando tudo parecia perdido. Tudo pareceu perdido na semifinal contra o Ferrero, mas novamente Guga se superou. As vitórias emocionais eram um de seus grandes destaques. Por nove vezes ele enfrentou jogos de cinco sets na França e ganhou oito delas, cinco pelo menos depois de estar em situação bem adversa no placar. O título contra Norman depois de infinitos match points, mais títulos no saibro, a dominante conquista da Masters Cup, número 1 do mundo, mais títulos no saibro, o sofrimento contra Russell, vitória contra Corretja e seu terceiro título em Roland Garros. Guga era o rei do saibro, melhor tenista do mundo, faltava conquistar um slam em outro piso.

Parecia que seria no US Open de 2001. O mundo olhava para a Nova York pós-atentados, mas o Brasil já olhava para a cidade por conta de Guga. Uma vitória com sofrimento contra Max Mirnyi, as quartas-de-final contra o Kafelnikov, um bom presságio... O brasileiro começa a sentir dores no quadril nesse jogo e acaba atropelado pelo russo. Passa o resto do ano se arrastando. Perde a liderança do ranking. Passa por um cirurgia. Difícil saber no total quantas foram. Jogar tênis deixa de ser uma alegria e passa a ser um sofrimento. Ele ensaia alguns retornos para a glória, na virada de 2002 para 2003. No começo de 2004. A vitória contra o pré-gênio Federer nas 3ª rodada de Roland Garros em 2004 foi o seu canto do cisne (derrota aliás, que custou ao suíço a possibilidade de fechar um Grand Slam naquele ano). Lesões, lesões. Guga ainda tentou, mas abandonou o tênis em 2008. Na verdade ele não jogava desde 2005. Na verdade, o Gustavo Kuerten de verdade parou naquele jogo contra o Kafelnikov em 2001, com apenas 25 anos.

***

Kafelnikov aliás, foi quem lhe deu uma definição consagradora: Guga era o Picasso das quadras. Provavelmente porque o brasileiro conseguia uma beleza estranha em seus jogos. Ele não era refinado como Federer é, ou como Sampras era então. Não era força-bruta. Guga se destacava pelo ângulo abstrato que ele conseguia com seus backhands, pela maneira como conseguia com seus golpes de esquerda jogar os adversários para fora da quadra. Batia bem dos dois lados, e conseguia subir na rede com alguma habilidade, para matar as devoluções curtas provocadas por seus golpes angulosos. Não era muito rápido e isso explica seu sucesso muito maior no saibro. (Sim, vale lembrar que ele estava evoluindo nas quadras duras, como mostram seus títulos no Master de Lisboa e em Cincinatti).

***

Kuerten também tinha uma dimensão humana que facilita a idolatria. Ele era um jogador vulnerável, passava longe da perfeição e da solidez do Big Four atual. Dentro de um mesmo jogo variava muito, sentia o momento ruim e crescia no momento bom. Era difícil de ser batido, principalmente nos grandes momentos. As 20 vitórias em 29 finais mostram isso. (68% de finais vencidas. Federer tem 65%. Nadal 67%. Djokovic 69%. Andy Murray 67%. Antes da lesão de 2001, Guga chegou a ter 17 títulos em 23 finais, 73% de aproveitamento).

Sua simpatia e acessibilidade também lhe garantiam essa aura terrena, a de que ele era uma pessoa normal que jogava um tênis extraordinário. Não parecia inalcançável como Sampras, por exemplo. Um dos maiores esportistas brasileiros em todos os tempos.

26/05/2017

Alternativas temerárias

Diante da atual situação de instabilidade política e todas as alternativas para o futuro do país, tenho que dizer que praticamente todas elas me assustam.

A primeira alternativa seria a manutenção de Michel Temer no poder. Não é preciso dizer o quanto isso seria ruim e como a permanência do atual presidente no poder é imoral. Temer chegou ao poder por linhas tortas, está tentando implantar uma série de reformas que não receberam chancela popular nas urnas e não tem integridade moral para exercer o cargo. Todos os indícios demonstram que ele navega muito bem pelos mares de lama de corrupção e que sua presença no Palácio do Planalto é uma vergonha.

A alternativa constitucional caso se arrume alguma maneira de desalojar Temer do poder, é a convocação de eleições indiretas. Sim, não há como não ter medo da escolha que um Congresso amedrontado e acuado e ainda envolvido em denúncias de corrupção iria tomar. O atual presidente da casa, Rodrigo Maia, surgiria como um dos favoritos e, caramba, não há como não ter medo de Rodrigo Maia presidente.

Por fim, poderiam ser convocadas eleições diretas, caso seja encontrada alguma brecha constitucional. Pode parecer a decisão mais justa, devolver ao povo o direito de escolher o chefe do país, mas não há como negar que não é isso que é previsto pela constituição e geralmente a constituição está aí para ser cumprida e proteger a população nos momentos de crise, principalmente, e não para ser alterada de acordo com as vontades momentâneas.

Mas, mesmo que isso seja possível e sendo esta a hipótese mais justa, também tenho medo do que poderia acontecer em uma eleição direta, neste momento. Os últimos acontecimentos insuflaram ainda mais os ânimos e a sensação de que o Brasil está perdido, de que é preciso acabar com tudo. Com a população desgostosa e até mesmo fragilizada, cria-se a oportunidade perfeita para o surgimento de um protótipo populista, que irá se vender como salvador da pátria e pregar a quebra do establishment político, pregar o medo para vender a proteção.

Sim, esse nome é Jair Bolsonaro e acho que em eleições realizadas daqui a dois meses, ele teria mais chances de ser eleito do que no que vem, quando talvez as paixões estejam mais dominadas.

Diante de todos os cenários, eu não consigo escolher apenas um como o pior de todos.

24/05/2017

Desimportância de tudo

Sempre que alguma dessas correntes se populariza no Facebook e acaba sendo compartilhada por milhares de pessoas, surge uma espécie de contracorrente, com outros cidadãos incomodados com aquela situação e que acabam por questionar a importância de sua divulgação. Lembro que isso aconteceu bem recentemente com a de verdades e mentiras ("nossa, eu realmente queria saber isso sobre a vida de vocês), mas o fenômeno também foi registrado em tantos testes de Facebook, no "Diferentona", no "Esse é fulano".

Sim, é praticamente irresistível falar mal de algo com o qual nos importamos, inclusive porque, a amargura e a ironia são fatores que geram likes no Facebook e é aí que eu quero chegar, o que importa no Facebook são apenas os likes, porque absolutamente nada no Facebook é importante para a vida de ninguém. Tudo bem, posso exagerar um pouco. Jogando pra cima, uns 5% de tudo o que é produzido na rede social pode ter alguma relevância para a vida de algumas pessoas.

Realmente é difícil dizer que as nove verdades hiperdimensionadas sobre a vida das pessoas tenha alguma importância. Mas, o que você comeu ontem, onde você esteve, os seus animais de estimação, o que você gosta, o que você não gosta, as suas opiniões não tem a menor importância. Você é contra o Michel Temer? Legal, é um direito seu, mas isso não é realmente importante para ninguém, pense, há quinze anos atrás você não teria como amplificar essa sua opinião em uma rede social e o mundo seguiria girando, girando, sem se importar com você.

Se formos falar do Facebook devemos nos ater que o que interessa lá são os likes. Tiramos do contexto e dramatizamos fatos cotidianos, postamos fotos em que queremos transmitir uma determinada imagem pública, postamos gostos pessoais, tudo em busca de uma identificação com as pessoas, que essa imagem virtual que construímos parece interessante, receba curtidas e gere engajamento.

A falta de importância de tudo, isso que escrevo aqui incluso no pacote, pode esvaziar a nossa existência, se pensarmos que nossa mensagem motivacional no Facebook, o vídeo dos gatinhos fofinhos, o alerta sobre o desmatamento, que tudo isso não faz parte de um plano maior, pensar no quanto somos insignificante nos rumos da humanidade. Mas, por outro lado, isso pode ser libertador. Justamente por não ter importância, você pode fazer. Suas atitudes respondem mais a você do que aos outros.

19/05/2017

Amortização

A impressão que eu tenho disso tudo é que ficamos tão amortecidos com a vida, em geral, que nada mais é capaz de nos impressionar. Vale inclusive para o presidente da República, que depois de ter um áudio vazado em que ele escuta uma pessoa explanando sobre tentativas de corromper o judiciário e indica uma pessoa para tratar com o interlocutor, e essa pessoa indicada recebe alguns milhares de reais em dinheiro vivo, enfim, depois disso tudo o presidente fica aliviado com o conteúdo da gravação. Vai saber o que é que ele temia que pudesse estar em um áudio desse tipo.

Vejo nos Estados Unidos a polêmica que foi criada quando uma Secretária de Estado utilizou um e-mail pessoal para falar de assuntos de trabalho, situação que provocou desgaste em sua imagem pública e ajudou a eleger Donald Trump, que agora passa por uma crise por ter vazado informações confidenciais para um diplomata russo.

Lembro da Coreia do Sul, que recentemente viu o impeachment da sua presidente, por conta de uma amiga dela que utilizou essa amizade para obter vantagens. Olhamos para o Brasil e pensamos, sério que isso é motivo para um impeachment? Se não for para ter vantagens, qual é a razão de entrar para o mundo político?

Há um ato falho muito comum entre políticos, que é o de dizer que não há provas contra ele. Veja que quando alguém diz isso, não está dizendo que não cometeu um crime, está apenas garantindo que não haverá como provar esse crime. Michel Temer, mesmo, depois de escutar seu bootleg com Joesley Batista, afirmou que não há nada na gravação que o incrimine. Não que ele esteja certo, não que não haja nada de errado, mas nessa gravação, na opinião dele, não há nada que o incrimine. Nem a indicação de um nome, da sua mais estrita confiança, para tratar de assuntos com um empresário e o fato de essa pessoa receber meio milhão de reais. Não há nada.

Volto para esses países tão sensibilizados e fragilizados em assuntos de corrupção e penso no que os sul-coreanos achariam disso. Como os americanos reagiriam se Donald Trump fosse gravado em uma conversa nos mesmos moldes de Temer com um empresário qualquer aí. Lembro dos políticos japoneses, que choram em público e renunciam aos seus cargos diante de acusações de que são corruptos. Penso em Aécio Neves, que recebeu R$ 2 milhões de Joesley Batista, mandou um primo receber o dinheiro e o dinheiro acabou na mão de um funcionário de outro senador, e como todos negam tudo, mesmo diante das provas. "Não conheço essa figura", "o dinheiro foi para uso pessoal", como se alguém pegasse o dinheiro para qualquer outra função que não fosse esta.

Estamos tão amortecidos, tão acostumados, que sinceramente, nada mais nos choca, tudo é normal, tudo é divino, tudo é maravilhoso, como dizia aquela canção de rádio do velho compositor baiano.

12/05/2017

Tortura são-paulina

Houve um tempo em que o São Paulo era a pátria do virtuosismo inútil. No período da virada do século montamos algumas equipes com futebol vistoso, mas que conseguiram poucos resultados expressivos.

Lembro-me da avassaladora dupla Dodô e Aristizábal, vice-campeã paulista em 97, o time de Denílson e França, campeão paulista de 98, mas que sucumbiu no segundo semestre. O time campeão paulista e vice da Copa do Brasil de 2000 teve momentos encantadores. Mesmo a equipe da reta final do Brasileirão de 2001 brilhou em alguns momentos. O ápice desde estilo sem dúvida foi em 2002: sete vitórias por goleada no Rio-São Paulo, dez vitórias consecutivas no Brasileirão, mas fraquejando diante dos rivais, nenhum título no ano.

Depois de repetir a rotina no campeonato paulista de 2003, as coisas mudaram. Com Rojas no comando, o São Paulo passou a se transformar na pátria do pragmatismo convicente, sofrendo contra todos e conseguindo resultados necessários para voltar à Libertadores após 10 anos.

Vieram então os novos anos de glória. Campeão paulista, da Libertadores e do Mundial em 2005, com momentos avassaladores principalmente na conquista continental. Campeão brasileiro em 2006 com um time muito intenso. Bicampeão brasileiro em 2007, com um time pouco brilhante, mas intransponível na defesa. Tricampeão em 2008 na base da vontade, em uma série de jogos modorrentos.

Desde 2008 o futebol sem brilho vem se repetindo no Morumbi, mas com o detalhe de que sem a companhia de títulos. De 2009 pra cá é possível contar os momentos que empolgaram a torcida:
1) O time do Ricardo Gomes fez três, exatamente três bons jogos (Grêmio, Botafogo e mais um) e passou um ano inteiro se arrastando contra todo e qualquer adversário.
2) O surgimento do Lucas deu alguma esperança e após um ou outro brilho esporádico, a equipe realmente foi consistente no segundo semestre de 2012, conseguindo o título da Sul-Americana, único título pós anos dourados. Lucas foi embora e a equipe se perdeu, tendo um ano de 2013 pavoroso, que só valeu pela superação e transformou Aloísio Boi Bandido em um inexplicável ídolo.
3) Um momento específico do campeonato de 2014, quando Kaká chegou e formou um bom quadrado com Ganso, Alan Kardec e Luís Fabiano. De prático mesmo, vieram uns cinco bons jogos e o vice-campeonato brasileiro.

Tivemos ainda a loucura do Osorio, alguns momentos de superação com o Bauza, um ou outro jogo esporádico em que o futebol fluiu. Mas a verdade é que desde 2008 assistir os jogos do São Paulo é uma tortura.

Não importa muito o adversário, o roteiro é quase sempre igual: uma equipe tentando propor o jogo, mas o resultado não aparece, os nervos extrapolam e então até mesmo um time de colégio passa a levar perigo ao nosso gol. De uma hora para a outra, passamos a ver o momento em que o time vai se complicar. Nos últimos anos sofremos em casa contra Avaí, Grêmio Prudente, Atlético-GO, Bahia, Criciúma, Goiás, Chapecoense, LDU de Loja, The Strongest, Bragantino e Penapolense.

Não foi diferente ontem, contra o Defensa y Justicia. Com 20 minutos do primeiro tempo já era possível prever que só venceríamos aquele jogo na marra, com um gol achado e que era muito mais fácil perder a partida. Não perdeu, foi por pouco, mas pouco importa, a eliminação veio do mesmo jeito. Após um começo promissor, com seus jogos de placares bailarinos, o empate de ontem parece um pá de cal na esperança são-paulina com Rogério Ceni no comando.

É possível culpar jogadores, técnicos, quem quer que seja, mas parece que é algo superior: o espírito da mediocridade reina no Morumbi nos últimos anos.

Veja, nesses últimos anos vimos o Corinthians estabelecer um padrão de jogo, com alguns momentos de brilho. O Santos se firmar como a terra do futebol bonito, Cruzeiro, Grêmio, Fluminense, Flamengo, Atlético-MG, Internacional, todos tiveram seus momentos mais ou menos duradouros com um futebol competitivo. Afirmo que os torcedores de todos esses times, e se bobear até do Botafogo tiveram mais momentos de felicidade nesses anos.

Anos para os quais eu escolho um símbolo involuntário: Carlinhos Paraíba. Poderia ser ainda o Rodrigo Souto, Bruno Cortez, Paulo Miranda, Antônio Carlos, Osvaldo, Aloísio Boi Bandido ou qualquer outro jogador medíocre que repentinamente aparece com algum destaque na equipe e isso tem mais a ver com a qualidade da equipe do que com a qualidade do jogador. Faz alguns anos que assistir jogos da equipe nos deixam com a sensação, ou com a dúvida: porque estamos nos submetendo a isso?

26/04/2017

Uma lembrança de Tia Iracy

Em 2007, pela primeira vez eu viajei sozinho para Petrópolis, minha cidade natal. Em uma tarde peguei o ônibus e fui visitar minha tia-avó Iracy. Durante o caminho até Cascatinha, pensei que seria uma visita breve, uma vez que as passagens pela sua casa costumavam a ser rápidas. Tia Iracy gostava de ficar sozinha.

Me surpreendi então quando deixei a sua casa, quando o dia anoitecia, após uma tarde em que não vi a hora passar. Conversei com Tia Iracy sobre todos os aspectos do mundo, ela lia O Globo inteiro, todos os dias, e os jornais iam se empilhando ao lado da poltrona em que ela passava a maior parte do tempo. Também devorava as revistas de palavras-cruzadas, igualmente empilhadas. Fazia isso para exercitar a cabeça, me disse.

Reclamava da política atual e de vários aspectos do mundo moderno, principalmente da mania que nós temos de esconder fios e canos, o que é um problema enorme quando eles precisam passar por manutenção. Reclamava da perna, cada vez pior, mas não da vida como um todo. Fazia piadas depreciativas, mas parecia aceitar que as coisas são assim mesmo.

Lamentava o fato de eu ser estudante de jornalismo “uma profissão tão ruim, coitado. Podia ser diplomata”. Contou sobre sua juventude, seu gosto por trilhas e acampamentos e todo um mundo desconhecido para um jovem de 20 anos, que nunca tinha conversado tão longamente com uma pessoa tão mais velha.

Sai de lá com um livro – Lolita, ela sempre me presenteava com algum livro que ganhou na assinatura do Jornal – e as lembranças de uma tarde que passou rápido. A pilha de jornais, a caixa de remédios, o fusca azul que ela dirigiu até não conseguir mais e os telefonemas de aniversário, sempre às 23h do dia seguinte.

De um tempo para cá, a idade superou sua disposição para ler as palavras cruzadas e o fim se aproximou rapidamente. Fico com a lembrança daquela tarde de agosto há quase 10 anos.

28/03/2017

A lógica de mercado e a oportunidade política

Ao que tudo indica, a Polícia Federal cometeu alguns equívocos na divulgação dos resultados da Operação Carne Fraca. Não é nenhuma novidade, uma vez que os órgãos fiscalizadores costumam a superdimensionar suas operações e encontram na mídia um ótimo caminho de difundir a informação muitas vezes equivocadas. Parece que houve um grande equívoco na história do papelão, por exemplo.

Mas, também parece certo dizer que foram cometidas irregularidades na fiscalização de frigoríficos, exatamente 21. Não sei dizer ao certo o quanto de carne foi produzida nesses estabelecimentos e parece difícil dimensionar o quanto de carne foi adulterada e quantas pessoas foram atingidas por essa fraude.

São dois fatos que me parecem consumados e um não invalida o outro.

Depois de um breve baque inicial com a denúncia da fraude que envolve 21 frigoríficos e 30 e poucos funcionários do setor de fiscalização da Ministério da Agricultura, o Governo fez uma contraofensiva intensa contra a operação, com o principal objetivo de proteger o mercado. O Brasil é um dos grandes exportadores de carne do mundo e dezenas de países realizaram embargos e suspenderam as importações da carne brasileira, mesmo que temporariamente.

Não dá para dizer que o Governo esteja equivocado, a perda de mercado internacional de um importante produto brasileiro é certamente um baque para a economia já combalida. No entanto, a principal estratégia governamental e do setor empresarial tem sido desmoralizar a ação da polícia federal, que realmente foi repleta de equívocos, mas que, convém lembrar, mesmo assim descobriu malfeitos importantes.

Michel Temer e o ministro Blairo Maggi são enfáticos em reforçar a qualidade da carne brasileira e reduzem as investigações a meros 21 dos 4.800 frigoríficos brasileiros, a 38 dos 10 mil funcionários do Ministério. Realmente é uma parcela pequena, mas há um fato que não pode ser escondido: havia um esquema de corrupção, carne podre foi mascarada para ser vendida e pessoas podem ter sido severamente prejudicadas por essa falha no sistema, tanto do ponto de vista do consumidor, quanto do ponto de vista sanitário.

Não deveria ser difícil, imagino eu, conciliar os dois lados, reforçar que a carne brasileira em sua maioria tem segurança na produção, mas que falhas acontecem e que está é uma boa oportunidade de corrigir as falhas, reforçar o esquema de segurança, melhorar a qualidade do produto e em um futuro próximo alcançar um mercado ainda maior pelo trabalho. No entanto, há apenas a minimização dos fatos.

O que prevalece é a lógica do mercado, a mesma lógica que levou a fraude inicial. Não podemos perder clientes por conta de uma pequena bobagem e que se danem as pessoas prejudicadas. Há, por outro lado, a oportunidade política de desmoralizar a ação da Polícia Federal.

Nos últimos três a Operação Lava Jato, desencadeada pela PF tem abalado as estruturas políticas nacionais. Uma operação que, ao mesmo tempo em que encontra crimes, superdimensiona resultados, toma algumas medidas desastradas, como se guiadas por alguma orientação de justiça divina.

Onze em cada dez políticos investigados na Operação gostariam de que a PF tivesse seus poderes restringidos, para tentar a sobrevivência política. Há tempos existe um projeto sobre o abuso de autoridade, que nunca encontrou respaldo necessário para sair do papel.

O exagero da ação policial que provocou prejuízos econômicos em um grande setor e despertou ira de grande parcela da população é a grande oportunidade para uma campanha de desmoralização da Polícia Federal, que pode tirar projetos do papel e tirar força inclusive da Lava Jato, mesmo no âmbito da opinião pública. A lógica de mercado e a oportunidade política encontram interesses em comum.

26/03/2017

Mendigando emoções

Depois que a Mercedes estabeleceu o maior domínio da história da Fórmula 1 - nunca ninguém havia ganho tanto em um período de três anos - qualquer coisa que não fosse uma dobradinha prateada no Grande Prêmio da Austrália já deixaria os telespectadores felizes. De fato, isso aconteceu com a vitória estratégica de Sebastian Vettel, que indica que nesse ano poderemos ter alguma disputa pelo título.

Mas foi só. A corrida australiana foi uma entendiante abertura de campeonato, igual as que vimos nos últimos três anos - desde 2013 não temos uma corrida de abertura minimamente interessante. Ao que tudo indica, essa temporada de 2017 será uma temporada de ultrapassagens miseráveis e corridas definidas na estratégia. Talvez lembre a temporada 2007, disputa emocionante em corridas chatas.

A transmissão foi um horror e parecia feita por um pessoal que nunca tinha trabalhado no assunto - o que foi colocar o Kvyat na disputa pelo segundo lugar, 40 segundos atrás e com uma parada a menos?

Além da provável disputa de equipes, a única coisa interessante dessa temporada é que os carros mais rápidos e difíceis poderão dar uma dimensão melhor do potencial dos pilotos. Ao contrário dos últimos anos em que víamos várias dobradinhas nos grids. Deu pra ver o quanto o Stroll foi mais lento que o Massa, o quanto o Palmer é pior que o Hulkenberg, a diferença do Alonso para o Vandoorne, do Grosjean para o Magnussen.

Diferença que eles terão que comprovar principalmente na largada. Em 2017 as largadas serão mais importante do que nunca, assim como os treinos. Bom para Vettel, Massa, Alonso, pilotos que teoricamente largam bem (bom dentro de suas expectativas - vitória, pódio e pontos), ruim para Hamilton que ano passado perdeu o título por largar mal em pelo menos cinco corridas.

Mas, enquanto espetáculo, a expectativa não é boa. Esta primeira corrida só satisfez um pouco porque andamos mendigando qualquer emoção nos últimos anos.