26/05/2017

Alternativas temerárias

Diante da atual situação de instabilidade política e todas as alternativas para o futuro do país, tenho que dizer que praticamente todas elas me assustam.

A primeira alternativa seria a manutenção de Michel Temer no poder. Não é preciso dizer o quanto isso seria ruim e como a permanência do atual presidente no poder é imoral. Temer chegou ao poder por linhas tortas, está tentando implantar uma série de reformas que não receberam chancela popular nas urnas e não tem integridade moral para exercer o cargo. Todos os indícios demonstram que ele navega muito bem pelos mares de lama de corrupção e que sua presença no Palácio do Planalto é uma vergonha.

A alternativa constitucional caso se arrume alguma maneira de desalojar Temer do poder, é a convocação de eleições indiretas. Sim, não há como não ter medo da escolha que um Congresso amedrontado e acuado e ainda envolvido em denúncias de corrupção iria tomar. O atual presidente da casa, Rodrigo Maia, surgiria como um dos favoritos e, caramba, não há como não ter medo de Rodrigo Maia presidente.

Por fim, poderiam ser convocadas eleições diretas, caso seja encontrada alguma brecha constitucional. Pode parecer a decisão mais justa, devolver ao povo o direito de escolher o chefe do país, mas não há como negar que não é isso que é previsto pela constituição e geralmente a constituição está aí para ser cumprida e proteger a população nos momentos de crise, principalmente, e não para ser alterada de acordo com as vontades momentâneas.

Mas, mesmo que isso seja possível e sendo esta a hipótese mais justa, também tenho medo do que poderia acontecer em uma eleição direta, neste momento. Os últimos acontecimentos insuflaram ainda mais os ânimos e a sensação de que o Brasil está perdido, de que é preciso acabar com tudo. Com a população desgostosa e até mesmo fragilizada, cria-se a oportunidade perfeita para o surgimento de um protótipo populista, que irá se vender como salvador da pátria e pregar a quebra do establishment político, pregar o medo para vender a proteção.

Sim, esse nome é Jair Bolsonaro e acho que em eleições realizadas daqui a dois meses, ele teria mais chances de ser eleito do que no que vem, quando talvez as paixões estejam mais dominadas.

Diante de todos os cenários, eu não consigo escolher apenas um como o pior de todos.

24/05/2017

Desimportância de tudo

Sempre que alguma dessas correntes se populariza no Facebook e acaba sendo compartilhada por milhares de pessoas, surge uma espécie de contracorrente, com outros cidadãos incomodados com aquela situação e que acabam por questionar a importância de sua divulgação. Lembro que isso aconteceu bem recentemente com a de verdades e mentiras ("nossa, eu realmente queria saber isso sobre a vida de vocês), mas o fenômeno também foi registrado em tantos testes de Facebook, no "Diferentona", no "Esse é fulano".

Sim, é praticamente irresistível falar mal de algo com o qual nos importamos, inclusive porque, a amargura e a ironia são fatores que geram likes no Facebook e é aí que eu quero chegar, o que importa no Facebook são apenas os likes, porque absolutamente nada no Facebook é importante para a vida de ninguém. Tudo bem, posso exagerar um pouco. Jogando pra cima, uns 5% de tudo o que é produzido na rede social pode ter alguma relevância para a vida de algumas pessoas.

Realmente é difícil dizer que as nove verdades hiperdimensionadas sobre a vida das pessoas tenha alguma importância. Mas, o que você comeu ontem, onde você esteve, os seus animais de estimação, o que você gosta, o que você não gosta, as suas opiniões não tem a menor importância. Você é contra o Michel Temer? Legal, é um direito seu, mas isso não é realmente importante para ninguém, pense, há quinze anos atrás você não teria como amplificar essa sua opinião em uma rede social e o mundo seguiria girando, girando, sem se importar com você.

Se formos falar do Facebook devemos nos ater que o que interessa lá são os likes. Tiramos do contexto e dramatizamos fatos cotidianos, postamos fotos em que queremos transmitir uma determinada imagem pública, postamos gostos pessoais, tudo em busca de uma identificação com as pessoas, que essa imagem virtual que construímos parece interessante, receba curtidas e gere engajamento.

A falta de importância de tudo, isso que escrevo aqui incluso no pacote, pode esvaziar a nossa existência, se pensarmos que nossa mensagem motivacional no Facebook, o vídeo dos gatinhos fofinhos, o alerta sobre o desmatamento, que tudo isso não faz parte de um plano maior, pensar no quanto somos insignificante nos rumos da humanidade. Mas, por outro lado, isso pode ser libertador. Justamente por não ter importância, você pode fazer. Suas atitudes respondem mais a você do que aos outros.

19/05/2017

Amortização

A impressão que eu tenho disso tudo é que ficamos tão amortecidos com a vida, em geral, que nada mais é capaz de nos impressionar. Vale inclusive para o presidente da República, que depois de ter um áudio vazado em que ele escuta uma pessoa explanando sobre tentativas de corromper o judiciário e indica uma pessoa para tratar com o interlocutor, e essa pessoa indicada recebe alguns milhares de reais em dinheiro vivo, enfim, depois disso tudo o presidente fica aliviado com o conteúdo da gravação. Vai saber o que é que ele temia que pudesse estar em um áudio desse tipo.

Vejo nos Estados Unidos a polêmica que foi criada quando uma Secretária de Estado utilizou um e-mail pessoal para falar de assuntos de trabalho, situação que provocou desgaste em sua imagem pública e ajudou a eleger Donald Trump, que agora passa por uma crise por ter vazado informações confidenciais para um diplomata russo.

Lembro da Coreia do Sul, que recentemente viu o impeachment da sua presidente, por conta de uma amiga dela que utilizou essa amizade para obter vantagens. Olhamos para o Brasil e pensamos, sério que isso é motivo para um impeachment? Se não for para ter vantagens, qual é a razão de entrar para o mundo político?

Há um ato falho muito comum entre políticos, que é o de dizer que não há provas contra ele. Veja que quando alguém diz isso, não está dizendo que não cometeu um crime, está apenas garantindo que não haverá como provar esse crime. Michel Temer, mesmo, depois de escutar seu bootleg com Joesley Batista, afirmou que não há nada na gravação que o incrimine. Não que ele esteja certo, não que não haja nada de errado, mas nessa gravação, na opinião dele, não há nada que o incrimine. Nem a indicação de um nome, da sua mais estrita confiança, para tratar de assuntos com um empresário e o fato de essa pessoa receber meio milhão de reais. Não há nada.

Volto para esses países tão sensibilizados e fragilizados em assuntos de corrupção e penso no que os sul-coreanos achariam disso. Como os americanos reagiriam se Donald Trump fosse gravado em uma conversa nos mesmos moldes de Temer com um empresário qualquer aí. Lembro dos políticos japoneses, que choram em público e renunciam aos seus cargos diante de acusações de que são corruptos. Penso em Aécio Neves, que recebeu R$ 2 milhões de Joesley Batista, mandou um primo receber o dinheiro e o dinheiro acabou na mão de um funcionário de outro senador, e como todos negam tudo, mesmo diante das provas. "Não conheço essa figura", "o dinheiro foi para uso pessoal", como se alguém pegasse o dinheiro para qualquer outra função que não fosse esta.

Estamos tão amortecidos, tão acostumados, que sinceramente, nada mais nos choca, tudo é normal, tudo é divino, tudo é maravilhoso, como dizia aquela canção de rádio do velho compositor baiano.

12/05/2017

Tortura são-paulina

Houve um tempo em que o São Paulo era a pátria do virtuosismo inútil. No período da virada do século montamos algumas equipes com futebol vistoso, mas que conseguiram poucos resultados expressivos.

Lembro-me da avassaladora dupla Dodô e Aristizábal, vice-campeã paulista em 97, o time de Denílson e França, campeão paulista de 98, mas que sucumbiu no segundo semestre. O time campeão paulista e vice da Copa do Brasil de 2000 teve momentos encantadores. Mesmo a equipe da reta final do Brasileirão de 2001 brilhou em alguns momentos. O ápice desde estilo sem dúvida foi em 2002: sete vitórias por goleada no Rio-São Paulo, dez vitórias consecutivas no Brasileirão, mas fraquejando diante dos rivais, nenhum título no ano.

Depois de repetir a rotina no campeonato paulista de 2003, as coisas mudaram. Com Rojas no comando, o São Paulo passou a se transformar na pátria do pragmatismo convicente, sofrendo contra todos e conseguindo resultados necessários para voltar à Libertadores após 10 anos.

Vieram então os novos anos de glória. Campeão paulista, da Libertadores e do Mundial em 2005, com momentos avassaladores principalmente na conquista continental. Campeão brasileiro em 2006 com um time muito intenso. Bicampeão brasileiro em 2007, com um time pouco brilhante, mas intransponível na defesa. Tricampeão em 2008 na base da vontade, em uma série de jogos modorrentos.

Desde 2008 o futebol sem brilho vem se repetindo no Morumbi, mas com o detalhe de que sem a companhia de títulos. De 2009 pra cá é possível contar os momentos que empolgaram a torcida:
1) O time do Ricardo Gomes fez três, exatamente três bons jogos (Grêmio, Botafogo e mais um) e passou um ano inteiro se arrastando contra todo e qualquer adversário.
2) O surgimento do Lucas deu alguma esperança e após um ou outro brilho esporádico, a equipe realmente foi consistente no segundo semestre de 2012, conseguindo o título da Sul-Americana, único título pós anos dourados. Lucas foi embora e a equipe se perdeu, tendo um ano de 2013 pavoroso, que só valeu pela superação e transformou Aloísio Boi Bandido em um inexplicável ídolo.
3) Um momento específico do campeonato de 2014, quando Kaká chegou e formou um bom quadrado com Ganso, Alan Kardec e Luís Fabiano. De prático mesmo, vieram uns cinco bons jogos e o vice-campeonato brasileiro.

Tivemos ainda a loucura do Osorio, alguns momentos de superação com o Bauza, um ou outro jogo esporádico em que o futebol fluiu. Mas a verdade é que desde 2008 assistir os jogos do São Paulo é uma tortura.

Não importa muito o adversário, o roteiro é quase sempre igual: uma equipe tentando propor o jogo, mas o resultado não aparece, os nervos extrapolam e então até mesmo um time de colégio passa a levar perigo ao nosso gol. De uma hora para a outra, passamos a ver o momento em que o time vai se complicar. Nos últimos anos sofremos em casa contra Avaí, Grêmio Prudente, Atlético-GO, Bahia, Criciúma, Goiás, Chapecoense, LDU de Loja, The Strongest, Bragantino e Penapolense.

Não foi diferente ontem, contra o Defensa y Justicia. Com 20 minutos do primeiro tempo já era possível prever que só venceríamos aquele jogo na marra, com um gol achado e que era muito mais fácil perder a partida. Não perdeu, foi por pouco, mas pouco importa, a eliminação veio do mesmo jeito. Após um começo promissor, com seus jogos de placares bailarinos, o empate de ontem parece um pá de cal na esperança são-paulina com Rogério Ceni no comando.

É possível culpar jogadores, técnicos, quem quer que seja, mas parece que é algo superior: o espírito da mediocridade reina no Morumbi nos últimos anos.

Veja, nesses últimos anos vimos o Corinthians estabelecer um padrão de jogo, com alguns momentos de brilho. O Santos se firmar como a terra do futebol bonito, Cruzeiro, Grêmio, Fluminense, Flamengo, Atlético-MG, Internacional, todos tiveram seus momentos mais ou menos duradouros com um futebol competitivo. Afirmo que os torcedores de todos esses times, e se bobear até do Botafogo tiveram mais momentos de felicidade nesses anos.

Anos para os quais eu escolho um símbolo involuntário: Carlinhos Paraíba. Poderia ser ainda o Rodrigo Souto, Bruno Cortez, Paulo Miranda, Antônio Carlos, Osvaldo, Aloísio Boi Bandido ou qualquer outro jogador medíocre que repentinamente aparece com algum destaque na equipe e isso tem mais a ver com a qualidade da equipe do que com a qualidade do jogador. Faz alguns anos que assistir jogos da equipe nos deixam com a sensação, ou com a dúvida: porque estamos nos submetendo a isso?

26/04/2017

Uma lembrança de Tia Iracy

Em 2007, pela primeira vez eu viajei sozinho para Petrópolis, minha cidade natal. Em uma tarde peguei o ônibus e fui visitar minha tia-avó Iracy. Durante o caminho até Cascatinha, pensei que seria uma visita breve, uma vez que as passagens pela sua casa costumavam a ser rápidas. Tia Iracy gostava de ficar sozinha.

Me surpreendi então quando deixei a sua casa, quando o dia anoitecia, após uma tarde em que não vi a hora passar. Conversei com Tia Iracy sobre todos os aspectos do mundo, ela lia O Globo inteiro, todos os dias, e os jornais iam se empilhando ao lado da poltrona em que ela passava a maior parte do tempo. Também devorava as revistas de palavras-cruzadas, igualmente empilhadas. Fazia isso para exercitar a cabeça, me disse.

Reclamava da política atual e de vários aspectos do mundo moderno, principalmente da mania que nós temos de esconder fios e canos, o que é um problema enorme quando eles precisam passar por manutenção. Reclamava da perna, cada vez pior, mas não da vida como um todo. Fazia piadas depreciativas, mas parecia aceitar que as coisas são assim mesmo.

Lamentava o fato de eu ser estudante de jornalismo “uma profissão tão ruim, coitado. Podia ser diplomata”. Contou sobre sua juventude, seu gosto por trilhas e acampamentos e todo um mundo desconhecido para um jovem de 20 anos, que nunca tinha conversado tão longamente com uma pessoa tão mais velha.

Sai de lá com um livro – Lolita, ela sempre me presenteava com algum livro que ganhou na assinatura do Jornal – e as lembranças de uma tarde que passou rápido. A pilha de jornais, a caixa de remédios, o fusca azul que ela dirigiu até não conseguir mais e os telefonemas de aniversário, sempre às 23h do dia seguinte.

De um tempo para cá, a idade superou sua disposição para ler as palavras cruzadas e o fim se aproximou rapidamente. Fico com a lembrança daquela tarde de agosto há quase 10 anos.

28/03/2017

A lógica de mercado e a oportunidade política

Ao que tudo indica, a Polícia Federal cometeu alguns equívocos na divulgação dos resultados da Operação Carne Fraca. Não é nenhuma novidade, uma vez que os órgãos fiscalizadores costumam a superdimensionar suas operações e encontram na mídia um ótimo caminho de difundir a informação muitas vezes equivocadas. Parece que houve um grande equívoco na história do papelão, por exemplo.

Mas, também parece certo dizer que foram cometidas irregularidades na fiscalização de frigoríficos, exatamente 21. Não sei dizer ao certo o quanto de carne foi produzida nesses estabelecimentos e parece difícil dimensionar o quanto de carne foi adulterada e quantas pessoas foram atingidas por essa fraude.

São dois fatos que me parecem consumados e um não invalida o outro.

Depois de um breve baque inicial com a denúncia da fraude que envolve 21 frigoríficos e 30 e poucos funcionários do setor de fiscalização da Ministério da Agricultura, o Governo fez uma contraofensiva intensa contra a operação, com o principal objetivo de proteger o mercado. O Brasil é um dos grandes exportadores de carne do mundo e dezenas de países realizaram embargos e suspenderam as importações da carne brasileira, mesmo que temporariamente.

Não dá para dizer que o Governo esteja equivocado, a perda de mercado internacional de um importante produto brasileiro é certamente um baque para a economia já combalida. No entanto, a principal estratégia governamental e do setor empresarial tem sido desmoralizar a ação da polícia federal, que realmente foi repleta de equívocos, mas que, convém lembrar, mesmo assim descobriu malfeitos importantes.

Michel Temer e o ministro Blairo Maggi são enfáticos em reforçar a qualidade da carne brasileira e reduzem as investigações a meros 21 dos 4.800 frigoríficos brasileiros, a 38 dos 10 mil funcionários do Ministério. Realmente é uma parcela pequena, mas há um fato que não pode ser escondido: havia um esquema de corrupção, carne podre foi mascarada para ser vendida e pessoas podem ter sido severamente prejudicadas por essa falha no sistema, tanto do ponto de vista do consumidor, quanto do ponto de vista sanitário.

Não deveria ser difícil, imagino eu, conciliar os dois lados, reforçar que a carne brasileira em sua maioria tem segurança na produção, mas que falhas acontecem e que está é uma boa oportunidade de corrigir as falhas, reforçar o esquema de segurança, melhorar a qualidade do produto e em um futuro próximo alcançar um mercado ainda maior pelo trabalho. No entanto, há apenas a minimização dos fatos.

O que prevalece é a lógica do mercado, a mesma lógica que levou a fraude inicial. Não podemos perder clientes por conta de uma pequena bobagem e que se danem as pessoas prejudicadas. Há, por outro lado, a oportunidade política de desmoralizar a ação da Polícia Federal.

Nos últimos três a Operação Lava Jato, desencadeada pela PF tem abalado as estruturas políticas nacionais. Uma operação que, ao mesmo tempo em que encontra crimes, superdimensiona resultados, toma algumas medidas desastradas, como se guiadas por alguma orientação de justiça divina.

Onze em cada dez políticos investigados na Operação gostariam de que a PF tivesse seus poderes restringidos, para tentar a sobrevivência política. Há tempos existe um projeto sobre o abuso de autoridade, que nunca encontrou respaldo necessário para sair do papel.

O exagero da ação policial que provocou prejuízos econômicos em um grande setor e despertou ira de grande parcela da população é a grande oportunidade para uma campanha de desmoralização da Polícia Federal, que pode tirar projetos do papel e tirar força inclusive da Lava Jato, mesmo no âmbito da opinião pública. A lógica de mercado e a oportunidade política encontram interesses em comum.

26/03/2017

Mendigando emoções

Depois que a Mercedes estabeleceu o maior domínio da história da Fórmula 1 - nunca ninguém havia ganho tanto em um período de três anos - qualquer coisa que não fosse uma dobradinha prateada no Grande Prêmio da Austrália já deixaria os telespectadores felizes. De fato, isso aconteceu com a vitória estratégica de Sebastian Vettel, que indica que nesse ano poderemos ter alguma disputa pelo título.

Mas foi só. A corrida australiana foi uma entendiante abertura de campeonato, igual as que vimos nos últimos três anos - desde 2013 não temos uma corrida de abertura minimamente interessante. Ao que tudo indica, essa temporada de 2017 será uma temporada de ultrapassagens miseráveis e corridas definidas na estratégia. Talvez lembre a temporada 2007, disputa emocionante em corridas chatas.

A transmissão foi um horror e parecia feita por um pessoal que nunca tinha trabalhado no assunto - o que foi colocar o Kvyat na disputa pelo segundo lugar, 40 segundos atrás e com uma parada a menos?

Além da provável disputa de equipes, a única coisa interessante dessa temporada é que os carros mais rápidos e difíceis poderão dar uma dimensão melhor do potencial dos pilotos. Ao contrário dos últimos anos em que víamos várias dobradinhas nos grids. Deu pra ver o quanto o Stroll foi mais lento que o Massa, o quanto o Palmer é pior que o Hulkenberg, a diferença do Alonso para o Vandoorne, do Grosjean para o Magnussen.

Diferença que eles terão que comprovar principalmente na largada. Em 2017 as largadas serão mais importante do que nunca, assim como os treinos. Bom para Vettel, Massa, Alonso, pilotos que teoricamente largam bem (bom dentro de suas expectativas - vitória, pódio e pontos), ruim para Hamilton que ano passado perdeu o título por largar mal em pelo menos cinco corridas.

Mas, enquanto espetáculo, a expectativa não é boa. Esta primeira corrida só satisfez um pouco porque andamos mendigando qualquer emoção nos últimos anos.

21/03/2017

Federer, novamente uma experiência religiosa

O falecido escritor norte-americano David Foster Wallace era um aficionado por tênis e provavelmente seu maior texto sobre o assunto foi o ensaio "Federer como experiência religiosa". Escrito em 2006, auge (será?) do suíço enquanto tenista, Wallace faz uma longa contextualização sobre a evolução do jogo, dos estilos de jogo, até chegar em Federer, um desses raros casos de esportistas sobre os quais as leis da física não se aplicam.

É notória a sua descrição sobre os momentos Federer, os golpes aplicados pelo suíço que deixam os espectadores impressionados, sobretudo, pela facilidade com a qual ele bateu na bola. No seu auge Federer era exatamente isso, um cara que fazia mágica sem fazer esforço. O ápice deve ter sido aquela final de US Open contra Lleyton Hewitt na qual Federer se sagrou campeão com um sobrenatural 6/0-7/6-6/0.

Claro que surgiu Rafael Nadal, incansável, canhoto com um forehand potente e que conseguia sempre levar o jogo ao limite, saindo das questões meramente técnico e táticas para entrar na esfera psicológica e física, onde o espanhol praticamente sempre venceu o suíço. Surgiu Novak Djokovic e seu estilo assassino. A idade chegou e de repente o Andrea Seppi, o Tommy Robredo e outros tenistas medianos se viam no direito de eliminar Roger Federer em um Grand Slam.

Cortamos para o meio da semana passada quando Roger Federer e Rafael Nadal se enfrentaram em uma precoce oitava de final de Indian Wells, o quinto slam. Se ao longo dos anos houve uma maneira especial de derrotar Federer, esta maneira era forçar o jogo na sua esquerda, forçar o seu backhand - regular, mas que não chegava a ser brilhante. Claro que mesmo sem ser o mesmo de outros tempos, Nadal ainda se lembrava disso e tentou forçar o jogo na esquerda do suíço, imaginando devoluções em slice sem peso, que proporcionariam trocas de bola mais longas e uma possibilidade maior de vitória para o espanhol.

No entanto, uma após outra, todas as bolas na esquerda de Federer foram convertidas em winners. E não qualquer winner, Federer desfilou backhands com ângulos improváveis e deixou Nadal completamente desnorteado e o espectador impressionado. Eram os momentos Federer de volta, assistir Roger Federer jogar tênis voltou a ser uma experiência religiosa.

Claro que o mundo ficou impressionado com as peças artísticas em forma de backhand que Roger Federer expôs ao mundo naquele dia e esse foi um dos principais assuntos da entrevistas pós-jogo. O suíço informou que a mudança se deve a escolha que ele fez em 2014, de jogar com uma raquete diferente e mais pesada, que lhe deu confiança para executar o golpe desta maneira.

Voltamos para 2013. Após o pior ano de sua carreira, na qual ficou de fora da final de Slams pela primeira vez após 10 anos, fechou o ano com um mísero título na grama de Halle e chegou a perder para Stakhovsky em Wimbledon e terminou o ano como número 6 do mundo, Federer inovou e mudou de raquete. Naquele momento, pareceu uma loucura, uma atitude desesperada de um tenista em fim de carreira. Mas, com o tempo ele mostrou que estava certo.

Houve um momento, não podemos negar, em que passamos a torcer contra Federer. Somos sempre simpáticos aos mais fracos e adoramos os fatos incríveis e lá por 2007, 2008, não era nada demais que o suíço vencesse um torneio. Suas derrotas sim eram notícia. Após ser superado por Nadal e Djokovic, ele parecia estar meio acabado e resolveu fazer uma mudança.

Demorou um tempo, acho que foi ali por 2015 quando nós víamos um Djokovic dominante e Roger Federer sendo a única pessoa capaz de enfrentá-lo em grande nível, que voltamos a amar o suíço. André Kfouri comentou sobre isso no Us Open daquele ano "Federer gera amor". Ali não estava mais o melhor tenista de todos os tempos apenas, estava um homem experiente, que já havia conquistado tudo, mas que depois de tudo ainda era um cara capaz de lutar e exibir sua arte.

Os títulos de Slam pareceram distantes diante do tênis jogado por Djokovic e por um 2016 repleto de contusões, mas ele voltou. Aos 35 anos, o maior tenista de todos os tempos não teve medo de se reinventar para voltar a vencer. Uma exemplo de superação e que, mesmo os gênios, até eles, podem evoluir no seu trabalho e ficarem ainda melhores.

17/03/2017

Dória, presidente?

Parafraseando Michael Moore, eu gostaria de estar errado, mas tenho a impressão de que João Dória será o próximo presidente do Brasil. Alguns fatores provocam esta minha impressão.

Algumas pesquisas recentes demonstram um cenário confuso para a eleição do ano que vem. O perfil desejado pela maior parte da população é o de alguém de fora do establishment político, ou outsider, mas que tenha alguma experiência de gestão. Uma figura que não existe, ou que ainda não existia.

Apesar de suas profundas raízes entre o meio político e de ter algum histórico no setor, João Dória passa a imagem de uma pessoa que veio de fora e, exatamente, se elegeu se vendendo como o gestor. Seu um ano e meio a frente da prefeitura de São Paulo podem colaborar ainda mais para reforçar seu perfil.

Há também a operação Lava Jato que está dragando praticamente todos os nomes de peso da política nacional, inclusive seus correligionários do PSDB. Geraldo Alckmin parecia ser o último colega da linha de frente do partido a resistir, mas ao que tudo indicia, será arrastado pela delação da Odebrecht, além de ser prejudicado pela sua falta de carisma.

Carisma que vem sobrando ao João Dória, que em 75 dias de gestão surfa em uma onda de popularidade, é o rei do Facebook, gera engajamento. Todas as suas pataquadas são recebidas positivamente.

Dória também pode unir boa parte do eleitorado por um objetivo em comum. Seu perfil mais a direita agregaria vários votos do centro e inclusive de Bolsonaro, para aqueles que não querem nada tão radical. Mesmo os votos um pouco mais a esquerda podem migrar para ele e se bobear até da esquerda, caso ele pegue um segundo turno contra um Bolsonaro da vida. Enfim, em um eventual segundo turno, ele seria um candidato com muita possibilidade de aglutinar votos difusos. O camaleão Ciro Gomes, Lula, Bolsonaro, Marina Silva, ninguém no momento tem esse poder tanto quanto Dória e as hashtags que ele carrega: gestor, trabalhador, não-político, o Novo.

Com suas ações populistas, João Dória também vai ao encontro de uma tendência mundial de eleger políticos populistas.

Enfim, João Dória parece ser o homem certo na hora certa para corresponder a expectativa de um eleitorado sem rumo depois de dois governos de baixa popularidade (Dilma e Temer).

Infelizmente.

13/03/2017

Sobre perseverança, desistência e como as coisas simplesmente acontecem

Na última quarta-feira, dia 08 de março de 2017, o Barcelona conseguiu uma das maiores façanhas futebolísticas de todos os tempos ao conseguir vencer o Paris Saint-Germain por 6x1 e reverter a derrota de 4x0 na partida de ida das oitavas de final da Champions League. O que impressionou ainda mais nesta vitória já impressionante, foram os três gols nos oito minutos finais, exterminando a folga no placar que o PSG tinha e a classificação escorreu pelas mãos dos franceses.

Claro que é preciso fazer um adendo nessa epopeia para falar da arbitragem, principalmente pelo quinto gol barcelonista, um pênalti inventado desses que chegam a ser constrangedores. Houve ainda outro gol de pênalti, marcação discutível e é justo dizer que se não fosse pela interferência do juiz, o PSG teria se classificado. Mas também é justo dizer que uma equipe que vence uma partida de ida por 4x0, não pode se colocar na dependência da arbitragem para conseguir a classificação. Ninguém pode sofrer seis gols num jogo.

Nas louvações à equipe catalã, uma das frases feitas mais destacadas foi a de que o Barcelona jamais desistiu. O técnico Luís Enrique foi elogiado por jamais desistir. A equipe estava morta aos 42 do segundo tempo quando Neymar acertou a magistral cobrança de falta e fez 4x1. Estava consolada com a eliminação quando o juiz inventou o pênalti e o placar registrou 5x1. Estava em um estado de loucura incontrolável quando Sergi Roberto se atirou na bola para conseguir a classificação.

***
No dia seguinte, quinte-feira, 09 de março de 2017, passei por uma das maiores emoções da minha vida. Reencontrei Gaia, cadelinha dos meus pais que havia fugido de casa exatamente um mês antes, no dia 09 de fevereiro, enquanto meus pais viajavam. Neste interminável um mês, passei por noites com dificuldade de dormir, em um dia caminhei por quatro horas seguidas rodando o bairro em busca dela, distribui panfletos em todas as casas do bairro, de carro passei pelo bairro e os bairro seguidos uma incontável quantidade de vezes.

Achei Gaia depois de um telefonema de um encanador de uma obra realizada a 500 metros de onde ela fugiu. Fui conferir a veracidade da informação e de fato encontrei o cachorro próximo aos escritórios do canteiro de obras. Com os olhos marejados, peguei Gaia a coloquei no carro e a levei de volta para casa. Foi o desfecho improvável de uma enorme mobilização, que contou com uma infinidade de posts compartilhados nas redes sociais por amigos, pessoas que eu nem conhecia.

Ao anunciar o fim da busca no Facebook, recebi diversas mensagens de parabéns. Pessoas também falavam sobre como era bom o fato de que eu e minha família não houvéssemos desistido dessa busca.

***
A importância de jamais desistir por vezes pode ser um pouco superestimada na sociedade. Grandes feitos que pareciam difíceis ou conquistados após uma longa espera sempre tem a perseverança destacada. Mas, muito provavelmente muitos desses feitos foram conquistados em momentos em que a expectativa já havia baixado.

Pelos relatos dos jogadores que participaram da partida em Barcelona, a equipe da casa já havia jogado a toalha ao levar o gol de Cavani, aos 18 minutos do segundo tempo e que obrigava o Barcelona a buscar outros três para conseguir a vitória. O time perdeu a cabeça, não criou nada de importante e em várias oportunidades esteve próximo de levar um segundo gol. O brilho individual de Neymar e o erro da arbitragem em um espaço de dois minutos e meio colocaram a equipe novamente na partida. Certamente os catalães haviam desistido durante 24 minutos. Mas, de repente a oportunidade apareceu e eles aproveitaram.

Minha situação também. Como disse, havia percorrido o bairro diversas vezes, patrocinado anúncios na internet, entrado em contato com moradores e comércios locais e todas as respostas que havia recebido eram de cachorros no máximo parecidos ao que eu procurava. Passado um mês, claramente eu já havia perdido a esperança, ou se a expressão for muito forte, já não esperava que Gaia iria aparecer um dia. Estaria atento às oportunidades, uma hora ela apareceu e pronto.

Muitas vezes as coisas simplesmente acontecem e não há muita explicação para isso, por mais que tentemos encontrar. Se Neymar houvesse cobrado a falta na barreira, se o encanador jamais houvesse visto o cartaz de procura-se em algum lugar próximo a obra, nada teria ocorrido, as capacidades de nunca desistir não seriam valorizadas. Não houve por assim dizer, uma equipe enlouquecida jogando bola na área por 32 minutos até conseguir o placar que queria. Eu não estive correndo 10 quilômetros toda manhã atrás do cachorro.

Para o bem e para o mal, as coisas simplesmente acontecem e muitas vezes não tem nenhuma explicação. Simplesmente acontecem.

08/03/2017

Top 8 - Músicas cantadas por mulheres

8 Joni Mitchell - In France They Kiss on Main Street
Canção que abre o meu disco favorito da Joni Mithcell, The Hissing of Summer Lawns, de 1975 - muito provavelmente o meu favorito por esta canção de abertura. Uma música sobre andar pelo centro de uma cidade desconhecida, conhecer os seus hábitos. "I said, take me to the dance, do you want to dance? I love to dance".Como resistir a pergunta irresistível feita por Mitchell?

7 Pato Fu - Canção pra você viver mais
Fernanda Takai extrai toda a sensibilidade de sua voz nesta música sobre a morte do seu pai. Fora do drama pessoal, a letra tem uma beleza universal, afinal, todo mundo gostaria de fazer uma canção para que alguém vivesse mais, fazer alguma coisa que está ao seu alcance para que algo dure mais.

6 Pretenders - Brass in Pocket
Música extremamente sensual de uma mulher que quer de alguma forma mostrar para o seu amante que não há ninguém no mundo que seja igual ela. Não sei quem era este homem, mas espero que ele tenha, pelo amor de deus, percebido que Chrissie Hynde é muito especial.

5 Aimee Mann - Save Me
Presente na cena final de Magnolia, é impossível não associá-la ao sorriso da personagem problemática enquanto Aimee canta "como um peter pan, como um superman você virá para me salvar".

4 Tulipa Ruiz - Às Vezes
Um romance completamente sem sentido, uma letra deliciosa e uma voz potente. Uma das melhores músicas brasileiras contemporâneas.

3 Afghan Whigs - My Curse
Marcy Mays não fazia parte da banda, mas emprestou sua voz para esta que é a maior canção dos Afghan Whigs. Uma letra apaixonada e doentia sobre um relacionamento idem. Todos ficamos com sangue em nossos tentes quando mordemos nossas línguas para falar, afinal, escravo é uma palavra que só uso para descrever o jeito especial como eu me sinto em relação a você.

2 Alabama Shakes - Be Mine
Birttany Howard tem 26 anos e é uma força da natureza, não há outra maneira de descrever a potência de sua voz e sua presença de palco. O disco de estreia do Alabama Shakes é uma coletânea de virtuose vocal e paixão transformada em música. Be Mine atualmente é minha favorita, desde que vi suas interpretações ao vivo. A confiança de Brittany é contagiante e no final ela parece perguntar ao público "be mine?" e acredito que ninguém responderia com um não.

1 The Delgados - Accused of Stealing
Emma Pollock tem uma voz cuja beleza transcende a existência humana, ou algo assim. Todos os seus atributos podem ser conferidos nesta canção que começa calma "deixe-me ser os ouvidos para todos os seus pecados. Deixe-me tirar vantagem das suas fantasias". Até explodir no refrão "fui acusada de roubar todas as suas linhas" e o instrumental final que faz com que a vontade seja a de repetir a música eternamente.

16/02/2017

Dória, o prefeito dos nossos tempos

João Dória foi o grande fenômeno das últimas eleições municipais. Ganhou a prefeitura de São Paulo no primeiro turno, em uma cidade que nunca antes havia ficado em casa em um dia de segundo turno. Empresário com múltiplas atuações, nenhuma delas claramente explicável, Dória ganhou a eleição aproveitando o enorme antipetismo da capital paulista e também o sentimento antipolítico que ganhou força neste Brasil pós-Lava Jato.

Nos seus 45 primeiros dias enquanto prefeito da maior cidade brasileira, Dória se notabilizou pela aposta no marketing, em ações de efeito imediato, pelas parcerias com empresas privadas, se envolveu em uma polêmica com grafiteiros e se fantasiou de gari, pedreiro e de tantas outras funções desempenhadas por servidores de uma Secretaria de Serviços Urbanos.

A imagem de Dória vestido de gari, em seu primeiro dia de mandato, ao lado de todos os seus secretários municipais, pode parecer extremamente ridícula para mim e para um eleitorado mais a esquerda. No entanto, as suas fotos geraram milhares de likes nas redes sociais, geraram engajamento como se diz e aumentaram sua popularidade e a imagem de João Trabalhador construída na campanha. Passado o primeiro mês de seu mandato, é possível dizer que João Dória é o modelo de prefeito do tempo em que vivemos e não duvido que seu jeito de ser se transforme em um novo paradigma de administração, para o bem e para o mal.

A revolução tecnológica mudou completamente o mundo, nos acostumamos com a instantaneidade das coisas e esperamos rapidez, agilidade para tudo. Além disso, vivemos uma época de impaciência com a classe política. Os anos de desmando, os atrasos, a falta de avanços claros e tudo mais contribuem para este descrédito. A população quer respostas rápidas para os seus problemas cotidianos, não quer esperar por soluções.

Ao se vestir de gari, ou de pedreiro, Dória dá essa espécie de resposta imediata a população. Mostra que está lá na rua, para tapar os buracos. Cria esse mutirão de respostas rápidas que é o Cidade Linda. Investe na melhora da aparência da cidade e rende um bom marketing.

O Facebook e as outras redes sociais, sabemos, são um espaço de divulgação da nossa vida que deu certo. Um meio de mostrar nossos sucessos, o lado bom da nossa existência, os momentos de felicidade e que devem ser compartilhados com todos. Tampando buracos, varrendo ruas fantasiado, Dória mostra as ações positivas de sua gestão e recebe os seus likes, corações, alcança as pessoas e gera engajamento.

Há de se discutir se um prefeito não tem mais coisas para fazer na vida e certamente tem. Os principais problemas de uma cidade não serão resolvidos rapidamente, mas como foi dito, a população não tem paciência para isso. Existem centenas de servidores contratados para fazer os serviços de manutenção da cidade e é certamente ridículo que o prefeito tenha que varrer ruas por dez segundos, diante de uma multidão televisiva. Mas, gera likes. Suas postagens no Facebook, sempre acompanhadas da #JoãoTrabalhador alcançam mais de 100 mil reações. Um digital influencer.

O estilo mãos na obra de Dória começa a ser replicado por vários administradores. Aqui em Cuiabá o prefeito Emanuel Pinheiro posa para as lentes tampando buracos, tirando lixo da rua ao lado de uma ONG ambiental. Imagino quantos prefeitos do Brasil, governadores, gestores, não estejam fazendo isso potencializados pelo efeito Dória. Não é uma solução profunda, mas gera likes, garante paz para a administração.

Além disso, a exposição das fotos em redes sociais gera um fato novo todo dia. Algo a ser debatido pelas pessoas para o bem e para o mal, mas ainda assim uma amenidade. Desvia o foco de problemas maiores e isso pode ser excelente para a criação de uma imagem. Ao realizar os atos imediatistas potencializados pelas mídias sociais, o não-político Dória pode inaugurar um paradigma administrativo para as futuras gerações que pretendam chegar ao poder e lá se manter. Enquanto se fantasia de gari, o esgoto pode correr a céu aberto na periferia que o prefeito está no centro das atenções.

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Outra questão interessante da gestão Dória é relacionada as parcerias para a manutenção da cidade. João Dória ficou famoso e com fama de bom empresário, graças a sua capacidade de vender negócios, incluindo o seu próprio negócio. Publica revistas que ninguém lê, promove eventos que quase ninguém sabe que existem, mas que se tornam extremamente importante para aqueles que participam. Participar de um evento do grupo Lide significa a possibilidade de conseguir grandes negócios. Participar destas reuniões é uma garantia para as possíveis perdas decorrentes de sua ausência.

Até agora empresas automotivas já forneceram veículos para atuar na fiscalização da marginal Tietê. A Suvinil forneceu tinta para pintar um monumento. A ponte estaiada foi pintada e reformada com a ajuda de um pool de empresas que bancou toda a empreitada. Outra empresa forneceu novos banheiros públicos e por aí vai.

Sempre há uma questão ideológica em toda a parceria público-privada, por menor que seja. Há quem seja absolutamente contra, quem não veja problemas e quem acredita que é preciso alguma forma de controle, para que a relação seja estritamente profissional, sem que gere qualquer tipo de benefícios indevidos para qualquer lado. Neste caso, a parceria não envolve nenhum pagamento financeiro do Estado para as empresas. Os serviços são constatados nos balanços como doações. Mas, o que paga é o marketing.

Questionado, Dória afirmou que estimula a cidadania das empresas. Que o que paga os investimentos é o sentimento de pertencer a algo, de fazer o bem, algo que ele quer resgatar na população em geral. Mas, a cada nova parceria, a cada nova entrega sem custos ao erário público, o prefeito anuncia seu feito nas redes socais. Cita a entrega, o nome da empresa responsável e destaca a eficiência do uso dos recursos públicos e como aquilo será bom para todos.

Um comercial de 30 segundos no intervalo do Jornal Nacional custa mais de R$ 300 mil. Em outras emissoras o valor também pode chegar a R$ 200 mil. Uma campanha da Mitsubishi, por exemplo, com uma semana de exibição comercial em três emissoras pode chegar facilmente a R$ 10 milhões. A doação de meia dúzia de veículos, com direito a citação da empresa pelo prefeito da maior cidade do país supera o investimento feito em publicidade. Além de tudo, a empresa ainda fica associada com uma boa causa. O investimento publicitário vai ajudando a administrar a cidade.

Lógico que poucos prefeitos teriam chance de utilizar essa espécie de extorsão comercial misturada ao investimento publicitário. Acredito que só o prefeito do Rio de Janeiro, no máximo uns cinco governadores, não creio que surtiria efeito para um presidente. Em Cuiabá, por exemplo, que empresa lucraria doando R$ 1 milhão para reformar uma ponte? Não há retorno suficiente com este investimento.
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Com sua ampla divulgação nas redes sociais, tendência ao cosplay, e utilização insana do marketing, acredito que Dória é o prefeito dos nossos tempos, não que isso seja algo muito bom, depende da sua avaliação sobre que tempos são esses. Se o seu jeito de ser conseguir trazer alguns resultados, ou pelo menos omitir a falta deles, abafar as crises com selfies, não tenho dúvida que nas próximas eleições teremos diversos protótipos de Dória disputando eleições executivas no país. E aí, haja paciência dos membros de suas equipes para acordar de madrugada para fazer mutirões de limpeza.

27/01/2017

Aberto Retrô da Austrália

No começo, o Australian Open pareceu um tanto quanto decepcionante. Afinal, o fim do último ano deu a indicar que adentraríamos finalmente na época Murray/Djokovic de rivalidade no tênis e os primeiros dias em Melbourne derrubaram tudo. Um apagado Djokovic foi eliminado por Istomin logo na segunda rodada e até agora não dá pra entender como Murray foi atropelado pelo saque-voleio de Mischa Zverev.

Na chave feminina, em menor grau, a situação era parecida. Angelique Kerber a nova número 1 fez um campeonato apagado e foi eliminada sem brilho. Halep, Muguruza, nenhuma das candidatas a novas estrelas do circuito conseguiu ir longe. Apenas a interminável Serena Williams seguia em frente. Demorou um tempo até percebermos que este Australian Open foi uma espécie de janela temporal para o passado. Que era um evento destino a nostalgia dos grandes confrontos.

Foi apenas quando Venus Williams, navegando por uma chave relativamente tranquila  se colocou na semifinal que todos percebemos que o destino poderia nos brindar com um confronto entre as irmãs Williams na final. Não havia como torcer contra essa possibilidade e ela aconteceu.

Venus é apenas um ano mais velha do que Serena, mas essa diferença jogou a favor da primogênita no começo da carreira das duas. Duas negras dominando o circuito do tênis não deixava de ser uma novidade e os primeiros confrontos entre as duas ganharam grande apelo midiático. Venus dominou a irmã mais nova nos começo, apesar de Serena ter conquistado um Grand Slam primeiro. Venus venceu os três primeiros confrontos em grandes torneios, incluindo a primeira final entre as duas, US Open 2001. Serena venceu Roland Garros no ano seguinte.

Era o começo da rivalidade, antes que todos pudessemos perceber que Venus era "apenas" uma grande tenista, enquanto Serena era um gênio do esporte que iria dominar o circuito por um período impensável. Neste sábado as duas se enfrentarão pela 28ª vez, 15ª em um Grand Slam, nona vez em uma final desses torneios. Isso não acontecia desde 2009 - oito anos - e pode ser que seja a última vez. Vamos aproveitar a última vez.

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Entre os homens, apenas quando as quartas-de-final se confirmaram é que nós percebemos o que o destino estava nos reservando. Foi quando Federer superou Berdych e Nishikori e estava nas quartas-de-final. Quando Nadal também chegou lá que percebemos que o maior clássico do tênis poderia ser disputado em uma final.

E aconteceu. Depois de duas semifinais muito disputadas, ele conseguiram chegar lá. Depois de sete anos Federer volta a uma final na Austrália. Nadal, depois de três e três anos sem disputar nenhum título de Grand Slam.

A rivalidade Federer/Nadal redefiniu o tênis a partir da metade da década passada. O suíço surgiu primeiro e se colocou como candidato ao posto de maior tenista da história. Dominou adversários de uma maneira jamais vista, até que Rafael Nadal surgiu em 2004. Primeiro o espanhol dominou os torneios no saibro e lentamente foi aumentando sua resistência na grama. O resultado foram os confrontos épicos nas finais de Wimbledon em 2007, vencida por Federer, e em 2008, vencida por Nadal naquele que é talvez o maior jogo de tênis da história. Apenas quem viu aquela partida ao vivo se lembra de como a partida foi impressionante em suas quase cinco horas de duração.

A rivalidade aumentou a exposição mundial do esporte, que ganhou uma audiência jamais vista. Atenção multiplicada com as subsequentes aparições de Djokovic e Murray, que levaram o esporte para um nível estratosférico de disputa.

Será o 35º confronto entre os dois, o 12º em Grand Slams, a nona final. Nadal tem vantagem de 6x2 nesse tipo de confronto, que não acontecia desde 2011. Seis anos e agora com um sendo o cabeça de chave nº 9 e o outro o nº 17 (em todos os confrontos anteriores, um dos dois sempre era o nº 1 do mundo).

Pode ser a última vez, é provável que seja a última vez. Vamos aproveitar também. Não é qualquer dia que você vê finais com os maiores ganhadores de Slams masculinos e femininos enfrentando seus maiores rivais.

(Para completar o momento retrô, os irmãos Bryan também voltam a uma final de Grand Slam após três anos).

26/01/2017

Vivendo na Pós-Verdade

Tenho que dizer que estou obcecado com o termo "pós-verdade". Desde que a pós-verdade se popularizou, ao ser escolhida palavra do ano pelo dicionário Oxford, não consigo parar de pensar sobre suas implicações para o mundo atual e para a minha profissão.

Colabora para isso que Donald Trump seja o presidente dos Estados Unidos, reforçando toda a força e significância da palavra. Pode parecer em um primeiro momento que seja um daqueles termos empostados que não significam nada, mas tenho cada vez mais tempo que vivemos na era da pós-verdade.

"Um adjetivo que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”. Esta seria a pós-verdade. Quando a versão é mais importante do que o fato.

Estão aí as redes sociais, o Facebook e o Whatsapp, com as pessoas compartilhando centenas de informações falsas, baseadas na falha crença de "se está na internet, deve ser verdade". Sites e mais sites especializados em inventar informações, mas informações que mantém uma certa conexão com a realidade, que não seriam estranhas se fossem verdade, mas que realmente não são verdade. E essas informações viralizam e acabam se transformando em verdade.

Justamente por manter essa conexão distante com a realidade é que essas notícias falsas são tão perigosas. Elas estão aí para afirmar as nossas suspeitas, as nossas intuições, para confirmar que nós realmente estávamos certos em nossas convicções. Uma confirmação baseada na inverdade, uma ratificação inexistente, mas verossímil. Uma bomba para extremismos, ignorância e intolerância.

Penso na minha profissão, no jornalismo neste cenário. Claro que não podemos negar que a profissão tem uma boa quantidade de pessoas desprezíveis, principalmente entre aqueles que são donos de veículos de comunicação. Mas não acredito que a proporção seja diferente da quantidade de pessoas desprezíveis em tantas outras profissões, principalmente entre aquelas que são empregadoras.

Mas é fato já que o jornalismo de verdade está perdendo a disputa da disseminação para o jornalismo pós-verdade. Afinal, os fatos muitas vezes podem nos desagradar e ir contra o que pensamos. Mas, lá na pós-verdade poderemos achar uma quantidade de palavras para massagear o nosso egocentrismo.

Tenho total convicção que as próximas eleições brasileiras repetirão o fenômeno norte-americano e os candidatos que dominarem melhor a rede de disseminação de notícias pós-verídicas terá uma grande chance de se sagrar vencedor.

Os boatos sempre existiram, os panfletos apócrifos, os jornais comprados para reproduzir mentiras. Mas o poder de alcance nunca foi igual ao que vemos agora em um Facebook da vida. Isso tudo me preocupa, isso tudo ocupa boa parte dos meus pensamentos recentes.