31/12/2017

2017 - o ano que parecia que não ia existir

Para mim, 2017 parecia ser o ano que nunca iria existir. Falávamos tanto sobre a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016, que parecia que quando esses grandes eventos terminassem, o mundo iria acabar junto. Às vezes, sem perceber me pego chamando 2017 de 2018.

Completei 30 anos em 2017 e não vi muita diferença. Finalmente tirei do papel uma viagem que planejava faz algum tempo e poderia aqui contar em detalhes as maravilhas da torta de maçã de Amsterdã, ou sobre toda a carga histórica que senti ao ver o Muro de Berlim, a estação de Grunewald ou a Casa de Anne Frank. De como é impressionante ver as pinturas de Van Gogh (o maior perdedor da história) e Monet, ou como a Mona Lisa é superestimada. Ou ainda sobre meu amor por Barcelona, mesmo tendo sido pela primeira e pela segunda vez na minha vida (com uma diferença de apenas dois dias) atingido por fezes de pombos enquanto eu estava lá.

O ano foi terrível no meu trabalho, com um ambiente completamente destruído pela presença de um líder nocivo e uma trama que me fez chegar a acordar no dia mais difícil do ano e ser intimado a depor no Ministério Público.

Mas, sim, se eu for me lembrar de 2017 será pelo dia em que a Gaia fugiu da casa dos meus pais e pelas buscas nos 30 dias seguintes, pelas inúmeras caminhadas pelas ruas do Jardim das Palmeiras, em meio as memórias de infância, os pensamentos negativos e alguns momentos de esperança. Aquele 09 de março quando a encontrei em um canteiro de obras foi desses momentos inexplicáveis que parecem fazer com que toda a aleatoriedade do planeta tenha algum sentido.

(na foto um gato que apareceu aqui em casa e achamos que estava perdido. No dia seguinte, quando ainda pensávamos no que iríamos fazer com ele, outro gato apareceu no quintal. E então, no dia seguinte o primeiro gato foi levado pela mãe, que voltou novamente ao longo do dia para buscar o segundo. Depois disso, passamos alguns dias como uma espécie de creche felina, em que gatos apareciam e sumiam do quintal, sem que nunca víssemos a responsável por isso. Se eles acabassem ficando por aqui, decidimos que seriam chamados de José Arcádio e Aureliano Buendía ou então de Amaranta Úrsula)

13/12/2017

Ta lá o corpo estendido no chão

Saio para correr de manhã e na primeira subida, vejo que ocorreu um acidente no primeiro cruzamento. Há um Honda Civic parado bem no meio do cruzamento, a ponta do carro invadindo a pista, um senhor mexe no carro, uma mulher de calça de ginástica e tênis está em pé na calçada utilizando chapéu, uma criança de sete anos sentada na posição de buda no chão da calçada, um homem sentado no asfalto, encostado em sua moto.

No chão há uma peça que parece um vidro lateral estourado e duas peças que não consigo identificar, mas que se parecem com apêndices da motocicleta que se perderam durante o impacto.

Faço o contorno lá em cima, começo a descer e vejo novamente a cena, que permanece aparentemente imóvel, exceção feita a criança, que parece sentada virada para outro lado e a ao homem que já não está no carro, mas parado na calçada olhando tudo aquilo.

Enquanto desço, faço uma espécie de reconstituição mental do lance e penso que o carro avançou o cruzamento sem perceber a aproximação da moto, que acabou se chocando de alguma maneira pouco provável com o vidro da porta do motorista que se espatifou, tal qual o motoqueiro, que agora permanece sobre o asfalto, a camisa levantada, deixando as costas livres. Observo e não consigo perceber nenhum machucado grave.

Observo que há um carro, um Vectra, parado um pouco a frente, provavelmente dirigido pela mulher de calça legging que veio prestar socorro ao homem que se envolveu no acidente, ou talvez ao próprio homem que veio prestar socorro a mulher que não viu o motociclista. A criança parece extremamente tranquila.

Faço a curva a direita e entro em outra rua e enquanto vou me distanciando do local do crime, começo a pensar que o acidente não foi nada de grave, que o motociclista está aparentemente bem e que deveriam retirá-lo dali e levá-lo para um hospital, já que não me parece que ele tem uma fratura ou qualquer lesão que precise ser estabilizada antes do transporte, que não há razão para sobrecarregar o Samu nessa manhã de quarta-feira, que ainda bem que não há muito trânsito no local, caso o contrário o congestionamento estaria infernal.

Faço o contorno no fim da rua e começo a retornar em direção ao acidente. Quando chego perto, percebo que há um triângulo sinalizando o acidente, ainda antes do cruzamento. O triângulo me parece tão minúsculo e insignificante, incapaz de sinalizar qualquer coisa. Todos permanecem no local e eu só consigo pensar que a situação está se prolongando muito ali, já se passaram quase 20 minutos desde que eu sai de casa.

Faço a curva para retornar ao meu local de partida e percebo que há um novo carro estacionado, logo atrás do Vectra e que esse é um enorme furgão da Funerária Santa Rita e então eu tento ver se meus olhos não estão vendo menos do que deveriam ver, que será que é possível que há um morto no local e eu não fui capaz de ver? Estou de costas para o acidente agora e só me lembro do homem resignado, da mulher de chapéu tentando demonstrar tranquilidade, da criança impávida sentada no chão e do motociclista sentado no asfalto, sem nenhuma expressão de dor ou de desespero. Não há gente amontoada em volta do cadáver ou qualquer sinal da comoção que aparece em um acidente de trânsito. Todos estão tão tranquilos que chego a cogitar a hipótese de que marcaram apenas um piquenique no cruzamento.

Faço novo contorno e início mais uma volta, olhando para o carro funerário e as pessoas que permanecem no cenário do acidente esperando o inesperado. Observo que há um novo homem no local, segurando um capacete, que não sei se é o do motociclista, ou se é dele próprio, ou se é da vítima oculta deste pequeno incidente de trágicas proporções. Observo o carro funerário e vejo que ele é o do cerimonial da funerária, penso se haverá alguma cerimônia fúnebre nesse local ou se esse é procedimento padrão para casos assim.

Começo a subir novamente com esse mistério preso na minha cabeça e depois do retorno, volto a descer buscando alguma relação, trabalhando como perito involuntário do transtorno. Carros e principalmente motos passam devagar ao lado do acidentado. A mulher está de pé e conversa com o homem que segura o capacete, enquanto o outro homem segue parado na calçado, ao lado da criança que agora também está em pé observando tudo. Só o motociclista segue sentado no chão. Não há sangue espalhado, confirmo.

Volto para casa e uma hora depois saio para o trabalho. O carro não está lá, nem o outro carro, muito menos o funerário. A moto foi retirada, a criança voltou para casa, não há ninguém sentado no chão, onde restam apenas alguns estilhaços de vidro. O corpo já foi retirado.

06/12/2017

Pesquisa Datafolha

Fui olhar a planilha da última pesquisa do Datafolha para a eleição presidencial do ano que vem, sempre naquela tentativa de entender na segmentação o que os dados gerais omitem.

Certo que a situação é muito incerta, uma vez que o líder das pesquisas pode ser impedido judicialmente de concorrer e muitos dos cenários não traziam Marina Silva, que decidiu anunciou oficialmente ser candidata depois que a pesquisa já havia sido divulgada. Além disso, há uma série de nomes que é difícil acreditar que realmente irão para a disputa, como Álvaro Dias, Manuela D'Ávila, Guilherme Boulos e o Paulo Rabello de Castro.

Impressiona nos dados como realmente Lula é uma fortaleza no nordeste. Votação expressiva, tão expressiva, que os cenários sem ele trazem 40% de votos branco, nulos o indecisos na região. Todos candidatos são mais desconhecidos no nordeste do que nas outras regiões, exceção feita ao Lula: 100% da população local o conhece. As simulações de segundo turno são todas um massacre na região. Em compensação, no sudeste, exatamente metade dos eleitores não votariam nele em jeito nenhum.

Outro dado interessante é que 29% dos eleitores dizem que certamente votariam em um candidato apoiado por Lula. Isso ajuda a explicar o desejo de Ciro Gomes de colar no petista e quem sabe conseguir herdar todo esse espólio.

O segundo colocado Bolsonaro chama a atenção por crescer na intenção de votos entre os eleitores com nível superior e entre os mais ricos. No entanto, sua rejeição também é grande nesses setores: 41% dos eleitores com nível superior não votariam nele de jeito nenhum. 45% dos que ganham mais de 10 salários mínimos também não. O dado pode ser considerado normal, uma vez que a rejeição a todos os nomes aumentam nesses segmentos, mas o do ex-militar tem um índice um pouco maior (desconsiderando Lula, é claro).

Outro dado: Bolsonaro tem 23% da preferência do eleitorado masculino e 13% do feminino. Maior discrepância entre todos.

Marina Silva tem um rejeição maior entre os mais velhos. Isso não chegaria a assustar porque todos os candidatos, no fundo, tem uma rejeição maior entre os mais velhos. Sinal de desconfiança?

A única exceção é, por incrível que pareça, Michel Temer. Se a rejeição ao atual presidente é de 76% entre o eleitorado de 16 a 24 anos, entre aqueles com mais de 60 anos cai para "apenas" 58%. Sinal de que a maior rejeição ao seu mandato resulta da reforma da previdência e que o público mais idoso se preocupa menos com isso? Ou seria identificação?

Aliás, 87% dos eleitores não votariam em um candidato apoiado por Michel Temer. Como entender então a vontade de Temer e seus aliados de ter um candidato que defende o legado (?) do seu governo (Henrique Meireles)?

28/11/2017

O Instant Karma de Rodrigo

O quanto o resultado de uma ação é importante para julgarmos se ela foi correta ou não? Penso nisso lembrando do zagueiro Rodrigo, que foi expulso de campo no domingo depois de ter dado uma dedada no ânus do atacante argentino Trellez do Vitória. Sua expulsão mudou completamente o rumo da partida, uma vez que o seu time, a Ponte Preta, levou a virada após abrir 2x0 em 15 minutos de jogos e acabou rebaixada para a segunda divisão, revoltando a torcida que quebrou o estádio.

Rodrigo foi devidamente massacrado e demonizado por seu gesto obsceno e violento. De fato, não dá pra defender um sujeito que resolve enfiar o dedo na cavidade anal alheia e não cabe nenhum discurso de defesa sobre a provocação no futebol, malandragem ou qualquer coisa do tipo. Nenhuma violência é justificável, não importa o seu objetivo.

No entanto, é extremamente fácil massacrar o zagueiro, uma vez que sua atitude foi corretamente observada e julgada pelo árbitro, resultando em sua expulsão e na consequente derrota e rebaixamento do seu time. Seu gesto deplorável teve uma consequência imediata e negativa. É simples falar que ele fez merda.

Penso no entanto, que as coisas poderiam não ter acontecido desta maneira. O juiz poderia simplesmente não ter visto o ato, Rodrigo poderia ter continuado em campo e a Ponte Preta poderia ter vencido a partida sem as dificuldades de jogar com um jogador a menos e a essa altura é o Vitória que poderia estar praticamente rebaixado. A cena poderia ter ficado esquecida, ou ser resgatada posteriormente e talvez virasse motivo de risos por parte de nossa crescente imprensa esportiva zoeira.

Pior ainda, o argentino do Vitória é que poderia ter reagido violentamente à violação e ter sido expulso, facilitando o trabalho da Ponte Preta (como não lembrar do caso Gonzalo Jara/Cavani na Copa América de dois anos atrás?). Aí então, não tenho dúvida de que os Alês Oliveiras da vida estariam rindo do argentino, os memes estariam ganhando a internet humilhando Trellez com a dedada e a derrota. Alguém tem dúvida que isso aconteceria?

Por isso eu me pergunto se essa carma instantâneo que se voltou contra Rodrigo foi importante para a unanimidade de seu massacre virtual.

27/11/2017

Já podemos falar de Felipe Massa

Ao que tudo indica, ontem a carreira de Felipe Massa chegou ao fim com a 10ª colocação no GP de Abu Dhabi. Acredito que é um bom momento para se encerrar a carreira, quando ele mostra que ainda teria mais algum gás para queimar, mas que não era tanto gás assim. Sai de cena antes de virar uma piada ,e ao que parece, mais tranquilo do que os comentaristas do SporTV com a situação. Felipe já parecia desmotivado nesse ano e sem fazer muita coisa de especial em boa parte da temporada.

Uma boa aposentadoria, porquê ele definitivamente não tinha muito mais o que fazer na carreira. Depois de um surpreendente ressurgimento em 2014, a Williams vem em uma espiral de decadência e é um tanto quanto melancólico que um piloto passe os últimos dias de sua carreira se arrastando no fim do grid, que saia de cena como um Jarno Trulli.

A nova aposentadoria de Felipe abre espaço para as homenagens e para os massacres. Pelo lado dos massacres, há a acusação de que ele não foi o que se esperava que poderia ser. Curiosa essa afirmação. Pelo menos para mim, Felipe Massa foi muito mais do que aparentava que poderia ser.

Quando foi anunciado para correr pela Sauber em 2002, ele me parecia mais um Enrique Bernoldi ou Luciano Burti, daqueles brasileiros que chegam muita expectativa - por mais que ele tenha dominado alguns campeonatos de base medianos nos anos anteriores. Havia muito mais expectativa com Antonio Pizzonia, Ricardo Zonta, mesmo Bruno Junqueira e anos recentes até Lucas Di Grassi. Quando Felipe foi confirmado para correr pela Ferrari em 2006, parecia uma loucura. Ele não parecia ter feito nado demais em três anos de Sauber.

Começo mediano na Ferrari, mas em pouco tempo ele provou que poderia sim ser um piloto de ponta. Terminou 2006 muito bem, teve um 2007 errático com alguns anos de ponta e fez uma grande temporada em 2008. Poderia ter sido campeão se a mangueira não tivesse ficado presa no seu carro na Malásia, se o seu motor não estourasse na antepenúltima volta na Hungria, se a chuva tivesse apertado um minuto depois em Interlagos.

Aquela tarde em Interlagos: o primeiro momento definitivo de sua carreira. Ele quase foi campeão. Um improvável campeão, após uma temporada em que Hamilton foi mais brilhante. Massa se mostrou um piloto com uma incrível capacidade de dominar corridas a partir do momento em que assumia a liderança, mas Hamilton teve mais momentos de superação. Era quase impossível que ele perdesse o título, mas uma corrida louca o deixou na corda bamba o tempo inteiro e quanto Sebastian Vettel o ultrapassou a quatro voltas do fim, Interlagos vivenciou seis ou sete minutos de loucura. Massa cruzou a linha como campeão, mas Glock patinou no fim e Hamilton conseguiu o título por um ponto.

O segundo momento definitivo de sua carreira foi um pouco depois, em 2009. A Ferrari fez um carro sofrível no começo do ano, mas começou a se recuperar. Felipe poderia ter brigado por algumas vitórias no fim da temporada, mas uma mola atingiu sua cabeça na Hungria e ele quase morreu. Voltou no começo da temporada seguinte, mas de fato nunca mais foi o mesmo.

Para piorar, ganhou o destrutivo Fernando Alonso como companheiro e foi engolido. Teve brilhos esporádicos nos anos seguintes sendo que o que seria o maior deles acabou se transformando em sua vergonha maior no terceiro momento definitivo de sua carreira: Fernando is Faster than you. A partir de então, ele ganhou na testa o adesivo de fracassado e suas avaliações passaram a ser muito mais negativas.

Tentativas de renascimento como na segunda metade da temporada de 2012, de 2014, pódio na Itália em 2015. Parece que depois daquela mola e principalmente depois da mensagem de rádio, Felipe viveu um longo crepúsculo na carreira. Termina suas 15 temporadas na Fórmula 1 com um retrospecto negativo na comparação com os companheiros de equipe: apenas três vezes os superou ao longo de uma temporada. (Em 2005 contra Villeneuve, em 2008 contra Raikkonen e agora em 2017 contra Stroll).

Mas mesmo assim, mesmo diante disso, tenho que dizer: Felipe Massa fez mais do que eu esperava. Sua carreira foi mais grandiosa do que eu imaginava que poderia ser.

02/11/2017

Vencedores do fundo do Grid

A estatística me apareceu no Twitter após a vitória de Lewis Hamilton no Grande Prêmio de Cingapura. Aquela era a segunda vez que o britânico vencia uma corrida sem largar nas duas primeiras filas. O dado me pareceu impressionante. Pensei "só isso?". Fui atrás e confirmei a informação: a única outra vez em que Hamilton venceu uma corrida nessa condição foi na Inglaterra em 2014, quando ele largou em 6º lugar.

As vitórias de pilotos que vem do fundo do Grid sempre nos marcam e aparecem como uma prova da qualidade do piloto. Mas, uma olhada nos dados mostra que que essas vitórias são justamente marcantes porque são raras. Descontando as 11 edições das 500 milhas de Indianápolis que foram disputadas dentro do Mundial de F1 (por suas particularidades), até hoje foram disputadas 963 corridas no campeonato. Em 148 oportunidades o vencedor veio de trás das duas primeiras filas, o que dá uma vez a cada 6,5 corridas. Acontece duas, ou três vezes por temporada.

Até hoje 59 pilotos conseguiram vitórias assim. Juan Manuel Fangio, Sebastian Vettel, Damon Hill e Nico Rosberg, para citar alguns campeões mundiais, nunca venceram corridas quando largaram abaixo do 4º lugar. No total, 27 pilotos conseguiram a façanha apenas uma vez, incluindo Ayrton Senna - sua solitária vitória partido do 5º lugar veio nos Estados Unidos em 1990.

Eis uma lista dos pilotos que mais venceram saindo depois da segunda fila:
1) Alain Prost - 11 vezes
2) Nelson Piquet - 10 vezes
3) Michael Schumacher, Kimi Raikkonen e Fernando Alonso - 6 vezes
4) Denny Hulme e Niki Lauda - 5 vezes
5) Emerson Fittipaldi, Keke Rosberg, David Coulthard, Ronnie Peterson, Jim Clark, Jackie Stewart e John Watson - 4 vezes
6) Daniel Ricciardo, René Arnoux, Jacques Laffite, Jody Scheckter, Nigel Mansell, Jenson Button, Johnny Herbert e Bruce McLaren - 3 vezes
7) Thierry Boutsen, Lewis Hamilton, Eddie Irvine, Jack Brabham, Stirling Moss, Michele Alboreto, Jochen Rindt, Maurice Trintignant, Carlos Reutemann e Rubens Barrichello - 2 vezes
8) Jean Alesi, Tony Brooks, François Cevert, Patrick Depailler, Heinz-Harald Frentzen, Mika Hakkinen, Ayrton Senna, Patrick Tambay, Peter Collins, Dan Gurney, Graham Hill, Alessandro Nannini, José Carlos Pace, Pedro Rodríguez, Lorenzo Bandini, Elio de Angelis, Luigi Fagiolli, Gilles Villeneuve, Vittorio Brambilla, Giancarlo Fisichella, Innes Ireland, John Surtees, Peter Gethin, Jochen Mass, Giancarlo Baghetti, Alan Jones e Olivier Panis - 1 vez cada.

Se descontarmos as vezes em que os pilotos largaram na terceira fila - o que ainda é considerado uma boa posição de largada, o número cai ainda mais. Apenas 69 vezes - uma vez a cada 14 corridas - um piloto largando a partir do 7º lugar venceu a corrida. Apenas 42 pilotos conseguiram vitórias assim. Eis a lista:

1) Kimi Raikkonen - 5 vezes
2) Fernando Alonso, Niki Lauda, Ronnie Peterson, Jim Clark, John Watson e Jody Scheckter - 3 vezes
3) Nelson Piquet, Michael Schumacher, Denny Hulme, Emerson Fittipaldi, Keke Rosberg, David Coulthard, Jacques Laffite, Jenson Button, Johhny Herbert, Bruce McLaren e Carlos Reutemann - 2 vezes.
4) Alain Prost, Jackie Stewart, Daniel Ricciardo, René Arnoux, Nigel Mansell, Jack Brabham, Stirling Moss, Michele Alboreto, Jochen Rindt, Maurice Trintignant, Rubens Barrichello, Lorenzo Bandini, Elio de Angelis, Luigi Fagiolli, Gilles Villeneuve, Vittorio Brambilla, Giancarlo Fisichella, Innes Ireland, John Surtees, Peter Gethin, Jochen Mass, Giancarlo Baghetti, Alan Jones e Olivier Panis - 1 vez.

Largando a partir da quinta fila, o número de vitórias cai para 35 e o de pilotos para 28. Os únicos a repetir a façanha mais de uma vez:
1) John Watson - 3 vezes
2) Kimi Raikkonen, Fernando Alonso, Niki Lauda, Jody Scheckter e Bruce McLaren - 2 vezes.

John Watson e Fernando Alonso são os únicos 2 a vencerem corridas mais de uma vez largando a partir da 6ª fila e o norte-irlandês é o único a vencer 2 corridas largando depois do 17º lugar, além de ter a vitória partindo mais de trás do grid na história: largou em 22º lugar nos EUA Oeste em 1983.

Considerando que vitórias partindo do fim do grid ficaram ainda mais difíceis nos últimos anos, devido a maior durabilidade dos veículos, dificultando o ganho de posições com quebras alheias, essas são as únicas vitórias de pilotos partindo a partir do 5º lugar no grid de 2000 para cá:

1) Rubens Barrichello na Alemanha em 2000, largou em 18º
2) David Coulthard no Brasil em 2001, largou em 5º
3) David Coulthard na Áustria em 2001 largou em 7º
4) David Coulthard na Austrália em 2003 largou em 11º
5) Kimi Raikkonen na Malásia em 2003 largou em 7º
6) Giancarlo Fisichella no Brasil em 2003 largou em 8º
7) Michael Schumacher nos EUA em 2003 largou em 7º
8) Michael Schumacher no Canadá em 2004 largou em 6º
9) Kimi Raikkonen na Bélgica em 2004 largou em 10º
10) Fernando Alonso na Europa em 2005 largou em 6º
11) Kimi Raikkonen no Japão em 2005 largou em 17º
12) Kimi Raikkonen no Canadá em 2007 largou em 7º
13) Michael Schumacher nos EUA em 2005 largou em 5º
14) Jenson Button na Hungria em 2006 largou em 14º
15) Michael Schumacher na China em 2006 largou em 6º
16) Fernando Alonso no Japão em 2006 largou em 5º
17) Fernando Alonso em Cingapura em 2008 largou em 15º
18) Kimi Raikkonen na Bélgica em 2009 largou em 6º
19) Rubens Barrichello na Itália em 2009 largou em 5º
20) Jenson Button na China em 2010 largou em 5º
21) Jenson Button no Canadá em 2011 largou em 7º
22) Fernando Alonso na Malásia em 2012 largou em 8º
23) Fernando Alonso na Europa em 2012 largou em 11º
24) Kimi Raikkonen na Austrália em 2013 largou em 7º
25) Fernando Alonso na Espanha em 2013 largou em 5º
26) Daniel Ricciardo no Canadá em 2014 largou em 6º
27) Lewis Hamilton na Inglaterra em 2014 largou em 6º
28) Daniel Ricciardo na Bélgica em 2014 largou em 5º
29) Daniel Ricciardo no Azerbaijão em 2017 largou em 10º
30) Lewis Hamilton em Cingapura em 2017 largou em 5º

Exatas 30 vezes em 327 corridas. Uma vez a cada mais ou menos 10 disputas. Se formos descontar as corridas com múltiplos incidentes (coloquei em itálico as corridas com bandeiras amarelas e/ou chuva. Pode ser meio injusto em alguns casos, mas sobram 8 vitórias, as mais distantes duas vezes de Kimi Raikkonen partindo do 7º lugar), então, percebemos que é muito difícil vencer quando não se larga nas quatro primeiras posições. A partir do sétimo lugar então, 16 vitórias, quase impossível.

31/10/2017

Menino Lobo

Vou dizer que eu sei até a data, porque minha memória costuma a associar fatos cotidianos com eventos esportivos. Portanto, foi na madrugada do sábado, 05 de março, para o domingo, 06 de março de 2005. Nesse dia era disputado o Grande Prêmio da Austrália de Fórmula 1, prova que abria aquela temporada. Temporada de mudança, com a expectativa de que a Renault havia construído um bom carro e seria capaz de terminar com a hegemonia da Ferrari. Expectativa que se confirmou naquele dia com a vitória do improvável Giancarlo Fisichella e no fim do ano com o título de Fernando Alonso.

Vivia eu também uma época de mudanças, já que mais ou menos um mês depois eu começaria a faculdade. No entanto, devido aos ajustes de semestre da UFMT, nesse momento eu era um desocupado meio perdido na vida. Mas, enfim, foi nesse dia, nessa madrugada que a Kinu atacou o Mogli.

Kinu era uma boxer que minha tia adquiriu uns quatro anos antes e que sempre teve um comportamento arredio com os outros cães. Depois da morte da Dogue Alemão que fazia a função de líder da matilha, Kinu surtou e começou a atacar todos os outros cachorros da casa. Tempos depois ela acabou tendo que ser doada.

Mogli era um gato vira-lata que havia sido resgatado da rua, quando ainda era um minúsculo gatinho, no fim do ano anterior. Ainda era um pequenino gato quando teve sua cabeça mastigada pela Kinu.

Como sempre acontecia quando havia alguma emergência com um dos animais, meu pai - veterinário - foi chamado, e uma espécie de sala de emergência foi montada na área de serviço da casa da minha tia. Assisti a corrida sozinho e durante todo o tempo a expectativa é de que o Mogli iria morrer.

Lembro da minha melancolia com aquela notícia. Mogli era um gatinho filhote, bonitinho como todos os filhotinhos de gato, mesmo com sua pelagem diferente. Um gatinho simpático e carinhoso que perdia a vida logo no começo, de uma maneira estúpida. Resgatado da rua para morrer atacado por um cão em casa. Tão novo para conhecer o mundo. A vida é muito cruel.

Os dias seguintes se passaram com Mogli desenganado. Mas, sabe-se lá como, ele reagiu e começou a se recuperar. E, milagrosamente, sobreviveu.

Lembro do dia em que ele voltou para casa - não exatamente a data - mas lembro de ver aquele pequeno gato, com seu pelo branco cheio de manchas do iodo usado em suas feridas. Uma das dentadas do cachorro abriu sua traqueia e quando ele tentava miar, seu miado saia rouco, uma característica que nunca perdeu totalmente. Outra dentada partiu sua língua ao meio e ela sempre saia para fora lateralmente. Era de uma crueldade engraçada ele tentando lamber as patas enquanto a língua ia para o outro lado. Sua cabeça havia ficado assimétrica e os olhos pareciam estar em hemisférios diferentes.

Cresceu e virou um gato extremamente sociável, que se comportava como se fosse um cachorro. Quando ia na casa da minha tia, sempre que atravessava o portão conseguia vê-lo correndo de longe, para se esconder atrás dos arbustos, para pular na minha frente, como se quisesse me atacar. Como a tentativa sempre falhava, ele se jogava no chão e dava seu miado rouco.

Mudou-se para Florianópolis junto com minha tia, onde morreu no último fim de semana, vítima de uma leucemia. Sua morte me trás as lembranças daquela noite, melancólica noite, e do milagre da recuperação. Viveu gloriosos 13 anos e posso dizer que com ele a vida não foi tão cruel assim. Ele pode conhecer o mundo.

22/10/2017

Topografia do Terror. Sim o terror existe e é real

Há em Berlim um lugar chamado Topografia do Terror, que é mais um dos memoriais que os alemães mantém para lembrar a população dos horrores da guerra. Afinal, a Alemanha foi protagonista das duas guerras mundiais - sempre do lado perdedor, foi sede de um governo genocida e depois foi dividida em duas por mais de 40 anos, com um muro separando sua capital. Sim, Berlim é um cidade com prédios muito bonitos, mas com um clima um pouco melancólico, porque suas ruas já protagonizaram muitas tragédias e não podemos nos esquecer delas, para que elas não se repitam.

Há o Memorial do Muro de Berlim, há o Palácio das Lágrimas, a Estação de Grunewald (local em que os judeus eram enviados para campos de concentração), o Memorial dos Judeus Mortos, o Checkpoint Charlie, pedras nas calçadas em frente as casas que pertenciam a judeus assassinados no holocausto e, enfim, há a Topografia do Terror.

Este museu/memorial/arquivo é focados na ascensão do Partido Nazista ao poder na Alemanha. Há claro a lembrança da guerra e do holocausto, mas a estratégia para a conquista do poder nazista é o destaque. Às vezes nos esquecemos disso, mas além de um genocida megalômano, Adolf Hitler era também um ditador. A Alemanha vivia em um estado de exceção, de culto ao nacionalismo e a imagem de Hitler. Por vezes nos perguntamos "os alemães não achavam que alguma coisa estava errada?". Bem, alguns talvez até pensassem, mas àqueles que, ao ver um oficial do regime, não fizesse o tradicional cumprimento nazista com a mão estendida, seria entendido como inimigo da nação, perseguido e provavelmente morto. Não é qualquer um que quer ser um inimigo da nação.

A Topografia do Terror é um lugar obviamente perturbador, mas o principal fator de perturbação talvez não seja assim tão óbvio: o memorial parece oferecer uma espécie de spoiler do futuro do Brasil. Sim, é impossível não ler os precedentes da ascensão nazista e não imaginar que aquilo ali na verdade é um relato sobre o Brasil atual. O memorial funciona como um guia da chegada dos fascista ao poder e parece que seguimos esse guia perfeitamente.

A crise econômica de 1929 atingiu a Alemanha fortemente. A tensão provocada pelo desemprego em massa levou ao colapso. Autoridades berlinenses foram envolvidas em um escândalo de corrupção - fraude no fornecimento de uniformes para funcionários da prefeitura. Os donos da empresa envolvida no escândalo eram judeus, o que inclusive fortaleceu o discurso anti-semita. A população perdeu a confiança nos políticos. Toda essa crise favoreceu o crescimento dos Nazistas. Em seis meses Hitler era o chanceler alemão.

Crise econômica, desemprego, corrupção, falta de confiança nos políticos, fascistas. É o Brasil, não é mesmo?

Goebbels, ao assumir um assento no parlamento alemão disse que estava lá para usar as armas da democracia. Os nazistas eram muito bom em fazer mobilizações na rua para chamar a atenção e demonstrar poder (isso te lembra alguma coisa?). Deturpavam informações (oi?). Houve quem defendesse o diálogo com eles e até uma composição partidária.

O que chama muito a atenção é que a estratégia nazista foi, digamos, sorrateira. Eles não chegaram lá e resolveram quebrar tudo. Foram dando passos calculados rumo aos seus objetivos, como se não quisessem tirar ninguém da zona de conforto e chamar atenção. Liberdades individuais foram suprimidas vagarosamente, a perseguição aos judeus - e ciganos, homossexuais, entre outros - aumentaram em doses homeopáticas, até que, quando vamos ver, existiam campos de concentração e a Alemanha estava invadindo outros países.

Chamaram minha atenção alguns panfletos de propaganda nazista que em muito lembram os nossos memes atuais. Um com um cidadão saudável trabalhando enquanto carregava nas costas dois deficientes físicos em muito me lembra o discurso liberal meritocrático de algumas organizações apartidárias dos tempos atuais. E bem, a essa altura é bem difícil não pensar no Bolsonaro, não? Mas então vem essa imagem:

Que dispensa comentários. (Vale um sim. A legenda diz que o panfleto tentava criar a imagem de que Hitler era o idealizador das AutoBahns alemãs, planejadas antes dele. Pós-verdade de raiz).

Sim, eu saí muito assustado da Topografia do Terror. Porque não dá pra negar que o cenário atual do Brasil fortalece a imagem de políticos que se vendem como salvadores da pátria, que personificam a imagem da esperança e isso não é saudável. A discussão política em memes não é saudável. A última pesquisa que mostra que muitos brasileiros tem Lula e Bolsonaro (independente da ordem) como principais opções políticas, João Dória, mesmo Luciano Huck, mostram que o Brasil não pensa em política, mas pensa no salvador dos problemas. A Topografia do Terror nos mostra que esse caminho, invariavelmente, é o caminho do horror mesmo.

20/09/2017

Roupas velhas

Pelas razões que sejam, duas amigas minhas do Facebook estão se desfazendo de itens pessoais, colocando-os a venda. Itens de decoração, livros (seriam livros igualmente itens de decoração?) e roupas.

As roupas me impressionam. Certo que mulheres gastam mais com roupa (em quantidade e qualidade) e por isso tem alguma oportunidade de vender algo que não vão mais usar. Mas, penso no meu caso. Se eu precisasse passar por uma situação assim.

Olho para meus livros e penso que sim, pessoas se interessariam por eles, dependendo do preço que eu definisse. Dois quadrinhos que eu tenho podem interessar alguém. Mas, as roupas, uau, se eu precisasse me desfazer delas duvido que uma pessoa em sã consciência se dispusesse a pagar que valor que seja numa camiseta comprada na Riachuelo uns 10 anos atrás. Talvez um mendigo?

Isso, talvez eu devesse procurar mendigos na rua e perguntar se eles aceitariam as roupas e humilhados pela falta de oportunidades aceitariam. Ou talvez algum lugar que recicle tecido pagando 20 centavos pelo quilo.

Ou nem isso.

08/09/2017

Uma coisa não exclui a outra

Uma coisa não exclui a outra. Nesses tempos de polarização e ódio, me parece que esse é o grande exercício diário de sabedoria, o grande esforço de compreensão que é preciso empreender. Um fato não anula o outro.

Sempre posso citar o caso do Lula, a grande figura da polêmica nacional. É possível aceitar que seu governo proporcionou avanços sociais? Sim. Dá pra dizer que há uma perseguição, ou um superdimensionamento dos fatos relacionados ao ex-presidente na chamada grande mídia, e que mesmo o juiz Sérgio Moro e os procuradores de Curitiba tem atuações muitas vezes partidárias contra ele? Sim. Mas isso não exclui o fato de que, ao que tudo indica, Lula se apoderou de dinheiro público em causa própria, que praticou tráfico de influência, enfim, utilizou o poder em benefício próprio. Mas, geralmente ou se está de um lado ou se está de outro.

O mesmo pode ser dito em relação ao Moro. Errou e agiu de maneira política em alguns casos - vide vazamento de grampos feitos fora do horário determinado pela justiça? Sim. Junto com a própria Lava Jato, cometeu excessos? Sim. Mas a operação é importante e conseguiu uma série de avanços? Sim também.

O fato de um cara ser um péssimo agente público não exclui a possibilidade de que ele seja um ótimo pai de família. Não é porque um cara é muito gente boa, que ele não pode ser um ladrão de dinheiro público. Não é porque o cara é um ótimo administrador que ele não pode ser alguém que bate na mulher.

Há essa busca maniqueísta pelo ideal do canalha ou do homem perfeito. Acho que fruto de uma sociedade cada vez mais individualizada e que busca na sua própria experiência o modelo de vida ideal.

24/08/2017

Drivin' is a gas it ain't gonna last

Uma manhã estranha, tudo parece estranho. Entro no meu carro, um pequeno carro preto e o som começa a tocar Big Black Car do Big Star. Mais uma música tão triste dessa banda tão melancólica. Os arranjos distantes, a voz distante.

"Driving in my big black car, nothing can go wrong, I'm going and I don't know how far. So, so long".

Estou no meu pequeno carro e tudo parece que não vai dar errado. Olho para o céu, enquanto passo por um quebra-molas e vejo um pássaro qualquer batendo asas e ele parece voar no ritmo do piano desconexo no fundo da música.

"Nothing can hurt me. Nothing, can touch me".

Nada, nada. Ali dentro nada pode acontecer. Penso em não sair mais do meu carro.

Why Should I Care? Drivin' is a gas it ain't gonna last.

Não vai durar. A manhã seguirá estranha. Tudo continuará estranho.

14/08/2017

A despedida de Bolt

Foi o maior anticlímax da história. Já havia sido um pouco decepcionante ver Usain Bolt conquistar o bronze nos 100 metros rasos, no fim de semana passado. Desde as Olimpíadas de 2008 nos acostumamos com um Bolt invencível, um fenômeno da velocidade incapaz de ser derrotado. Acabou sendo, ficou em terceiro.

Um sinal de que a idade, ou mais do que a idade, o desgaste físico e a perda de rendimento chega para todos. Que Bolt, por mais que não pareça, é apenas um ser humano com incríveis capacidades musculares e motoras.

No entanto, ainda haveria uma última corrida. A final do revezamento 4x100, prova que a Jamaica dominou nos últimos anos, mas que estava longe de ser a favorita dessa vez. Mesmo sem o ouro e com Bolt já dentro de sua nova dimensão humana, seria pelo menos a oportunidade de vê-lo correndo por uma última vez.

Em uma prova de revezamento, e sendo Bolt o último a correr a esperança é de que ninguém fizesse nenhuma besteira antes, que o bastão não ficasse pelo meio do caminho e que a despedida do jamaicano fosse com ele parado na pista, perplexo, vendo os outros passarem.

Bem, até essa possibilidade talvez não fosse pior do que Bolt tentando arrancar e sendo interrompido por uma lesão muscular. Uma cena rara em competições e ainda mais inimaginável com o maior velocista de todos os tempos. Bolt se despediu estirado de dor no chão do estádio olímpico de Londres.

Talvez seja um fim de carreira que demonstra a transição de deus olímpico para um reles mortal. Ao sair das pistas, Bolt já não era o cara que pegava o embalo nos 100 metros e atropelava todos os seus adversários, ou que fazia a curva dos 200 metros em uma velocidade tão grande que parecia que iria sair decolando, arremessado contra a parede do estádio. Ao sair das pistas, Usain Bolt já era um humano. Um humano muito rápido, mas apenas um ser humano.

02/08/2017

Duas Araras

Molhando a grama em uma manhã ensolarada de quarta-feira, um dia de inverno extremamente seco. O calor do sol já espantou o frio da madrugada. Céu extremamente azul, com aquela névoa seca que caracteriza o nosso inverno.

Escuto um barulho que já escutei outra vez pelos céus sobre minha casa. São araras. Já vi araras-azuis voando sobre minha casa em fins de tarde em outras ocasiões. O barulho é igual, mas desta vez as araras são vermelhas. Duas. Um casal, pai e filho, duas amigas, não sei. Voam de maneira meio descoordenada e fazendo muito barulho.

Penso naqueles clichês sobre Mato Grosso, de onças e jacarés da rua, do destino selvagem que parecemos ser diante do mundo e nesse instante tudo faz sentido. Somos o destino inalcançável, o lugar por onde araras passam por sobre nossas cabeças como se fosse mais um dia normal.

O barulho aumenta e percebo que as araras retornaram, voando no sentido contrário, para onde elas originalmente vieram. Escuto seus gritos e as observo indo cada vez mais longe, batendo asas até que não seja possível perceber as asas, até que não seja possível distinguir qualquer forma, até que elas virem dois pontos indecifráveis no céu e elas seguem voando em direção ao infinito até que minha visão não fosse mais capaz de identificá-las em lugar nenhum, desaparecendo, tragadas pelo azul profundo do céu desta manhã de inverno.

12/07/2017

As instituições estão funcionando

As instituições estão funcionando, elas estão funcionando, esse é o mantra repetido por autoridades, especialistas, comentaristas, para dizer que está tudo bem. Como se fossem aquele meme do cachorro dizendo que está tudo bem enquanto tudo ao seu redor pega fogo. As instituições estão funcionando, temos um vice-presidente eleito e que assumiu dentro do que é previsto pela constituição, o legislativo segue legislando e o judiciário continua julgando.

Teoricamente, a democracia prevê a existência de três poderes harmônicos e independentes entre si. No entanto, o que vemos atualmente é um Poder Executivo acuado diante dos outros dois. Ok, podemos dizer que o Executivo fez por merecer e tem sido ineficiente nos últimos anos. Mas, o que os outros fizeram para não serem tão atingidos pela crise representativa nacional?

Acredito que foi o Cássio Cunha Lima - melhor analista do que senador - que afirmou que o Brasil vive em um momento de parlamentarismo improvisado. O centro nervoso de decisões do país está no Legislativo. O presidente não consegue fazer nada se não se perder em uma série de negociações com a enorme base parlamentar, que envolve cargos, liberação de verbas, atendimento de interesses pessoais. Se Dilma Rousseff caiu, mais do que as pedaladas, ou a crise econômica, o grande motivo de seu impeachment foi sua incapacidade de jogar esse jogo.

Michel Temer assumiu e começou a dar prosseguimento as reformas apoiadas pelos financiadores de campanha. Ele sempre quis fazer isso e encontrou o momento favorável na Câmara? Ou decidiu fazer isso para atender os pedidos da Câmara, ter tranquilidade com aqueles que realmente tem o poder político e também financeiro? O fato é que Michel Temer era quem os deputados, senadores, empresários em geral queriam para fazer o que eles quisessem, dentro de uma proposta que dificilmente seria eleita diretamente pelo povo.

Temer não conviveu mais de uma semana sem um grande escândalo, mas sua capacidade de negociar com o Legislativo e suas reformas bem recebidas pelo Mercado (esta instituição intangível) o garantiam no poder. Temer era o fiador de toda essa situação.

No entanto, o presidente foi cada vez mais se afundando no chorume de suas relações políticas e ao invés de ser a solução, passou a ser um problema para a credibilidade que querem que as reformas tenham. Qual é a solução? Tirar o Temer e colocar qualquer besta quadrada no lugar, que só não se envolva em nenhum grande escândalo e deixem que se mudem o Brasil da forma como a Fiesp quer.

A figura do presidente no Brasil é totalmente dispensável nesse momento. Essa parlamentarismo improvisado se transformou em um grande ser de lama, capaz de tomar decisões independente dos nomes. Será assim pelo menos até as próximas eleições.

Mas, as instituições continuam funcionando, dizem todos.