29/11/16

Fragmentos de uma tragédia

Um dia em meado de outubro e eu estou no aeroporto de Guarulhos. Estava no meio de umas férias, talvez no final, em uma dessas tantas conexões que sempre tem Guarulhos como eixo central. Na espera para meu voo, vejo passar a delegação da Chapecoense. Não lembro o dia, mas sei que era uma segunda-feira. A equipe podia estar voltando para Chapecó após uma partida no domingo, ou partindo de Chapecó para algum lugar no mundo. Pouco mais de um mês depois, estão todos mortos.
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Especialistas, sempre eles, falam que tragédias, mortes em acidentes durante viagens estão entre as mais traumáticas que familiares e amigos podem enfrentar. Isso porque, há a lembrança da partida tranquila e não há a volta. Há essa angustia do ente que foi e que não voltou, do avião que nunca chegou, do carro que se perdeu em algum lugar do longo caminho. O saguão do aeroporto sem as pessoas que deviam estar lá, as esteiras das bagagens em uma eterna espera pelas malas que jamais vão chegar.
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Chapecoense, desses times pequenos e simpáticos, para os quais não há como se torcer contra. Time jovem, de cidade pequena, com pouca tradição, mas que faz um trabalho sério. Prestes a viver o maior momento de sua histórias, em uma jornada gloriosa que já seria digna de um filme, que até ontem ainda tinha a expectativa de um final feliz.
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Como seu último ato no futebol, o goleiro Danilo - ídolo maior da torcida chapecoense - fez um pequeno milagre que garantiu a vaga da Chape na final da Copa Sul-Americana. O zagueiro Angeloni do San Lorenzo finalizou a poucos metros do gol e, com o pé, Danilo salvou o gol da eliminação aos 48 do segundo tempo. Defesa que garantiu o momento mais feliz da vida da torcida em Chapecó, provavelmente da vida de Danilo. Uma semana depois ele estaria morto. Resgatado com vida, mas não resistiu aos ferimentos.

Ironia da vida. Se Danilo não alcançasse àquela bola, a Chapecoense teria sido eliminada no último minuto, na maior tragédia futebolística possível. O time passaria uma semana com o amargo gosto do fim do sonho e não teria embarcado para a Colômbia. A glória que precede a tragédia. Ninguém poderia saber. A vida é cheia de ironias, a vida não é para principiantes.
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Chapecó, cidade de 170 mil habitantes no Oeste catarinense. A final sul-americana provavelmente é um dos maiores momentos esportivos para a imprensa local. Muitos estavam no avião para esta grande experiência profissional. Todos mortos. Nada faz sentido.

21/11/16

O fim de uma era no tênis?

A temporada de 2016 do tênis acabou com Andy Murray alcançado o improvável posto de número 1 do mundo, marca ainda mais impressionante se pensarmos que em maio ele estava 8.000 pontos atrás de Novak Djokovic no ranking. Um segundo semestre perfeito, associado ao baixo rendimento do sérvio, principalmente nos torneios menores, levou o escocês ao posto que ele sempre sonhou, mas que sempre foi impedido pelo azar de viver na era mais espetacular do tênis.

Mas a pergunta que fica é: será que esta grande era está chegando no fim?

Roger Federer, o maior de todos, sofreu com uma rara lesão e terminou o ano em maio, sem conquistar nenhum título, encerrando um ciclo de 16 anos seguidos com conquistas. Mais do que nunca, restam dúvidas se aos 36 anos ele ainda conseguirá voltar a jogar em alto nível.

Rafael Nadal chegou a parecer forte na temporada de saibro européia, mas terminou o ano também em baixa, com mais uma série de lesões e não conseguiu avançar da quarta rodada em nenhum Grand Slam do ano. Desde quando isso não acontecia? Desde 2004.

Novak Djokovic, que começou o ano soberano e conseguiu um domínio sem precedentes ao conquistar o título de Roland Garros e completar o Grand Slam em sequência pela primeira vez na era profissional do tênis, pois o sérvio que parecia imbatível, colecionou tropeços improváveis após o título inédito no saibro e parece sem confiança e sem vontade. Também pareceu sentir lesões pela primeira vez na carreira e não dá pra dizer se elas vão perdurar.

Sobrou Andy Murray, renascido e ao que tudo indica motivado, quando viu a janela se abrir. Se ele fizer tudo certo, garante sua liderança no ranking mundial pelo menos até Wimbledon do ano que vem.

O fato é: há quanto tempo não víamos um top 8 do mundo com apenas dois membros do Big Four entre eles?

Wimbledon foi o primeiro torneio em muitos anos sem ter nenhum confronto entre os membros do Big Four e não há como negar que o torneio perdeu muito da sua graça, sem a expectativa para estes confrontos sempre épicos. Milos Raonic, o postulante ao título naquela decisão, não tem consistência, qualidade ou brilho para chamar a atenção para suas atuações - por mais que tenha sido o melhor jogador não ganhador de Slam do ano.

Ao que tudo indica o Big Four está finalmente chegando ao fim, ano que vem todos terão pelo menos 30 anos. Quem irá substituí-los? A geração de Raonic, Nishikori, Dimitrov e etc já está aí há alguns anos e não dá mostra de ter essa capacidade.

A expectativa fica por conta dos #NextGem que a ATP tanto usa - não é a toa, é a aposta deles para manter o nível de atenção global no esporte. Zverev, Fritz, Coric. Será que eles chegam lá?

18/11/16

Dez anos de piauí

Lembro-me bem do dia em que eu conheci a revista piauí: 29 de novembro de 2006. Era aniversário de um tio e em sua sala estavam dispostas as duas primeiras edições daquela revista grande, com capas curiosas que eu já havia visto no programa Pontapé Inicial, da ESPN Brasil. Entre uma folheada e outra, me peguei hipnotizado na matéria de Antônio Prata, How do you do, Dutra? Também não consegui me desvencilhar de uma matéria da Vanessa Bárbara sobre os palíndromos. Devo ter sido bem antissocial naquela noite, mas só sei que no mês seguinte eu estava na banca de jornal comprando aquela revista grande e assim o fiz desde então (exceção feita a um breve período em que fui assinante).

Dez anos já passaram e nesse tempo piauí me apresentou alguns dos meus autores favoritos (David Foster Wallace, Daniel Galera), me fez comprar livros, me mostrou que um olhar aprofundado pode mostrar que nem tudo é como parece ser, me fez entender as causas dos acidentes aéreos nacionais, conhecer os vultos da república, me ajudou a votar em uma eleição presidencial e me tornou íntimo dos matemáticos do Inpa e seus sistemas dinâmicos. Me emocionou com tragédias naturais e me fez rir até mesmo com a graça na falta de graça dos quadrinhos do Gotlib e a polêmica que ele provocava na seção de comentários.

Dez anos depois, não sei dizer como teria sido minha vida nesses dez últimos se eu não tivesse ficado tão interessado naquele papai Noel melancólico escutando Osvaldo Montenegro em um shopping de Penedo. Por onde andará esse papai Noel?

09/11/16

O tempo em que nós vivemos

Na sala de espera de fisioterapia, aguardo pela sessão de choques em um pé que torci brutalmente durante minhas férias. Não sei se todos se sentem assim, mas nós estamos no dia seguinte ao em que Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos.

No começo parecia uma piada, depois foi virando uma ameaça, mas de certa forma parecia que nunca ia se concretizar. Esse cara é louco, é misógino, é xenófobo. As pessoas vão se mobilizar para não deixar que ele chegue até a casa branca com toda sua dose de insanidade. Isso não aconteceu. Os votos ainda não terminaram de ser apurados, mas, ao que tudo indica, Trump terá menos votos do que Hillary Clinton e será eleito, tal qual George W. Bush, pelo sistema de colégios eleitorais norte-americanos.

Mas o que me chama mais a atenção é que dificilmente Trump conseguirá alcançar os 62 milhões de votos que Mitt Romney, o republicano derrotado de 2012 conseguiu. Talvez o magnata-presidente consiga chegar aos 60 milhões, iguale o que John McCain conseguiu em 2008 quando perdeu em muito para Obama. Dá para dizer que, mais do que um fenômeno, Trump se aproveitou das pessoas que não se mobilizaram para votar em Hillary e toda a sua falta de carisma.

Aliás, entre as muitas coisas que eu li antes das eleições norte-americanas, muitas coisas que, digamos, preparavam o espírito de todas para a possível vitória do Trump, estava o texto em que o cineasta Michael Moore lamentava as cinco razões pelas quais Trump seria eleito. Hillary era um dos principais problemas, ele dizia. Em um país no qual o voto não é obrigatório e a votação é realizada em um dia de trabalho normal, quem se mobilizaria para votar em Hillary? Convenceria as pessoas a votar nela? Hillary não desperta paixão e em um país como os Estados Unidos é preciso despertar um mínimo de paixão para ganhar as urnas.

Trump, por outro lado, desperta paixão. Ou ódio. Ele conseguia mobilizar as pessoas. Parece que por muito tempo, a expectativa democrata é que o ódio a Trump motivasse as pessoas, para que Hillary fosse eleita como uma espécie de antídoto ao republicano desvairado.

A sala de fisioterapia se mantinha em seu melancólico silêncio de sempre, quebrado apenas pela TV sintonizada na Globo e por uma senhora esperando o atendimento e conversando com outra sobre as eleições nos Estados Unidos, sem entender direito o que acontecia. Com alguma pessoa próxima a ela, talvez uma filha, residente nos States, ela relatava uma mensagem recebida explicando o porquê Trump vencera. “A população cansou dos anos Obama e quer mais geração de emprego”, era a síntese da mensagem. “Se os Estados Unidos forem bem, o mundo inteiro vai bem”, concluía a mensagem. “Tomara a Deus”, concluiu a senhora.

Sempre é perturbador pensar na Alemanha entre guerras e a ascensão de Hitler. Pensar se ninguém em nenhum momento pensou que alguma coisa de errado estava acontecendo, que era preciso interromper aquilo. Um líder extremista e carismático, propondo soluções absurdas e reforçando o discurso nacionalista. Machen Deutschland wieder groß, poderia dizer um slogan da época. Me sentia um pouco assim, como um observador passivo dos dias pré-apocalipse.

Donald Trump pode ser bem um representante desses tempos atuais. Tempos de ódio e ele encampa o discurso de ódio como ninguém. Tempo de aversão aos políticos tradicionais e, isso ninguém nega, ele não é um político de carreira, enquanto que Hillary representa todo o establishment político. O mesmo fenômeno que ocorreu no Brasil, em varias capitais em que candidatos vencedores foram aqueles que conseguiram se vender como o homem de fora da política, aquele que não precisa dela para sobreviver. Trump também é uma espécie de meme ambulante e talvez isso explique a sua capacidade de viralizar.

Entre as tantas análises sobre a possibilidade de sua eleição, uma delas dizia sobre um conceito que eu nunca escutei antes: “os novos pobres”. Basicamente, eles seriam a antiga classe operária, que com o fechamento das indústrias perderam espaço no mercado de trabalho. São pessoas sem estudo, geralmente brancas, e que agora têm oportunidades de emprego muito ruim, ou que exigem uma qualificação superior a que elas têm. Perdem poder financeiro e, ao mesmo tempo, são vistas como uma parcela leprosa da sociedade, por sua cultura machista, homofóbica, racista, são constantemente apontados por seus privilégios como homens brancos. Diante dessa situação, eles se voltam contra aqueles que apontam os dedos para eles. Se revoltam com o seu declínio e com o ridículo de seus valores, enquanto as minorias garantem mais direitos. Não que eles tenham razão, mas eles simplesmente se sentem assim. Trump fala diretamente com essas pessoas. “depois de aturar oito anos de um negro nos dizendo o que fazer, temos de ficar quietos e aguentar oito anos ouvindo ordens de uma mulher? Depois disso serão oito anos dos gays na Casa Branca! E aí os transgêneros! Você já entendeu onde isso vai parar. Os animais vão ter direitos humanos e uma porra de um hamster vai governar o país”, provocou retoricamente Michael Moore.

Trump também representa o mundo atual. Um mundo em que as liberdades individuais e os avanços tecnológicos chegaram a um ponto - ainda mais na América - em que as pessoas vivem cada vez mais isoladas e alienadas em relação ao resto da sociedade. Cada um escolhe sobre o que quer se informar e esse isolamento diminuí a sensação de pertencer a alguma coisa, diminui a empatia e a nossa capacidade de pensar nos outros. Aumenta o egoísmo. E isso possibilita que um louco como Trump una as pessoas, mesmo que pelo ódio.

O silêncio melancólico da sala de espera da fisioterapia é quebrada por um senhor, que aguardava uma sessão. O dia estava movimentado, como eu nunca vi antes, muita gente acordou nesta quarta-feira sentindo dores que precisavam ser curadas com choques, gelo, exercícios ou qualquer tratamento. Revoltado com a espera, ele exigia ser atendido na frente por ser idoso. Dizia que a clínica precisava cumprir a lei. Olhei ao meu redor e constatei que 70% das pessoas que esperavam eram idosas. Outras tantas estavam em muletas, cadeiras de rodas, em situações que certamente mereceriam ser prioritárias. A atendente tentava argumentar isso, mas o senhor apenas gritava com ela pela garantia dos seus direitos.

O eu, o egoísmo, o egocentrismo, a falta de capacidade de pensar sobre as outras pessoas. Tudo isso veio à minha cabeça nessa manhã, dia em que todos nós sabemos que Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos.

04/11/16

No fundo do mar

O mar da praia da Ferradura, em Búzios, levou minha aliança de casamento. Não houve um aviso prévio, uma sensação de que algo poderia ocorrer. A aliança simplesmente escorregou e se alojou no fundo do mar.

Tentei tatear a areia em busca de um reencontro improvável, que obviamente não ocorreu. Aquele pequeno anel, que pesa apenas quatro gramas, ficará perdido para sempre por ali. Ou não.

Pensei nos movimentos da água e da areia que é arrastada de um lado para o outro. Se esses movimentos farão com que minha aliança fique para sempre enterrada por ali, no meio da praia da Ferradura, se oxidando lentamente. Se um dia será acidentalmente engolida por algum peixe, que poderá quem sabe ser pescado e essa aliança poderia aparecer misteriosamente no prato preparado por alguém.

Se esses movimentos todos farão com que um dia o anel apareça na areia e seja eventualmente encontrada por alguém. No vai e vem das ondas ela poderia ser arrastada para outra praia, para outro ilha. Junto com o lento movimento das placas tectônicas ele poderia um dia aparecer na África. Ou talvez fique para sempre enterrada, cada vez mais fundo, metros e metros abaixo da areia.

Até que algum cometa, um meteoro, uma nova era glacial ou de aquecimento global, altere o nível das marés. Um dia talvez a praia não seja mais praia, mas um enorme deserto, dominado por empresários que construirão suntuosos empreendimentos no meio do nada e no meio das escavações poderá surgir uma aliança com milhares de anos de existência e o nome de Ana Rosa.

Talvez o mundo não seja mais mundo. As futuras gerações poderão encontrar o artefato em escavações arqueológicas. Seres de outro planeta. A nova raça dominante do planeta em um futuro distópico.

Ela já pode ter sido encontrada por uma criança, que a jogou de volta no mar. Ou por um vendedor. Por um usuário de droga, que vendeu o adereço em troco de uma pedra de crack e minha aliança já pode ter sido derretida, ou será derretida, para virar correntes, uma nova aliança, barras de ouro - que valem mais do que dinheiro.

Não importa muito, nunca saberei o que acontecerá. E ninguém saberá que aquele pequeno anel dourado representava uma noite tão feliz em minha vida, um dia que jamais esquecerei. Será apenas um objeto perdido no fundo do mar, como tantos outros, tragados pela areia.

07/10/16

Tempo perdido

Não me lembro exatamente quando foi que eu baixei pela primeira vez o Mozilla Firefox. Sempre havia usado o Internet Explorer, nunca tinha me preocupado com essas coisas, até que um dia meu computador passou a travar um pouco e todos me indicaram usar o Mozilla.

Que revolução.

No momento em que eu baixei o Mozilla eu senti uma espécie de arrependimento passado, por todo o tempo perdido utilizando o IE. Quanta coisa eu poderia ter feito, quantos segundos acumulados em minutos, em horas, perdidos no carregamento lento das páginas. Eu perdi muita coisa na vida e não havia nada que eu pudesse fazer para recuperar esse tempo perdido.

Fui acometido pela mesma sensação ontem, enquanto o Brasil jogava contra a Bolívia pelas Eliminatórias da Copa. Quanto tempo nós perdemos com o Dunga?

Ok, era a Bolívia, mas em quantos jogos recentes contra seleções mais fracas não vimos o Brasil sofrendo com o 0 no placar, buscando um gol solitário em uma bola parada e sofrendo uma pressão desnecessária.

Um tempo perdido que jamais será recuperado.

Mas, eu pelo menos ainda podia alegar o desconhecimento quanto aos novos navegadores. Quem colocou o Dunga lá não podia dizer que não sabia.

30/09/16

ESPN sem Trajano - ou um canal que já não é mais

Talvez eu exagerasse se falasse que fiz jornalismo por conta da ESPN Brasil, mas eles têm lá sua parcela de culpa.

Nos meus anos finais de colégio a ESPN era o único canal esportivo sintonizado pela antiga DirecTV e eu não poderia reclamar. Não tinha o campeonato brasileiro, mas tinha opinião, informação. Acompanhei a Copa de 2002, que eles não transmitiram, com os seus comentários e o sempre histórico Linha de Passe. No meu sonho adolescente eu devia pensar em um dia participar do Linha de Passe.

No começo da faculdade, também só dava ESPN. Assistia todos os bate-bolas possíveis, o Sportscenter. Me sentia amigo dos comentaristas e apresentadores. Se os encontrasse na padaria do lado do canal, no Sumaré, talvez conversasse com eles como se eles me conhecessem.

Apenas em 2007, quando a Sky comprou a DirecTV, passamos a assistir o Sportv e isso só serviu para que eu reafirmasse ainda mais meu compromisso com a ESPN. O canal era a voz da sensatez. Assistia os grandes eventos sempre lá. Eram os comentários que eu faria, era os comentários que me levavam a refletir.

E se há alguém que era a cara do canal, esse alguém era José Trajano. O cara fundou o canal e durante anos seguiu uma utopia de deixar os jornalistas falarem o que quiserem. Com seus olhos eternamente marejados, Trajano sempre transmitiu aquela imagem de bastião da moralidade.

Já faz cinco anos que Trajano deixou o comando do jornalismo do canal e as coisas foram mudando. Aos poucos eu fui me desapegando do canal e hoje é preciso admitir: apesar de ainda ter uma base mais forte nas análises táticas e nas opiniões, a ESPN aos poucos se transformou em uma versão genérica do Sportv. O jornalismo levado ao ar hoje pela ESPN é a mesma coisa que o Sportv faz, só que com menos qualidade.

Nas última Olimpíadas eu me rendi ao "canal campeão". A cobertura foi infinitamente melhor, com seus 500 canais e comentaristas claramente mais preparados do que os da ESPN. O canal do Sumaré perdeu feio aonde sempre fez bonito: no esporte além do futebol.

O destaque da ESPN foram as narrativas caóticas de Rômulo Mendonça no vôlei. Divertido, mas muito mais em vídeos de 15 segundos no Twitter do que ao vivo. Eu não queria a ESPN para ficar fazendo piadinhas bobas, com coisas pavorosas como o Decreto de Sexta-feira. Eu não queria a ESPN para ser mais uma representante do jornalismo João Sorrisão, inaugurado lá pelo Thiago Leifert e seguido a risca por um monte de canais e programas.

Ah é a audiência. Ok, se é preciso se idiotizar para ganhar audiência, parabéns aos idiotas que venceram a guerra pelo controle remoto.

Hoje, 30 de setembro de 2016, José Trajano foi demitido da ESPN Brasil que ele fundou há 21 anos. O motivo não é bem explicado, política ou o famoso reposicionamento de mercado. Em todo lugar vejo a consternação de jornalistas e pessoas interessadas no assunto (também vejo a comemoração da miséria humana, de pessoas que odeiam aquelas que cometem o crime de não pensarem igual a você). Vejo a minha consternação, de alguém que cresceu assistindo a ESPN.

Vejo a minha consternação em perceber: a ESPN Brasil morreu, pelo menos aquela que nós um dia conhecemos. Ali no Sumaré jaz um canal.

14/09/16

Sem mais Strike

Nos anos 90 o Brasil foi repentinamente tomado por uma febre do boliche. De uma hora para a outra, passou a ser um programa bem interessante para os jovens, irem até um lugar em que eles jogassem boliche. Não sei explicar, os motivos, só sei que aconteceu.

Em Cuiabá não foi diferente e o nosso primeiro boliche foi o lendário Fred's Bowling no Shopping Goiabeiras. Fui lá apenas umas duas vezes e confesso que não sei quando é que ele encerrou suas atividades.

Diferente era o Strike Boliche, que surgiu um pouco depois. Localizado na Avenida Fernando Corrêa, era perto da faculdade e relativamente perto da minha casa e da casa de vários dos meus amigos.

Além do boliche, o Strike ainda tinha suas mesas de sinuca, videokê, um monte desses jogos de salão que eu não sei o nome, aquele negócio em que as pessoas tinha que apertar botões com os pés enquanto dançavam uma música. Diversas e variadas opções de lazer para todos os gostos.

Fui lá quando era estudante do colégio, quando estive na faculdade. Acho que a última vez que eu fui lá foi na noite da minha formatura e realmente acho que o Strike está diretamente ligado a vida de estudante. Afinal, com uns 20 reais você conseguia se divertir minimamente, comer alguma besteira e conversar com os amigos.

Em quantos aniversários eu não fui por lá? Uma ótima oportunidade de aproveitar a promoção que dava uma hora de graça na pista para os aniversariantes. Fiz alguns strikes, ganhei algumas partidas, comi as pizzas ruins que eles vendiam, tomei várias Pepsis, já que esse era o refrigerante que eles vendiam por lá. Ah sim, sem dúvida eu fui muito feliz quando tinha meus 20 anos lá no Strike.

Os tempos mudaram é claro.  Não sei o que os jovens fazem hoje em dia, mas provavelmente não jogam mais boliche, essa febre passou.

No último domingo o Strike fechou suas portas, diante do cenário de crise econômica. Sua enorme estrutura será um fantasma, em breve uma igreja evangélica ou algo assim. Velhos, eu e meus amigos passaremos por sua porta e diremos "fomos muito felizes aqui dentro".

11/09/16

11 de setembro, 15 anos depois e a história

Chego em casa e ligo a TV. Minha aula havia acabado às 11h30 e eu voltava a pé para casa pelo trajeto de 1,5 km. Entre o tempo da caminhada, chegar em casa, pegar um copo de guaraná e ligar a TV não se passaram mais do que 25 minutos. Não devia ser mais do que 11h55 quando, para minha surpresa, a televisão não mostrava o Globo Esporte e sim a imagem de um prédio em chamas.

Já haviam se passado mais de duas horas desde que os terroristas chocaram dois aviões contra o maior prédio de Nova York e eu incrivelmente não sabia de nada. Nem eu, nem nenhum dos meus colegas de sala, meus professores. Poucos tínhamos celulares, nenhum com qualquer acesso a internet. Quinze anos não parece tanto tempo assim, mas para quem estava lá parece inacreditável que um fato dessa magnitude, ocorrido durante a hora do recreio permanecesse tanto tempo desconhecido para tantas pessoas. Não duvido que muitas pessoas só souberam do atentado quando chegaram em casa a noite. Se foram dormir sem assistir o jornal, talvez só souberam no dia seguinte.

O mundo mudou muito nesses 15 anos.

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Meu pai me liga com uma voz de enterro. Três dias depois, na sexta-feira, nós iríamos viajar para Barcelona. Meu pai participaria de um congresso de saúde e eu iria junto, aproveitando umas economias de alguns anos.

Ele estava imprimindo o banner de sua apresentação, quando viu na TV as imagens dos prédios em chamas, a confusão total, as pessoas se jogando. Meu pai sempre tenta manter a calma nesses momentos, enquanto por dentro não sabe o que fazer. Seu pessimismo, hereditário, calcula que tudo deve ter acabado. Que não haveria viagem. De certa forma, a sensação era a de que o mundo iria acabar nos próximos dias.

E isso porque nem havia Whatsapp naquela época.

***

Em 2001 eu estava na 8ª Série do Ensino Fundamental, que provavelmente hoje é conhecida com outra terminologia. Dentro do ciclo de ensino de História, chegávamos à história contemporânea. Depois de passar pela pré-história, gregos, romanos, idade média, conquista da América, independência do Brasil, unificação germânica, revolução industrial, duas guerras mundiais, Getúlio Vargas, ditadura militar, chegávamos a redemocratização do Brasil, Glasnost, Perestroika.

Em pouco tempo chegaríamos até a queda do Muro de Berlim - como eu gostava muito de história, sempre folheava os livros até o final para saber o que vinha pela frente. Naquela época, a queda do muro de Berlim parecia o último grande acontecimento da história. O último momento chave que a humanidade enfrentou. Acho que vivemos sempre com a sensação de que a história nunca ganhará novos fatos e ainda mais hoje em dia, banalizados pelo excesso de informação, com a sensação de que nada merece realmente entrar para História com H maiúsculo.

Em 2001 nem eu nem nenhum dos meus colegas havíamos presenciado a queda do Muro de Berlim. Éramos novos demais para se lembrar daquele acontecimento ocorrido quando tínhamos dois anos de vida. Aquele distante acontecimento de doze anos antes, que foi gravado nos livros de História assim que ocorreu.

Os atentados de 11 de setembro já completaram 15 anos. Creio que na época, nós não percebemos como aquele era um fato histórico, da História mesmo.

Lembro das discussões do dia seguinte, sobre a relevância daquilo. Vivíamos então com um grande sentimento anti-americano, de certa forma reforçado com George W. Bush. Muita gente via naquilo uma farsa, muita gente estava chocada. A história ainda não havia sido escrita, com seu ar oficial.

Tenho curiosidade para saber o que os jovens que estudam história hoje aprendem sobre o tema. Eles, que ou eram muito novos ou sequer haviam nascido quando os aviões se chocaram contra as torres gêmeas, para a perplexidade de Carlos Nascimento e todos os âncoras de televisão.

Qual será a narrativa histórica do 11 de setembro? O que entra para a História, dos acontecimentos que nós vivemos?

***

Quinze anos depois, mesmo parecendo tão recente, não dá pra negar que o mundo mudou muito. Uma parte pela revolução tecnológica que faria impossível não tomarmos conhecimento de um fato tão marcante em muito menos tempo. Soubemos dos ataques em Paris quase instantaneamente.

Mas, o 11 de setembro realmente trouxe o terror para o cotidiano da humanidade. Mudou a maneira como nós viajamos de avião e tem mudado tantos outros aspectos do cotidiano, principalmente nas grandes metrópoles, pelo medo de que um maluco armado resolva dizimar a população presente.

Já se passaram 15 anos.

23/08/16

Para se lembrar

Olimpíadas sempre são inesquecíveis. É praticamente impossível que uma competição desse porte não tenha jogos marcantes, momentos de superação e histórias que serão lembradas para sempre. As Olimpíadas do Rio não foram diferentes, é claro.

Por vezes, temos a impressão que jamais iremos nos esquecer das coisas, que as grandes lembranças ficarão em nossas retinas para sempre. De vez em quando é verdade, mas muitas vezes o tempo fragiliza as memórias. Escrevo abaixo coisas para se lembrar dessa competição.

Se lembrar da cerimônia de abertura, que conseguiu ser Brasil como poucas vezes o Brasil foi. O voo de Santos Dumont, a mensagem ambiental, a emoção de Guga, Vanderlei Cordeiro de Lima acendendo a mais bela pira olímpica de todos os tempos.

Se lembrar de Michael Phelps ganhando cinco medalhas de ouro, quando todos se perguntavam se ele ainda era o maior. Lembrar de sua atuação no revezamento 4x100 - a prova que menos tinha sua cara, quando ele deu a vitória para os Estados Unidos com sua virada. Seu choro e seu cansaço, o lado humano de uma lenda.

Das pessoas que fizeram história nas piscinas: Katie Ledecky, Katinka Hosszu, Adam Peaty.

De Usain Bolt comprovando, para quem ousava duvidar, que ele é o maior de todos os tempos, que ele nasceu para correr. O recorde impressionante de Wayde van Niekerke nos 400 metros.

A inesquecível vitória de Thiago Braz no salto com vara. O momento em que o brasileiro superou a marca dos 6,03 metros é uma das grandes cenas do esporte nacional em todos os tempos. Jamais me esquecerei.

As manhãs com Isaquias Queiroz em busca da história. A chegada alucinante da regata que deu o ouro para Martine Grael e Kahena Kuzne.

A agonia da disputa dos pênaltis entre Brasil e Austrália no futebol feminino.

O choro comovente de Diego Hypólito após conquistar uma medalha que parecia que jamais seria sua.

Os pulos inimagináveis de Simone Biles, que faz com que todas as outras atletas das Olimpíadas pareçam amadoras naquela competição.

Os finais tensos dos jogos de Handebol e do Basquete. Aquele final eletrizante de Brasil e Espanha que terminou com a vitória brasileira. O épico entre Brasil e Argentina que terminou com a vitória argentina após duas prorrogações. Aquela cesta do Nocioni.

A redenção de Rafaela Silva, dando uma resposta para aqueles que não merecem ser respondidos.

O momento em que o narrador do Sportv anunciou que um brasileiro já havia garantido medalha no tiro esportivo e, afinal, quem era esse cara?

A surpresa com o polo aquático.

Os muitos jogos de vôlei tensos. A tristeza com a derrota da equipe feminina, a felicidade com a vitória da equipe masculina, que parecia improvável depois da primeira fase.

As madrugadas do vôlei de praia e as muitas viradas improváveis das duplas brasileiras.

Essas são coisas para não se esquecer.

22/08/16

A redenção do Big Star

Nas Olimpíadas de 2012 eu passei o olho pelos nomes dos cavalos, uma diversão de sempre nos jogos olímpicos, quando vi que Nick Skelton, britânico, montaria Big Star na competição de saltos do hipismo.

Um nome aparentemente banal, acho que "Estrelão" é um nome que combina bastante com um cavalo. Pouco me importava, passei a acompanhar os resultados do jóquei e sua montaria que carregava o nome da banda de Alex Chilton e Chris Bell.

Para melhorar, Big Star se mostrou um ótimo cavalo, tão bom quanto um Third/Sisters Lovers. Passou zerado em todas as fases preliminares, garantindo inclusive a medalha de ouro na competição por equipes. Zerou a primeira etapa da final e estava zerado na segundo etapa, prestes a vencer a competição quando derrubou o último obstáculo. Sua única falha na semana lhe derrubou para a quinta posição, uma vez que a final começava com todos zerados. Uma falha, o inferno. Um jóquei suíço que havia derrubado três obstáculos na semana acabou com o ouro. Era a maldição do nome.

Quatro anos depois, eis que Nick Skelton chega ao Rio de Janeiro novamente montado em Big Star. Logicamente, iria lhe acompanhar novamente.

As coisas não começaram bem. Big Star cometeu falhas nas etapas classificatórias, na prova por equipes a Grã Bretanha não conseguiu sequer o pódio. Parecia que o tempo havia passado para nosso cavalo de 13 anos - Thirteen.

Mas, aos trancos e barrancos, Skelton e Big Star chegaram a final. Foi um dos últimos classificados e na final, todos já sabemos, a pontuação é zerada.

E dessa vez, a sorte sorriu para o cavalo. Seus adversários de campanha melhor cometeram erros na final e a grande estrela estava entre os seis animais que conseguiram zerar o percurso duas vezes. Quatro anos depois, as portas glória se abriam para Big Star.

Cinquenta e três centésimos. Esse foi o tempo pelo qual Big Star superou seu adversário, chamado All In e montado por um sueco, os dois que conseguiram zerar o desempate. Por pouco mais de meio segundo o ouro veio para Big Star. Um reconhecimento tardio, tal qual a banda, mais ainda em vida.

Nunca antes um Big Star havia chegado ao posto.

Hold On, Big Star. Ain't no one is going to turn you round

Lembranças de três títulos

A conquista da medalha de ouro no vôlei masculino brasileiro traz uma curiosidade: doze anos separam cada um deles, 1992, 2004 e 2016. Talvez por alguma dessas questões relacionadas a modernidade, a distância entre o primeiro e o segundo pareçam muito maior do que a entre o segundo ou o terceiro. Ou talvez seja o fato de que Bernardinho esteja lá esse tempo todo.

Fato é que eu assisti todos eles e tenho lembranças das finais.

Do primeiro lembro que foi provavelmente um dos primeiros jogo de vôlei que eu vi na minha vida, lembro de assistir aprendendo o que era aquele sistema de vantagens, o que eram os saques queimados, quem era o levantador. Me lembro bem mesmo é do saque final de Marcelo Negrão. Um pouco antes, se eu não me engano, o Tande tinha forçado o saque e mandado no meio da rede.

Um time que depois aprendi como histórico e que entrou para a mitologia do esporte brasileiro.

Em 2004 eu acompanhava vôlei bem, assisti praticamente todos os títulos do Brasil na Liga Mundial durante aquele ciclo. Talvez o maior time de vôlei de todos os tempos: Nalbert, Giba, Dante, Giovanni, André Nascimento, Anderson, André Heller, Rodrigão, Gustavo, Ricardinho, Maurício e Serginho.

Lembro do domingo da final, acompanhada com ansiedade porque este era um ouro certo brasileiro. A final com a Itália foi relativamente tranquila, exceção feita ao segundo set e o título veio com um toque na rede. Não cheguei a ver o pódio direito, porque naquele dia eu iria fazer o Enem. Quando saí da prova, perguntei ao meu pai sobre a Maratona e ele me contou sobre o famoso caso do Vanderlei ser agarrado por um maluco de saias.

Agora, 2016. Certamente o menos brilhante de todos os times. O que passou mais sustos. Mas que cresceu na hora certa. Com o Lipe trazendo um toque de insanidade, com Wallace certeira e a superação de vários atletas que não são exatamente brilhantes. Até por isso, talvez o mais emocionantes.

16/08/16

Agonia Olímpica

O salto com vara sempre foi uma das minhas provas de campo favoritas no atletismo. Porque há um clímax, um desafio que deve ser transposto. A vara lá no alto, em uma altura absurda. Há um ritual de corrida, de movimentos, que resultarão na superação ou não do obstáculo. Além de ser um esporte curioso daqueles que você imagina como é que alguém teve a ideia de fazer isso.

Os poucos segundos que se passam entre o encaixe da vara, o início da decolagem, o contorcionismo para superar a barra e o sucesso ou o fracasso durante a queda no colchão são de uma agonia extrema. Os movimentos para o sucesso são precisos. Qualquer leve esbarração em qualquer momento do movimento pode derrubar tudo.

Thiago Braz escreveu uma história emocionante nesse esporte tão agoniante. A cada salto em que ele superava alturas inimagináveis, até a ousadia de pular para 5,03 metros e conseguir algo que nunca conseguiu na vida, deixando o francês paranoico. (De certa forma, digo que acho vaias em esportes individuais uma maldade sem fim. Uma crueldade contra uma pessoa que está sozinha contra o mundo em um momento para o qual ele se preparou por toda a sua vida. Mas ao se comparar com Jesse Owens, o francês praticamente justificou retroativamente as vaias recebidas).

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Que agonia é a trave da ginástica artística. Sim, os caras fazem muita força nas argolas, o salto é a mais plástica de todas as modalidades e qualquer morreria ao saltar do cavalo ou tentar uma acrobacia nas barras paralelas. Mas a trave não dá. Olha a espessura daquele negócio em que mal dá pra se equilibrar em cima.

As atletas giram, pulam, dão cambalhotas sobre aquele pequeno pedaço e a sensação de que elas podem cair a qualquer momento provoca náuseas. É como aqueles caras atravessando cordas por sobre precipícios. Mas dando cambalhotas por lá.

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O basquete mata. Eis uma verdade da vida. Se eu pudesse der algum conselho para qualquer pessoa, esse conselho seria: não assista basquete. A agonia dos minutos finais do basquete irá tirar vários meses da sua vida.

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Os pênaltis, o momento mais agônico do futebol. O craque batendo o pênalti. Essa crueldade histórica que faz com que os craques desperdicem pênaltis decisivos. Marta erra a cobrança e, por deus, ela não merecia ser a responsável pela eliminação. Ninguém merecia, é claro, mas não a Marta. A maior jogadora de futebol feminino de todos os tempos não precisava passar por isso depois de tudo o que ela fez, do tanto que ela carregou a modalidade nas costas.

A goleira Bárbara a salvou e voltou a pegar o pênalti decisivo, depois de uma das séries mais desgastantes do ponto de vista emocional do torcedor em todos os tempos.

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A agonia no rosto de Juan Martín del Potro. O gigante argentino que colocou o coração em quadra e chegou a final olímpica depois de quase se aposentar por conta das lesões que o perseguiram durante os últimos anos. Batalhou como deu, mas não conseguiu a suportar um Andy Murray incansável. Jogo tão desgastante que no final ninguém sabia se chorava, comemorava, ou aplaudia. Como é bom ver Del Potro de volta ao circuíto mundial.

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Quanto sofrimento no vôlei, no vôlei de praia, no handebol. Quanta agonia nessas Olimpíadas.

15/08/16

Prata por se manter em pé

Quando Diego Hypólito começou sua apresentação na final olímpica do sol, juro que eu só torci para que ele não caísse no chão. Só isso já estaria bom. Diego não era mais favorito a nada, não era o melhor do mundo como era em 2008, ter chegado na final já era uma bom resultado. Que ele fizesse uma apresentação simples e terminasse em sexto. Mas que ele não caísse no chão.

De certa forma, acho que ele talvez pedisse por isso. Imagino que ele deve viver atormentado pelas lembranças de Pequim, quando era favorito a medalha de ouro e caiu sentado no chão em seu último movimento. Chegou em Londres sem ser favorito, mas na briga, e desabou de cara no chão ao errar uma pirueta qualquer.

Suficiente para virar motivo de chacota nacional, símbolo da falta de preparo mental dos atletas brasileiros. Somado a homossexualidade, Diego era uma piada fácil para todos, alguém simples de ser humilhado.

Por isso, eu só esperava que ele não caísse de novo. Porque ninguém mereceria viver o que ele viveria caso perdesse o equilíbrio de maneira cruel. A cada salto acrobático vinha o alívio, ele não caiu.

Outros adversários sim caíram. Os dois japoneses favoritos passaram pelo que Diego passou nas últimas Olimpíadas e caíram. Ele sem manteve no segundo lugar até o fim e conquistou uma medalha. E eu só torcia para que ele não caísse no chão. E realmente ele se manteve em pé nesses últimos anos.