16/02/2017

Dória, o prefeito dos nossos tempos

João Dória foi o grande fenômeno das últimas eleições municipais. Ganhou a prefeitura de São Paulo no primeiro turno, em uma cidade que nunca antes havia ficado em casa em um dia de segundo turno. Empresário com múltiplas atuações, nenhuma delas claramente explicável, Dória ganhou a eleição aproveitando o enorme antipetismo da capital paulista e também o sentimento antipolítico que ganhou força neste Brasil pós-Lava Jato.

Nos seus 45 primeiros dias enquanto prefeito da maior cidade brasileira, Dória se notabilizou pela aposta no marketing, em ações de efeito imediato, pelas parcerias com empresas privadas, se envolveu em uma polêmica com grafiteiros e se fantasiou de gari, pedreiro e de tantas outras funções desempenhadas por servidores de uma Secretaria de Serviços Urbanos.

A imagem de Dória vestido de gari, em seu primeiro dia de mandato, ao lado de todos os seus secretários municipais, pode parecer extremamente ridícula para mim e para um eleitorado mais a esquerda. No entanto, as suas fotos geraram milhares de likes nas redes sociais, geraram engajamento como se diz e aumentaram sua popularidade e a imagem de João Trabalhador construída na campanha. Passado o primeiro mês de seu mandato, é possível dizer que João Dória é o modelo de prefeito do tempo em que vivemos e não duvido que seu jeito de ser se transforme em um novo paradigma de administração, para o bem e para o mal.

A revolução tecnológica mudou completamente o mundo, nos acostumamos com a instantaneidade das coisas e esperamos rapidez, agilidade para tudo. Além disso, vivemos uma época de impaciência com a classe política. Os anos de desmando, os atrasos, a falta de avanços claros e tudo mais contribuem para este descrédito. A população quer respostas rápidas para os seus problemas cotidianos, não quer esperar por soluções.

Ao se vestir de gari, ou de pedreiro, Dória dá essa espécie de resposta imediata a população. Mostra que está lá na rua, para tapar os buracos. Cria esse mutirão de respostas rápidas que é o Cidade Linda. Investe na melhora da aparência da cidade e rende um bom marketing.

O Facebook e as outras redes sociais, sabemos, são um espaço de divulgação da nossa vida que deu certo. Um meio de mostrar nossos sucessos, o lado bom da nossa existência, os momentos de felicidade e que devem ser compartilhados com todos. Tampando buracos, varrendo ruas fantasiado, Dória mostra as ações positivas de sua gestão e recebe os seus likes, corações, alcança as pessoas e gera engajamento.

Há de se discutir se um prefeito não tem mais coisas para fazer na vida e certamente tem. Os principais problemas de uma cidade não serão resolvidos rapidamente, mas como foi dito, a população não tem paciência para isso. Existem centenas de servidores contratados para fazer os serviços de manutenção da cidade e é certamente ridículo que o prefeito tenha que varrer ruas por dez segundos, diante de uma multidão televisiva. Mas, gera likes. Suas postagens no Facebook, sempre acompanhadas da #JoãoTrabalhador alcançam mais de 100 mil reações. Um digital influencer.

O estilo mãos na obra de Dória começa a ser replicado por vários administradores. Aqui em Cuiabá o prefeito Emanuel Pinheiro posa para as lentes tampando buracos, tirando lixo da rua ao lado de uma ONG ambiental. Imagino quantos prefeitos do Brasil, governadores, gestores, não estejam fazendo isso potencializados pelo efeito Dória. Não é uma solução profunda, mas gera likes, garante paz para a administração.

Além disso, a exposição das fotos em redes sociais gera um fato novo todo dia. Algo a ser debatido pelas pessoas para o bem e para o mal, mas ainda assim uma amenidade. Desvia o foco de problemas maiores e isso pode ser excelente para a criação de uma imagem. Ao realizar os atos imediatistas potencializados pelas mídias sociais, o não-político Dória pode inaugurar um paradigma administrativo para as futuras gerações que pretendam chegar ao poder e lá se manter. Enquanto se fantasia de gari, o esgoto pode correr a céu aberto na periferia que o prefeito está no centro das atenções.

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Outra questão interessante da gestão Dória é relacionada as parcerias para a manutenção da cidade. João Dória ficou famoso e com fama de bom empresário, graças a sua capacidade de vender negócios, incluindo o seu próprio negócio. Publica revistas que ninguém lê, promove eventos que quase ninguém sabe que existem, mas que se tornam extremamente importante para aqueles que participam. Participar de um evento do grupo Lide significa a possibilidade de conseguir grandes negócios. Participar destas reuniões é uma garantia para as possíveis perdas decorrentes de sua ausência.

Até agora empresas automotivas já forneceram veículos para atuar na fiscalização da marginal Tietê. A Suvinil forneceu tinta para pintar um monumento. A ponte estaiada foi pintada e reformada com a ajuda de um pool de empresas que bancou toda a empreitada. Outra empresa forneceu novos banheiros públicos e por aí vai.

Sempre há uma questão ideológica em toda a parceria público-privada, por menor que seja. Há quem seja absolutamente contra, quem não veja problemas e quem acredita que é preciso alguma forma de controle, para que a relação seja estritamente profissional, sem que gere qualquer tipo de benefícios indevidos para qualquer lado. Neste caso, a parceria não envolve nenhum pagamento financeiro do Estado para as empresas. Os serviços são constatados nos balanços como doações. Mas, o que paga é o marketing.

Questionado, Dória afirmou que estimula a cidadania das empresas. Que o que paga os investimentos é o sentimento de pertencer a algo, de fazer o bem, algo que ele quer resgatar na população em geral. Mas, a cada nova parceria, a cada nova entrega sem custos ao erário público, o prefeito anuncia seu feito nas redes socais. Cita a entrega, o nome da empresa responsável e destaca a eficiência do uso dos recursos públicos e como aquilo será bom para todos.

Um comercial de 30 segundos no intervalo do Jornal Nacional custa mais de R$ 300 mil. Em outras emissoras o valor também pode chegar a R$ 200 mil. Uma campanha da Mitsubishi, por exemplo, com uma semana de exibição comercial em três emissoras pode chegar facilmente a R$ 10 milhões. A doação de meia dúzia de veículos, com direito a citação da empresa pelo prefeito da maior cidade do país supera o investimento feito em publicidade. Além de tudo, a empresa ainda fica associada com uma boa causa. O investimento publicitário vai ajudando a administrar a cidade.

Lógico que poucos prefeitos teriam chance de utilizar essa espécie de extorsão comercial misturada ao investimento publicitário. Acredito que só o prefeito do Rio de Janeiro, no máximo uns cinco governadores, não creio que surtiria efeito para um presidente. Em Cuiabá, por exemplo, que empresa lucraria doando R$ 1 milhão para reformar uma ponte? Não há retorno suficiente com este investimento.
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Com sua ampla divulgação nas redes sociais, tendência ao cosplay, e utilização insana do marketing, acredito que Dória é o prefeito dos nossos tempos, não que isso seja algo muito bom, depende da sua avaliação sobre que tempos são esses. Se o seu jeito de ser conseguir trazer alguns resultados, ou pelo menos omitir a falta deles, abafar as crises com selfies, não tenho dúvida que nas próximas eleições teremos diversos protótipos de Dória disputando eleições executivas no país. E aí, haja paciência dos membros de suas equipes para acordar de madrugada para fazer mutirões de limpeza.

27/01/2017

Aberto Retrô da Austrália

No começo, o Australian Open pareceu um tanto quanto decepcionante. Afinal, o fim do último ano deu a indicar que adentraríamos finalmente na época Murray/Djokovic de rivalidade no tênis e os primeiros dias em Melbourne derrubaram tudo. Um apagado Djokovic foi eliminado por Istomin logo na segunda rodada e até agora não dá pra entender como Murray foi atropelado pelo saque-voleio de Mischa Zverev.

Na chave feminina, em menor grau, a situação era parecida. Angelique Kerber a nova número 1 fez um campeonato apagado e foi eliminada sem brilho. Halep, Muguruza, nenhuma das candidatas a novas estrelas do circuito conseguiu ir longe. Apenas a interminável Serena Williams seguia em frente. Demorou um tempo até percebermos que este Australian Open foi uma espécie de janela temporal para o passado. Que era um evento destino a nostalgia dos grandes confrontos.

Foi apenas quando Venus Williams, navegando por uma chave relativamente tranquila  se colocou na semifinal que todos percebemos que o destino poderia nos brindar com um confronto entre as irmãs Williams na final. Não havia como torcer contra essa possibilidade e ela aconteceu.

Venus é apenas um ano mais velha do que Serena, mas essa diferença jogou a favor da primogênita no começo da carreira das duas. Duas negras dominando o circuito do tênis não deixava de ser uma novidade e os primeiros confrontos entre as duas ganharam grande apelo midiático. Venus dominou a irmã mais nova nos começo, apesar de Serena ter conquistado um Grand Slam primeiro. Venus venceu os três primeiros confrontos em grandes torneios, incluindo a primeira final entre as duas, US Open 2001. Serena venceu Roland Garros no ano seguinte.

Era o começo da rivalidade, antes que todos pudessemos perceber que Venus era "apenas" uma grande tenista, enquanto Serena era um gênio do esporte que iria dominar o circuito por um período impensável. Neste sábado as duas se enfrentarão pela 28ª vez, 15ª em um Grand Slam, nona vez em uma final desses torneios. Isso não acontecia desde 2009 - oito anos - e pode ser que seja a última vez. Vamos aproveitar a última vez.

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Entre os homens, apenas quando as quartas-de-final se confirmaram é que nós percebemos o que o destino estava nos reservando. Foi quando Federer superou Berdych e Nishikori e estava nas quartas-de-final. Quando Nadal também chegou lá que percebemos que o maior clássico do tênis poderia ser disputado em uma final.

E aconteceu. Depois de duas semifinais muito disputadas, ele conseguiram chegar lá. Depois de sete anos Federer volta a uma final na Austrália. Nadal, depois de três e três anos sem disputar nenhum título de Grand Slam.

A rivalidade Federer/Nadal redefiniu o tênis a partir da metade da década passada. O suíço surgiu primeiro e se colocou como candidato ao posto de maior tenista da história. Dominou adversários de uma maneira jamais vista, até que Rafael Nadal surgiu em 2004. Primeiro o espanhol dominou os torneios no saibro e lentamente foi aumentando sua resistência na grama. O resultado foram os confrontos épicos nas finais de Wimbledon em 2007, vencida por Federer, e em 2008, vencida por Nadal naquele que é talvez o maior jogo de tênis da história. Apenas quem viu aquela partida ao vivo se lembra de como a partida foi impressionante em suas quase cinco horas de duração.

A rivalidade aumentou a exposição mundial do esporte, que ganhou uma audiência jamais vista. Atenção multiplicada com as subsequentes aparições de Djokovic e Murray, que levaram o esporte para um nível estratosférico de disputa.

Será o 35º confronto entre os dois, o 12º em Grand Slams, a nona final. Nadal tem vantagem de 6x2 nesse tipo de confronto, que não acontecia desde 2011. Seis anos e agora com um sendo o cabeça de chave nº 9 e o outro o nº 17 (em todos os confrontos anteriores, um dos dois sempre era o nº 1 do mundo).

Pode ser a última vez, é provável que seja a última vez. Vamos aproveitar também. Não é qualquer dia que você vê finais com os maiores ganhadores de Slams masculinos e femininos enfrentando seus maiores rivais.

(Para completar o momento retrô, os irmãos Bryan também voltam a uma final de Grand Slam após três anos).

26/01/2017

Vivendo na Pós-Verdade

Tenho que dizer que estou obcecado com o termo "pós-verdade". Desde que a pós-verdade se popularizou, ao ser escolhida palavra do ano pelo dicionário Oxford, não consigo parar de pensar sobre suas implicações para o mundo atual e para a minha profissão.

Colabora para isso que Donald Trump seja o presidente dos Estados Unidos, reforçando toda a força e significância da palavra. Pode parecer em um primeiro momento que seja um daqueles termos empostados que não significam nada, mas tenho cada vez mais tempo que vivemos na era da pós-verdade.

"Um adjetivo que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”. Esta seria a pós-verdade. Quando a versão é mais importante do que o fato.

Estão aí as redes sociais, o Facebook e o Whatsapp, com as pessoas compartilhando centenas de informações falsas, baseadas na falha crença de "se está na internet, deve ser verdade". Sites e mais sites especializados em inventar informações, mas informações que mantém uma certa conexão com a realidade, que não seriam estranhas se fossem verdade, mas que realmente não são verdade. E essas informações viralizam e acabam se transformando em verdade.

Justamente por manter essa conexão distante com a realidade é que essas notícias falsas são tão perigosas. Elas estão aí para afirmar as nossas suspeitas, as nossas intuições, para confirmar que nós realmente estávamos certos em nossas convicções. Uma confirmação baseada na inverdade, uma ratificação inexistente, mas verossímil. Uma bomba para extremismos, ignorância e intolerância.

Penso na minha profissão, no jornalismo neste cenário. Claro que não podemos negar que a profissão tem uma boa quantidade de pessoas desprezíveis, principalmente entre aqueles que são donos de veículos de comunicação. Mas não acredito que a proporção seja diferente da quantidade de pessoas desprezíveis em tantas outras profissões, principalmente entre aquelas que são empregadoras.

Mas é fato já que o jornalismo de verdade está perdendo a disputa da disseminação para o jornalismo pós-verdade. Afinal, os fatos muitas vezes podem nos desagradar e ir contra o que pensamos. Mas, lá na pós-verdade poderemos achar uma quantidade de palavras para massagear o nosso egocentrismo.

Tenho total convicção que as próximas eleições brasileiras repetirão o fenômeno norte-americano e os candidatos que dominarem melhor a rede de disseminação de notícias pós-verídicas terá uma grande chance de se sagrar vencedor.

Os boatos sempre existiram, os panfletos apócrifos, os jornais comprados para reproduzir mentiras. Mas o poder de alcance nunca foi igual ao que vemos agora em um Facebook da vida. Isso tudo me preocupa, isso tudo ocupa boa parte dos meus pensamentos recentes.

19/01/2017

Barack Obama: Sentiremos Falta

A partir desta sexta-feira, Donald Trump será o novo presidente dos Estados Unidos. Por trás de toda a loucura que nos espera, de todas as dúvidas sobre o futuro da humanidade e questões afins, minha única certeza é que sentiremos falta de Barack Obama.

O primeiro presidente negro norte-americano assumiu seu mandado rodeado por esperança, após os terríveis anos de George W. Bush. É certo dizer que Obama cometeu erros, que não fez coisas que se esperava que ele fizesse, assim como todo e qualquer cidadão que assume um cargo executivo. Mas o principal legado deixado pelo futuro ex-presidente é o bom senso.

Quem foi um adolescentes no começo dos anos 2000, como eu, lembra a imagem que os EUA passavam para o mundo. Era um clichê odiar o país que investia em conflitos bélicos na Ásia, com seus presidente com déficit intelectual e sua política internacional agressiva. Chegou a um ponto em que era quase compreensível entender a Al Qaeda.

Obama mudou essa imagem e hoje os EUA não são mais tão odiáveis. Tentou costurar um acordo de paz em Israel, deixando de lado as decisões que beneficiavam unicamente os judeus. Realizou acordos diplomáticos com o Irã, reatou relações com Cuba, trabalhou para a integração das minorias e nunca propagou o ódio, o que é algo raro nesses tempos de ódio em que nós vivemos.

Talvez isso explique um pouco o amargo do final de sua gestão com a eleição de Trump. Obama foi um presidente cosmopolita, midiático, em tempos de isolamento cada vez maior.

Difícil saber como serão os próximos quatro anos, mas não tenho dúvida que sentiremos falta da leveza existencial de Obama.

12/01/2017

Bernardinho

Bernardinho era o louco que dirigia a seleção feminina de vôlei. Não era tão louco quanto o cara que dirigia a Rússia, que babava e cuspia, chegava quase a agredir fisicamente as suas jogadoras - coitadas, que tinham sempre uma cara de choro contido.

Ninguém duvidava porém das qualidades de Bernardinho naquela seleção feminina. Conquistou duas medalhas de bronze, em Olimpíadas nas quais a equipe masculina havia parado nas quartas-de-final. Fez campanhas brilhantes nas duas competições, tendo apenas um porém: a brilhante geração cubana, tricampeã olímpica, algoz brasileira nas duas semifinais. As derrotas foram em jogos épicos, disputados, derrotas muito doloridas. Não dava pra tirar o mérito, apesar de nossa cultura de destruição dos não vencedores.

Mesmo assim, houve alguma polêmica quando Bernardo Rezende foi escolhido como novo treinador da seleção masculina. Ele nunca havia trabalhado com os homens. As meninas queriam que ele continuasse com elas. Treinadores masculinos se sentiram desprestigiados. Eu sei que eu pensei na época, com 13 anos, que seria uma ótima escolha.

No ano seguinte as expectativas começaram a ser cumpridas: vitória na Liga Mundial, apenas os segundo título brasileiro até então. Lembro da semifinal épica contra a Rússia, em que o Brasil venceu os dois primeiros sets, levou o empate e a conquista veio em um tie-break épico. A final com a Itália foi tranquila, iniciando uma era de freguesia italiana contra o Brasil.

Em 2002 foi o título mundial em outra conquista épica, o primeiro do Brasil. Vitória sensacional contra a então tricampeã Itália nas quartas, contra a Iugoslávia na semifinal e um ace milagroso de Giovanni na final contra os russos. E então ninguém segurou o Brasil.

Aquele time até então apagado se transformou na maior equipe de vôlei de todos os tempos. Giba deixou de ser apenas o bonitinho da equipe e virou o jogador decisivo. André Nascimento virava todas as bolas. Murilo era o monstro dos bloqueios. O louco Ricardinho revolucionou o esporte e talvez seja o maior levantador de todos tempos.

Foram cinco títulos seguidos na liga mundial, o Ouro Olímpico em Atenas, o segundo título mundial conquistado de maneira implacável em 2006. Duas Copas do Mundo. Até que a magia acabou.

A até hoje controversa briga entre Bernardinho e Ricardinho que afastou o levantador do grupo após a conquista da Liga Mundial em 2007 tirou um pouco da magia da equipe. Marcelinho não tinha o gênio do antigo titular. O Brasil passou a pensar nas ligas mundiais - conquistou apenas mais duas e conseguiu a prata nas Olimpíadas de 2008, quando era apenas a terceira força, atrás de EUA e Rússia.

A dificuldade de renovação fez com que o Brasil deixasse de ser a potência absoluta do esporte. Mas o grande mérito de Bernardinho é que a constância do seu trabalho fez com que a seleção sempre chegasse nas fases finais. Campeã do mundo em 2010 e vice em 2014. Terceiro lugar na Copa do Mundo de 2011. Prata nos Jogos de Londres, em uma derrota tão dolorida que ofuscou a campanha de superação. Uma série de pódios nas Ligas Mundiais.

Até que vieram os jogos no Rio de Janeiro. A campanha foi sofrida, como jamais foi. O Brasil ficou perto de ser eliminado na primeira fase. O time era, claramente, inferior a adversários como os EUA e a França.

Mas como em um novo milagre, a equipe se superou. Lipe virou o fator combustível da equipe, Maurício virou a segurança na rede e Bruninho se provou o levantador que a equipe precisava. Wallace e Lucarelli levaram a equipe nos momentos difíceis e o interminável Serginho foi o ponto de equilíbrio. Na fase final o Brasil sobrou contra os adversários e chegou mais um improvável ouro olímpico.

Dezesseis anos depois, Bernardinho se aposenta do Brasil como o maior técnico da história do vôlei entre seleções. Uma lenda.

02/01/2017

Planos para o ano novo

Sempre que um ano novo se aproxima eu penso comigo: um ano novo uma boa época para começar um plano de longo prazo. Não falo de perder peso, fazer exercício, parar de usar drogas lícitas ou ilícitas, ou esses clichês resolutivos do ano novo.

Penso naquelas pessoas que durante um ano tiram uma foto de uma mesma coisa. Uma foto da sua cama, do seu café da manhã, do seu almoço. De uma árvore, sei lá. Ao final do ano será possível comparar as mudanças proporcionadas pelos 365 dias do ano. Não sei porque, esse tipo de projeto sempre me fascinou e toda vez que o fim do ano se aproxima, eu penso que poderia fazer algo assim.

Só que o problema é que eu não sei exatamente o quê fazer, não defino um plano uma meta, não há nada que eu não ache extremamente ridículo.

Assim sendo, quando vou ver, o dia 1º de janeiro já acabou e eu lembro que gostaria de ter feito isso, mas que agora já é tarde demais, já estou na cama dormindo e terei que esperar o próximo ano, quando provavelmente irei esquecer tudo de novo.

31/12/2016

Em 2016

Em 2016 pela primeira vez eu estive em um bloco de carnaval. Se eu pensar friamente no meu ano, este é certamente o fato mais inesperado.

Em 2016 eu paguei a conta de restaurante mais cara da minha vida, mas passei a maior parte do ano comendo no restaurante mais barato que eu conheço. Comi a melhor pizza da minha vida e também a pior. Aprendi a fazer mojitos e molho gorgonzola.

Conheci uma cidade que eu não conhecia. Voltei em outras que já conhecia. Subi no Pão de Açúcar depois de 18 anos. Subi no Morro da Igreja e não vi nada. Entrei no mar e perdi minha aliança no fundo dele.

Encontrei a maior parte das pessoas com quem eu me importo neste mundo e tomei vinho com quase todas elas. Talvez quisesse as ter encontrado mais. Percebi que muitas vezes a distância geográfica pode aproximar.

Passei o ano inteiro ao lado de uma pessoa. Ri muito com ela e tentei animá-la nos momentos de chorar. Discutimos a localização de Sevilha, alugamos um bug e o devolvemos poucas horas depois.

Foi provavelmente o ano da minha vida em que eu menos li, menos escutei música e menos escrevi. Fiz apenas cinco posts no Facebook, fazendo minha parte em um mundo com excesso de opinião.

Corri em 2016 mais do que havia corrido em toda a minha vida. Torci o meu pé esquerdo descendo uma escada para ir na praia, estirei dois ligamentos e dois meses depois ainda não me recuperei totalmente.

Vi um filme francês no cinema e achei uma porcaria. Vi um quadro de Van Gogh ao vivo e me impressionei com as marcas do pincel. Não vi shows que eu queria ter visto. Não fui em lugares que eu queria ter ido. Vi coisas que eu não queria ter visto. Vi a eleição do Trump e outras notícias que alimentam uma angustia existencial. Editei uma matéria que me fez voltar a ter fé na humanidade. Trabalhei muito em alguns dias. Convivi com muitas pessoas que eu realmente gosto e admiro.

Fiquei 15 dias imerso nas Olimpíadas. Assisti a abertura dos Jogos e foi uma das poucas vezes na minha vida em que me senti parte de algo maior. Realmente vibrei quando o Thiago Braz ultrapassou aquele sarrafo posicionado a 6,03 metros. Fiquei realmente abalado com o acidente do avião da Chapecoense.

Altos e baixos, coisas boas e ruins. Sobrevivemos 2016.

29/11/2016

Fragmentos de uma tragédia

Um dia em meado de outubro e eu estou no aeroporto de Guarulhos. Estava no meio de umas férias, talvez no final, em uma dessas tantas conexões que sempre tem Guarulhos como eixo central. Na espera para meu voo, vejo passar a delegação da Chapecoense. Não lembro o dia, mas sei que era uma segunda-feira. A equipe podia estar voltando para Chapecó após uma partida no domingo, ou partindo de Chapecó para algum lugar no mundo. Pouco mais de um mês depois, estão todos mortos.
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Especialistas, sempre eles, falam que tragédias, mortes em acidentes durante viagens estão entre as mais traumáticas que familiares e amigos podem enfrentar. Isso porque, há a lembrança da partida tranquila e não há a volta. Há essa angustia do ente que foi e que não voltou, do avião que nunca chegou, do carro que se perdeu em algum lugar do longo caminho. O saguão do aeroporto sem as pessoas que deviam estar lá, as esteiras das bagagens em uma eterna espera pelas malas que jamais vão chegar.
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Chapecoense, desses times pequenos e simpáticos, para os quais não há como se torcer contra. Time jovem, de cidade pequena, com pouca tradição, mas que faz um trabalho sério. Prestes a viver o maior momento de sua histórias, em uma jornada gloriosa que já seria digna de um filme, que até ontem ainda tinha a expectativa de um final feliz.
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Como seu último ato no futebol, o goleiro Danilo - ídolo maior da torcida chapecoense - fez um pequeno milagre que garantiu a vaga da Chape na final da Copa Sul-Americana. O zagueiro Angeloni do San Lorenzo finalizou a poucos metros do gol e, com o pé, Danilo salvou o gol da eliminação aos 48 do segundo tempo. Defesa que garantiu o momento mais feliz da vida da torcida em Chapecó, provavelmente da vida de Danilo. Uma semana depois ele estaria morto. Resgatado com vida, mas não resistiu aos ferimentos.

Ironia da vida. Se Danilo não alcançasse àquela bola, a Chapecoense teria sido eliminada no último minuto, na maior tragédia futebolística possível. O time passaria uma semana com o amargo gosto do fim do sonho e não teria embarcado para a Colômbia. A glória que precede a tragédia. Ninguém poderia saber. A vida é cheia de ironias, a vida não é para principiantes.
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Chapecó, cidade de 170 mil habitantes no Oeste catarinense. A final sul-americana provavelmente é um dos maiores momentos esportivos para a imprensa local. Muitos estavam no avião para esta grande experiência profissional. Todos mortos. Nada faz sentido.

21/11/2016

O fim de uma era no tênis?

A temporada de 2016 do tênis acabou com Andy Murray alcançado o improvável posto de número 1 do mundo, marca ainda mais impressionante se pensarmos que em maio ele estava 8.000 pontos atrás de Novak Djokovic no ranking. Um segundo semestre perfeito, associado ao baixo rendimento do sérvio, principalmente nos torneios menores, levou o escocês ao posto que ele sempre sonhou, mas que sempre foi impedido pelo azar de viver na era mais espetacular do tênis.

Mas a pergunta que fica é: será que esta grande era está chegando no fim?

Roger Federer, o maior de todos, sofreu com uma rara lesão e terminou o ano em maio, sem conquistar nenhum título, encerrando um ciclo de 16 anos seguidos com conquistas. Mais do que nunca, restam dúvidas se aos 36 anos ele ainda conseguirá voltar a jogar em alto nível.

Rafael Nadal chegou a parecer forte na temporada de saibro européia, mas terminou o ano também em baixa, com mais uma série de lesões e não conseguiu avançar da quarta rodada em nenhum Grand Slam do ano. Desde quando isso não acontecia? Desde 2004.

Novak Djokovic, que começou o ano soberano e conseguiu um domínio sem precedentes ao conquistar o título de Roland Garros e completar o Grand Slam em sequência pela primeira vez na era profissional do tênis, pois o sérvio que parecia imbatível, colecionou tropeços improváveis após o título inédito no saibro e parece sem confiança e sem vontade. Também pareceu sentir lesões pela primeira vez na carreira e não dá pra dizer se elas vão perdurar.

Sobrou Andy Murray, renascido e ao que tudo indica motivado, quando viu a janela se abrir. Se ele fizer tudo certo, garante sua liderança no ranking mundial pelo menos até Wimbledon do ano que vem.

O fato é: há quanto tempo não víamos um top 8 do mundo com apenas dois membros do Big Four entre eles?

Wimbledon foi o primeiro torneio em muitos anos sem ter nenhum confronto entre os membros do Big Four e não há como negar que o torneio perdeu muito da sua graça, sem a expectativa para estes confrontos sempre épicos. Milos Raonic, o postulante ao título naquela decisão, não tem consistência, qualidade ou brilho para chamar a atenção para suas atuações - por mais que tenha sido o melhor jogador não ganhador de Slam do ano.

Ao que tudo indica o Big Four está finalmente chegando ao fim, ano que vem todos terão pelo menos 30 anos. Quem irá substituí-los? A geração de Raonic, Nishikori, Dimitrov e etc já está aí há alguns anos e não dá mostra de ter essa capacidade.

A expectativa fica por conta dos #NextGem que a ATP tanto usa - não é a toa, é a aposta deles para manter o nível de atenção global no esporte. Zverev, Fritz, Coric. Será que eles chegam lá?

18/11/2016

Dez anos de piauí

Lembro-me bem do dia em que eu conheci a revista piauí: 29 de novembro de 2006. Era aniversário de um tio e em sua sala estavam dispostas as duas primeiras edições daquela revista grande, com capas curiosas que eu já havia visto no programa Pontapé Inicial, da ESPN Brasil. Entre uma folheada e outra, me peguei hipnotizado na matéria de Antônio Prata, How do you do, Dutra? Também não consegui me desvencilhar de uma matéria da Vanessa Bárbara sobre os palíndromos. Devo ter sido bem antissocial naquela noite, mas só sei que no mês seguinte eu estava na banca de jornal comprando aquela revista grande e assim o fiz desde então (exceção feita a um breve período em que fui assinante).

Dez anos já passaram e nesse tempo piauí me apresentou alguns dos meus autores favoritos (David Foster Wallace, Daniel Galera), me fez comprar livros, me mostrou que um olhar aprofundado pode mostrar que nem tudo é como parece ser, me fez entender as causas dos acidentes aéreos nacionais, conhecer os vultos da república, me ajudou a votar em uma eleição presidencial e me tornou íntimo dos matemáticos do Inpa e seus sistemas dinâmicos. Me emocionou com tragédias naturais e me fez rir até mesmo com a graça na falta de graça dos quadrinhos do Gotlib e a polêmica que ele provocava na seção de comentários.

Dez anos depois, não sei dizer como teria sido minha vida nesses dez últimos se eu não tivesse ficado tão interessado naquele papai Noel melancólico escutando Osvaldo Montenegro em um shopping de Penedo. Por onde andará esse papai Noel?

09/11/2016

O tempo em que nós vivemos

Na sala de espera de fisioterapia, aguardo pela sessão de choques em um pé que torci brutalmente durante minhas férias. Não sei se todos se sentem assim, mas nós estamos no dia seguinte ao em que Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos.

No começo parecia uma piada, depois foi virando uma ameaça, mas de certa forma parecia que nunca ia se concretizar. Esse cara é louco, é misógino, é xenófobo. As pessoas vão se mobilizar para não deixar que ele chegue até a casa branca com toda sua dose de insanidade. Isso não aconteceu. Os votos ainda não terminaram de ser apurados, mas, ao que tudo indica, Trump terá menos votos do que Hillary Clinton e será eleito, tal qual George W. Bush, pelo sistema de colégios eleitorais norte-americanos.

Mas o que me chama mais a atenção é que dificilmente Trump conseguirá alcançar os 62 milhões de votos que Mitt Romney, o republicano derrotado de 2012 conseguiu. Talvez o magnata-presidente consiga chegar aos 60 milhões, iguale o que John McCain conseguiu em 2008 quando perdeu em muito para Obama. Dá para dizer que, mais do que um fenômeno, Trump se aproveitou das pessoas que não se mobilizaram para votar em Hillary e toda a sua falta de carisma.

Aliás, entre as muitas coisas que eu li antes das eleições norte-americanas, muitas coisas que, digamos, preparavam o espírito de todas para a possível vitória do Trump, estava o texto em que o cineasta Michael Moore lamentava as cinco razões pelas quais Trump seria eleito. Hillary era um dos principais problemas, ele dizia. Em um país no qual o voto não é obrigatório e a votação é realizada em um dia de trabalho normal, quem se mobilizaria para votar em Hillary? Convenceria as pessoas a votar nela? Hillary não desperta paixão e em um país como os Estados Unidos é preciso despertar um mínimo de paixão para ganhar as urnas.

Trump, por outro lado, desperta paixão. Ou ódio. Ele conseguia mobilizar as pessoas. Parece que por muito tempo, a expectativa democrata é que o ódio a Trump motivasse as pessoas, para que Hillary fosse eleita como uma espécie de antídoto ao republicano desvairado.

A sala de fisioterapia se mantinha em seu melancólico silêncio de sempre, quebrado apenas pela TV sintonizada na Globo e por uma senhora esperando o atendimento e conversando com outra sobre as eleições nos Estados Unidos, sem entender direito o que acontecia. Com alguma pessoa próxima a ela, talvez uma filha, residente nos States, ela relatava uma mensagem recebida explicando o porquê Trump vencera. “A população cansou dos anos Obama e quer mais geração de emprego”, era a síntese da mensagem. “Se os Estados Unidos forem bem, o mundo inteiro vai bem”, concluía a mensagem. “Tomara a Deus”, concluiu a senhora.

Sempre é perturbador pensar na Alemanha entre guerras e a ascensão de Hitler. Pensar se ninguém em nenhum momento pensou que alguma coisa de errado estava acontecendo, que era preciso interromper aquilo. Um líder extremista e carismático, propondo soluções absurdas e reforçando o discurso nacionalista. Machen Deutschland wieder groß, poderia dizer um slogan da época. Me sentia um pouco assim, como um observador passivo dos dias pré-apocalipse.

Donald Trump pode ser bem um representante desses tempos atuais. Tempos de ódio e ele encampa o discurso de ódio como ninguém. Tempo de aversão aos políticos tradicionais e, isso ninguém nega, ele não é um político de carreira, enquanto que Hillary representa todo o establishment político. O mesmo fenômeno que ocorreu no Brasil, em varias capitais em que candidatos vencedores foram aqueles que conseguiram se vender como o homem de fora da política, aquele que não precisa dela para sobreviver. Trump também é uma espécie de meme ambulante e talvez isso explique a sua capacidade de viralizar.

Entre as tantas análises sobre a possibilidade de sua eleição, uma delas dizia sobre um conceito que eu nunca escutei antes: “os novos pobres”. Basicamente, eles seriam a antiga classe operária, que com o fechamento das indústrias perderam espaço no mercado de trabalho. São pessoas sem estudo, geralmente brancas, e que agora têm oportunidades de emprego muito ruim, ou que exigem uma qualificação superior a que elas têm. Perdem poder financeiro e, ao mesmo tempo, são vistas como uma parcela leprosa da sociedade, por sua cultura machista, homofóbica, racista, são constantemente apontados por seus privilégios como homens brancos. Diante dessa situação, eles se voltam contra aqueles que apontam os dedos para eles. Se revoltam com o seu declínio e com o ridículo de seus valores, enquanto as minorias garantem mais direitos. Não que eles tenham razão, mas eles simplesmente se sentem assim. Trump fala diretamente com essas pessoas. “depois de aturar oito anos de um negro nos dizendo o que fazer, temos de ficar quietos e aguentar oito anos ouvindo ordens de uma mulher? Depois disso serão oito anos dos gays na Casa Branca! E aí os transgêneros! Você já entendeu onde isso vai parar. Os animais vão ter direitos humanos e uma porra de um hamster vai governar o país”, provocou retoricamente Michael Moore.

Trump também representa o mundo atual. Um mundo em que as liberdades individuais e os avanços tecnológicos chegaram a um ponto - ainda mais na América - em que as pessoas vivem cada vez mais isoladas e alienadas em relação ao resto da sociedade. Cada um escolhe sobre o que quer se informar e esse isolamento diminuí a sensação de pertencer a alguma coisa, diminui a empatia e a nossa capacidade de pensar nos outros. Aumenta o egoísmo. E isso possibilita que um louco como Trump una as pessoas, mesmo que pelo ódio.

O silêncio melancólico da sala de espera da fisioterapia é quebrada por um senhor, que aguardava uma sessão. O dia estava movimentado, como eu nunca vi antes, muita gente acordou nesta quarta-feira sentindo dores que precisavam ser curadas com choques, gelo, exercícios ou qualquer tratamento. Revoltado com a espera, ele exigia ser atendido na frente por ser idoso. Dizia que a clínica precisava cumprir a lei. Olhei ao meu redor e constatei que 70% das pessoas que esperavam eram idosas. Outras tantas estavam em muletas, cadeiras de rodas, em situações que certamente mereceriam ser prioritárias. A atendente tentava argumentar isso, mas o senhor apenas gritava com ela pela garantia dos seus direitos.

O eu, o egoísmo, o egocentrismo, a falta de capacidade de pensar sobre as outras pessoas. Tudo isso veio à minha cabeça nessa manhã, dia em que todos nós sabemos que Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos.

04/11/2016

No fundo do mar

O mar da praia da Ferradura, em Búzios, levou minha aliança de casamento. Não houve um aviso prévio, uma sensação de que algo poderia ocorrer. A aliança simplesmente escorregou e se alojou no fundo do mar.

Tentei tatear a areia em busca de um reencontro improvável, que obviamente não ocorreu. Aquele pequeno anel, que pesa apenas quatro gramas, ficará perdido para sempre por ali. Ou não.

Pensei nos movimentos da água e da areia que é arrastada de um lado para o outro. Se esses movimentos farão com que minha aliança fique para sempre enterrada por ali, no meio da praia da Ferradura, se oxidando lentamente. Se um dia será acidentalmente engolida por algum peixe, que poderá quem sabe ser pescado e essa aliança poderia aparecer misteriosamente no prato preparado por alguém.

Se esses movimentos todos farão com que um dia o anel apareça na areia e seja eventualmente encontrada por alguém. No vai e vem das ondas ela poderia ser arrastada para outra praia, para outro ilha. Junto com o lento movimento das placas tectônicas ele poderia um dia aparecer na África. Ou talvez fique para sempre enterrada, cada vez mais fundo, metros e metros abaixo da areia.

Até que algum cometa, um meteoro, uma nova era glacial ou de aquecimento global, altere o nível das marés. Um dia talvez a praia não seja mais praia, mas um enorme deserto, dominado por empresários que construirão suntuosos empreendimentos no meio do nada e no meio das escavações poderá surgir uma aliança com milhares de anos de existência e o nome de Ana Rosa.

Talvez o mundo não seja mais mundo. As futuras gerações poderão encontrar o artefato em escavações arqueológicas. Seres de outro planeta. A nova raça dominante do planeta em um futuro distópico.

Ela já pode ter sido encontrada por uma criança, que a jogou de volta no mar. Ou por um vendedor. Por um usuário de droga, que vendeu o adereço em troco de uma pedra de crack e minha aliança já pode ter sido derretida, ou será derretida, para virar correntes, uma nova aliança, barras de ouro - que valem mais do que dinheiro.

Não importa muito, nunca saberei o que acontecerá. E ninguém saberá que aquele pequeno anel dourado representava uma noite tão feliz em minha vida, um dia que jamais esquecerei. Será apenas um objeto perdido no fundo do mar, como tantos outros, tragados pela areia.

07/10/2016

Tempo perdido

Não me lembro exatamente quando foi que eu baixei pela primeira vez o Mozilla Firefox. Sempre havia usado o Internet Explorer, nunca tinha me preocupado com essas coisas, até que um dia meu computador passou a travar um pouco e todos me indicaram usar o Mozilla.

Que revolução.

No momento em que eu baixei o Mozilla eu senti uma espécie de arrependimento passado, por todo o tempo perdido utilizando o IE. Quanta coisa eu poderia ter feito, quantos segundos acumulados em minutos, em horas, perdidos no carregamento lento das páginas. Eu perdi muita coisa na vida e não havia nada que eu pudesse fazer para recuperar esse tempo perdido.

Fui acometido pela mesma sensação ontem, enquanto o Brasil jogava contra a Bolívia pelas Eliminatórias da Copa. Quanto tempo nós perdemos com o Dunga?

Ok, era a Bolívia, mas em quantos jogos recentes contra seleções mais fracas não vimos o Brasil sofrendo com o 0 no placar, buscando um gol solitário em uma bola parada e sofrendo uma pressão desnecessária.

Um tempo perdido que jamais será recuperado.

Mas, eu pelo menos ainda podia alegar o desconhecimento quanto aos novos navegadores. Quem colocou o Dunga lá não podia dizer que não sabia.

30/09/2016

ESPN sem Trajano - ou um canal que já não é mais

Talvez eu exagerasse se falasse que fiz jornalismo por conta da ESPN Brasil, mas eles têm lá sua parcela de culpa.

Nos meus anos finais de colégio a ESPN era o único canal esportivo sintonizado pela antiga DirecTV e eu não poderia reclamar. Não tinha o campeonato brasileiro, mas tinha opinião, informação. Acompanhei a Copa de 2002, que eles não transmitiram, com os seus comentários e o sempre histórico Linha de Passe. No meu sonho adolescente eu devia pensar em um dia participar do Linha de Passe.

No começo da faculdade, também só dava ESPN. Assistia todos os bate-bolas possíveis, o Sportscenter. Me sentia amigo dos comentaristas e apresentadores. Se os encontrasse na padaria do lado do canal, no Sumaré, talvez conversasse com eles como se eles me conhecessem.

Apenas em 2007, quando a Sky comprou a DirecTV, passamos a assistir o Sportv e isso só serviu para que eu reafirmasse ainda mais meu compromisso com a ESPN. O canal era a voz da sensatez. Assistia os grandes eventos sempre lá. Eram os comentários que eu faria, era os comentários que me levavam a refletir.

E se há alguém que era a cara do canal, esse alguém era José Trajano. O cara fundou o canal e durante anos seguiu uma utopia de deixar os jornalistas falarem o que quiserem. Com seus olhos eternamente marejados, Trajano sempre transmitiu aquela imagem de bastião da moralidade.

Já faz cinco anos que Trajano deixou o comando do jornalismo do canal e as coisas foram mudando. Aos poucos eu fui me desapegando do canal e hoje é preciso admitir: apesar de ainda ter uma base mais forte nas análises táticas e nas opiniões, a ESPN aos poucos se transformou em uma versão genérica do Sportv. O jornalismo levado ao ar hoje pela ESPN é a mesma coisa que o Sportv faz, só que com menos qualidade.

Nas última Olimpíadas eu me rendi ao "canal campeão". A cobertura foi infinitamente melhor, com seus 500 canais e comentaristas claramente mais preparados do que os da ESPN. O canal do Sumaré perdeu feio aonde sempre fez bonito: no esporte além do futebol.

O destaque da ESPN foram as narrativas caóticas de Rômulo Mendonça no vôlei. Divertido, mas muito mais em vídeos de 15 segundos no Twitter do que ao vivo. Eu não queria a ESPN para ficar fazendo piadinhas bobas, com coisas pavorosas como o Decreto de Sexta-feira. Eu não queria a ESPN para ser mais uma representante do jornalismo João Sorrisão, inaugurado lá pelo Thiago Leifert e seguido a risca por um monte de canais e programas.

Ah é a audiência. Ok, se é preciso se idiotizar para ganhar audiência, parabéns aos idiotas que venceram a guerra pelo controle remoto.

Hoje, 30 de setembro de 2016, José Trajano foi demitido da ESPN Brasil que ele fundou há 21 anos. O motivo não é bem explicado, política ou o famoso reposicionamento de mercado. Em todo lugar vejo a consternação de jornalistas e pessoas interessadas no assunto (também vejo a comemoração da miséria humana, de pessoas que odeiam aquelas que cometem o crime de não pensarem igual a você). Vejo a minha consternação, de alguém que cresceu assistindo a ESPN.

Vejo a minha consternação em perceber: a ESPN Brasil morreu, pelo menos aquela que nós um dia conhecemos. Ali no Sumaré jaz um canal.