20/09/2017

Roupas velhas

Pelas razões que sejam, duas amigas minhas do Facebook estão se desfazendo de itens pessoais, colocando-os a venda. Itens de decoração, livros (seriam livros igualmente itens de decoração?) e roupas.

As roupas me impressionam. Certo que mulheres gastam mais com roupa (em quantidade e qualidade) e por isso tem alguma oportunidade de vender algo que não vão mais usar. Mas, penso no meu caso. Se eu precisasse passar por uma situação assim.

Olho para meus livros e penso que sim, pessoas se interessariam por eles, dependendo do preço que eu definisse. Dois quadrinhos que eu tenho podem interessar alguém. Mas, as roupas, uau, se eu precisasse me desfazer delas duvido que uma pessoa em sã consciência se dispusesse a pagar que valor que seja numa camiseta comprada na Riachuelo uns 10 anos atrás. Talvez um mendigo?

Isso, talvez eu devesse procurar mendigos na rua e perguntar se eles aceitariam as roupas e humilhados pela falta de oportunidades aceitariam. Ou talvez algum lugar que recicle tecido pagando 20 centavos pelo quilo.

Ou nem isso.

08/09/2017

Uma coisa não exclui a outra

Uma coisa não exclui a outra. Nesses tempos de polarização e ódio, me parece que esse é o grande exercício diário de sabedoria, o grande esforço de compreensão que é preciso empreender. Um fato não anula o outro.

Sempre posso citar o caso do Lula, a grande figura da polêmica nacional. É possível aceitar que seu governo proporcionou avanços sociais? Sim. Dá pra dizer que há uma perseguição, ou um superdimensionamento dos fatos relacionados ao ex-presidente na chamada grande mídia, e que mesmo o juiz Sérgio Moro e os procuradores de Curitiba tem atuações muitas vezes partidárias contra ele? Sim. Mas isso não exclui o fato de que, ao que tudo indica, Lula se apoderou de dinheiro público em causa própria, que praticou tráfico de influência, enfim, utilizou o poder em benefício próprio. Mas, geralmente ou se está de um lado ou se está de outro.

O mesmo pode ser dito em relação ao Moro. Errou e agiu de maneira política em alguns casos - vide vazamento de grampos feitos fora do horário determinado pela justiça? Sim. Junto com a própria Lava Jato, cometeu excessos? Sim. Mas a operação é importante e conseguiu uma série de avanços? Sim também.

O fato de um cara ser um péssimo agente público não exclui a possibilidade de que ele seja um ótimo pai de família. Não é porque um cara é muito gente boa, que ele não pode ser um ladrão de dinheiro público. Não é porque o cara é um ótimo administrador que ele não pode ser alguém que bate na mulher.

Há essa busca maniqueísta pelo ideal do canalha ou do homem perfeito. Acho que fruto de uma sociedade cada vez mais individualizada e que busca na sua própria experiência o modelo de vida ideal.

24/08/2017

Drivin' is a gas it ain't gonna last

Uma manhã estranha, tudo parece estranho. Entro no meu carro, um pequeno carro preto e o som começa a tocar Big Black Car do Big Star. Mais uma música tão triste dessa banda tão melancólica. Os arranjos distantes, a voz distante.

"Driving in my big black car, nothing can go wrong, I'm going and I don't know how far. So, so long".

Estou no meu pequeno carro e tudo parece que não vai dar errado. Olho para o céu, enquanto passo por um quebra-molas e vejo um pássaro qualquer batendo assas e ele parece voar no ritmo do piano desconexo no fundo da música.

"Nothing can hurt me. Nothing, can touch me".

Nada, nada. Ali dentro nada pode acontecer. Penso em não sair mais do meu carro.

Why Should I Care? Drivin' is a gas it ain't gonna last.

Não vai durar. A manhã seguirá estranha. Tudo continuará estranho.

14/08/2017

A despedida de Bolt

Foi o maior anticlímax da história. Já havia sido um pouco decepcionante ver Usain Bolt conquistar o bronze nos 100 metros rasos, no fim de semana passado. Desde as Olimpíadas de 2008 nos acostumamos com um Bolt invencível, um fenômeno da velocidade incapaz de ser derrotado. Acabou sendo, ficou em terceiro.

Um sinal de que a idade, ou mais do que a idade, o desgaste físico e a perda de rendimento chega para todos. Que Bolt, por mais que não pareça, é apenas um ser humano com incríveis capacidades musculares e motoras.

No entanto, ainda haveria uma última corrida. A final do revezamento 4x100, prova que a Jamaica dominou nos últimos anos, mas que estava longe de ser a favorita dessa vez. Mesmo sem o ouro e com Bolt já dentro de sua nova dimensão humana, seria pelo menos a oportunidade de vê-lo correndo por uma última vez.

Em uma prova de revezamento, e sendo Bolt o último a correr a esperança é de que ninguém fizesse nenhuma besteira antes, que o bastão não ficasse pelo meio do caminho e que a despedida do jamaicano fosse com ele parado na pista, perplexo, vendo os outros passarem.

Bem, até essa possibilidade talvez não fosse pior do que Bolt tentando arrancar e sendo interrompido por uma lesão muscular. Uma cena rara em competições e ainda mais inimaginável com o maior velocista de todos os tempos. Bolt se despediu estirado de dor no chão do estádio olímpico de Londres.

Talvez seja um fim de carreira que demonstra a transição de deus olímpico para um reles mortal. Ao sair das pistas, Bolt já não era o cara que pegava o embalo nos 100 metros e atropelava todos os seus adversários, ou que fazia a curva dos 200 metros em uma velocidade tão grande que parecia que iria sair decolando, arremessado contra a parede do estádio. Ao sair das pistas, Usain Bolt já era um humano. Um humano muito rápido, mas apenas um ser humano.

02/08/2017

Duas Araras

Molhando a grama em uma manhã ensolarada de quarta-feira, um dia de inverno extremamente seco. O calor do sol já espantou o frio da madrugada. Céu extremamente azul, com aquela névoa seca que caracteriza o nosso inverno.

Escuto um barulho que já escutei outra vez pelos céus sobre minha casa. São araras. Já vi araras-azuis voando sobre minha casa em fins de tarde em outras ocasiões. O barulho é igual, mas desta vez as araras são vermelhas. Duas. Um casal, pai e filho, duas amigas, não sei. Voam de maneira meio descoordenada e fazendo muito barulho.

Penso naqueles clichês sobre Mato Grosso, de onças e jacarés da rua, do destino selvagem que parecemos ser diante do mundo e nesse instante tudo faz sentido. Somos o destino inalcançável, o lugar por onde araras passam por sobre nossas cabeças como se fosse mais um dia normal.

O barulho aumenta e percebo que as araras retornaram, voando no sentido contrário, para onde elas originalmente vieram. Escuto seus gritos e as observo indo cada vez mais longe, batendo asas até que não seja possível perceber as asas, até que não seja possível distinguir qualquer forma, até que elas virem dois pontos indecifráveis no céu e elas seguem voando em direção ao infinito até que minha visão não fosse mais capaz de identificá-las em lugar nenhum, desaparecendo, tragadas pelo azul profundo do céu desta manhã de inverno.

12/07/2017

As instituições estão funcionando

As instituições estão funcionando, elas estão funcionando, esse é o mantra repetido por autoridades, especialistas, comentaristas, para dizer que está tudo bem. Como se fossem aquele meme do cachorro dizendo que está tudo bem enquanto tudo ao seu redor pega fogo. As instituições estão funcionando, temos um vice-presidente eleito e que assumiu dentro do que é previsto pela constituição, o legislativo segue legislando e o judiciário continua julgando.

Teoricamente, a democracia prevê a existência de três poderes harmônicos e independentes entre si. No entanto, o que vemos atualmente é um Poder Executivo acuado diante dos outros dois. Ok, podemos dizer que o Executivo fez por merecer e tem sido ineficiente nos últimos anos. Mas, o que os outros fizeram para não serem tão atingidos pela crise representativa nacional?

Acredito que foi o Cássio Cunha Lima - melhor analista do que senador - que afirmou que o Brasil vive em um momento de parlamentarismo improvisado. O centro nervoso de decisões do país está no Legislativo. O presidente não consegue fazer nada se não se perder em uma série de negociações com a enorme base parlamentar, que envolve cargos, liberação de verbas, atendimento de interesses pessoais. Se Dilma Rousseff caiu, mais do que as pedaladas, ou a crise econômica, o grande motivo de seu impeachment foi sua incapacidade de jogar esse jogo.

Michel Temer assumiu e começou a dar prosseguimento as reformas apoiadas pelos financiadores de campanha. Ele sempre quis fazer isso e encontrou o momento favorável na Câmara? Ou decidiu fazer isso para atender os pedidos da Câmara, ter tranquilidade com aqueles que realmente tem o poder político e também financeiro? O fato é que Michel Temer era quem os deputados, senadores, empresários em geral queriam para fazer o que eles quisessem, dentro de uma proposta que dificilmente seria eleita diretamente pelo povo.

Temer não conviveu mais de uma semana sem um grande escândalo, mas sua capacidade de negociar com o Legislativo e suas reformas bem recebidas pelo Mercado (esta instituição intangível) o garantiam no poder. Temer era o fiador de toda essa situação.

No entanto, o presidente foi cada vez mais se afundando no chorume de suas relações políticas e ao invés de ser a solução, passou a ser um problema para a credibilidade que querem que as reformas tenham. Qual é a solução? Tirar o Temer e colocar qualquer besta quadrada no lugar, que só não se envolva em nenhum grande escândalo e deixem que se mudem o Brasil da forma como a Fiesp quer.

A figura do presidente no Brasil é totalmente dispensável nesse momento. Essa parlamentarismo improvisado se transformou em um grande ser de lama, capaz de tomar decisões independente dos nomes. Será assim pelo menos até as próximas eleições.

Mas, as instituições continuam funcionando, dizem todos.

06/07/2017

Imagens da morte

Quando aquela noiva morreu no fim do ano passado, ou no começo deste ano, não sei direito, todos nós ficamos chocados. Claro que não há um bom dia para morrer, mas existem dias que são piores do que os outros. Ninguém deveria morrer no dia do casamento, no dia do aniversário. Aliás, ninguém tem o direito de ter qualquer sofrimento nestes dias, em que desejamos tanta felicidade para os envolvidos. Assim sendo, uma noiva morrer no dia do casamento, enquanto ia para o casamento e os convidados e o noivo a esperavam, isso é o horror. Certamente terrível para a pessoa que morreu, mas ainda pior para os que ficaram aqui e vão viver os restos de suas vidas com estas lembranças traumáticas.

Agora, ficamos todos chocados novamente com as imagens do acidente. A fotógrafa que acompanhava a noiva filmou todo o trajeto fatal, provavelmente para registrar essas imagens da aventura da noiva, que iria fazer uma surpresa para o seu futuro marido que não sabia que ela desceria de helicóptero no local do casamento.

Podemos ver no vídeo a expectativa de todos dentro da aeronave. Como as coisas foram lentamente piorando até o momento em que a aeronave perde o controle aos gritos de misericórdia e a câmera rola pelo gramado enquanto os quatro ocupantes do helicóptero já estão mortos.

Ver imagens tão intimas de um acidente não é algo que faz parte do nosso cotidiano. Nunca soubemos ao certo o que se passou dentro do Fokker 100 da Tam, do avião da Gol, do voo da Air France, no voo da Chapecoense. Agora sabemos exatamente o desespero da noiva, de seu irmão, da fotógrafa e do piloto do helicóptero.

Dias atrás, também acompanhamos a imagem de um acidente, em que um piloto pousou em um rio na Amazônia e o passageiro filmou tudo. O piloto morreu, o passageiro sobreviveu. Que terrível.

Só consigo pensar que cada vez mais, nessa sociedade hipervigiada e hiperfilmada, teremos cada vez mais imagens como essa. De pessoas que diante da tragédia eminente que irá acabar com suas vidas, não terão outra reação que não seja a de ligar o celular e gravar este apocalipse pessoal. Seremos cada vez mais alimentados a estas imagens sensacionalistas, talvez até o dia em que as imagens da morte se tornem banais e não nos impactem mais.

01/07/2017

Pequenas histórias

Em um primeiro momento, o Celso parecia o chefe louco que veio de algum lugar para aterrorizar nossas vidas. Afinal, tinha um personalidade forte e algo extravagante, falava alto como os cariocas, fumava alucinadamente e não fugia de uma briga. Ninguém sabia de suas origens, o que em Cuiabá sempre pode parecer um crime.  Ao longo do tempo foi possível ver que sua personalidade era tão polêmica quanto parecia ser, o que afugentou e provocou ojeriza de muita gente. Não é a toa que ao final da sua passagem pela Secom-MT, ele foi vítima de uma das maiores sacanagens que já presenciei, tudo por conta da briga pelo poder.

Pois bem, o Celso de Castro Barbosa morreu ontem, me informou o Facebook. Perdi algum tempo lendo as lembranças dos amigos, sempre tão saudosas (provavelmente, ele foi meu primeiro contato do Facebook a morrer). Convivi com o Celso durante dois anos, período em que no fim tivemos uma boa relação, em que ele confiou no meu trabalho. Lembro sempre de que no dia do meu casamento, já na parte final da cerimônia, senti o celular apitando no bolso. Só fui conferir depois que era ele dizendo "soube que você está se casando hoje" e me desejando felicidades.

Mas enfim, foi um convívio curto. Pouco conhecíamos sobre sua vida, tirando algumas histórias loucas, os highlights de nossas vidas que costumamos contar para impressionar os amigos. Lendo as lembranças dos amigos, pude conhecer um pouco mais dos pequenos detalhes, aquelas pequenas histórias que muitas vezes ficam restritas a um pequeno grupo de amigos, ou simplesmente a duas pessoas. Achei particularmente interessante um relato sobre a vez em que ele trancou os donos do Jornal do Brasil no refeitório.

De certa forma nossas grandes histórias podem fazer com que fiquemos conhecidos, podem se perpetuar. Mas as pequenas histórias é que ficam naquela lembrança sentimental mais forte.

27/06/2017

Conversa com Darwin

Meus vizinhos tem um cachorro chamado Darwin, que ao que tudo indica, faz coisas que cachorros normalmente fazem: corre alucinadamente, pula incontrolavelmente, destrói alguns objetos e por vezes provoca intervenções paisagísticas dramáticas.

Por fazer coisas que cachorros geralmente fazem, no caso de Darwin, um labrador branco, essa coisa pode ser sua simples existência, meus vizinhos parecem gostar muito de seu animal.

No entanto, essas outras coisas de cachorro, essa parte que envolve destruição e roubo de objetos, não deixam meus vizinhos tão felizes assim. Nesses dias, eles brigam com o Darwin.

Não sei como é a casa do meu vizinho e por isso não posso dizer exatamente como a cena se desenvolve, mas sei que dia desses ele mexeu no lixo. Sim, o lixo, principalmente quando contém objetos orgânicos em estado de decomposição, pode ser um tanto quanto irresistível para um cão. Por outro lado, este objeto de fascínio canino é bastante repugnante para o ser humano. Essa é uma contradição nessa relação de espécies que deu tão certo nos últimos séculos.

Também não sei se há algum contato físico nas brigas do meu vizinho com o seu cachorro - que volto a repetir, parece ser bem amado pelos donos que o chamam de Darwilindo em momentos mais carinhosos - mas nunca escutei barulhos que indicassem tapas, ou choros caninos - ou mesmo choros humanos.

O método do meu vizinho consiste em questionar Darwin. Você mexeu no lixo, ele pergunta. Foi você que fez isso? Darwin, o que você fez? Quem é que fez isso? Muitas perguntas e Darwin jamais respondeu nenhuma delas.

Aí sim, chegamos a grande ironia da história que é um ser humano tentando conversar com um animal chamado Darwin e não obter nenhuma resposta. Da mesma que não sei o que Darwin, o cão, pensa disso, também não sei o que Darwin, o Charles, pensaria disso tudo.

Ok, este diálogo não correspondido, talvez um monólogo interpretado diante de um cão, não é exclusividade do meu vizinho. Donos de animais costumam a conversar com eles, perguntar como eles estão, o que eles querem. E nunca obtém respostas. São desconhecidas situações em que cães tenham respondido cordialmente aos seus donos sobre os seus sentimentos.

(Eu mesmo quando volto a casa dos meus pais pergunto aos cachorros de lá como é que eles estão e também nunca obtive uma resposta, mas encaro o silêncio deles como um sinal de que está tudo bem).

A evolução canina ao longo dos milênios ainda não possibilitou que eles conversem com seres humanos, eles ainda não foram capazes de aprender nenhum dos idiomas dominados pelos humanos. Eles no máximo latem, fazem suas necessidades em lugares inapropriados, constroem enormes buracos e alteram a decoração da casa para uma configuração heterodoxa. Bater um papo em língua portuguesa não está entre estas habilidades.

O que Darwin acha disso tudo?

26/06/2017

Lua Sorridente

No alto do céu, a lua parecia um enorme sorriso.

Uma lua enorme, talvez uma super-lua.

A porção iluminada da lua era ínfima, um simples risco e a posição da lua no céu nos fazia entender exatamente o seu movimento em relação ao sol. Quem brilhava não era o lado esquerdo ou diretio da lua, mas sim sua porção inferior. Pensando uma um pouco, era possível imaginar o sol escondido depois da curva do planeta e sua luz refletindo naquele pequeno pedaço do nosso satélite.

Um sorriso como o do gato de Alice n país das maravilhas.

Um fiapo de sorriso, mas um sorriso perfeito e absolutamente simétrico. Tão enorme, que era impossível manter a atenção no que acontecia na terra.

23/06/2017

Os 30 anos de Lionel Messi

Foi no dia 06 de Abril de 2010. Não havia uma pessoa no mundo que acompanhasse o futebol que não estivesse espantada com o que Lionel Messi havia acabado de fazer. Pelas quartas-de-final da Champions League, o Barcelona venceu o Arsenal por 4x1, de virada, com quatro gols do argentino. Quatro golaços, que transformaram um jogo complicado em um passeio. Depois da partida, um embasbacado Arsene Wenger declarou que Messi era um jogador de videogame.

Duas semanas antes, Messi havia dado outra demonstração de poderes sobrenaturais, durante a vitória por 4x2 contra o Zaragoza. Três gols, sendo que o segundo foi uma demonstração de luta e técnica poucas vezes vista. Naquele momento, estávamos todos encantados com Messi. Ele já era o cara que tinha feito um gol antológico contra o Getafe, marcado três gols no clássico contra o Real Madrid, já era o melhor do mundo eleito pela Fifa. Mas aqueles dias foram decisivos para percebermos que ele não era apenas um grande jogador. Era algo mais, algo difícil de descrever. Algo que Wenger tentou explicar como um jogador de videogame, mas ele estava errado.

Lionel Messi é um dos primeiros craques cujos passos foram acompanhados pelo mundo desde o começo. Eu me lembro do seu primeiro gol, contra o Albacete, recebendo um passe de Ronaldinho Gaúcho e tocando por cobertura com uma frieza impressionante. Poucos minutos antes ele havia feito a mesma jogada, mas o gol foi anulado por impedimento. Sempre que ele entrava em campo, havia uma expectativa, aquela sensação de "vamos ficar de olho nesse cara", mas era difícil apostar que ele viraria o que virou.

Existiu uma época, entre 2009 e 2012, em que quando Messi dominava a bola na intermediária, próximo a lateral, todos nós sabíamos que iria sair o gol. Ele poderia arrancar para o centro deixando todos para trás, tabelar com Daniel Alves e entrar para a área, chutar da entrada da área em curva, bater no contra pé do goleiro, dar um toque humilhante de cobertura. O repertório era incalculável, apenas sabíamos que o gol iria sair.

Messi ainda não tinha completado 23 anos no dia em que destruiu o Arsenal. Outra razão para que ficássemos espantados, era a perspectiva de que ele ainda não estivesse em seu auge e o quanto é que ele ainda poderia fazer. Bem, de certa forma aquele acabou sendo seu auge, depois de uma lesão sofrida em 2013, Messi perdeu alguma dose extra de magia, apesar de continuar fazendo coisas das quais nossas retinas chegam a duvidar.

Essa, aliás, é a principal qualidade de Messi e que me faz discordar da máxima do videogame de Arsene Wenger. Videogames não tem a imprevisibilidade do jogo de Messi. O drible de Boateng e sua consequente queda não existem em Fifas da vida. Cristiano Ronaldo, com suas skills editadas ao máximo e a maneira como joga como um míssel teleguiado em relação ao gol, se parece muito mais com o jogador perfeito de videogame.

Nos acostumamos tão mal com o nível de jogo estabelecido por Messi, que é possível apontar como frustrante uma temporada na qual ele marca 54 gols em 52 jogos. Nos decepcionamos se ele não faz um gol driblando metade do time adversário. Achamos pouco uma assistência genial que acaba desperdiçada pelo centroavante. Questionamos se ele não merece o status de gênio por não ter ganho uma copa. Chegamos nesse estranho paradoxo do tempo atual, em que alguém fracassa por não ser o melhor da história.

Sete anos depois daquele jogo contra o Arsenal, já é possível observar Messi com aquela estranha sensação de que tudo está terminando. Que ele não vai conseguir fazer mais do que já fez até agora e bem, talvez ninguém seja capaz de fazer o que ele já fez até agora. Lionel Messi sempre será daqueles jogadores que nós diremos para as futuras gerações "nós vimos esse cara jogar. Acredite, era inacreditável".

11/06/2017

Vinte anos do Guga

As manchetes dos sites esportivos e o vasto material divulgado nos últimos dias fazem questão de nos lembrar: faz 20 anos que Gustavo Kuerten despontou no cenário do esporte mundial ao conquistar o titulo de Roland Garros pela primeira. Foi em um dia 8 de junho, de 1997, que Guga derrotou Sergi Brugera por 3x0 na final do Grand Slam francês.

Tenho na memória um pouco desse dia. Acordei cedo na manhã de domingo, esse era um costume lá em casa por conta das corridas Fórmula 1. Naquele domingo não havia corrida, mas encontrei meu pai na frente da TV assistindo um esporte diferente. Era a TV Manchete que exibia a final do jogo de tênis.

Meu pai fez um breve apanhado sobre a situação, explicou que um brasileiro estava jogando a final de um dos torneios mais importantes do mundo, que era um jovem, falou algo sobre suas roupas diferentes e enfim. Acompanhei provavelmente um parte do terceiro set, sem entender nada daquele sistema de pontuação maluco. Fiquei feliz quando Guga venceu, afinal, ficamos feliz com vitórias brasileiras aos 10 anos de idade.

Então eu não sabia nada sobre a história do esporte, seu passado aristocrático e como de certa forma Guga seria um dos responsáveis pela popularização do tênis no mundo até. Mas, se esse momento ficou marcado em minha cabeça, é porque certamente ali começaria minha paixão pelo tênis.

Nos anos seguintes, o tenista catarinense passaria a ocupar o lugar de ídolo nacional que estava vago desde a morte da Ayrton Senna. O fato de suas conquistas serem geralmente em manhãs de domingos dava o tom piegas de coincidência histórica.

Acompanhar Guga nos anos seguintes foi um esporte nacional, e meu em particular. Sua eliminação em Wimbledon para um alemão desconhecido. Um título, talvez na República Tcheca, talvez na Itália, ainda em 1997. Uma série de maus resultados nos anos seguintes que o derrubaram no ranking e passaram a ideia de que ele poderia ser apenas um azarão que teve duas grandes semanas uma vez na vida.

As coisas mudaram em 1999 com sua série de títulos no saibro e a derrota para Medvedev nas quartas-de-final do slam francês. Havia uma certeza de que ele poderia ter ganhou aquele torneio. Mas, ele manteve a boa fase naquele ano e prosseguiu em 2000. Nas segundas-feiras eu sempre lia na Folha de São Paulo sobre as suas possíveis finais no dia anterior. Ele perdeu um jogo contra Magnus Norman em um dos Masters europeus do saibro e parecia que este era o duelo esperado para a final de Roland Garros.

Realmente foi, mas não sem muito sofrimento. Lembro de acompanhar seus jogos na ESPN e da agonia que foi o confronto contra Kafelnikov, quando tudo parecia perdido. Tudo pareceu perdido na semifinal contra o Ferrero, mas novamente Guga se superou. As vitórias emocionais eram um de seus grandes destaques. Por nove vezes ele enfrentou jogos de cinco sets na França e ganhou oito delas, cinco pelo menos depois de estar em situação bem adversa no placar. O título contra Norman depois de infinitos match points, mais títulos no saibro, a dominante conquista da Masters Cup, número 1 do mundo, mais títulos no saibro, o sofrimento contra Russell, vitória contra Corretja e seu terceiro título em Roland Garros. Guga era o rei do saibro, melhor tenista do mundo, faltava conquistar um slam em outro piso.

Parecia que seria no US Open de 2001. O mundo olhava para a Nova York pós-atentados, mas o Brasil já olhava para a cidade por conta de Guga. Uma vitória com sofrimento contra Max Mirnyi, as quartas-de-final contra o Kafelnikov, um bom presságio... O brasileiro começa a sentir dores no quadril nesse jogo e acaba atropelado pelo russo. Passa o resto do ano se arrastando. Perde a liderança do ranking. Passa por um cirurgia. Difícil saber no total quantas foram. Jogar tênis deixa de ser uma alegria e passa a ser um sofrimento. Ele ensaia alguns retornos para a glória, na virada de 2002 para 2003. No começo de 2004. A vitória contra o pré-gênio Federer nas 3ª rodada de Roland Garros em 2004 foi o seu canto do cisne (derrota aliás, que custou ao suíço a possibilidade de fechar um Grand Slam naquele ano). Lesões, lesões. Guga ainda tentou, mas abandonou o tênis em 2008. Na verdade ele não jogava desde 2005. Na verdade, o Gustavo Kuerten de verdade parou naquele jogo contra o Kafelnikov em 2001, com apenas 25 anos.

***

Kafelnikov aliás, foi quem lhe deu uma definição consagradora: Guga era o Picasso das quadras. Provavelmente porque o brasileiro conseguia uma beleza estranha em seus jogos. Ele não era refinado como Federer é, ou como Sampras era então. Não era força-bruta. Guga se destacava pelo ângulo abstrato que ele conseguia com seus backhands, pela maneira como conseguia com seus golpes de esquerda jogar os adversários para fora da quadra. Batia bem dos dois lados, e conseguia subir na rede com alguma habilidade, para matar as devoluções curtas provocadas por seus golpes angulosos. Não era muito rápido e isso explica seu sucesso muito maior no saibro. (Sim, vale lembrar que ele estava evoluindo nas quadras duras, como mostram seus títulos no Master de Lisboa e em Cincinatti).

***

Kuerten também tinha uma dimensão humana que facilita a idolatria. Ele era um jogador vulnerável, passava longe da perfeição e da solidez do Big Four atual. Dentro de um mesmo jogo variava muito, sentia o momento ruim e crescia no momento bom. Era difícil de ser batido, principalmente nos grandes momentos. As 20 vitórias em 29 finais mostram isso. (68% de finais vencidas. Federer tem 65%. Nadal 67%. Djokovic 69%. Andy Murray 67%. Antes da lesão de 2001, Guga chegou a ter 17 títulos em 23 finais, 73% de aproveitamento).

Sua simpatia e acessibilidade também lhe garantiam essa aura terrena, a de que ele era uma pessoa normal que jogava um tênis extraordinário. Não parecia inalcançável como Sampras, por exemplo. Um dos maiores esportistas brasileiros em todos os tempos.

26/05/2017

Alternativas temerárias

Diante da atual situação de instabilidade política e todas as alternativas para o futuro do país, tenho que dizer que praticamente todas elas me assustam.

A primeira alternativa seria a manutenção de Michel Temer no poder. Não é preciso dizer o quanto isso seria ruim e como a permanência do atual presidente no poder é imoral. Temer chegou ao poder por linhas tortas, está tentando implantar uma série de reformas que não receberam chancela popular nas urnas e não tem integridade moral para exercer o cargo. Todos os indícios demonstram que ele navega muito bem pelos mares de lama de corrupção e que sua presença no Palácio do Planalto é uma vergonha.

A alternativa constitucional caso se arrume alguma maneira de desalojar Temer do poder, é a convocação de eleições indiretas. Sim, não há como não ter medo da escolha que um Congresso amedrontado e acuado e ainda envolvido em denúncias de corrupção iria tomar. O atual presidente da casa, Rodrigo Maia, surgiria como um dos favoritos e, caramba, não há como não ter medo de Rodrigo Maia presidente.

Por fim, poderiam ser convocadas eleições diretas, caso seja encontrada alguma brecha constitucional. Pode parecer a decisão mais justa, devolver ao povo o direito de escolher o chefe do país, mas não há como negar que não é isso que é previsto pela constituição e geralmente a constituição está aí para ser cumprida e proteger a população nos momentos de crise, principalmente, e não para ser alterada de acordo com as vontades momentâneas.

Mas, mesmo que isso seja possível e sendo esta a hipótese mais justa, também tenho medo do que poderia acontecer em uma eleição direta, neste momento. Os últimos acontecimentos insuflaram ainda mais os ânimos e a sensação de que o Brasil está perdido, de que é preciso acabar com tudo. Com a população desgostosa e até mesmo fragilizada, cria-se a oportunidade perfeita para o surgimento de um protótipo populista, que irá se vender como salvador da pátria e pregar a quebra do establishment político, pregar o medo para vender a proteção.

Sim, esse nome é Jair Bolsonaro e acho que em eleições realizadas daqui a dois meses, ele teria mais chances de ser eleito do que no que vem, quando talvez as paixões estejam mais dominadas.

Diante de todos os cenários, eu não consigo escolher apenas um como o pior de todos.

24/05/2017

Desimportância de tudo

Sempre que alguma dessas correntes se populariza no Facebook e acaba sendo compartilhada por milhares de pessoas, surge uma espécie de contracorrente, com outros cidadãos incomodados com aquela situação e que acabam por questionar a importância de sua divulgação. Lembro que isso aconteceu bem recentemente com a de verdades e mentiras ("nossa, eu realmente queria saber isso sobre a vida de vocês), mas o fenômeno também foi registrado em tantos testes de Facebook, no "Diferentona", no "Esse é fulano".

Sim, é praticamente irresistível falar mal de algo com o qual nos importamos, inclusive porque, a amargura e a ironia são fatores que geram likes no Facebook e é aí que eu quero chegar, o que importa no Facebook são apenas os likes, porque absolutamente nada no Facebook é importante para a vida de ninguém. Tudo bem, posso exagerar um pouco. Jogando pra cima, uns 5% de tudo o que é produzido na rede social pode ter alguma relevância para a vida de algumas pessoas.

Realmente é difícil dizer que as nove verdades hiperdimensionadas sobre a vida das pessoas tenha alguma importância. Mas, o que você comeu ontem, onde você esteve, os seus animais de estimação, o que você gosta, o que você não gosta, as suas opiniões não tem a menor importância. Você é contra o Michel Temer? Legal, é um direito seu, mas isso não é realmente importante para ninguém, pense, há quinze anos atrás você não teria como amplificar essa sua opinião em uma rede social e o mundo seguiria girando, girando, sem se importar com você.

Se formos falar do Facebook devemos nos ater que o que interessa lá são os likes. Tiramos do contexto e dramatizamos fatos cotidianos, postamos fotos em que queremos transmitir uma determinada imagem pública, postamos gostos pessoais, tudo em busca de uma identificação com as pessoas, que essa imagem virtual que construímos parece interessante, receba curtidas e gere engajamento.

A falta de importância de tudo, isso que escrevo aqui incluso no pacote, pode esvaziar a nossa existência, se pensarmos que nossa mensagem motivacional no Facebook, o vídeo dos gatinhos fofinhos, o alerta sobre o desmatamento, que tudo isso não faz parte de um plano maior, pensar no quanto somos insignificante nos rumos da humanidade. Mas, por outro lado, isso pode ser libertador. Justamente por não ter importância, você pode fazer. Suas atitudes respondem mais a você do que aos outros.