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Do pé

Quando eu era pequeno havia um pé de amora na casa da minha tia. Eu sempre comia. Gostava das amoras quase roxas e doces. Era a única fruta que eu comia direto do pé.

Tinha um pé de acerola, outro de pitanga, que eu achava azedos. Havia ainda um limoeiro, e meia de cajueiros. Até gostava dos três pés de goiaba, principalmente das, para mim, exóticas goiabas brancas. Mas dava muito bicho.

O problema do pé de amora é que ele cresceu muito. Passou a ser impossível alcançar uma frutinha qualquer. E os pássaros dominaram o pé. Pegava uma amora e... lá estava ela, meio comida.

Uma vez tentei comer amora que vendia no supermercado. Elas eram maiores e mais gordas. Mas eram azedas, insuportáveis. Devia ser um outro tipo de amora.

E o pé de amora da casa da minha tia, um dia morreu. Ano passado acho. Mas eu já não ligava para amoras. Tanto que demorei um tempo para perceber a morte, e começar a sentir a falta nostálgica das amoras que eu não comi, e que não mais comerei.

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