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500 dias depois: Abertura do festival do Japão

Em uma vida de assessoria de imprensa de um órgão público, você pega muitas pautas furadas. Inúmeras, principalmente nas pautas noturnas. Uma gama enorme de jantares protocolares, nos quais você tem que se esforçar para espremer algum conteúdo. Vez por outra surge uma pauta legal. O Festival do Japão se enquadra nesse caso, por mais que o “legal” seja uma maneira benevolente de se falar. A pauta é legal, mas, se lhe fosse dada a opção, você preferiria ficar em casa. Estar lá na “pauta legal”, significa apenas que aquele não é o pior dos mundos.

O legal do Festival do Japão é a observação de um espaço completamente diferente. Não tenho conhecimento se a colônia japonesa por aqui é grande. Restaurantes japoneses não são exatamente populares, eles passam aquela imagem de sofisticação. Pessoas com paladar refinado conseguem mandar para dentro algum daqueles sushis metidos a besta com cream cheese e cenoura. Pessoas chiques vão ao restaurante japonês da cidade utilizando camisas Brooksfield com a gola de cor diferente e as mais refinadas seguram o hashi sem derrubar os pedaços de carne e sem demonstrar qualquer traço de orientalidade em seus rostos.

No entanto, a cultura japonesa é uma febre, principalmente entre os adolescentes. Principalmente quando falamos do Cosplay e dos seus personagens de animes e mangás. Ir no festival do Japão é uma oportunidade de ver inúmeras pessoas fantasiadas e com chapéus ridículos de desenhos animados, incluindo o Pokémon. Por céus, Pokémon passava na TV quando eu tinha 11 anos e já era considerado ridículo naquela época. Imagino a tristeza que é para um pai, ver seu filho ser um praticante de Cosplay.

No palco do festival, a dupla campeã mundial de Cosplay se apresentava. Realmente era muito para a minha cabeça. O mestre de cerimônias era um japonês muito chato, que não tinha o menor ritmo e não conseguia extrair perguntas minimamente interessantes das atrações. Também havia uma senhora japonesa que parecia uma professora de pré-escola, ou apresentadora de programa infantil. Seu tom de voz era forçosamente animado, sempre um tom acima. Ela também falava em japonês, antes de falar o que queria em português.

Em certo momento, subiu ao palco um japonês chamado Kenji, que teria participado de 124 comerciais e interpretava o Mr. Alguma coisa na escolinha do Gugu. Que péssimas credenciais, eu imaginei. Kenji entrou vestindo uma roupa berrante e exibindo um vasto arsenal de piadas sem graça. Ele foi o responsável por apresentar a dupla campeã mundial de Cosplay e mostrar que ele entende sobre o assunto menos do que eu até. Bem, pelo menos disso ele deveria se orgulhar.

Também subiram ao palco duas cantoras que coincidentemente tinham 11 anos. A primeira cantou uma versão da música do Titanic em japonês, cujo refrão misteriosamente era cantado em inglês. Ao final, o apresentador mala japonês falou que ela iria representar o Brasil em uma competição mundial de jovens na Argentina, “pela paz do mundo, pra ficar mais bonito”. Imaginei que a paz no mundo estava relaciona a ameaças de execução da música do Titanic.

Outra cantora de 11 anos parecia um desses fenômenos infantis, que participam do programa do Raul Gil. Ela respondeu perguntas nonsense do apresentador chato e cantou em japonês, inglês e português. A música em português era “amor e poder” e isso me pareceu extremamente estranho para uma menina de 11 anos. Fontes informam que ela repetiu a performance nos outros dois dias do festival. Também houve espaço para uma cantora japonesa idosa que cantava tão mal, que parecia até que estava de sacanagem.

O mais chato de ser assessor de imprensa de um órgão público é a cobertura protocolar de aberturas de eventos. Os chamados a frente, a composição dos dispositivos de honra, as falas protocolares (se uso muito a palavra “protocolar” nesse texto, é porque ela representa bastante o quão enfadonhos são esses momentos) os cumprimentos “em nome de” e o “uso da palavra”. Infelizmente para a minha cobertura protocolar, a representante que me interessava naquele dia era um tanto quanto insignificante e usou da palavra de maneira completamente burocrática, de tal maneira que eu jamais conseguiria extrair o menor conteúdo daquele de sua fala. Dessa forma, me ative pouco ao glorioso dispositivo de honra, porque dali não sairiam palavras nem um pouco interessantes. Janete Riva não iria me satisfazer.

Acontece que naquele dia eu também teria que fazer matéria sobre público. Encontrar os personagens. Para quem não sabe, na linguagem jornalista, os personagens são aquelas pessoas que nós escolhemos a dedo para exemplificar a ideia que nós defendemos no texto. Não sou eu que estou querendo convencer que isso aqui está uma maravilha, quem fala isso é a dona Neide Santos, 46 anos, auxiliar administrativa. Quem fala isso é o povo. É a voz de deus. O uso de personagens também “humaniza” a matéria, seja lá o que isso for, mas os teóricos acreditam que isso aproxima o leitor da matéria, porque o leitor se identifica com o personagem.

Eu acho o uso de personagens completamente detestável. Odeio essa manipulação simbólica dos fatos, vestida com um véu de veracidade. A utilização de personagens é o que me faz odiar o jornalismo de TV. Eu não tenho a menor vontade de entrevistar a Carmem que está na fila pra tirar a 2ª via do RG. Mas é o que me pedem. E, graças ao meu bom humor e minha visão ácida do mundo, as pessoas sempre acreditam que eu sou ótimo para fazer personagens. Mas, eu não sou. Para dizer a verdade, arrumar um bom personagem é uma questão de sorte. Existem dias em que a entidade superior que comanda o funcionamento de uma pauta te oferece personagens ótimos. Certa vez, sem muito esforço, encontrei quatro pessoas que se encaixavam em quatro perfis diferentes de pessoas que podem ser atendidas por um programa habitacional do governo. Em outras vezes, você só encontra personagens monossilábicos que não contribuem em nada na sua lógica maniqueísta.

No dia do Festival do Japão isso aconteceu. Tentei entrevistar um garoto de uns seis anos que dizia apenas que achava aquilo legal, mas que não sabia o que iria fazer ali. Insisti se ele gostava dos mangás, dos animes, do cosplay. Ele só falava legal. Se eu fosse um repórter de TV, poderíamos colocar o nosso diálogo ali e as pessoas achariam super legal aquele garotinho fofo. Infelizmente, em um texto, eu não poderia distribuir travessões ou colocar um “legal”, entre aspas para a fala do garotinho. Mais a frente, fui tentar um cara de uns 40 anos que olhava bovinamente para o Gateball, um jogo que parece críquete (bela comparação). Ele estava tão interessado e olhava há tanto tempo para aquilo, que imaginei que ele poderia ser alguém que estava se divertindo muito no Festival do Japão. Interrompi-o do seu transe, me apresentei e perguntei a ele se ele poderia falar. Ele olhou assustado, fez menção de chamar alguém que não estava no campo de visão dele, falou que iria ficar me devendo essa e desapareceu. Literalmente. Olhei para o outro lado e quando voltei a olhar para onde ele estava, ele já não estava mais no meu campo de visão. Acredito que alguma espécie de fenda do espaço-tempo se abriu naquele momento.

Passei então a vagar por entre as barraquinhas do festival, buscando que o personagem caísse na minha frente. Mas, só olhava adolescentes incapazes de formular uma frase decente. Pensei então, que os verdadeiros personagens daquilo eram as pessoas que trabalhavam na barraca. Os descendentes de japoneses que por algum motivo moravam em Cuiabá e estavam lá vendendo doces, comida e artesanato. O personagem desse festival era justamente essa cultura japonesa e foi a ela que eu me dediquei. Resolvi, em minha matéria, assumir o ar de um turista disposto a entender o que eram todas aquelas palavras diferentes e passei a dar voz para os japoneses. Sai do festival convicto de que faria a melhor matéria da minha vida, mas depois mudei de ideia, vi que não era tudo isso, mas cheguei a conclusão de que foi a coisa mais diferente que fiz em minha carreira de assessor de órgão público, em nível de narrativa. Mas, tenho a impressão de que, pra variar, ninguém nem leu.

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