19/11/2010

Os Beatles e eu

No meu mundo, não residem dúvidas de que os Beatles são a maior banda da história. A maior que já existiu e que nunca será superada. Existem conjuntos que fizeram mais sucesso? Talvez. Mais inovadores? Com certeza. Que fizeram discos, músicas melhores que os quatro? Sim. Mas nenhuma banda conseguiu juntar isso com tanta qualidade. Os Beatles conseguiram em pouco tempo ter uma carreira marcante, com tantas fases, que é impossível acreditar que eles lançaram discos durante apenas sete anos.

O grande mérito dos quatro é ter um som atemporal. Existem bandas que são o retrato de uma época. O Queen é a cara do exagero dos anos 70. Os Beatles são a cara dos anos 60, sem dúvida. Mas os anos 60 foram anos tão loucos para a música e para a sociedade, que eles se tornam a cara/base do nosso mundo contemporâneo. Em sete anos eles saíram das músicas simples sobre amores juvenis e passaram pelas orquestrações, pela maconha, pelo LSD, pelo movimento hippie, pela música indiana.

Os Beatles foram a primeira banda que eu escutei com prazer. Os primeiros que me fizeram perceber que a música podia ser algo sensacional. Foi com o Abbey Road, o clássico disco com os quatro atravessando a rua. Uma capa clássica, assim como os bonecos de Sgt. Peppers, a gravura de Revolver. Os quatro na janela em Please Please Me.

Tudo o que eles fizeram tem uma nostalgia incrível. Quem escuta, pode se lembrar do tempo que não viveu. Ter lembranças daquilo que não viu, mas que parecem tão reais – que se tornam suas.

Lennon e McCartney podem ser o melhor exemplo do dialogismo. Estilos distintos que se completavam. McCartney era mais convencional, capaz de emocionar com canções simples. Um cantor de multidões, de estádios lotados. Gostava de colocar elementos jazzísticos em suas canções. Lennon era mais radical. Adepto de letras surreias, músicas com andamentos diferentes. É genial saber que Strawberry Fields Forever é a junção de tomadas completamente diferentes da mesma canção.

Os dois foram responsáveis, cada um por um lado, pelo melhor compacto da história. Penny Lane/Strawberry Fields Forever. As duas músicas são uma viagem nostálgica. McCartney relembra de uma rua marcante, com os barbeiros que mostravam fotos dos cabelos que ele cortava, o bombeiro com um retrato da rainha e o banqueiro com o seu carro. E todos eles se encontravam, trabalham, esperam e correm da chuva. Todo mundo sabe, existe uma rua na sua vida com coisas que só você. A rua está nos seus olhos.

Strawberry Fields é uma viagem a infância nunca esquecida. Em um monde onde as coisas estão difíceis e é difícil viver com os olhos abertos, a solução é voltar para o parque dos campos de morango, onde nada é real e ninguém sobe em sua árvore.

Para mim, ela é a manifestação artística em forma de música, mais genial que já foi feita. Não é uma simples música. Ela tem cheiro, sabores, cores e texturas. O som se forma em camadas. A introdução no melotrom é palpável e tem uma cor ali, entre o azul e o amarelo. A guitarra flutua na mente.

A capa do single também era linda, uma foto dos quatro em uma moldura.

Não existiram bandas igual aos Beatles. Nenhuma que tenha saído de Little Child para chegar em Dear Prudence em tão pouco tempo.

É difícil escolher o meu disco predileto dos Beatles. Rubber Soul costuma a ser o meu favorito, pelo frescor das músicas, as harmonias geniais e a empolgação do grupo aprendendo a experimentar novas coisas. Sgt. Peppers é genial e tem A Day in the Life.

Mas é difícil competir com Abbey Road, o disco da despedida, o disco dos quatro atravessando a rua. Justamente porque em uma banda tão nostálgica, esse é o meu disco nostálgico. Me lembra de quando eu tinha 14 anos e estava começando a gostar de música. Me empolgava escutando Oh! Darling e tentava decorar os versos de Something.

O disco ainda tem uma simbologia interessante, de realmente ser o disco da despedida. Depois de anos de briga em que tudo quase acabou, os quatro resolveram se juntar mais uma vez, deixar as diferenças de lado e fazer um grande disco. E fica ainda mais bonito quando esse disco termina, simbologicamente, com uma música chamada “The End”.

And in the end the Love you take, is equal to the Love you make.


Fica ainda mais bonito quando você vê o documentário Anthology e ele termina com esse verso, com uma foto do grupo em um campo. Parece que tudo o que eles fizeram, estava pronto para ser eternizado.

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