Pular para o conteúdo principal

As duas mortes de Joãosinho Trinta

Aqui em casa, todos nós convivíamos com a certeza de que Joãosinho Trinta havia morrido. A única dúvida, era se o nome dele é Joãosinho ou Joãozinho. Aliás, não sei disso até hoje.

Anos atrás o carnavalesco teve um mal súbito e foi internado em estado grave, desenganado. Em algum momento, sua morte ficou conhecida para nós. Sempre que seu nome era mencionado em algum carnaval, minha mãe fazia um comentário do tipo "Mas esse eram aparecido. Coitado, que Deus o tenha".

Sua morte era um fato consumado, uma realidade óbvia. Não havia razões para que ele estivesse vivo. Sua morte era uma certeza.

Até que um dia, em um carnaval qualquer, eu estava assistindo a televisão. E o repórter entra com uma chamada ao vivo. O entrevistado? Joãosinho Trinta. Meu coração disparou. Por alguns momentos vivi um choque, me perguntei se estava sonhando, se aquilo era a realidade, o que aquilo era. A entrevista prosseguiu com o carnavalesco em um estado lastimável, mas vivo. Creio que não cheguei a dormir nesta noite.

No dia seguinte comuniquei o fato a minha mãe: ele estava vivo. Minha mãe não acreditou. Pensou que eu tivesse visto alguma imagem de arquivo, que o sono tivesse me confundido. Fez perguntas para conhecidos e ninguém arriscaria dizer que ele não havia morrido.

Eis que ontem, vem a notícia de sua morte. Aqui em casa, é a sua segunda morte. As notícias foram acompanhadas, com um ar de atenção, para ter certeza que não estávamos sendo enganados. Que sua morte é a sua morte, e não alguma simples internação. Salvaremos a notícia, montaremos bancos de dados para que não sejamos surpreendidos com uma aparição sua em um carnaval próximo.

Comentários

Postagens mais visitadas

Top 25: meus artistas obscuros

Uma lista com os artistas que eu gosto - ou que pelo menos escuto com alguma frequência - menos populares no Spotify.  25 The Action - 36.355 ouvintes mensais A invasão britânica dos anos 60 não colecionou apenas histórias de sucesso. Muitas bandas passaram pelo período sem atingir as massas. O Action é um grande exemplo. Mas, vamos ser sinceros: o grupo liderado por Reg King está longe de ser brilhante e vale mais apenas pela curiosidade se você for um obcecado pela cena londrina da época. De qualquer jeito, escute In My Lonely Room e I’ll Keep Holding On . Sim, eles nunca chegaram a lançar um disco, apenas uma série de singles entre 1965 e 1967. 24 The Boy Least Likely To - 36.001 ouvintes Grupo britânico de indie pop, uma espécie de versão genérica do Belle & Sebastian. Conheço apenas The Law of the Playground , que tem a boa música de abertura Saddle Up . Fora isso, não é nada que valha muita dedicação. 23 Fanfarlo - 35.995 Banda britânica fortemente influenciada por Arcad...

(...)

Existem textos que não deveriam ser escritos, simples assim. No mundo perfeito, um texto sobre a morte de alguém não deveria ser feito. Quando esse alguém era um amigo muito querido, a situação é pior ainda. Eu não queria ter que escrever sobre o Dyolen. Mas percebi que precisava. Eu devia fazer essa homenagem a ele, antes que o tempo cicatrizasse as feridas de um fim-de-semana que mais pareceu um pesadelo. Pensei em tantas coisas. Pensamentos abstratos sobre a vida. Mas tentei ser objetivo. E listar momentos marcantes nesses cinco anos em que convivi com ele. 1 Festa do Calouro: Era uma festa do calouro organizada pela nossa turma, estávamos no segundo semestre em 2006. Em certo momento, Dyolen foi nos ensinar três movimentos básicos da dança “atira, defende, a faca”. Não dá para explicar os movimentos em palavras. Mas a dança do Dyolen foi um marco. É quase impossível se lembrar do Dyolen sem pensar em “divertido”. Dyolen me cumprimentava rindo. Sempre ria ao encontrar qualquer pess...

Como Lula conseguiu essa virada?

No meio da tarde, um amigo me procurou pelo WhatsApp. Assim como eu, ele é meio aficionado por planilhas e números eleitorais. Começamos a falar de números, acho que para tentar conter a ansiedade diante da catástrofe eleitoral que os institutos de pesquisa haviam projetado no dia anterior. Chegamos a uma conclusão matematicamente simplista, mas eficiente: para vencer a eleição, Lula precisava aumentar em 5% sua votação em relação ao primeiro turno. Mas a apuração só começaria dali a umas duas horas. O que tínhamos em mãos eram os números das eleições no exterior. Lula havia ganhado três pontos percentuais no Japão, o que não seria ruim naquele cenário. Quando começaram a chegar os votos da Europa, nos colégios eleitorais mais expressivos, foi possível ver que os 5% mágicos haviam aparecido na Holanda, na França, na Irlanda e na Espanha. Depois, também na Itália. Em Portugal, onde o cenário era mais equilibrado, vieram seis pontos percentuais líquidos. Chegamos à conclusão de que, se L...