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O medo entra em campo

Neste domingo, pudemos pela primeira vez observar nesta Copa do Mundo um velho conhecido de mata-matas passados: o medo de perder. Aquele pânico de levar um gol irrecuperável que decretará a eliminação. Esse temor aparece principalmente quando o confronto envolve duas equipes que já estão no limite das expectativas.

Não foi tanto o caso do confronto entre Rússia e Espanha. No jogo que abriu o dia, as duas equipes tinham estratégias claras. Os russos queriam se retrancar o máximo que pudessem e se levassem a partida para os pênaltis estaria bom. A classificação seria histórica e a eliminação seria respeitada. Além disso, para que a partida chegasse aos pênaltis, isso certamente significaria uma vantagem psicológica para o time da casa. Já os espanhóis queriam tocar a bola por toda eternidade, na expectativa de que uma hora ela entrasse no gol sozinha.

E ela realmente entrou no bizarro lance do gol contra de Ignashevich. Depois disso, a Espanha não chutou mais nenhuma vez e o empate veio em um pênalti de Piqué, que por um instante se sentiu como um meio-de-rede da seleção de vôlei. Depois disso, só dois lances de perigo: um chute de Iniesta, que começou no banco, e uma arrancada de Rodrigo Moreno, brasileiro naturalizado que pelo jeito não se acostumou ao jeito espanhol de jogar.

Curioso como a Espanha parece que se transformou refém de um estilo de jogo que não tem mais os melhores artistas para executá-lo. Esse jogo existia com Xavi, Xabi Alonso e Iniesta, todos muito bem. Toda seleção mediana hoje sabe o que fazer para atrapalhar esse jogo e punir as linhas altas espanholas sem velocidade suficiente para recomposição. Não é a toa que Koke entrou para ajudar a frear o contra-ataque adversário. Não é a toa que o melhor jogo espanhol foi contra a seleção teoricamente mais forte e corajosa, de Portugal.

Os pênaltis puniram a copa muito ruim de De Gea e consagraram Akinfeev, quem diria. A Espanha vai para casa depois de fazer um grande primeiro jogo e a partir de então envergar o brasão da posse de bola improdutiva. Apenas Isco buscou o jogo com alguma constância. Decepcionante.

Bem, no outro jogo, Croácia e Dinamarca protagonizaram um início caótico, que resultou em um 1x1 com menos de 4 minutos jogados. A confusão inicial levou as duas equipes a pensar no que elas estavam fazendo e o jogo se acalmou.

Até demais.

Muito.

Não foi tão ruim quanto Espanha x Rússia, mas Croácia e Dinamarca teve muitos momentos de tédio. Algumas estocadas aqui e acolá, mas a atuação discreta de Modric e Eriksen não ajudou. Modric ainda achou um lançamento espetacular, que resultou em um pênalti que ele perdeu na prorrogação.

O goleiro Kasper Schmeichel foi o destaque da partida e o provável goleiro da competição. Em uma copa de poucas defesas de goleiros, ele provavelmente foi o que mais trabalhou. Pegou duas cobranças na disputa de pênaltis, mas viu seus companheiros serem parados três vezes. É o favorito para ocupar a titularidade da seleção de bons atletas perdidos entre companheiros ruins.

(Time que teria Lewandowski, Salah e Son Heung-Min no ataque).

Domingo, Rússia e Croácia devem fazer outro jogo bem tenso. A Rússia não vai ter tantos motivos para se defender assim e vamos ver se os croatas jogam melhor. Essa copa mostra que bater na Argentina não é motivo para tanta comemoração assim. Talvez os islandeses devam estar pensando agora que se acovardaram naquele jogo de estreia.

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