11/06/2017

Vinte anos do Guga

As manchetes dos sites esportivos e o vasto material divulgado nos últimos dias fazem questão de nos lembrar: faz 20 anos que Gustavo Kuerten despontou no cenário do esporte mundial ao conquistar o titulo de Roland Garros pela primeira. Foi em um dia 8 de junho, de 1997, que Guga derrotou Sergi Brugera por 3x0 na final do Grand Slam francês.

Tenho na memória um pouco desse dia. Acordei cedo na manhã de domingo, esse era um costume lá em casa por conta das corridas Fórmula 1. Naquele domingo não havia corrida, mas encontrei meu pai na frente da TV assistindo um esporte diferente. Era a TV Manchete que exibia a final do jogo de tênis.

Meu pai fez um breve apanhado sobre a situação, explicou que um brasileiro estava jogando a final de um dos torneios mais importantes do mundo, que era um jovem, falou algo sobre suas roupas diferentes e enfim. Acompanhei provavelmente um parte do terceiro set, sem entender nada daquele sistema de pontuação maluco. Fiquei feliz quando Guga venceu, afinal, ficamos feliz com vitórias brasileiras aos 10 anos de idade.

Então eu não sabia nada sobre a história do esporte, seu passado aristocrático e como de certa forma Guga seria um dos responsáveis pela popularização do tênis no mundo até. Mas, se esse momento ficou marcado em minha cabeça, é porque certamente ali começaria minha paixão pelo tênis.

Nos anos seguintes, o tenista catarinense passaria a ocupar o lugar de ídolo nacional que estava vago desde a morte da Ayrton Senna. O fato de suas conquistas serem geralmente em manhãs de domingos dava o tom piegas de coincidência histórica.

Acompanhar Guga nos anos seguintes foi um esporte nacional, e meu em particular. Sua eliminação em Wimbledon para um alemão desconhecido. Um título, talvez na República Tcheca, talvez na Itália, ainda em 1997. Uma série de maus resultados nos anos seguintes que o derrubaram no ranking e passaram a ideia de que ele poderia ser apenas um azarão que teve duas grandes semanas uma vez na vida.

As coisas mudaram em 1999 com sua série de títulos no saibro e a derrota para Medvedev nas quartas-de-final do slam francês. Havia uma certeza de que ele poderia ter ganhou aquele torneio. Mas, ele manteve a boa fase naquele ano e prosseguiu em 2000. Nas segundas-feiras eu sempre lia na Folha de São Paulo sobre as suas possíveis finais no dia anterior. Ele perdeu um jogo contra Magnus Norman em um dos Masters europeus do saibro e parecia que este era o duelo esperado para a final de Roland Garros.

Realmente foi, mas não sem muito sofrimento. Lembro de acompanhar seus jogos na ESPN e da agonia que foi o confronto contra Kafelnikov, quando tudo parecia perdido. Tudo pareceu perdido na semifinal contra o Ferrero, mas novamente Guga se superou. As vitórias emocionais eram um de seus grandes destaques. Por nove vezes ele enfrentou jogos de cinco sets na França e ganhou oito delas, cinco pelo menos depois de estar em situação bem adversa no placar. O título contra Norman depois de infinitos match points, mais títulos no saibro, a dominante conquista da Masters Cup, número 1 do mundo, mais títulos no saibro, o sofrimento contra Russell, vitória contra Corretja e seu terceiro título em Roland Garros. Guga era o rei do saibro, melhor tenista do mundo, faltava conquistar um slam em outro piso.

Parecia que seria no US Open de 2001. O mundo olhava para a Nova York pós-atentados, mas o Brasil já olhava para a cidade por conta de Guga. Uma vitória com sofrimento contra Max Mirnyi, as quartas-de-final contra o Kafelnikov, um bom presságio... O brasileiro começa a sentir dores no quadril nesse jogo e acaba atropelado pelo russo. Passa o resto do ano se arrastando. Perde a liderança do ranking. Passa por um cirurgia. Difícil saber no total quantas foram. Jogar tênis deixa de ser uma alegria e passa a ser um sofrimento. Ele ensaia alguns retornos para a glória, na virada de 2002 para 2003. No começo de 2004. A vitória contra o pré-gênio Federer nas 3ª rodada de Roland Garros em 2004 foi o seu canto do cisne (derrota aliás, que custou ao suíço a possibilidade de fechar um Grand Slam naquele ano). Lesões, lesões. Guga ainda tentou, mas abandonou o tênis em 2008. Na verdade ele não jogava desde 2005. Na verdade, o Gustavo Kuerten de verdade parou naquele jogo contra o Kafelnikov em 2001, com apenas 25 anos.

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Kafelnikov aliás, foi quem lhe deu uma definição consagradora: Guga era o Picasso das quadras. Provavelmente porque o brasileiro conseguia uma beleza estranha em seus jogos. Ele não era refinado como Federer é, ou como Sampras era então. Não era força-bruta. Guga se destacava pelo ângulo abstrato que ele conseguia com seus backhands, pela maneira como conseguia com seus golpes de esquerda jogar os adversários para fora da quadra. Batia bem dos dois lados, e conseguia subir na rede com alguma habilidade, para matar as devoluções curtas provocadas por seus golpes angulosos. Não era muito rápido e isso explica seu sucesso muito maior no saibro. (Sim, vale lembrar que ele estava evoluindo nas quadras duras, como mostram seus títulos no Master de Lisboa e em Cincinatti).

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Kuerten também tinha uma dimensão humana que facilita a idolatria. Ele era um jogador vulnerável, passava longe da perfeição e da solidez do Big Four atual. Dentro de um mesmo jogo variava muito, sentia o momento ruim e crescia no momento bom. Era difícil de ser batido, principalmente nos grandes momentos. As 20 vitórias em 29 finais mostram isso. (68% de finais vencidas. Federer tem 65%. Nadal 67%. Djokovic 69%. Andy Murray 67%. Antes da lesão de 2001, Guga chegou a ter 17 títulos em 23 finais, 73% de aproveitamento).

Sua simpatia e acessibilidade também lhe garantiam essa aura terrena, a de que ele era uma pessoa normal que jogava um tênis extraordinário. Não parecia inalcançável como Sampras, por exemplo. Um dos maiores esportistas brasileiros em todos os tempos.

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