Pular para o conteúdo principal

Fragmentos

Quem já voou em um desses aviõezinhos, em um voo não comercial, sabe o medo. Conhece a sensação terrível que é passar pelas inúmeras turbulências que o caminho proporciona. Se um Boeing treme aqui e ali por conta de nuvens mais pesadas, o aviãozinho treme com qualquer rajada de vento, com as diferenças de temperatura no ar. É preciso ter estomago forte.

Existem alguns outros detalhes também. A aterrissagem nesses aviões é feita de maneira visual. O piloto preciso encontrar a pista lá embaixo, na base do olho. E enquanto o avião desce e balança, o desafio é não vomitar. Os aviões menores podem ser comparados a folhas de papel no ar, balançando de um lado pro outro, ao ritmo do vento. Quando o avião finalmente chega no solo, o alívio é imenso.

***

Todo acidente de avião é motivo para comoção nacional. De certa forma, mortes coletivas nos comovem. Acredito que é algo baseado na nossa crença sobre o destino, que tudo já esta escrito e é difícil entender porque 200 pessoas morrem juntas no meio de uma floresta, ou queimadas em uma boate. Acidentes de avião são muito mais raros do que acidentes de carro. Menos pessoas morrem em acidentes de avião do que nas rodovias de Mato Grosso, assim como menos pessoas morrem de ebola do que de sarampo. Mas qual comove mais?

O avião, de certa forma, representa a vitória do homem sobre a natureza. Sempre dominamos a terra e os carros apenas ampliaram nossa capacidade. Conseguíamos nadar e os barcas estenderam nosso domínio sobre as águas. Mas nós nunca pudemos voar, até que o avião surgisse e nos fizesse superar esse desafio. A queda doa avião representa a vitória da natureza sobre o homem, sobre a tecnologia. Nos coloca de volta em nossa posição de insignificância diante do mundo.

***

A morte, de fato, costuma a ser redentora. A morte constrange os inimigos, aproxima os amigos. Como criticar alguém que não pode mais se defender? A morte nos lembra os grandes feitos e apaga os defeitos. Nunca fui fã de Robin Williams, mas como posso dizer isso depois de sua morte, triste, tão triste? Até o ACM virou um político bom depois de morrer.

Uma morte trágica amplia esses efeitos. A tragédia martiriza a vítima. Não há glória em morrer velho, dormindo, após alguma doença terrível, noticiada durante anos. Morrer em um acidente, jovem, no auge, é diferente. Ayrton Senna talvez não fosse um mito tão grande se não tivesse morrido em uma manhã de domingo, ao vivo diante de milhares de pessoas.

***

Eduardo Campos sempre figurou na casa dos 10%, dentro da margem de erro de três pontos percentuais das pesquisas. Governador de Pernambuco, reeleito com uma votação absurda, neto de um símbolo da esquerda nacional, político habilidoso, bom articulador, mas desconhecido para o Brasil imenso. Sua eleição parecia um sonho, sua participação na campanha parecia muito mais uma aposta de quem não tem nada a perder, qualquer que fosse o resultado, sairia ganhando. No Planalto, ou na boca do povo.

A sua trágica morte, no acidente do aviãozinho em que estava, despertou um sentimento eleitoral na população. Muitas pessoas declararam seu voto póstumo nele. Seus defeitos foram afastados, seus feitos glorificados. Eduardo Campos conseguiu, depois de morrer, captar o sentimento de mudança que explodiu nas ruas brasileiras em junho de 2013. Mudança que ele provavelmente não seria, mas que a tragédia impediu que o tempo confirmasse ou negasse.

***

No meio da tragédia havia um jornalista, um fotógrafo, um cinegrafista, um assessor e dois pilotos. Coadjuvantes de uma tragédia nacional, nomes desconhecidos que também deixaram famílias e amigos desconsolados.

Meu sentimento com o jornalista. Nessa nossa vida louca, vivendo uma experiência profissional grandiosa, ele com certeza conhecia o medo na turbulência e sentia o alívio na hora em que o avião pousava.

Comentários

Postagens mais visitadas

Doze discos especialmente diferentes

Alguns artistas lançam ao longo de suas carreiras discos que se destacam absolutamente em relação ao resto que foi produzido. Não só pela qualidade, mas pela sonoridade, temática e enfim. Não se trata apenas de ser o melhor disco, mas de ser um disco diferente. Mas um diferente que não foi pensando (tipo igual o Radiohead faz), mas um diferente quase acidental. Não pretendo falar de bandas que tem um álbum excelente e outros que seguiram o mesmo estilo, só que menos inspirado (tipo Television ou Strokes). Ou artistas que tem fases bem marcadas com um grande disco dentro delas (Pink Floyd e David Bowie), ou ainda dos camaleões como Bowie, Beck e Neil Young. Ainda tento evitar a armadilha de citar muitos discos de estreia, em que essa sonoridade era fruto da inspiração e angústia da juventude, bandas que começaram muito bem e depois apenas tentariam repetir a fórmula mas sem tanta inspiração (Black Crowes, Fratellis). Bert Jansch - Bert Jansch (1965) Disco de estreia do monstro sagrado d...

Aonde quer que eu vá

De vez em quando me pego pensando nisso. Como todos sabem, Herbert Vianna, dos Paralamas do Sucesso, sofreu um acidente de avião em 2001. Acabou ficando paraplégico e sua mulher morreu. Existe uma música dos Paralamas, chamada "Aonde quer que eu vá" que é bem significativa. Alguns trechos da letra: "Olhos fechados / para te encontrar / não estou ao seu lado / mas posso sonhar". "Longe daqui / Longe de tudo / meus sonhos vão te buscar / Volta pra mim / vem pro meu mundo / eu sempre vou te esperar". A segunda parte, principalmente na parte "vem pro meu mundo" parece ter um significado claro. E realmente teria significado óbvio, se ela fosse feita depois do acidente. A descrição do acidente e de estar perdido no mar "olhos fechados para te encontrar". E depois a saudade. O grande detalhe é que ela foi feita e lançada em 1999. Dois anos antes do acidente. Uma letra que tem grande semelhança com fatos que aconteceriam depois. Assombroso.

Oasis de 1 a 7

Quando surgiu em 1994, o Oasis rapidamente se transformou em um fenômeno midiático. Tanto por suas canções radiofônicas, quanto pela personalidade dos irmãos Gallagher. Eles estiveram na linha frente do Britpop, movimento que redefiniu o orgulho britânico. As letras arrogantes, o espírito descolado, tudo contribuiu para o sucesso. A discografia da banda, no entanto, não chega a ser homogênea e passa a ser analisada logo abaixo, aproveitando o retorno do grupo aos palcos brasileiros após 16 anos.  Definitely Maybe (1994) O primeiro disco do Oasis foi durante muito tempo o álbum de estreia mais vendido da história do Reino Unido. Foi precedido por três singles, sendo que dois deles são clássicos absolutos - Supersonic e Live Forever . O vocalista Liam Gallagher cantava em algum lugar entre John Lennon e Ian Brown, enquanto o som da banda bebia de quase tudo o que o Reino Unido havia produzido nos 30 anos anteriores (Beatles, T. Rex, Sex Pistols, Smiths, Stone Roses). O disco começa c...