Sair de casa e entrar em uma academia não é fácil. O ambiente por vezes é meio opressor com seu som alto, figuras meio excêntricas e outras amedrontadoras. O resultado não aparece fácil. Você muitas vezes se sente o pior dos seres humanos quando compara a sua carga de exercícios com os outros.
Minha dica para fazer exercícios em uma academia é simples: leve os seus fones de ouvido, coloque uma música que você goste e contemple o vazio da existência humana.
Os fones devem ser confortáveis e é importante que eles não fiquem caindo toda hora. Vou te isolar do ambiente externo, o que é algo importante. A música precisa ser a que você gosta. Não precisa ser uma música animada, agitada ou coisa do tipo. Você precisa gostar. Esses dias malhei escutando Portishead e me senti muito bem. Ninguém recomendaria escutar Portishead na academia, mas se você gostar, não deve se intimidar.
A trilogia do Bob Dylan 65-66 também funcionou muito bem. Pode parecer improvável ter um bom treino escutando Desolation Row, mas eu gosto e é isso que importa.
A parte de contemplar o vazio da existência humana talvez seja um pouco mais difícil. Aproveite os fones de ouvido para escutar seus pensamentos. Olhe em volta e veja aquelas pessoas todas solitárias, também com seus fones de ouvido, carregando pesos, puxando roldanas, agachando em posições estranhas. Nada daquilo faz sentido.
Uma hora você vai pensar em você e perceber que o que você está fazendo também não faz sentido. "Ah, você terá uma vida saudável depois dos 80 anos", tanto faz. Não tem muito sentido ficar dentro de um galpão esticando suas pernas em um aparelho.
Esta contemplação irá te ajudar a perceber, no fim das contas, que nada faz sentido na existência humana. De onde viemos? Para onde vamos? O que estamos fazendo? Nada, absolutamente nada faz sentido. Não há um grande propósito, um final grandioso. Estamos aqui apenas para ocupar a nossas mentes e nossos tempos. E essa é a tarefa mais difícil de todo. Lidar com a nossa mente e com o nosso tempo. Lidar com isso sem a ilusão de que no final vai dar tudo certo. Não sabemos. O que é o final, afinal?
A academia e o exercício físico no fim das contas podem ser um caminho para você ocupar o seu tempo. Diminuir o vazio existencial com cargas pesadas de exercícios para os ombros ou membros inferiores.
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A corrida é um pouco mais complexo. Toda essa parte do vazio existencial e da falta de sentido permanecem. Mas é uma atividade que você pode desempenhar solitariamente - caso você não decida fazer parte de um grupo de corrida. Eu prefiro fazer solitariamente.
Mais do que um desafio físico, a corrida é um desafio mental. É estabelecer uma meta e chegar no fim dela. E tentar não perceber a passagem do tempo, porque a passagem do tempo é ainda mais cruel quando você está correndo a 9,5 km por hora. Se você ficar ansioso pelo final, o final não chegará.
Para correr é preciso tentar alcançar o Nirvana. Os discos do Nirvana costumam a funcionar bem quando estou correndo, aliás, não que tenha alguma relação.
Mas enfim, é isso o que eu posso dizer como experiência pessoal.
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