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Tempos Calmos

Quando eu era pequeno, lembro que nós deixavamos o portão destrancado o dia inteiro. Também deixavámos o carro do lado de fora e so o guardávamos na hora de dormir.

Com o tempo passando, fomos deixando o portão trancado o tempo todo. Logo aconteceu um assalto na casa de trás, e passamos então a deixar o carro do lado de dentro, e entrar e sair com ele sempre que fosse preciso.

A casa da frente foi assaltada. E então contratamos um guarda para a rua. Quando alguém chegasse com o carro, outra pessoa ia no portão olhar. Colocamos portão eletrônico.

Pularam o muro de outra casa, de dia. Era a hora de colocar uma cerca elétrica.

E mesmo com a cerca, o portão, cadeados, cachorros, guardas a sensação de segurança não existe. E não é coisa só daqui. Tem aquele amigo que saiu de casa e foi para um condomínio. O outro foi para um apartamento. Trocou as fechaduras. E mesmo assim o medo sempre está por aí.

Lembro de um texto que eu escrevi certa vez, ou, de um pedaço dele.

"Escuto One Way Road, e sei onde estou no Summer time. Vejo o céu brilhando, e o vento assopra, balançando os cabelos. Tempos estranhos esses, em que todos os muros de todas as casas, ganham o visual da cerca elétrica. Já se foi o tempo em que os portões ficavam abertos, os muros eram baixos. Agora são cada vez mais altos, e com suas cercas elétricas. Construímos muros e nos aprisionamos. E deixamos que a violência fique livre do lado de fora. Que inveja. Eles conseguem ser livres. Penso.

Os bois comem a grama da praça livremente. Poderia ser um boi, livre. Mas acho que não gostaria de ruminar. Acho que também não gostaria de grama."

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