Pular para o conteúdo principal

O Glorioso Retorno de Relâmpago McQueen

Quando meu filho tinha uns três anos, nós apresentamos para ele a série de filmes Carros, da Pixar, aquela protagonizada pelo Relâmpago McQueen. Era um assunto que ele adorava - carros e corridas - então, meu filho rapidamente ficou aficionado. Assisti os três filmes mais de uma dezena de vezes. Diria que mais de 40 (sim, incluindo a bomba de Carros 2). Cheguei a decorar diversas passagens do filme e, se fosse o caso, me sentiria preparado para fazer aquelas dublagens que viralizaram na época da pandemia.

Um dos grandes sucessos dos filmes da Pixar é conseguir falar ao mesmo tempo para crianças e adultos. Esse claramente não é o exemplo de Carros, um filme feito exclusivamente para crianças, que pode ensinar alguns valores sobre humildade e respeito, mas que no fim das contas é pura aventura juvenil. (Ok, o terceiro filme é um pouco mais bonito).

Mas, para além disso, as franquias da Pixar muito provavelmente se mantém pela incrível quantidade de produtos licenciados que eles conseguem vender. Relâmpago McQueen, nesse caso, talvez seja o maior sucesso dos estúdios, porque eles conseguiram vender todo e qualquer tipo de quinquilharia relacionado ao número 95.

O que é um pouco óbvio. Para as crianças, o filme não termina após os créditos. E isso não significa que seu filho queira entrar na internet, ler resenhas e participar de comunidades sobre o filme. Ele quer simplesmente brincar com os personagens do filme.

Aí chegamos ao problema. O último filme da série Carros foi lançado em 2016 e estamos falando de eventos ocorridos lá por 2022. Nessa época todo o frisson infantil sobre a película já havia terminado, as crianças já estavam curtindo novas animações, fazendo os pais gastarem dinheiro com outras coisas. Simplesmente não se achavam mais produtos do Relâmpago McQueen nas lojas de brinquedo.

Na Rihappy havia algumas miniaturas do McQueen, Francesco Bernoulli, Jackson Storm e um carro azul completamente coadjuvante do terceiro filme, que aparecia mais ou menos durante uns 20 segundos - se tanto, para o qual não havia a menor explicação para que um brinquedo fosse lançado. Seu filho queria um brinquedo do McQueen de dia das crianças e ele não existia.

Percorri o Mercado Livre para achar uma miniatura do Mate (e algumas outras mais, porque depois os pais é que começam a gostar da brincadeira). Foi um grande alívio e uma grande felicidade quando a Lego lançou uma edição do McQueen e do Mate em um lava-jato - acho que é o presente que ele ficou mais feliz em todos os tempos.

Mas era difícil achar camisas do McQueen, por exemplo. O Relâmpago já era, diria o narrador do terceiro filme.

Pois bem, de um tempo para cá tudo mudou. Todas as grandes lojas de departamento vendem pelo menos dois ou três modelos diferentes de camisas da série Carros. Vendem pijamas, meias, sungas, cuecas. As lojas de brinquedo estão cheias de pistas e traquitanas referentes ao universo do filme. Praticamente todo e qualquer carrinho que participou do filme tem sua miniatura 1:64. Mesmo aqueles que alguém que assistiu a trilogia 50 vezes (incluindo a série Carros na Estrada e demais curtas disponíveis na Disney Plus), tem dificuldade em reconhecer.

Hoje a Fórmula 1 lançou uma coleção de roupas baseada no filme Carros 2. Uma maravilha.

O problema é que meu filho agora já não gosta mais de Carros. Esses dias se pegou na dúvida quando perguntei qual era o número de corrida do Relâmpago McQueen. Isso já não me adianta mais.

Eu sei, o mundo não gira em torno do meu filho. Mas, nesse caso, eu tenho quase que a total certeza de que o retorno de McQueen às prateleiras das grandes lojas é minha culpa. Minha busca obsessiva por quase todo o produto relacionado ao filme durante um bom tempo ativou algum tipo de algoritmo que fez as grandes empresas observarem uma oportunidade de mercado. Temo que, agora, diante do desinteresse do meu filho, esses produtos estejam acumulando poeira e provocando recessão econômica.

Comentários

Postagens mais visitadas

Top 25: meus artistas obscuros

Uma lista com os artistas que eu gosto - ou que pelo menos escuto com alguma frequência - menos populares no Spotify.  25 The Action - 36.355 ouvintes mensais A invasão britânica dos anos 60 não colecionou apenas histórias de sucesso. Muitas bandas passaram pelo período sem atingir as massas. O Action é um grande exemplo. Mas, vamos ser sinceros: o grupo liderado por Reg King está longe de ser brilhante e vale mais apenas pela curiosidade se você for um obcecado pela cena londrina da época. De qualquer jeito, escute In My Lonely Room e I’ll Keep Holding On . Sim, eles nunca chegaram a lançar um disco, apenas uma série de singles entre 1965 e 1967. 24 The Boy Least Likely To - 36.001 ouvintes Grupo britânico de indie pop, uma espécie de versão genérica do Belle & Sebastian. Conheço apenas The Law of the Playground , que tem a boa música de abertura Saddle Up . Fora isso, não é nada que valha muita dedicação. 23 Fanfarlo - 35.995 Banda britânica fortemente influenciada por Arcad...

Por onde andará o Walfredo?

No competitivo e violento ambiente da pré-escola, o Walfredo se destacava. Ele era um pequeno torturador psicopata que espalhava o terror entre seus coleguinhas. Walfredo mostrava o pinto para os outros, rolava na grama, ficava gritando, batia nas crianças e tinha um umbigo esquisito. Tenho certeza que essa era a razão para toda a maldade. Olhando agora, em retrospectiva, parece claro que Walfredo era a encarnação do mal, um garoto possuído pelo demônio. Mas, de qualquer forma, acho que não deveria ser legal saber disso aos seis anos, mesmo. Walfredo foi expulso do colégio antes do final daquele fatídico ano de 1993. A gota d'água, acredito eu, foi o dia em que ele aproveitou o momento em que uma das crianças bebia água no bebedouro e empurrou a nuca do garoto, fazendo com que o pobre coitado quase engolisse o bico do bebedouro, batesse os dentes e tudo mais. Terrível. Aquilo ali deve ter feito com que a diretoria percebesse que Walfredo era incapaz de conviver em sociedade. Se...

Em um ritmo diferente

Quando Noel Gallagher deixou o Oasis, decretando o fim da banda, os membros restantes decidiram seguir em frente, deixando muitas dúvidas. Um ano depois eles anunciaram o estranho nome Beady Eye, o que indicava que alguma coisa realmente estava acontecendo. A principal dúvida era: Noel Gallagher sempre foi o líder criativo do Oasis e, por mais que os outros tivessem aumentado e qualificado sua participação nos últimos anos, Noel ainda era o responsável pelas melhores músicas da banda. Os outros quatro conseguiriam seguir em frente? Ou se perderiam? De certa forma a resposta para as duas perguntas é afirmativa. O disco de estréia o Beady Eye, Different Gear, Still Speeding é cheio de altos e baixos, carente de uma produção melhor. Faltou alguém para conter alguns excessos. O guitarrista Andy Bell é o único que tem experiência em liderar alguma banda relevante, no caso o Ride no começo dos anos 90. E ele se destaca em relação aos demais. Suas composições têm as melhores letras do grupo, ...