Pular para o conteúdo principal

Memórias afetivas da Copa

Em 1994 eu era um garoto prestes a completar sete anos descobrindo o que era uma Copa do Mundo. Chegando da escola e vendo uma reportagem com o show da abertura (aquele que a Diana Ross errou o chute). Com meu primeiro álbum, conhecendo os países e as mitologias.

Impressionado com a Bulgária eliminando a Alemanha. Encantando com Hagi e Dumitrescu brilhando com seus uniformes quase dourados sob o sol da Califórnia.

Na Copa da França eu iria fazer 11 anos e a esse altura nada era mais importante na minha vida do que o futebol. Podia ver todos os nomes que lia na revista Placar e conferir que Raul e Beckham não eram nada demais. Assisti todos os jogos e sofri como nunca na derrota contra a França.

Em 2002 eu estava para fazer 15 anos e o futebol ainda era, talvez, a coisa mais importante da minha vida. Mas os jogos de madrugada eram um tormento para um estudante do primeiro ano do Ensino Médio. Lembro que os jogos eram às 2h30, 5h e 7h30. Praticamente nunca conseguia ver o da madrugada. Sofria para acordar cedo e assistir o das 5h. No das 7h30 estava na escola.

Revezámos nos pedidos para ir no banheiro e passar em frente da cantina e saber quanto estava Uruguai x França ou Argentina x Inglaterra. Acompanhei Coreia do Sul x Itália pelo som das tvs no caminho entre a escola e minha casa.

Quando a Copa de 2006 chegou eu estava na faculdade. Convivendo com uma série de novos interesses, parei para assistir quase todos os jogos que consegui. Matei aula para ver Alemanha x Argentina na praça de alimentação de um shopping. Fui no bar da esquina para saber quanto estava República Tcheca x Itália.

Em 2010 eu estava formado, mas não trabalhava. Resolvi acompanhar aquela Copa com a máxima atenção possível. Comprei revistas, li notícias, assisti a todos os jogos na íntegra - inclusive as reprises dos jogos simultâneos. Montei planilhas sobre cada um dos jogos e escrevi sobre todos eles. Foi meu auge de fanatismo.

A Copa do Brasil foi diferente. Lembro de quando acordei, no dia dos namorados e a Copa iria começar. Ao atravessar a rua para ir na academia passei por uma caravana de chilenos que chegavam para o jogo de estreia no dia seguinte. Naquela noite a rua estava tomada por namorados e chilenos, alguns australianos e Cuiabá vivia uma experiência cosmopolita como jamais foi possível.

Estava trabalhando e assisti os jogos entre casa e o trabalho.

Já em 2018 eu seguia trabalhando mas tirei licença durante a Copa. Assisti a todos os jogos, contando com uma segunda tela nos jogos simultâneos. Tratei aquilo como um espécie de despedida da experiência de imersão, antes de o meu filho nascer no ano seguinte.

Em 2022 a Copa foi diferente, no fim do ano. Dividi a Copa com o trabalho, com uma TV ligada no fim da sala.

Agora em 2026, meu filho é que tinha sete anos. Assisti a Copa com ele descobrindo esse mundo. Encantando pelas estatísticas, fascinado em conhecer Messi e Cristiano Ronaldo, assim como Mbappé e Harry Kane, Lamine Yamal e, porque não, Vozinha. 

Do alto dos meus 39 anos me emociono levemente com a lembrança da minha vez e a certeza de que o ciclo se repete.

Comentários

Postagens mais visitadas

Top 25: meus artistas obscuros

Uma lista com os artistas que eu gosto - ou que pelo menos escuto com alguma frequência - menos populares no Spotify.  25 The Action - 36.355 ouvintes mensais A invasão britânica dos anos 60 não colecionou apenas histórias de sucesso. Muitas bandas passaram pelo período sem atingir as massas. O Action é um grande exemplo. Mas, vamos ser sinceros: o grupo liderado por Reg King está longe de ser brilhante e vale mais apenas pela curiosidade se você for um obcecado pela cena londrina da época. De qualquer jeito, escute In My Lonely Room e I’ll Keep Holding On . Sim, eles nunca chegaram a lançar um disco, apenas uma série de singles entre 1965 e 1967. 24 The Boy Least Likely To - 36.001 ouvintes Grupo britânico de indie pop, uma espécie de versão genérica do Belle & Sebastian. Conheço apenas The Law of the Playground , que tem a boa música de abertura Saddle Up . Fora isso, não é nada que valha muita dedicação. 23 Fanfarlo - 35.995 Banda britânica fortemente influenciada por Arcad...

Como Lula conseguiu essa virada?

No meio da tarde, um amigo me procurou pelo WhatsApp. Assim como eu, ele é meio aficionado por planilhas e números eleitorais. Começamos a falar de números, acho que para tentar conter a ansiedade diante da catástrofe eleitoral que os institutos de pesquisa haviam projetado no dia anterior. Chegamos a uma conclusão matematicamente simplista, mas eficiente: para vencer a eleição, Lula precisava aumentar em 5% sua votação em relação ao primeiro turno. Mas a apuração só começaria dali a umas duas horas. O que tínhamos em mãos eram os números das eleições no exterior. Lula havia ganhado três pontos percentuais no Japão, o que não seria ruim naquele cenário. Quando começaram a chegar os votos da Europa, nos colégios eleitorais mais expressivos, foi possível ver que os 5% mágicos haviam aparecido na Holanda, na França, na Irlanda e na Espanha. Depois, também na Itália. Em Portugal, onde o cenário era mais equilibrado, vieram seis pontos percentuais líquidos. Chegamos à conclusão de que, se L...

Pequenas/Grandes Emoções do Esporte

O Pontapé Inicial é um programa interessante da ESPN Brasil, que eu quase nunca assisto. Quase nunca assisto porque seu horário é proibitivo para mim, sempre estou no trabalho quando ele passa de manhã. Quando é feriado, geralmente estou dormindo durante sua exibição. Ele é reprisado toda noite, mas seu horário é proibitivo também, porque vejam pelo horário que eu escrevo: a reprise acabou de acabar. Mas hoje estava aqui assistindo/ouvindo a reprise. O programa sempre conta com um bloco para os aniversariantes do dia e hoje dois atletas brasileiros foram lembrados, Fernando Meligeni e Marcelinho Machado. Como homenagem foram mostradas duas matérias antigas com momentos marcantes de suas carreiras - e diria que também da minha vida como telespectador esportivo. Os jogos pan-americanos de 2003, em Santo Domingo, foram bem interessantes. Acho que foi o último Pan charmoso, com atletas brasileiros importantes suando por medalhas em um ambiente quase amador. A partir do Rio em 2007, ten...