Há pouco mais de dez anos, no dia 5 de agosto de 2016, saí do trabalho um pouco mais cedo. Era o dia da cerimônia de abertura dos Jogos do Rio de Janeiro e, por mais que eu não me considerasse um fã dessas cerimônias, acabei me contaminando pela empolgação do meu chefe. (O sair um pouco mais cedo significa que eu deixei o trabalho por volta das 19h, em vez de ficar até às 19h30 como de costume).
Sei que quando cheguei em casa a cerimônia estava em andamento. Perdi o Paulinho da Viola tocando o hino. Mas o que vi depois me deixou maravilhado. Um show de música, história e efeitos visuais. As favelas construídas ao som de Chico Buarque. O voo de Santos Dumont mostrando o Rio de Janeiro ao som do Samba do Avião.
Poucas vezes o Brasil acertou tanto ao se mostrar. Um país de suas belezas e mazelas, glorioso em sua grandeza e miséria. Longe da perfeição, mas sincero. Jorge Ben fez a festa e o final com Caetano, Gil & Anitta foi a apoteose.
Também teve a nossa tocha. Quando Guga virou a esquina, correndo com o quadril todo torto, todo mundo se emocionou. A tocha foi passada para Hortência, que encontrou Vanderlei Cordeiro de Lima. Foi ele o responsável por acender a pira olímpica. Talvez a mais bela pira de todos os tempos, arte em movimento depois exposta no boulevard olímpico da renascida Igreja da Candelária.
Que escolha foi Vanderlei Cordeiro. Não fomo atrás do nosso maior vencedor olímpico - quase todos eles, tão poucos, homenageados em diferentes partes da cerimônia. Vanderlei é a cara do Brasil, alguém que teve tudo para ganhar um ouro improvável, mas acabou detido por forças externas. Rumou para uma medalha ainda mais histórica, por ninguém ter certeza do que teria acontecido caso um padre irlandês não tivesse aparecido no meio do caminho.
Minha timeline no Twitter estava efervescente, todos tomados por uma brasilidade jamais sentida. Alguém resumiu que depois da abertura estava pronto para viver mais 10 anos de escândalos políticos, porque nada retiraria o orgulho de ser brasileiro.
Os dias seguintes se seguiram nesse espírito. Os jogos do Rio foram os jogos dos memes - talvez a maior comodities não tachável do povo brasileiro. A torcida gritando Osasco para um boxeador do Cazaquistão. Ou cantando a música dos Mamonas Assassinas para o lutador Mina. O besuntado de Tonga.
Também torcemos. A pressão absurda que fez o Brasil vencer a Espanha no basquete - e gerou revolta dos espanhóis, além de levar Thomaz Bellucci até uma improvável quarta-de-final. A sonora vaia para o francês do salto com vara, que provocou um enorme choro e desestabilizou para sempre sua carreira. A rivalidade Brasil x França foi aliás um dos pontos altos.
Me emocionei com o ouro de Thiago Brás e Rafaella Silva. Vive as manhãs do judô com intensidade. Sofri com o basquete e com o vôlei. Senti que havia perdido um familiar quando o time feminino foi eliminado pela China.
E as noites do vôlei de praia que se estendiam madrugada a dentro no mais belo estádio da modalidade já construído, na frente da Avenida Princesa Isabel, nas areias de Copacabana e do Leme, cercado pelo mar azul e o céu profundo. Entre os sets a imagem aérea mostrava Copacabana fervilhando em plena madrugada.
Copacabana, Botafogo, o aterro do Flamengo, os ciclistas pedalando em Grumari. O frenesi interminável no boulevard olímpico. Hemingway que me desculpe, mas o Rio de Janeiro sim que é uma festa.
As Olimpíadas ajudaram a cidade a retomar sua ideia de cidade maravilhosa. Estive na cidade uns dois meses depois e acho que nunca ela esteve tão bela. Iniciei um caso de amor à distância com o Rio aos meus 29 anos.
Dez anos depois ficam as lembranças. De jogos que não serão repetidos, o que é uma pena. Todas as Olimpíadas deveriam ser no Brasil.
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