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Postagens

Vinte anos de um jogo inesquecível

Sou torcedor do São Paulo, enquanto meu pai torce para o Fluminense. As razões que me levaram a não seguir o time do meu pai já devem ter sido explicadas em algum post perdido por aí, assim como já falei que sempre tive grande simpatia pelo tricolor carioca. É o meu segundo time. Suas vitorias fazem meu pai feliz e consequentemente me fazem feliz também. Em 1995 o Fluminense completaria 10 anos sem conquistar nenhum título e vinha de uma sequência de fracassos no campeonato carioca, que então era bem mais importante do que é hoje. Era o ano do centenário do Flamengo, que repatriou Romário e ameaçava formar o melhor ataque do mundo, junto com Sávio e Edmundo. O Fluminense tinha como seu grande astro o folclórico Renato Gaúcho. Não sei exatamente como é que aquele campeonato transcorreu, já que aqueles eram tempos em que não havia internet e o andamento do campeonato era conhecido por meio das tabelas de classificação publicadas nos jornais e dos gols exibidos no glorioso domingo da ...

Misteriosa Figura

Vejo ele quase todos os dias. No começo achei que era alguém que também esperava para atravessar a rua quando o sinal ficasse vermelho para os carros. Até que reparei que ele não atravessava a rua. Aliás, ele fica numa posição de quem não atravessa a rua, no gramado, ao invés de ficar próximo a faixa de pedestres. Buscando pela memória, tenho dúvidas se ele usa uma pochete ou se é apenas uma barriga protuberante. Ele usa boné e alguma corrente e está sempre lá. Cheguei a imaginar que ele é um desses caras que entregam jornais ou outros panfletos em semáforos. Mas ele não carrega nada. Só sei que ele está sempre lá. O semáforo fecha, ele se aproxima do meio fio, faz que irá gesticular com alguém do outro lado, mas não há ninguém lá. Um agente secreto? Um fugitivo do hospital psiquiátrico que fica a poucos metros dali? Jamais saberei.

Oasis, Coldplay, Foo Fighters, White Stripes e lembranças musicais de dez anos atrás

O ano de 2005 foi um ano diferente para a minha relação com a música e imagino que para a relação de muita gente. Foi nesse ano que os sites de compartilhamento de arquivos começaram a se popularizar. Lembro do lendário Yousendit e principalmente do Rapidshare. Sites que nos livraram do Emule, Kazaa e outros programas similares que nos enchiam de MP3s e vírus, na mesma proporção. Com uma facilidade maior para baixar discos inteiros de uma vez, incorporei um novo hábito: escutar discos em mp3 antes de eles saírem em seus formatos físicos. Isso não chegava a ser uma novidade em 2005, mas ainda era um hábito pouco comum. Pense você que até então nós íamos as lojas para comprar um disco que escutaríamos pela vez. Exatamente por esta época 10 anos atrás, eu tive uma experiência forte com isso. Quatro bandas que eu gostava, ou acompanhava, lançaram discos em um período de quinze dias. Oasis, Coldplay, White Stripes e Foo Fighters lançaram singles, clipes e discos em um período bem próxi...

Lembranças de um ano da Copa

Há um ano atrás eu confessor que fui dormir ansioso. O dia seguinte, 12 de junho, era o Dia dos Namorados, mas era o dia em que começava a Copa do Mundo. Poucas coisas no mundo podem ser mais legais do que uma Copa do Mundo. Menos ainda quando a Copa do Mundo é no seu país e sua cidade será sede dos jogos. É difícil explicar a excitação por assistir Camarões x México em uma tarde de sexta-feira e constatar que foi um jogo muito legal. Acompanhar as notícias sobre os jogos, os jogadores, o extra-campo. A ansiedade com o início da transmissão direto do estádio, os jogadores subindo para o aquecimento. A preparação para a entrada final, os jogadores no túnel. A música da FIFA, a entrada no gramado, os jogadores perfilados e o hino nacional. O hino nacional é um momento sublime da Copa do Mundo e vê-los cantados por seus torcedores é sensacional. As escalações, o apito inicial. Lembranças daquele 12 de junho, o gol contra do Marcelo, o pênalti fajuto sobre o Fred, mostrando que as cois...

Agora sim, o último ato

Um ano atrás, após a eliminação espanhola na Copa do Mundo escrevi sobre o último ato da dupla Xavi e Iniesta, na melancólica derrota por 5x1 para a seleção holandesa. Ao que tudo indicava então, Xavi abandonaria a seleção espanhola e deixaria o Barcelona para entrar na história e em algum clube do mundo árabe. Lamentei que a última atuação da dupla fosse em um vexame, um triste fim para uma dupla que conquistou tudo o que poderia, uma das maiores da história do futebol. Mas, a história foi bondosa com Xavi e Iniesta. O camisa 6 permaneceu por mais um ano no Barcelona e ganhou uma nova oportunidade para um novo fim. Fim agora sim sacramentado, com a ida de Xavi para o Qatar e um belo fim com a conquista de uma nova tríplice coroa. Seria difícil saber qual foi a última tabela entre os dois, já que eles pouco atuaram juntos neste último ano. Com os dois avançando os trinta anos e com as condições físicas de Xavi se deteriorando, ele virou o reserva de Iniesta. Os dois não consegui...

500 dias depois: Santa Cruz do Xingu

Para chegar em Santa Cruz do Xingu, você precisa passar por uma longa estrada de terra que a cada quilômetro fica pior. Bem, na verdade você tem a impressão de que se distância da civilização. No caminho, você cruza com mais tatus do que com outros carros. Almoçamos em um posto de gasolina no meio do nada, com aquela estranha sensação que temos quando encontramos pessoas no meio do nada. Nunca tenho coragem de comer carne nesses lugares. Acho que pode ser uma das vacas que eu vi pelo caminho. Quero ter uma relação profissional com minha comida, mas acho que fiquei impactado com a cena de um bezerro atropelado e uma vaca olhando o cadáver com uma dor materna. Pegamos um caminho errado e andamos por estradas secundárias, com a impressão de que a qualquer momento uma onça ou um índio invadiriam a pista. Santa Cruz tem menos de 2 mil habitantes. Uma rua principal asfaltada, cercada de muitas ruas de um barro úmido, impregnados pela escuridão.  Existem apenas dois hotéis ...

O vai e vem do melhor do mundo

Eu lembro que estava aqui no meu quarto assistindo Lionel Messi marcar seu primeiro gol pelo Barcelona em uma partida contra o Albacete. Um golaço, de cobertura. Lembro que o argentino franzino já era, àquela altura, tratado como um futuro craque, entrava aqui e ali em um ou outro jogo. Também lembro da primeira vez que eu reparei na existência de Cristiano Ronaldo. Campeonato inglês da temporada 2003-2004, o Arsenal era o atual campeão (invicto) e tinha um time histórico, com um contra golpe mortal e que carregava impressionantes 49 jogos de invencibilidade. Os londrinos perderam para o Manchester United (uma derrota aliás, que derrubou o Arsenal que nunca mais foi o time que era até então), em grande atuação do jovem Rooney, de 19 anos. Mas me lembro que Cristiano Ronaldo chamou minha atenção. Messi e Cristiano Ronaldo eram os dois jovens brilhantes que apareciam no futebol, ainda dominado por Ronaldinho, Kaká, Shevchenko, em um mundo pós-Zidane, Ronaldo e Figo. Messi já brilha...

Toda a Força que já esteve ali

Bwana era uma força da natureza. A energia de um labrador é amplamente divulgada por aí, mas só quem teve um sabe do que eu estou falando. Das plantas que ela arrancava pela raiz, dos pesos que ela carregava nos dentes, dos muros que ela pulava sem cerimônia, a eternidade pela qual ela poderia correr e nadar. A força de um labrador não é brincadeira. São seis, sete anos, em que o animal é praticamente incontrolável. Depois ele acalma um pouco, a idade chega. E como chega. Hoje, ao sair de casa me deparo com Bwana deitada ao lado do portão. Ela precisa sair dali, para que eu possa passar com o carro. Chamo-a e ela não se move. Preciso levantá-la e ela anda devagar, para no caminho. Se falasse, diria para que eu a deixasse ali, que desistisse de sair. A cena ocorreu também na semana passada e ainda vai se repetir algumas vezes, imagino que não muitas porque o tempo é cruel. Bwana é um labrador caminhando para seus 12 anos. Seu corpo cansado tem pouca força, um pouco de toda a f...

Gerrard: a despedida de um de nós

Dizem que é apenas futebol, que futebol é apenas um jogo. Onze caras em campo correndo atrás de uma bola. Mas, futebol não é só isso, é muito mais do que isso. É algo que não dá para explicar. Não dá para explicar todas aquelas pessoas com seus cachecóis vermelhos cantando "You'll Neve Walk Alone" como se fosse a última vez. Porque era a última vez. Steven Gerrard, quase 35 anos, entrava pela última vez em Anfield Road como jogador de futebol. Ele que chegou ao Liverpool aos 7 anos. Que estreou profissionalmente em 1998. Que é um dos maiores, se não o maior ídolo da história da equipe. Volte dez anos no tempo, até 25 de Maio de 2005. Naquele dia, Milan e Liverpool se enfrentavam na final da Champions League em Istambul. O Milan era o claro favorito ao título. Era uma das maiores equipes do mundo, havia sido campeã do mesmo torneio dois anos antes. Tinha Kaká, tinha Seedorf, Tinha Shevchenko, Pirlo, Maldini. Era um timaço. O Liverpool era a zebra. Já estava há anos ...

Cristiano Ronaldo faz gols, Messi faz mágica

Cristiano Ronaldo faz gols de todas as maneiras possíveis. Ele é o mais perfeito jogador de International Superstar Soccer. Corre muito, finaliza bem com as duas pernas, cabeceia bem, bate faltas, tem explosão muscular e drible. Mas ele não faz mágica. Messi faz mágica. Faz tantos gols quanto, mas alguns deles tem esse elemento da mágica, do Boateng caído no chão, de tantos adversários que foram iludidos pela sua movimentação e não acreditaram no que iria acontecer. E é isso.

Resgatando Rascunhos: Ponte sobre o Cerrado

O ano era 2013 e eis que uma ponte surge na rua ao lado da minha casa. A partir de então, eu poderia passar por cima daquele que sempre foi o limite natural do meu bairro e da minha imaginação infantil. E não é qualquer ponte: é uma ponte alta, que passa por cima das copas das árvores. A nova experiência me faz pensar na beleza daquelas árvores e de como o cerrado pode ser belo, apesar de desprezado. Me encho de inspiração, mas ela nunca vai a lugar nenhum. Esse rascunho de texto permanece esquecido por aqui desde outubro de 2013. Termina sem pontos e para nada. O Rio Coxipó sempre esteve no final da minha rua. Apesar da proximidade, nunca olhei para o rio pensando em diversão, porque ele sempre esteve poluído. Até me admirava com as pessoas que passavam a tarde tomando banho nele, mesmo com o esgoto que escorria pelas manilhas. Para mim, o rio sempre foi o limite natural da minha rua e do meu bairro. Tudo acabava no rio. Quando criança, por vezes eu descia até a beira do rio e ima...

Carolina, completamente perdida

O som do meu carro tocava uma música de Josh Rouse, chamada "Caroliña" no exato momento em que eu cheguei para deixar meu carro na revisão. Curiosamente, seria atendido por uma funcionária chamada Carolina. A música de Josh Rouse fala que Carolina se sente muito feliz do lado de fora e acredito que a Carolina da concessionária também se sentiria mais feliz em outro lugar. Tinha olhos tristes e sotaque mineiro. Não me avisou, mas era fácil perceber que estava começando a trabalhar ali. Carolina não entendia o complexo funcionamento do complexo sistema da Nissan e precisava da ajuda do seu colega de lado para realizar todos os procedimentos. E realmente, ao que eu percebi, são vários procedimentos. Abertura e fechamentos de abas, cliques em mãozinhas, em sinais verdes, ligações para liberação de valores, consultas, fichas e meu deus. Pobre Carolina. Esperei 25 minutos para ser atendido e o atendimento em si deve ter demorado outros 25. Chegou aquele ponto em que o at...

Nossos comentaristas

O futebol brasileiro está em crise. Nossa seleção não é mais um selecionado de craques, não temos um punhado de atacantes e meias brilhando no futebol europeu, os campeonatos locais não são um primor técnico. E os nossos técnicos? Não fazem parte do primeiro escalão mundial. Tem ali o Tite, mas no geral quando assistimos qualquer time brasileiro contra qualquer time sul-americano de segunda categoria, a impressão é que o estrangeiro tem muito mais padrão tático. Sim, as coisas não vão bem dentro de campo. E fora? Nossos dirigentes são uma reprodução fiel do que é a política local, as federações são um paraíso fisiologista com cartolas que se perpetuam por décadas no poder. As arquibancadas dos estádios, os velhos e os novos, estão geralmente mais vazias do que cheias. E temos os nossos comentaristas. Ah, os nossos comentaristas, que show de horrores. Estamos cheios de comentaristas que comentam o óbvio e não contribuem nada para que o futebol dentro e fora de campo melhore. Na qu...

Galeano

Um dia um amigo do meu pai veio passar uns dias aqui em Cuiabá. Ele vinha de Campinas e trouxe um livro de lembrança para mim, comprado no aeroporto mesmo, acredito. O livro era "Futebol ao Sol e a Sombra" de Eduardo Galeano. Eu tinha 15 anos, no máximo. Não li o livro ali, dei uma enrolada pelas páginas e seus textos curtos. Anos depois esse livro me ajudou na minha monografia. Depois, o li hipnotizado. Hoje só tenho a agradecer. Ao Galeano, e ao amigo do meu pai.