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Lembranças Olímpicas II

A medalha de ouro conquistada por Sarah Menezes logo no primeiro dia das Olimpíadas é uma raridade para o Brasil. O país sempre conquistou medalhas nos esportes coletivos, que são decididos nos últimos dias da competição e também em esportes como o Iatismo, que tem sua decisão na sua segunda semana. Nas primeiras semanas, as principais medalhas são distribuídas em esportes que o brasileiro nem conhece. Exceção feita ao judô e a natação. A natação nos oferece medalhas eventuais - só Cielo já conquistou um ouro - e o judô tem medalhas com frequência, mas nem sempre a principal. A medalha de Sarah Menezes, aliás, é inédita. Nunca o Brasil havia conquistado uma medalha de ouro no primeiro dia. Normalmente, os brasileiros terminam a primeira semana com alguns bronzes e a sensação de que nenhuma medalha de ouro será conquistada é sufocante. Nos Jogos Olímpicos de Sidney em 2000, foi ainda pior. A esperada medalha não veio no judô - duas pratas. Depois não veio no vôlei de praia, certeza ...

Lembranças Olímpicas

Marcelo Negrão foi para o saque e eu disse "é agora". Eu tinha cinco anos recém completados e o Brasil estava prestes a conseguir sua primeira medalha de ouro no vôlei. Marcelo Negrão sacou, o holandês não conseguiu defender a bola, que talvez tenha parado fora do ginásio. A equipe comemora a conquista e eu celebro meu momento jovem Nostradamus. As Olimpíadas de 1992 foram as primeiras que eu acompanhei na minha vida. Lembro de uma abertura pavorosamente chata - apesar de todo mundo querer ver, eu sempre acho a abertura chata, exceção feita às de Pequim em 2008. O vôlei e o basquete são os dois grandes esportes coletivos dos Jogos. O futebol, não. O futebol é jogado por atletas milionários, mas que não estão entre os grandes milionários. A medalha de ouro olímpica não é mais importante do que um título na Copa do Mundo. O futebol nos jogos olímpicos ocupa um patamar de mediocridade. O lado superstar dos jogadores de futebol se difere do famoso espírito olímpico. Ao contrá...

Um jogo que decide

Ausente 16 anos dos Jogos Olímpicos, a seleção brasileira de basquete fará sua estréia na competição contra a Austrália, no dia 29. Mais do que um simples retorno ao torneio, o jogo decidirá o futuro do Brasil na competição. O Brasil está em um grupo médio, onde é claramente superior a duas equipes: China e Grã Bretanha. Também é melhor que a Austrália, mas não é uma superioridade visível. É um jogo em que pode ganhar e pode perder. Uma possível derrota não elimina o Brasil, mas deixa o caminho complicado. Uma derrota aumenta a pressão sobre o Brasil, que pode se complicar na sequência contra os donos da casa e ainda terá Rússia e Espanha mais adiante. Pode não ser eliminado, mas pode se classificar com a quarta colocação o que o colocaria diante dos Estados Unidos no mata-mata olímpico, pronto para morrer nas quartas-de-final. Uma vitória traz tranquilidade e a certeza do caminho certo. Tranquilidade para confirmar a vitória contra os britânicos e para enfrentar os equivalentes ...

Ética Política

Eu não voto em candidato que me acorda sábado de manhã com carro de som. Não voto. Se ele não respeitou meu sono, meu voto ele não terá. Aliás, carro de som nenhum irá ganhar meu voto. Eles não me conquistarão perturbando o silêncio. Também não voto naqueles que me telefonam. Se eles acham que iriam me agradar, me colocando ao pé do telefone para escutar uma mensagem gravada, meu voto eles não merecem. Placa em poste de luz é certeza de voto perdido. Cavaletes, pior ainda. Pagar dez reais para alguém balançar uma bandeira em um semáforo... me perdeu. Distribuiu santinhos na minha casa? Depositou uma árvore na minha caixa de correio em busca do meu voto? Perdeu seu tempo. Aqueles que espalham seus santinhos pelo chão, em dia de eleição, também não tem meu voto. Não voto em alguém que contribui para o entupimento dos bueiros. Sim, eu sei. Muita gente escolhe seu candidato buscando um papelzinho aleatório distribuído no chão. Mas, eu não. E assim sendo, no final, eu não voto em ni...

O Fim do Playcenter

Foi no Playcenter que eu conheci o pânico. Fui andar na montanha russa e creio que esta já seja uma experiência ruim para uma criança de cinco anos. Mas, meu tio imaginou que seria uma boa ideia que eu fosse sentado na primeira fileira. Aquelas tantas descidas me traumatizaram. Fiquei pálido, quase transparente quando voltei ao chão, depois de, sei lá, cinco horas de passeio na Montanha Russa. Não sei quanto tempo dura a volta, mas para mim, naquele dia, foi interminável. Creio que foi um dia inteiro. Depois dessa experiência traumática, as pessoas relatam que eu fiquei assustado até na descida de um outro brinquedo. Levei anos para superar o trauma com a montanha russa, mas, digo que até hoje eu não vejo graça no negócio. Culpa daquele dia? Uma incompatibilidade de signos? Não sei. De qualquer forma, o Playcenter era uma espécie de terra do sonho. Ir a São Paulo significava a possibilidade de ir ao Playcenter. Um ambiente de sonho, magia, aventuras e essas coisas todas que os pu...

Andei Escutando (35)

Beirut – The Flying Club Cup (2007):Em seu segundo disco, Zach Condon parece deixar o leste europeu para abraçar a França. Poderia ser uma ótima trilha sonora para qualquer filme que tem Paris no nome. Melhores: Un Dernier Verre e Nantes . Ben Folds – Song for Silvermen (2005): Um disco mediano. Interessante notar que nos discos solos, Ben Folds é bem mais depressivo do que nas músicas do seu antigo trio. Melhores: Bastard e Time . Eric Clapton – Clapton (2010): Clapton parece estar se especializando em fazer discos agradáveis, com músicas para serem escutadas aleatoriamente, sem nenhum destaque absoluto. Aqui, seu repertório parece mais puxado para números de jazz, ao invés de blues. Melhores: Rockin’ Chair e Judgment Day . Gene Clark – Firebyrd (1984) : Não é um disco ruim. Mas a produção e o repertório dão uma cara bem amadora para o registro final do genial Clark. Melhores: If You Could Read My Mind e Rain Song . Golden Smog – Blood on the Slacks (2007): Com...

A Sombra da Mangueira

De repente, a mangueira não estava mais lá. Ela que sempre esteve por ali, desde os princípios da humanidade. Sua sombra não estava mais lá. E então o sol começou a entrar pela casa em vários lugares no qual não se imaginava que o sol batia. Desde então, sempre que o sol forte me incomoda, tenho a impressão que a culpa está na ausência da mangueira, que deixou de sombrear o planeta.

Os volantes

A seleção espanhola tem. Busquets e Xabi Alonso marcam forte e saem para o jogo. Os meias Xavi, Iniesta e Fabregas já foram considerados volantes um dia. Todos tem grande poder de marcação. A vice-campeã Itália também. O homem mais recuado de seu meio de campo era Pirlo. Um meia que armava o jogo de trás. Marchisio, Montolivo e de Rossi, marcavam por ele. E todos tem qualidade para jogar. Entre os semifinalistas, a Alemanha tem Schweinsteiger e Khedira, que marcam e chegam na frente com eficiência. Já Portugal, também tem João Moutinho e Raul Meireles. As quatro semifinalistas da Eurocopa foram as quatro equipes que jogaram o melhor futebol do torneio, todas chegaram com merecimentos. E tirando Portugal, que teve Cristiano Ronaldo jogando bem, as outras seleções se destacaram pelos meio-campistas. Por jogadores que marcam e atacam com a mesma eficiência. Os sempre abominados volantes são hoje os primeiros armadores de suas equipes. Os bons times se formam com jogadores que roubam...

O Adeus a Banca

Existem algumas coisas na sua vida que você não sabe quando é que começaram. São aspectos tão rotineiros, que você tem a certeza de que sempre esteve fazendo isso. Eu, por exemplo, não sei qual foi a primeira vez em que eu fui à banca do Jardim das Américas. Se tento puxar pela memória e vasculhar minhas lembranças, eu já me vejo lá dentro nas manhãs ou tardes de domingo. Desde que eu me conheço como gente, eu já frequentava esta banca. Simplesmente não me lembro como era a minha vida antes. Sempre ia até lá nos domingos, acompanhando meu pai que ia comprar a Folha de São Paulo e alguma outra revista. Eu aproveitava para levar os gibis da Mônica, ou os álbuns de figurinhas do Campeonato Brasileiro ou Copa do Mundo. Depois, passei a levar as revistas de futebol, de música, curiosidades ou o que seja. Acredito que quase todas as revistas que eu li na minha vida, eu conheci ali. Pode parecer estranho, mas sempre que eu acabava comprando uma revista em outra banca de jornal – quando es...

A Visita

Confesso que sou preconceituoso com essas artistas da nova MPB. Todos esses que surgem com um estilo meio sambinha, com uma letra metida a besta e com um rótulo "quero ser Chico Buarque" preso no pescoço. Por isso, não me interessei por esse tal de Silva. Ainda mais porque não fui com a cara da primeira canção que escutei, uma mistura estranha de sons eletrônicos. Mas, resolvi dar uma chance quando vi um link para o clipe de A Visita . Talvez pelo sobrenome igual. Não me arrependi. Com sua melódia grudenta, A Visita deve ser uma das músicas do ano.

O Dilema de um mediano

Eu sou um cara mediano. Minha altura, 1m75, dizem, é a estatura média do homem brasileiro. Meu nome, Guilherme, está longe de ser incomum, mas não é dos mais frequentes, pelo menos na minha geração. Tanto, que só tive um Guilherme contemporâneo meu e por azar, ou sorte, nunca estudamos juntos. Meus gostos também são medianos. Entre minhas bandas prediletas, tenho algumas que já fizeram, ou ainda fazem grande sucesso, como Beatles, Oasis e Pink Floyd. Mas, nenhuma delas toca nas rádios o tempo inteiro. Minhas bandas preferidas tem um público, muitas vezes grande, mas não são exatamente populares nos dias de hoje. Por outro lado, não conheço dezenas de bandas que só eu e mais quatro pessoas escutamos. A mesma coisa acontece com filmes. Os filmes que gosto ocupam uma faixa entre os filmes cabeças e os filmes banais. Efeito Borboleta, pro exemplo. Alguns podem achar idiota, outros podem achar genial. Mas é um filme que está ali nesta faixa mediana. Pode não ser uma obra de arte iranian...

Trabalho silencioso

Carlinhos Cachoeira optou pelo silêncio. Diante das inúmeras perguntas feitas a ele durante a CPI que leva o seu nome, Cachoeira preferiu dizer que se reservava ao direito de não responder. Uma frase repetida eternamente. Tenho a impressão de que Cachoeira reafirmou o seu silêncio durante um século. Chegou a ser constrangedor. Foi um daqueles momentos de descrédito geral da nação, um momento em que todos passam a acreditar que a CPI não vai dar em nada, que terminará em uma famosa pizza. Igual a tantas outras. Tantas comissões que se reuniram e que ninguém se lembra de nada. Os motivos, as investigações, os resultados. Será que alguma CPI já teve um resultado prático? Parece que o esquecimento vence pelo cansaço. E para o que serve uma CPI? Normalmente, espera-se que os parlamentares investiguem as possíveis infrações de seus pares, que também cumpram a função de fiscalizar o executivo. Quando uma Comissão Parlamentar é criada, cria-se também a expectativa de que os problemas do pa...

Andei Escutando (34)

Beirut – Gulag Orkestar (2006) : Gulag Orkestar é uma reunião de amigos alcoolizados que tocam em uma banda de fanfarra. Um disco lírico, diria que um disco de época. Parece ter sido escrito na Europa de antes da Segunda Guerra Mundial. Melhores: The Canals of Our City e Prenzlauberg . Belle and Sebastian – Dear Catastrophe Waitress (2003): Neste disco, o Belle and Sebastian se aproxima de um pop, digamos, barroco. Por incrível que pareça, eu prefiro o B&S de depois dos dois primeiros discos (os preferidos do público). Melhores: Step Into My Office, Baby e I’m Cuckoo . Ben Folds Five – Whatever and Ever Amen (1997): Um disco bom e nada mais a declarar. Melhores: Brick e Missing the War . Gene Clark – Two Sides to Every Story (1977): O começo do disco, totalmente country, é meio desanimador. Mas depois embala e as melodias épicas de Gene Clark começam a aparecer em uma dúzia de canções sensacionais. Melhores: Sister Moon e Silent Crusade . George Harrison...

Objeto não identificado

Olho para o céu e vejo uma luz estranha. Me lembro de um dia, era maio de 1996. Lembro que era o dia do aniversário de um amigo meu e, neste dia, nós iríamos numa pizzaria. Mas ainda era o final da aula e estávamos jogando bola no colégio, igual a todos os dias. Então, alguém olhou para o céu e apontou um objeto que se movia. Não, não era um avião. Ele se movimentava lá em cima, lá perto das estrelas. Todos paramos o jogo e ficamos andando pelo gramado, acompanhando aquele Objeto Voador não Identificado. Era uma nave extraterrestre com certeza. Ou não, poderia ser apenas um balão meteorológico (essa coisa que só serve para ser confundida com naves alienígenas), um avião, um satélite. Ou, poderia ser apenas a luz de séculos atrás, que só chega até nós agora, dessas coisas da física, difíceis de entender e que transformam o céu em uma espécie de janela do tempo. Pouco importa. Naquele dia, todos sabíamos que eram extraterrestre que nos observavam. Certamente, estávamos em algu...