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Andei Escutando (13)

Donovan – Mellow Yellow (1967): Entre as cítaras sonolentas do disco anterior ( Sunshine Superman ) e o som alegre do posterior ( A gift from a flower to a garden ) esse disco fico no meio do caminho. É um Folk com fortes influências de Jazz. Nenhuma faixa chama muito a atenção e nenhuma é insuportável. Melhores: Mellow Yellow e Bleak City Woman . Flamin’ Groovies – Teenage Head (1971): Um som tosco e enérgico. A qualidade da gravação é bem ruim, talvez para passar espontaneidade. Um blues bem tosco, parece gravado ao vivo. As primeiras 4 faixas são sensacionais, as últimas 5 já são cansativas. Melhores: Yesterday’s Numbers e Have you seen my baby ? Rufus Wainwright (1998): Disco de estréia do cantor, é o que mais tem arranjos de música clássica. É o mais chato também, pelo menos aos meus ouvidos. Melhores: Barcelona e April Fools . Steely Dan – Can’t Buy a Thrill (1972): O Rock progressivo pode ser algo realmente detestável. Sintetizadores, saxofones e teclados usados para o...

O fim do Jornal do Brasil

Sou de uma geração que não conheceu o Jornal do Brasil. Cresci acostumado com a Folha de São Paulo, com o Estadão e com o Globo. Só fui descobrir o jornal na faculdade, nas aulas sobre a história da imprensa e nos livros que li. Até meio surpreendido em constatar a importância histórica do JB. Uma história bonita, do jornal de oposição, considerado o jornal dos comunistas pelos conservadores, como minha avó era. Jornal que lançou tendências, novas idéias, dando espaço para jovens jornalistas que se consagraram. Fico triste pelo fim do JB, e receoso com o destino dos jornais. Transcrevo uma frase do livro "Notícias do Planalto" de Mario Sergio Conti, que ajuda a explicar porque era tão admirado. "Nenhuma mudança do Jornal do Brasil teve tanta influência quanto a maneira como cobriu e fomentou o movimento cultural. Sem o Jornal do Brasil, nem a poesia concreta nem o Cinema Novo teriam o impacto que tiveram".

Cidades que conheci

Um dia escrevo um livro Paraty: Lugar poético, de ruazinhas estreitas de pedras desniveladas. Casas com paredes brancas e portas azuis ou amarelas. Lugar em que dói a batata da perna de tanto desnível. Come-se peixe, passeia-se tranquilamente a beira do mangue. Noites frias e montanhas com florestas. Cachorros em praias sujas. Ruas (todas iguais) que formam um labirinto. Um desafio para o seu senso de direção. Alto Caparaó: Um lugar de nuvens incertas. Elas vão e vem. O céu completamente azul logo vira um céu carregado de nuvens e nada impede que logo ele fique estrelado. E que as nuvens se abaixem, encubram as montanhas. A cidade é uma ladeira, cheia de igrejas. Há mais igrejas que habitantes. O carro de som anuncia a candidato de José dos Santos, o Zezinho e Delvira para vice. É o 12 para mudar, informa o pior jingle político que já escutei. Petrópolis: Eu olho pela janela e vejo a chuva a na cidade em que nasci. E sempre chove. Uma chuva silenciosa de pingos que caem tão lentamen...

Um texto fracassado sobre o Cromo

É normal que você, enquanto jornalista e pessoa que goste de escrever, tenha o sonho de sair escrevendo por aí, sobre qualquer assunto. Tentar perceber o interesse oculto na mais simples possibilidade. Eu já fui assim (às vezes sou) e já pensei em utilizar esse blog como um espaço para fazer isso. Seja por preguiça, falta de qualidade ou o que quer que seja, nunca pus em prática. Uma dessas vezes foi em um dia remoto no fim do ano passado. Fui com meu pai procurar um lugar que cromasse um para-choque de um carro. Esse local ficava próximo ao Atacadão do Tijucal. Um lugar cheio de carrinhos de supermercado na porta (eles eram reformados ali). No fundo da loja é que as coisas eram cromadas. Fiquei por dentro do processo. Um lugar diferente, uma atividade diferente. Parecia perfeito. E então comecei. O cromo é o elemento de número 24 na tabela periódica. Isso significa que ele tem 24 prótons, 24 elétrons e é considerado um metal de transição. A principal utilização do cromo no mundo atual...

Troca de papéis

Estava no semáforo quando um cara se aproximou. Me entregou três papéis de propaganda, não eleitoral, um restaurante (Fornello, acho) - comida italiana, pizzas e similares. Me entregou três papéis, não sei porque. Talvez ele tenha achado que eu tinha o perfil de freqüentador do restaurante - por mais que duvide que ele próprio saiba onde fica. Parei em um próximo semáforo e lá estava outro entregador de papéis. Aproximou-se do meu carro e esticou a mão com um papel. Retribuí entregando-lhe um papel do Fornello. Não, eu não tinha intenção de ter uma fonte de renda alternativa. Ele achou estranho e eu lhe disse "vamos fazer uma troca, só pego o seu papel se você pegar o meu". Feito. Saí com uma promoção de sapatos e mal-esperando a hora de chegar ao próximo semáforo para ver que papéis me aguardavam, que propagandas eu trocaria. Pensei logo no começo de uma revolução, uma troca de folders, tal qual acontece com figurinhas e selos postais. Parte deste texto não aconteceu, mas se...

O dia limite

Nós, que vivemos em Cuiabá, somos acostumados com o calor. Armamos-nos com ar-condicionado e rimos daqueles que se espantam com 36º, como se disséssemos "isso não é nada". Tratamos os 40º com normalidade e colocamos mangas compridas em qualquer dia mais ou menos dublado. Somos acostumados com o sol, enfrentamos o sol pelas ruas em que andamos, usamos óculos escuros. Mas há uma época por ano em que nós, que vivemos em Cuiabá, pensamos em desistir de tudo. Se pudéssemos, correríamos para longe. Essa época começa por agora e tem tempo indeterminado, vai até o dia em que uma chuva resolva cair. Somos enganados, em um primeiro momento pensamos que o céu está nublado, mas não está. É fumaça. Muita fumaça. O sol não consegue aparecer por trás dessa camada cinza. O horizonte fica invisível, por trás da neblina. O cheiro da fuligem logo se agarra nas nossas narinas e até deixamos de o estranhar. A garganta seca e arranhada, os olhos irritados e as notícias de que as queimadas não para...

Santinhos

Um pedaço de papel com foto de político não poderia ser chamado de santinho. Quando era mais novo eu fazia uma coleção de santinhos. Era sempre divertido adulterar os políticos, desenhá-los bigodes, barbas e monocelhas. Poderia ser feito um álbum de figurinhas de santinhos. Colecione os candidatos. E os santinhos também poderiam ir para o museu. Acompanhar a evolução de um político através dos anos. A evolução do photoshop. Ver Carlos Bezerra, com seus cabelos deixando de ser branco e o seu rosto perdendo as rugas, através dos séculos.

Andei Escutando (12)

David Bowie – The Rise and fall of Ziggy Stardust and the spiders from Mars (1972): Por trás do nome gigantesco e de todo o conceito maluco do alienígena que desce no planeta Terra, há um disco com músicas legais, sem se importar com o que elas significam ou o que seja. Bons refrões e em algumas músicas você tem a nítida impressão de que tudo foi friamente pensado para soar exatamente daquela maneira. Melhores: Five Years e Soul Love . Donovan – Sunshine Superman (1966) : Os Beatles introduziram a cítara no universo da música pop em 1965 (Norwegian Wood). A moda pegou pelo jeito. Metade desse disco utiliza o instrumento indiano com uma percussão qualquer. Geralmente é chato, tal qual um disco dos Beatles apenas com as músicas indianas de George Harrison seria de dormir. Melhores: Celeste e Season of the Witch . Mando Diao – Never Seen the Light of the Day (2007): Em alguns momentos o som é tolerável, igual a qualquer outro disco da banda sueca – só que com uma riqueza maior de in...

A bola que veio de algum lugar

Eis que então acontece: apareceu uma bola no quintal. Primeiro fui tomado pelo susto. Não tenho mais nenhuma bola. As que eu tinha foram devoradas pelos cachorros ou pelo tempo. Ressecadas pela chuva e pelo sol, se desfizeram. Envelheceram, tais quais as coisas envelhecem e chegam ao seu fim. Não demorou muito para perceber que esta bola veio de algum outro lugar. Da casa de trás, talvez, mas o muro é alto. Mais provável que tenham sido as crianças da casa da frente, os novos vizinhos que chegaram. Deve ser. Tais crianças jogam bola de dia, de tarde e de noite, no gol do portão. Fico na dúvida. Mas porque não vieram pedir a bola? Ela acabaria sendo devolvida, sem maldade. Penso se deveria tomar a atitude de devolver, não sei. Não tenho certeza se a bola é de lá. A bola acaba ficando e logo é meio devorada pelos cachorros. Lá está uma bola, ainda uma bola, mas parcialmente destruída com sua câmara exposta. Imagino que mesmo se os vizinhos pedissem a bola, não teria coragem de devolver a...

Pelas ruas, de madrugada

Estava voltando para casa, por volta das quatro da manhã. Não parecia ser uma madrugada fria, mas ao chegar em casa descobri que a temperatura estava abaixo dos 18 graus. Dificilmente você vê alguma pessoa na rua. Vê carros, pessoas saindo de bares (o que tende a ser uma combinação perigosa). Por vezes, em horários mais cedo, uma alma solitária em um ponto de ônibus. Um grupo de quatro pessoas juntos, dirigindo-se ao sabe-se lá aonde. Foi então que vi uma garota, às quatro da manhã, caminhando com passos lentos em uma rua pouco movimentada. O que pensa uma pessoa que anda solitária em ruas vazias às quatro horas de uma madrugada fria?

Um texto fracassado sobre Toy Story

No meio do meu bloqueio em escrever no Word, tentei escrever um texto sobre o filme Toy Story 3, que assisti quase 15 dias atrás. No geral eu odeio escrever sobre cinema, não tenho conhecimento teórico para isso. Mas, achei que eu tinha uma boa idéia. Por isso, comecei a escrever o texto assim. "Vivemos numa era de imediatismo. Todos os dias somos bombardeados por uma centena de novas notícias, que logo esquecemos. Uma piada feita hoje, sobre um assunto do dia anterior, já é considerada antiga e ultrapassada. “Old” dizem na internet. As pessoas escutam mais música, vêem mais filmes. Coisas novas, baixadas na internet e logo deletadas. Tudo vem para logo ser esquecido. Em um mundo em que nem as coisas novas são lembradas, imaginem as coisas antigas. Nem tão antigas, mas que com a velocidade do mundo atual parecem ser de antes da descoberta do fogo." Achei o começo bom. Mas depois, fiquei sem ter o gancho que o ligasse com o filme, apesar de imaginá-lo em minha cabeça. Tentaria...

Meu problema com o Word

Faz um tempo já que sofro esse problema. Tenho bloqueio criativo ao abrir o Word. Já não me bastasse ter inspiração só de madrugada. Desde que comecei a escrever no CH3 eu adquiri o hábito de escrever no Word. Mais fácil de editar e de salvar. Eu não corria o risco de fechar a página, sair dela ou qualquer outra coisa. Eram tempos em que o salvamento automático de rascunhos não existia. Me acostumei com isso e tenho mais de 400 páginas de Word de textos do CH3. Mas aqui não. Chego a ter a idéia na minha cabeça, a frase pronta. Mas ao ver aquela folha branca sobre uma superfície cinza... eu travo. Escrevo uma linha, pulo, desisto. Os únicos textos que consigo escrever por lá, são os "Andei Escutando". Acabo tendo que escrever aqui. Com medo de que um erro de digitação ou uma falta de revisão faça com que eu pareça um analfabeto.

Walters

The Village Green Preservation society é o melhor disco dos Kinks, um dos melhores dos anos 60 e da história da música. Um disco nostálgico e bucólico, cheio de lembranças de infância e melodias sensacionais. Estava saindo de casa hoje e escutando no MP6 a faixa Do You Remember Walter? , faixa número 2 desse disco. Trata-se de uma lembrança de Ray Davies, do seu grande amigo de infância Walter. Eles jogavam críquete debaixo da chuva, fumavam cigarros escondidos atrás do portão. Eles diziam que lutariam para serem livres, juntariam seu dinheiro para comprar um barco e navegar pelos mares. Mas não era para ser. Onde estaria Walter? Walter agora é apenas o eco de um mundo que Ray costumava a conhecer. Walter não deve nem se lembrar do nome do amigo e agora deve estar gordo e casado, e sempre vai para a cama por volta das oito e meia. As lembranças dos velhos tempos chateariam Walter. Me pergunto, quantos Walters não tivemos em nossas vidas? Aqueles amigos de infância que desaparecera...

Memórias de Copa do Mundo (7)

As memórias desta Copa do Mundo. O que eu não irei esquecer. Não irei me esquecer do primeiro gol da copa, marcado por Tshabalala. A bola lançada, a velocidade do camisa 8 e toda a expectativa de que a África do Sul conseguiria marcar o seu gol. E então o belo chute, o golaço para concretizar os sonhos. Ele chutou com a força de um país inteiro. Depois veio a frustração com o gol de empate, mas o gol de Tshabalala é inesquecível. As defesas do goleiro Enyeama. Seu duelo particular com Messi e suas três defesas brilhantes. Outros milagres operados contra a Grécia, até a sua falha no gol que decretou a derrota nigeriana. Depois, o seu choro com a falha. Ele não merecia. Também não me esquecerei dos duelos perdidos por Messi. O melhor do mundo tentou várias vezes e quase marcou um golaço por jogo. Quase. Não era para ele ter feito os gols mesmo. A falha bizonha de Robert Green. O tormento de ter assistido Eslovênia e Argélia na manhã seguinte ao dia dos namorados. Não me esquecerei dessa ...