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Postagens

Percepção dos filmes aos longos dos anos

André Barcinski anunciou que o filme "O Quarto do Filho" está em exibição na plataforma Mubi na internet. Assisti esse filme lá pelos idos de 2003 nos canais da HBO, quando estava para fazer 16 anos e foi um tanto quanto traumático. O filme é excelente, mas seu enredo é das coisas mais genuinamente tristes que a mente humana poderia imaginar. Os pais perdem um filho adolescente e toda sensação de tristeza, remorso e culpa é materializada no quarto vazio do rebento. O quarto vazio do filho que morreu. Difícil imaginar algo mais triste. Tão triste que fiquei me sentindo mal por alguns dias. Sempre que em outras oportunidades passava por um canal que reproduzia o filme, mudava rapidamente, para não ter nenhum contato com essa obra tão aterrorizante. Diante do anúncio de Barcinski, respondi que é preciso estar com o psicológico em dia para encarar essa pedrada. E ele respondeu que de fato, agora que ele tem filhos o filme bateu ainda mais pesado. Pensei em mim, então, que tenho u...

Jô Soares

 Houve um tempo, hoje distante, em que a televisão era a nossa principal fonte de informação. E entre todos programas de TV, poucos eram tão relevantes quanto o do Jô Soares. Suas entrevistas repercutiam no dia seguinte no colégio e na faculdade, como nenhuma atração. Ninguém ia perguntar se você viu o Jornal, mas se você viu o Jô. Ficar acordado para assistir seu 11h30 (horário fictício), era quase uma prova de vida adulta. Artistas, intelectuais, anônimos curiosos, cientistas. Aprendi muita coisa vendo o Programa do Jô. Alguns momentos são inesquecíveis, como a entrevista do José Vasconcellos, que vi ao vivo. Sua morte destaca seu aspecto humano e generosidade. Me traz a nostalgia da época em que todos tínhamos referências em comum, de como isso ajudava a vida em sociedade.

Cativando a base

Duas notícias envolvendo o presidente Jair Bolsonaro me chamaram a atenção nesta semana. A primeira diz respeito à sua decisão de não renovar a concessão da Rede Globo. Decisão que do ponto de vista prático terá pouco efeito, porque a revogação teria que ser aprovada pelo Senado Federal, justo o Senado Federal que é mais resistente às ofensivas bolsonaristas, e por isso não deve prosperar. Mas, pouco importa. O que o presidente precisa fazer, nesse momento em que terceirizou a administração pública ao Orçamento Secreto do Centrão, é tentar resgatar a sua imagem de candidato antissistema. Certamente é incrível pensar que um homem que ocupa cargos políticos desde 1990 e que tem três filhos também ocupando cargos políticos consiga se passar como um perseguido pelo sistema, mas é isso que Bolsonaro fez. Contribui para essa ilusão coletiva o seu jeito completamente inadequado e as recriminações que sofre pelo simples fato de ele ser desagradável. "Ele está desafiando o sistema", d...

Três Letras

 AVC. Três letras que significam, antes de qualquer coisa, o popular derrame. Eu conhecia a expressão por que meu avô havia morrido após sofrer um, no ano anterior. Meu outro avô também sofreu um ou dois derrames e não tenho certeza se essa foi a causa da sua morte, mas certamente foi um fator debilitante. Naquele dia, ali no começo dos anos 2000 meu pai me avisou "o careca sofreu um derrame". Careca era dono de um açougue no bairro do CPA. No começo dos anos 90, meu pai tinha uma clínica veterinária na Avenida Brasil, ocupando uma porta de um imóvel, cujas outras duas portas sediavam o açougue do Careca e a farmácia do Gordo. Sim, eram os anos 90, não havia nenhuma preocupação com apelidos ou questões de politicamente correto.  O gordo se chamava Lourival, ou alguma variação, e foi o primeiro que perdemos contato quando sua farmácia saiu dali. Depois meu pai mudou a clínica para outro ponto da avenida, assim como a Casa de Carnes Jr. Tenho na memória a imagem das três portas...

Aquecimento Global

É curioso pensar que um dia essa terra vai acabar. Essa terra que foi de Marechal Rondon, Pascoal Moreira Cabral e Dom Aquino. Desbravada por não sei quantos desbravadores em centenas de ondas migratórias e incontáveis histórias de superação, tudo isso vai acabar. O calor do planeta, o derretimento das calotes polares, tudo vai tornar impossível a vida nessa latitude e longitude. Dois graus a mais podem transformar a Rússia em um enorme pasto agricultável, o paraíso da soja e das commodities, mas essa terra será insalubre. O mar não vai avançar sobre este centro geodésico, mas tal qual o centro do universo, seremos uma bola de fogo inapagável, seremos uma terra de aridez atávica. E então Rondon, os bandeirantes, o povo que veio matar índios, os próprios índios, os garimpos, o gado, a soja, tudo será uma enorme massa extinta, uma lenda perpetuada por poucos sobreviventes foragidos e quem aqui passar vai duvidar que esse lugar um dia teve vida.

Algumas considerações sobre Get Back

Após algumas sessões e alguns fins de semana, terminei de ver Get Back , o documentário revelador de Peter Jackson sobre o processo de gravação do álbum Let it Be . A história é conhecida: após o desastre emocional do White Album , os Beatles retornam para um novo projeto, com uma equipe de filmagem acompanhando todos os passos, na expectativa de lançar um filme, uma série, um programa de TV sobre o processo, que terminaria em um show em algum lugar. Oficialmente o projeto foi um desastre, ratificado pelo filme lançado pelo diretor Michael Linday-Hogg. Tudo o que sabíamos era sobre a presença fantasmagórica de Yoko Ono, a rispidez entre George Harrison e Paul McCartney. Sim, há tudo isso nas sessões, mas o que Get Back traz como novidade é que por trás disso tudo havia uma banda trabalhando. Trabalhando duro. Discutindo acordes, notas, melodias e harmonias, em busca do excepcional padrão de qualidade que a banda sempre teve. O filme pode ser, por vezes, cansativo. Como bom fã, Peter J...

Delpo

Juan Martín Del Potro surgiu como um furacão. Um gigante de 1,98m, La Torre de Tandil. Foi galopando pelas fases iniciais da carreira, até que chocou o mundo derrotando Roger Federer na final do US Open de 2009. O suíço havia ganho as últimas cinco edições do torneio e durante uma sequência de 35 torneios entre 2006 e 2013, essa foi a última vez em que alguém fora do Big Four ganhou um Grand Slam. Foi também das raras vezes, talvez única, em que um mortal ganhou um título derrotando Federer e Nadal no mesmo torneio. O jogo de Del Potro não era dos mais brilhantes, mas era lindo em sua eficiência e potência. Ele se segurava o quanto podia no backhand, para abrir a quadra na direita e poder atacar o forehand na corrida. E seu forehand era um espetáculo. Um força da natureza. Um evento sobrenatural. Era previsível, mas inevitável. O golpe saia com uma força estratosférica, em ângulos perversos e locais inalcançáveis. Tenistas podem ter vários golpes, mas para Del Potro bastava um. Apenas ...

Sorte, azar, Verstappen e Hamilton

O grande problema da decisão tomada por Michael Masi no final do Grande Prêmio de Abu Dhabi foi a jurisprudência. Entende-se que nenhum espetáculo deva terminar com um desfile do Safety Car e o procedimento de liberação dos retardatários foi um tanto quanto confusa, mas o grande pecado é o GP do Azerbaijão. Daquela vez, Max Verstappen estourou um pneu e estampou o muro há seis voltas do fim, jogando fora 26 pontos que pareciam garantidos. O Safety Car entrou na pista, andou por duas ou três voltas e, constatada a impossibilidade de encerrar a corrida com bandeira verde, foi chamada a bandeira vermelha, todos voltaram para o boxe e largaram para duas voltas finais, todos em condições iguais. Dessa vez, Nicholas Latifi bateu despretensiosamente em uma das poucas partes da pista de Yas Marina que não tem área de escape. O Safety Car era óbvio e, a princípio, parecia que não daria tempo de finalizar a corrida com bandeira verde. A jurisprudência deveria balançar uma bandeira vermelha e tod...

Pequenos personagens quase cotidianos

Ela apareceu algum tempo atrás, fazendo malabarismo em um semáforo da Avenida dos Trabalhadores. Roupa preta, meias coloridas até o joelho, o rosto pintado de branco, um chapéu engraçado. Jogava seus malabares de um lado para o outro, deixava-os cair constantemente, se confundia com o tempo e muitas vezes precisava sair correndo antes que os carros avançassem, segurando a calça legging que escorregava. Sempre com um sorriso no rosto, agradecendo as moedas que não chegavam no seu chapéu. Por vezes, parecia que era mais uma artista em treinamento. Já se passaram, não sei, pelo menos dois anos desde que ela apareceu por ali e desde então a situação melhorou. Suas roupas continuam as mesmas, mas ela já domina o tempo e o espaço, não precisa sair correndo nem recolher os objetos caídos pelo chão. Não passo por ali todas as manhãs e mesmo nas manhãs em que eu passo nem sempre ela está lá. Nunca lhe dei dinheiro, porque acho que nunca tenho dinheiro na carteira. Mas sua presença ali, naquele ...

Cemitério de histórias

O Facebook me lembra que há oito anos eu estava em Brasília, trabalhando, ao lado do fotógrafo Lenine Martins de Oliveira. A foto nos mostra parados em frente ao Pátio Shopping Brasil, onde geralmente nos refugiávamos enquanto esperávamos a próxima pauta ou o voo de volta para Cuiabá. Cobrir as pautas do então governador Silval Barbosa em Brasília era um trabalho árduo. Chegávamos no aeroporto com uma previsão de sua agenda, mas muitas delas iam se alterando ao longo do dia e por isso era preciso ficar sempre em contato com o ajudante de ordem do governador, ou com quem fosse possível, para ir atrás dele. Havia um táxi que nos servia enquanto estávamos lá e, muitas vezes, toda agenda da tarde era cancelada e o voo de volta seria apenas 23h. Foi provavelmente em uma dessas situações que posamos para esta foto que hoje me é lembrada. Lenine Martins de Oliveira tinha sobrenome de governador, mas não era parente do Dante. Começou a trabalhar no Governo do Estado em 1972 e só saiu em 2018, ...

O absurdo da existência humana no tanque de um Corolla

 Paro para abastecer o meu carro é há uma pequena fila no posto de gasolina. Após um breve período de espera, chego na bomba, abro o vidro do carro, desligo o motor e destravo o tanque de combustível. Atrás do meu carro passa um frentista comentando com os colegas que "deu 230 reais pra encher o tanque de um Corolla. Nunca vi isso". O preço do combustível é algo do qual, por vezes, não faz bem se informar. É um negócio que você tem que fazer, não tem jeito, então é melhor só ir abastecer e pronto. Mas, não tem como não sentir o aumento dos preços, como por vezes não perguntar se o frentista não esqueceu de desligar a bomba espalhou combustível pelo chão equivocadamente. Voltando ao referido frentista do referido dia, após comentar sobre o preço do tanque do Corolla, ele se sentou em um cadeira, abaixou a máscara e ficou fitando o vazio. Colegas foram perguntar para ele "o que aconteceu japonês?" e ele repetiu "deu 231 pra abastecer um tanque de um Corolla. 50 l...

Carona Siberiana

O relógio marcava 19h e eu ia sair de casa. Abri a porta, fechei, tranquei e me dirigi ao meu carro. Logo que avistei a rua, percebi que um carro estava parado em frente a minha casa, impedindo a minha saída. Era um carro branco, desses sedãs modernos. Estava ligado, com os faróis acessos, vidros abaixados e ninguém no volante. Apenas um cão, um husky siberiano sentado no banco do carona, me encarando. Fiquei olhando para o cachorro e ele olhando para mim. Cheguei a cumprimentá-lo. Minha cabeça tentava processar esta cena de filme, sobre o que um cachorro estava fazendo ali, parado sozinho dentro de um carro ligado em frente a minha casa, olhando para mim. Claro, não foram mais de 10 segundos até que eu percebesse que havia uma mulher conversando com a dona de duas casas abaixo da minha e menos de outros 10 para que ela viesse correndo, pedindo desculpas e avisando que havia parado em frente da casa errada. Ela entrou no carro, apenas engatou a marcha e partiu com o cão no banco do car...

21 medalhas, 21 histórias para eternidade

 1) Precisamos falar sobre o Kelvin. O excluído do rolê que, enquanto ainda estávamos nos familiarizando com o skate nas Olimpíadas, acertou uma manobra sobre um corrimão que garantiu a primeira medalha brasileira em Tóquio. 2) Daniel Cargnin foi a Tóquio para brigar, mais do que para lutar. Sempre parecia estar em desvantagem nas suas lutas, mas de alguma forma ele conseguia se manter em pé e encaixar os golpes que garantiram a manutenção da tradição do judô brasileiro nas Olimpíadas. 3) Há cinco anos, Rayssa Leal era uma criança que viralizou na internet fazendo manobras impressionantes no skate vestida de fadinha. Cinco anos depois, ela continua sendo uma criança, só que com uma medalha olímpica. Com 13 anos, Rayssa magnetizou o público no início da madrugada e se transformou na nossa mais jovem medalhista da história. Nas entrevistas pós-façanha, sua voz não escondia. Ela é apenas uma criança. 4) Fernando Scheffer precisou treinar em um açude para manter a forma durante a pande...

O choro da ginástica

Ginastas tem olhos tristes. Essa é uma maneira poética de falar que, na verdade, elas tem cara de choro. Olhe para uma ginasta prestes a executar sua performance. Os olhos franzidos, o semblante tenso, os lábios cerrados. Se ela pudesse, choraria naquele momento, mas as lágrimas ficarão para depois da apresentação. Tudo é meio triste na ginástica. Aquelas meninas jovens com seus corpos diminutos, com a necessidade de fazer uma força desmedida, mas mantendo uma graça e sorrisos forçados enquanto rodopiam e giram em tablados e obstáculos, uma imagem de juventude perdida. A pressão pelo erro. Poucos esportes convivem com o erro de maneira tão forte como a ginástica. Os erros geram punições em todos os esportes, mas há aqueles em que eles são raros, ou mera consequência da prova - o objetivo do salto com vara é que uma hora ninguém mais consiga acertar um salto. No judô, ou nos esportes coletivos, um erro só será punido se o adversário souber aproveitar. Já em outros, como os saltos orname...