Pular para o conteúdo principal

Cemitério de histórias

O Facebook me lembra que há oito anos eu estava em Brasília, trabalhando, ao lado do fotógrafo Lenine Martins de Oliveira. A foto nos mostra parados em frente ao Pátio Shopping Brasil, onde geralmente nos refugiávamos enquanto esperávamos a próxima pauta ou o voo de volta para Cuiabá.

Cobrir as pautas do então governador Silval Barbosa em Brasília era um trabalho árduo. Chegávamos no aeroporto com uma previsão de sua agenda, mas muitas delas iam se alterando ao longo do dia e por isso era preciso ficar sempre em contato com o ajudante de ordem do governador, ou com quem fosse possível, para ir atrás dele. Havia um táxi que nos servia enquanto estávamos lá e, muitas vezes, toda agenda da tarde era cancelada e o voo de volta seria apenas 23h. Foi provavelmente em uma dessas situações que posamos para esta foto que hoje me é lembrada.

Lenine Martins de Oliveira tinha sobrenome de governador, mas não era parente do Dante. Começou a trabalhar no Governo do Estado em 1972 e só saiu em 2018, aposentado. Saía pela cidade para entregar os boletins informativos com a notícia do Governo. Depois virou fotógrafo e provavelmente fotografou boa parte da história do Mato Grosso. História que ele não fazia ideia de onde poderia estar, porque nunca teve preocupação com seu acervo. Achava que não tinha importância.

Em outubro do ano passado, Lenine foi uma das 500 e tantas mil vítimas da Covid no país. Tinha 64 anos e junto com ele se foi essa história toda.

Eu me lembro que, logo quando entrei no Estado, participei de um evento chamado Rota da Integração, que percorreu os municípios do nordeste do Estado. Uma viagem extremamente cansativa, em que terminei internado em um hospital de Barra do Garças, vítima de uma intoxicação alimentar por maionese (que comi no restaurante Gela Guela de Água Boa. Que ideia a minha).

Lenine foi meu companheiro de carro nessa viagem. E ali no começo do quarto dia, estávamos em uma rua de Alto Boa Vista, em frente ao hotel onde o governador estava. Esperávamos a saída para seguir com a caravana por mais um dia. Encostados no carro, ele começou a se lembrar de suas histórias no Estado.

De quando em 1988 ele veio para essa mesma região, a bordo de um fusca, para inaugurar uma ponte. A viagem era interminável e, ao passar por Ribeirão Cascalheira - que hoje já é uma cidade minúscula, e que na época deveria ser imperceptível - eles pararam em um posto de combustível e no banheiro havia um cartaz dizendo "por favor, não cague no chão".

Ele havia trabalhado com Osmar Cabral, lendário fotógrafo local, vítima de um acidente de avião em 1984 e eternizado como nome de um dos bairros mais populosos de Cuiabá. Mais do que colegas de trabalho, ele e Lenine eram amigos. Um deles foi padrinho do filho do outro.

A morte de Osmar Cabral, como tantas envolvendo acidentes de avião, tem suas lendas sobre a necessidade da presença dele no voo. Segundo Lenine, ele iria em outro avião, mas saiu naquele que decolou primeiro para conseguir chegar a tempo de participar de um evento familiar em Goiânia. O avião decolou de Aripuanã, sofreu uma pane no motor e caiu antes de conseguir voltar.

Lembro dos olhos marejados de Lenine encostado na picape, dizendo que um dia antes havia se despedido do amigo que iria para viagem e no dia seguinte recebia o corpo dele em um saco preto.

Ele pode ter contado essa história outras vezes, mas dessa forma, apenas eu, ele, e a rua de Alto Boa Vista presenciamos.

Penso que assim como ele, cada uma das quase 600 mil vítimas da Covid levam junto tantas histórias, tão particulares. O mundo pós-pandemia será, essencialmente, um mundo com menos coisas para se lembrar.

Comentários

Postagens mais visitadas

O Glorioso Retorno de Relâmpago McQueen

Quando meu filho tinha uns três anos, nós apresentamos para ele a série de filmes Carros, da Pixar, aquela protagonizada pelo Relâmpago McQueen. Era um assunto que ele adorava - carros e corridas - então, meu filho rapidamente ficou aficionado. Assisti os três filmes mais de uma dezena de vezes. Diria que mais de 40 (sim, incluindo a bomba de Carros 2). Cheguei a decorar diversas passagens do filme e, se fosse o caso, me sentiria preparado para fazer aquelas dublagens que viralizaram na época da pandemia. Um dos grandes sucessos dos filmes da Pixar é conseguir falar ao mesmo tempo para crianças e adultos. Esse claramente não é o exemplo de Carros, um filme feito exclusivamente para crianças, que pode ensinar alguns valores sobre humildade e respeito, mas que no fim das contas é pura aventura juvenil. (Ok, o terceiro filme é um pouco mais bonito). Mas, para além disso, as franquias da Pixar muito provavelmente se mantém pela incrível quantidade de produtos licenciados que eles conseguem...

Os Beatles e a Irlanda

As raízes irlandesas estão entre as muitas coisas que uniram John Lennon e Paul McCartney. John era bisneto de irlandeses e McCartney, como o nome não pode esconder, também descendia de imigrantes da ilha vizinha. (Bem, George Harrison também tinha parentes lá, o que diz muito sobre a portuária Liverpool). Os conflitos entre britânicos e irlandeses são conhecidos, apesar de serem difíceis de entender para quem não vive nas ilhas. Diferenças religiosas, sentimentos opostos em relação à monarquia, um longo tópico que eu seria incapaz de resumir em poucas linhas. Um dos ápices desse confronto foi o evento conhecido como “Domingo Sangrento”, ocorrido em 30 de janeiro de 1972 na Irlanda do Norte. Vinte e seis civis, não armados, foram atingidos por soldados britânicos durante um protesto pacífico, sendo que 13 deles morreram. Todos católicos. Este foi o quarto evento denominado Bloody Sunday na história irlandesa. Há um período de quase 30 anos conhecido como “The Troubles”. O Domingo Sangr...

Por onde andará o Walfredo?

No competitivo e violento ambiente da pré-escola, o Walfredo se destacava. Ele era um pequeno torturador psicopata que espalhava o terror entre seus coleguinhas. Walfredo mostrava o pinto para os outros, rolava na grama, ficava gritando, batia nas crianças e tinha um umbigo esquisito. Tenho certeza que essa era a razão para toda a maldade. Olhando agora, em retrospectiva, parece claro que Walfredo era a encarnação do mal, um garoto possuído pelo demônio. Mas, de qualquer forma, acho que não deveria ser legal saber disso aos seis anos, mesmo. Walfredo foi expulso do colégio antes do final daquele fatídico ano de 1993. A gota d'água, acredito eu, foi o dia em que ele aproveitou o momento em que uma das crianças bebia água no bebedouro e empurrou a nuca do garoto, fazendo com que o pobre coitado quase engolisse o bico do bebedouro, batesse os dentes e tudo mais. Terrível. Aquilo ali deve ter feito com que a diretoria percebesse que Walfredo era incapaz de conviver em sociedade. Se...