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Uma lembrança de Tia Iracy

Em 2007, pela primeira vez eu viajei sozinho para Petrópolis, minha cidade natal. Em uma tarde peguei o ônibus e fui visitar minha tia-avó Iracy. Durante o caminho até Cascatinha, pensei que seria uma visita breve, uma vez que as passagens pela sua casa costumavam a ser rápidas. Tia Iracy gostava de ficar sozinha. Me surpreendi então quando deixei a sua casa, quando o dia anoitecia, após uma tarde em que não vi a hora passar. Conversei com Tia Iracy sobre todos os aspectos do mundo, ela lia O Globo inteiro, todos os dias, e os jornais iam se empilhando ao lado da poltrona em que ela passava a maior parte do tempo. Também devorava as revistas de palavras-cruzadas, igualmente empilhadas. Fazia isso para exercitar a cabeça, me disse. Reclamava da política atual e de vários aspectos do mundo moderno, principalmente da mania que nós temos de esconder fios e canos, o que é um problema enorme quando eles precisam passar por manutenção. Reclamava da perna, cada vez pior, mas não da vida co...

A lógica de mercado e a oportunidade política

Ao que tudo indica, a Polícia Federal cometeu alguns equívocos na divulgação dos resultados da Operação Carne Fraca. Não é nenhuma novidade, uma vez que os órgãos fiscalizadores costumam a superdimensionar suas operações e encontram na mídia um ótimo caminho de difundir a informação muitas vezes equivocadas. Parece que houve um grande equívoco na história do papelão, por exemplo. Mas, também parece certo dizer que foram cometidas irregularidades na fiscalização de frigoríficos, exatamente 21. Não sei dizer ao certo o quanto de carne foi produzida nesses estabelecimentos e parece difícil dimensionar o quanto de carne foi adulterada e quantas pessoas foram atingidas por essa fraude. São dois fatos que me parecem consumados e um não invalida o outro. Depois de um breve baque inicial com a denúncia da fraude que envolve 21 frigoríficos e 30 e poucos funcionários do setor de fiscalização da Ministério da Agricultura, o Governo fez uma contraofensiva intensa contra a operação, com o pr...

Mendigando emoções

Depois que a Mercedes estabeleceu o maior domínio da história da Fórmula 1 - nunca ninguém havia ganho tanto em um período de três anos - qualquer coisa que não fosse uma dobradinha prateada no Grande Prêmio da Austrália já deixaria os telespectadores felizes. De fato, isso aconteceu com a vitória estratégica de Sebastian Vettel, que indica que nesse ano poderemos ter alguma disputa pelo título. Mas foi só. A corrida australiana foi uma entendiante abertura de campeonato, igual as que vimos nos últimos três anos - desde 2013 não temos uma corrida de abertura minimamente interessante. Ao que tudo indica, essa temporada de 2017 será uma temporada de ultrapassagens miseráveis e corridas definidas na estratégia. Talvez lembre a temporada 2007, disputa emocionante em corridas chatas. A transmissão foi um horror e parecia feita por um pessoal que nunca tinha trabalhado no assunto - o que foi colocar o Kvyat na disputa pelo segundo lugar, 40 segundos atrás e com uma parada a menos? Além...

Federer, novamente uma experiência religiosa

O falecido escritor norte-americano David Foster Wallace era um aficionado por tênis e provavelmente seu maior texto sobre o assunto foi o ensaio "Federer como experiência religiosa". Escrito em 2006, auge (será?) do suíço enquanto tenista, Wallace faz uma longa contextualização sobre a evolução do jogo, dos estilos de jogo, até chegar em Federer, um desses raros casos de esportistas sobre os quais as leis da física não se aplicam. É notória a sua descrição sobre os momentos Federer, os golpes aplicados pelo suíço que deixam os espectadores impressionados, sobretudo, pela facilidade com a qual ele bateu na bola. No seu auge Federer era exatamente isso, um cara que fazia mágica sem fazer esforço. O ápice deve ter sido aquela final de US Open contra Lleyton Hewitt na qual Federer se sagrou campeão com um sobrenatural 6/0-7/6-6/0. Claro que surgiu Rafael Nadal, incansável, canhoto com um forehand potente e que conseguia sempre levar o jogo ao limite, saindo das questões mera...

Dória, presidente?

Parafraseando Michael Moore, eu gostaria de estar errado, mas tenho a impressão de que João Dória será o próximo presidente do Brasil. Alguns fatores provocam esta minha impressão. Algumas pesquisas recentes demonstram um cenário confuso para a eleição do ano que vem. O perfil desejado pela maior parte da população é o de alguém de fora do establishment político, ou outsider, mas que tenha alguma experiência de gestão. Uma figura que não existe, ou que ainda não existia. Apesar de suas profundas raízes entre o meio político e de ter algum histórico no setor, João Dória passa a imagem de uma pessoa que veio de fora e, exatamente, se elegeu se vendendo como o gestor. Seu um ano e meio a frente da prefeitura de São Paulo podem colaborar ainda mais para reforçar seu perfil. Há também a operação Lava Jato que está dragando praticamente todos os nomes de peso da política nacional, inclusive seus correligionários do PSDB. Geraldo Alckmin parecia ser o último colega da linha de frente do...

Sobre perseverança, desistência e como as coisas simplesmente acontecem

Na última quarta-feira, dia 08 de março de 2017, o Barcelona conseguiu uma das maiores façanhas futebolísticas de todos os tempos ao conseguir vencer o Paris Saint-Germain por 6x1 e reverter a derrota de 4x0 na partida de ida das oitavas de final da Champions League. O que impressionou ainda mais nesta vitória já impressionante, foram os três gols nos oito minutos finais, exterminando a folga no placar que o PSG tinha e a classificação escorreu pelas mãos dos franceses. Claro que é preciso fazer um adendo nessa epopeia para falar da arbitragem, principalmente pelo quinto gol barcelonista, um pênalti inventado desses que chegam a ser constrangedores. Houve ainda outro gol de pênalti, marcação discutível e é justo dizer que se não fosse pela interferência do juiz, o PSG teria se classificado. Mas também é justo dizer que uma equipe que vence uma partida de ida por 4x0, não pode se colocar na dependência da arbitragem para conseguir a classificação. Ninguém pode sofrer seis gols num jog...

Top 8 - Músicas cantadas por mulheres

8 Joni Mitchell - In France They Kiss on Main Street Canção que abre o meu disco favorito da Joni Mithcell, The Hissing of Summer Lawns, de 1975 - muito provavelmente o meu favorito por esta canção de abertura. Uma música sobre andar pelo centro de uma cidade desconhecida, conhecer os seus hábitos. "I said, take me to the dance, do you want to dance? I love to dance".Como resistir a pergunta irresistível feita por Mitchell? 7 Pato Fu - Canção pra você viver mais Fernanda Takai extrai toda a sensibilidade de sua voz nesta música sobre a morte do seu pai. Fora do drama pessoal, a letra tem uma beleza universal, afinal, todo mundo gostaria de fazer uma canção para que alguém vivesse mais, fazer alguma coisa que está ao seu alcance para que algo dure mais. 6 Pretenders - Brass in Pocket Música extremamente sensual de uma mulher que quer de alguma forma mostrar para o seu amante que não há ninguém no mundo que seja igual ela. Não sei quem era este homem, mas espero que ele ...

Dória, o prefeito dos nossos tempos

João Dória foi o grande fenômeno das últimas eleições municipais. Ganhou a prefeitura de São Paulo no primeiro turno, em uma cidade que nunca antes havia ficado em casa em um dia de segundo turno. Empresário com múltiplas atuações, nenhuma delas claramente explicável, Dória ganhou a eleição aproveitando o enorme antipetismo da capital paulista e também o sentimento antipolítico que ganhou força neste Brasil pós-Lava Jato. Nos seus 45 primeiros dias enquanto prefeito da maior cidade brasileira, Dória se notabilizou pela aposta no marketing, em ações de efeito imediato, pelas parcerias com empresas privadas, se envolveu em uma polêmica com grafiteiros e se fantasiou de gari, pedreiro e de tantas outras funções desempenhadas por servidores de uma Secretaria de Serviços Urbanos. A imagem de Dória vestido de gari, em seu primeiro dia de mandato, ao lado de todos os seus secretários municipais, pode parecer extremamente ridícula para mim e para um eleitorado mais a esquerda. No entanto, ...

Aberto Retrô da Austrália

No começo, o Australian Open pareceu um tanto quanto decepcionante. Afinal, o fim do último ano deu a indicar que adentraríamos finalmente na época Murray/Djokovic de rivalidade no tênis e os primeiros dias em Melbourne derrubaram tudo. Um apagado Djokovic foi eliminado por Istomin logo na segunda rodada e até agora não dá pra entender como Murray foi atropelado pelo saque-voleio de Mischa Zverev. Na chave feminina, em menor grau, a situação era parecida. Angelique Kerber a nova número 1 fez um campeonato apagado e foi eliminada sem brilho. Halep, Muguruza, nenhuma das candidatas a novas estrelas do circuito conseguiu ir longe. Apenas a interminável Serena Williams seguia em frente. Demorou um tempo até percebermos que este Australian Open foi uma espécie de janela temporal para o passado. Que era um evento destino a nostalgia dos grandes confrontos. Foi apenas quando Venus Williams, navegando por uma chave relativamente tranquila  se colocou na semifinal que todos percebemo...

Vivendo na Pós-Verdade

Tenho que dizer que estou obcecado com o termo "pós-verdade". Desde que a pós-verdade se popularizou, ao ser escolhida palavra do ano pelo dicionário Oxford, não consigo parar de pensar sobre suas implicações para o mundo atual e para a minha profissão. Colabora para isso que Donald Trump seja o presidente dos Estados Unidos, reforçando toda a força e significância da palavra. Pode parecer em um primeiro momento que seja um daqueles termos empostados que não significam nada, mas tenho cada vez mais tempo que vivemos na era da pós-verdade. "Um adjetivo que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”. Esta seria a pós-verdade. Quando a versão é mais importante do que o fato. Estão aí as redes sociais, o Facebook e o Whatsapp, com as pessoas compartilhando centenas de informações falsas, baseadas na falha crença de "se está na internet, deve ser verda...

Barack Obama: Sentiremos Falta

A partir desta sexta-feira, Donald Trump será o novo presidente dos Estados Unidos. Por trás de toda a loucura que nos espera, de todas as dúvidas sobre o futuro da humanidade e questões afins, minha única certeza é que sentiremos falta de Barack Obama. O primeiro presidente negro norte-americano assumiu seu mandado rodeado por esperança, após os terríveis anos de George W. Bush. É certo dizer que Obama cometeu erros, que não fez coisas que se esperava que ele fizesse, assim como todo e qualquer cidadão que assume um cargo executivo. Mas o principal legado deixado pelo futuro ex-presidente é o bom senso. Quem foi um adolescentes no começo dos anos 2000, como eu, lembra a imagem que os EUA passavam para o mundo. Era um clichê odiar o país que investia em conflitos bélicos na Ásia, com seus presidente com déficit intelectual e sua política internacional agressiva. Chegou a um ponto em que era quase compreensível entender a Al Qaeda. Obama mudou essa imagem e hoje os EUA não são mai...

Bernardinho

Bernardinho era o louco que dirigia a seleção feminina de vôlei. Não era tão louco quanto o cara que dirigia a Rússia, que babava e cuspia, chegava quase a agredir fisicamente as suas jogadoras - coitadas, que tinham sempre uma cara de choro contido. Ninguém duvidava porém das qualidades de Bernardinho naquela seleção feminina. Conquistou duas medalhas de bronze, em Olimpíadas nas quais a equipe masculina havia parado nas quartas-de-final. Fez campanhas brilhantes nas duas competições, tendo apenas um porém: a brilhante geração cubana, tricampeã olímpica, algoz brasileira nas duas semifinais. As derrotas foram em jogos épicos, disputados, derrotas muito doloridas. Não dava pra tirar o mérito, apesar de nossa cultura de destruição dos não vencedores. Mesmo assim, houve alguma polêmica quando Bernardo Rezende foi escolhido como novo treinador da seleção masculina. Ele nunca havia trabalhado com os homens. As meninas queriam que ele continuasse com elas. Treinadores masculinos se sent...

Planos para o ano novo

Sempre que um ano novo se aproxima eu penso comigo: um ano novo uma boa época para começar um plano de longo prazo. Não falo de perder peso, fazer exercício, parar de usar drogas lícitas ou ilícitas, ou esses clichês resolutivos do ano novo. Penso naquelas pessoas que durante um ano tiram uma foto de uma mesma coisa. Uma foto da sua cama, do seu café da manhã, do seu almoço. De uma árvore, sei lá. Ao final do ano será possível comparar as mudanças proporcionadas pelos 365 dias do ano. Não sei porque, esse tipo de projeto sempre me fascinou e toda vez que o fim do ano se aproxima, eu penso que poderia fazer algo assim. Só que o problema é que eu não sei exatamente o quê fazer, não defino um plano uma meta, não há nada que eu não ache extremamente ridículo. Assim sendo, quando vou ver, o dia 1º de janeiro já acabou e eu lembro que gostaria de ter feito isso, mas que agora já é tarde demais, já estou na cama dormindo e terei que esperar o próximo ano, quando provavelmente irei esque...

Em 2016

Em 2016 pela primeira vez eu estive em um bloco de carnaval. Se eu pensar friamente no meu ano, este é certamente o fato mais inesperado. Em 2016 eu paguei a conta de restaurante mais cara da minha vida, mas passei a maior parte do ano comendo no restaurante mais barato que eu conheço. Comi a melhor pizza da minha vida e também a pior. Aprendi a fazer mojitos e molho gorgonzola. Conheci uma cidade que eu não conhecia. Voltei em outras que já conhecia. Subi no Pão de Açúcar depois de 18 anos. Subi no Morro da Igreja e não vi nada. Entrei no mar e perdi minha aliança no fundo dele. Encontrei a maior parte das pessoas com quem eu me importo neste mundo e tomei vinho com quase todas elas. Talvez quisesse as ter encontrado mais. Percebi que muitas vezes a distância geográfica pode aproximar. Passei o ano inteiro ao lado de uma pessoa. Ri muito com ela e tentei animá-la nos momentos de chorar. Discutimos a localização de Sevilha, alugamos um bug e o devolvemos poucas horas depois. ...