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Este pequeno latifúndio, meu mundo

Sua figura é marcante e inesquecível. Impossível não notar aquela senhora com uma barriga tão avantajada que parece uma corcunda invertida em seu uniforme azul. Impossível não pensar que quando ela senta, aquela barriga sólida e compacta seria capaz de segurar um prato, um copo, quem sabe uma bigorna. Impossível não reparar nessa figura mal-humorada que carrega um cigarro numa mão e uma pá e uma vassoura na outra. Cigarro fumado com força, que fica preso apenas nos lábios nos momentos em que ela varre o chão. Nos pés, uma sandália havaiana cor de rosa, com miçangas enfeitando suas alças. Seu trabalho é varrer a calçada da loja da Mitsubishi, retirar as folhas que teimam em cair no chão e se alojar naquela calçada. Cada movimento da vassoura é repleto de raiva. Cada interrupção é motivo para que ela pragueje, contra os carros que manobram na calçada e interrompam seu trabalho. Sua figura inspira medo, o medo de passar na calçada que ela limpa com tanto carinho e que as pessoas sujam...

Novos Walters

Fomos bons amigos pelo tempo em que vivemos juntos. Nossa amizade deve ter durado bem entre a oitava série e o fim do segundo grau, tempo em que convivíamos diariamente, fazíamos trabalhos em dupla e em grupos. Éramos um grupo feliz nas nossas ideias, dúvidas, capacidades e incapacidades. O segundo grau terminou e começamos a nos afastar, como eu sempre me afasto das pessoas com quem não tenho convívio diário. Nunca sei se isso ocorre por minha culpa, por culpa das pessoas, de todos nós, ou se o mundo é que assim. Mas ainda nos encontrávamos com alguma frequência, para jogar bola, sinuca, visitar um amigo doente ou em alguma festa. Compartilhávamos algumas conquistas comuns a nossa idade, como a carteira de motorista. Lembrávamos do que vivemos juntos, as bebidas e as festas que nunca mais são iguais as que fazíamos quando tínhamos 16 anos. Ele foi na minha formatura, eu fui na sua e então não sei mais. O tempo passou e já não saberia dizer quando foi a última vez que eu o vi, ...

O Brasil nas Olimpíadas

Faltando menos de um ano para os jogos olímpicos do Rio de Janeiro, o Comitê Olímpico Brasileiro trabalha com a expectativa de que o Brasil tenha o seu melhor desempenho na história no quadro de medalhas, tanto no número de medalhas de ouro, no número total de medalhas e na posição geral. A expectativa do COB é que o Brasil termine entre os dez primeiros colocados. Uma meta ousada. Se formos ver os quadros de medalhas das últimas Olimpíadas, perceberemos que para chegar lá o Brasil precisará de pelo menos sete ou oito medalhas de ouro (seria um recorde) e mais um punhado de pratas. Os melhores desempenhos do Brasil aconteceram em 1920, com o 15º lugar geral, em 2004 com cinco medalhas de ouro e em 2012 com 17 medalhas no total. Desde os jogos de Moscou, em 1980, o Brasil vem patinando entre a 17ª e a 25ª colocação, exceção feita aos jogos de 2000, quando amargamos um 53º lugar, sem nenhuma medalha de ouro. Para conseguir oito medalhas de ouro, mais de vinte medalhas no total e alca...

Usain Bolt

Usain Bolt é provavelmente o maior atletas de todos os tempos. Atleta eu digo entre aqueles que praticam o atletismo, sem um sentido amplo que englobe os praticantes de qualquer modalidade esportiva. Mas, eu não estaria exagerando se falasse que nunca existiu um esportista como ele. Bolt conseguiu transformar as provas de 100 metros em um acontecimento ainda mais especial. A prova mais rápida do mundo, que define o homem mais rápido do mundo, sempre foi charmosa, o momento máximo do atletismo. Parávamos para ver aquela disputa de dez segundo em que tudo poderia acontecer. Hoje, nós paramos para ver Bolt correr. Para ver Bolt correr durante menos de dez segundo em que sabemos que ele vai vencer, não importa o que aconteça. Pense em quantos esportistas nos motivávamos a ver um jogo apenas por ele. Pelé, Messi, Michael Jordan, Roger Federer, são poucos, que geralmente dominam esportes mais artísticos, que combinam força física, inteligência tática e habilidade extrema. Bolt faz isso e...

Decepções na natação

Sempre gostei das provas de natação. Não sei a razão. Talvez por ter nadado na infância, mas acho que vai além disso. Sempre gostei de acompanhar as provas em Olimpíadas, Pan-Americanos, Mundiais. Acompanho com alguma frequência como estão os tempos, vejo os resultados. Confesso que sou um iludido. Sempre fico na expectativa por um bom resultado brasileiro em alguma competição mundial, mas dificilmente ela vem. Quando vem, geralmente é em alguma prova não olímpica. Ou nos menos importantes jogos pan-americanos, quando os atletas parecem se dedicar mais. Vejo que Felipe França nadou para 59,21 no Pan. Se melhorar um pouco ele pode beliscar uma medalha no Mundial, duas semanas depois. No entanto, ele força demais o ritmo tentando acompanhar o recordista mundial e não aguenta, fica de fora até da final. Vejo o revezamento feminino fazendo um bom tempo no Pan, mas na hora do mundial o tempo é 3 segundos mais alto. Como que você nada em quase 56 segundos, Graciele Herrmann? Ok, ok, qu...

A Northern Soul - o grande disco do Verve

Quando o The Verve estourou nas paradas mundiais com o hit Bittersweet Symphony , em 1997, pouca gente sabia da história da banda até então. Pouca gente conhecia os tumultos em hotel, as brigas, a vida louca que tornava o Verve uma espécie de sobrevivente de sua época. Urban Hymns , o disco que da já citada BSS, continha ainda outros três singles poderosos - Sonnet, The Drugs Don't Work e Lucky Man , além de mais um punhado de belas canções. Não é a toa que fez sucesso e que ainda hoje muita gente acredite que este é o único disco do Verve. Mesmo assim, não é por síndrome de underground que acredito que este não é o melhor disco do The Verve. Urban Hymns é muito mais um disco de Richard Ashcroft, do que um trabalho do grupo. Formado no início da década de 90, ainda como apenas 'Verve', a força do grupo sempre esteve no equilíbrio entre a guitarra cósmica de Nick McCabe e as interpretações fortes e letras profundas de Richard Ashcroft. O grupo lançou três singles, pérola...

O Pan para quem merece

Os jogos Pan Americanos não são uma grande competição mundial. Por mais que por vezes a mídia tente dizer o contrário, o torneio reúne pouquíssimos atletas de nível mundial. Os Estados Unidos enviam poucos grandes atletas, o Canadá caprichou nesta edição por estar disputando em casa, Cuba envia seus principais atletas mas está em um momento decadente. Sobre o Brasil com vários dos seus melhores atletas contra outros países inexpressivos. A imprensa parece que já está aprendendo a colocar o Pan em seu devido lugar, apesar de ainda dar um destaque maior do que o esperado para a competição. Os cartolas não. Comemoram as 40 e tantas medalhas como o símbolo do Brasil Olímpico, por mais que tenhamos apenas meia dúzia de esportes que realizem um bom trabalho, ou pelo menos um trabalho na formação de atletas - poderia ser tema de outro post. Mas, pouco importa o que dizem os cartolas. O Pan vale pelos atletas. Tantos ali que vivem sua vida por isso, sem nenhuma grande remuneração financeir...

Bianchi

Quase uma semana depois ainda é difícil acreditar. Ainda não caiu a ficha que a lista de acidentes fatais da Fórmula 1, inalterada nos últimos 20 anos, ganhou mais um nome: Jules Bianchi. Nos meus 28 anos eu só havia presenciado dois acidentes fatais, em dois dias seguidos de 1994, época em que a Fórmula 1 já completava uma década sem mortes e parecia infalível. Mas tanto Ratzenberger, quanto Senna, morreram poucas horas após o acidente. Já li sobre e já vi vários dos acidentes fatais da Fórmula 1. Difícil não se chocar com Lorenzo Bandini se estatelando em chamas no cais do Mônaco, Gilles Villeneuve voando contra as grades, amarrado em sua cadeira, Roger Williamson queimando até a morte diante da passividade dos fiscais, ou Tom Pryce estraçalhando um fiscal e arrebentando a cabeça em seu extintor de incêndio. Em todos os casos, as mortes na competição são praticamente instantâneas. Bandini demorou dois dias, Ronnie Peterson também, até um fragmento de osso entrar em sua corrente s...

Novas palavras

Ali na avenida do bairro. Surgiu um muro pintado em cores claras, acompanhado de um desenho diferente, um desenho marcante mas que não ficou gravado na minha cabeça. Olhei aquele muro azul, azul da cor da bandeira de Bahamas. Tive a impressão de que era a primeira vez que aquele muro estava pintado daquele jeito, que até então ele sempre foi cinza da cor do cimento. Mas, não tive certeza. Uma esquina depois estava lá a pichação, com uma hashtag que dimensionava o amor diante da culinária. Tive certeza que aquela pichação era nova. Passo por aquele muro todo dia e era impossível que essas palavras já estivessem ali. Comecei a ver os anúncios dos mais variados serviços espalhados em muros, postes e portões pelo caminho e estava convicto que todos surgiram nesse dia. Estávamos no dia 16 de julho, eu completava 28 anos e até o dia anterior o mundo não tinha tantas palavras impressas e expressa por aí. Era um novo mundo.

Os Segredos de uma Geração

Ontem a seleção chilena ganhou o primeiro título de sua história, ao bater a Argentina nos pênaltis, na final da Copa América. Um título que coroa àquela que é apontada por muitos como a maior geração chilena da história. De fato, é difícil discordar. Esse time do Chile não tem uma dupla de ataque antológica, como Marcelo Salas e Ivan Zamorano, mas tem um punhado de bons jogadores, com algum destaque em suas equipes. De fato, uma geração. Acho curioso perceber essa noção de geração no futebol. Existem muitos países que conseguem, repentinamente, encontrar uma geração brilhante. Seria preciso se aprofundar para descobrir as razões. Do time chileno que levantou a Copa América, oito jogadores nasceram entre 1986 e 1989. Mais de um terço dos jogadores nascidos em quatro singelos anos. Mais do que isso, os principais jogadores da seleção. Arturo Vidal, coração da equipe é de 1987, assim como Gary Medel, o leão da defesa. Aléxis Sanchez, principal atacante da equipe é de 88, assim...

Vinte anos de um jogo inesquecível

Sou torcedor do São Paulo, enquanto meu pai torce para o Fluminense. As razões que me levaram a não seguir o time do meu pai já devem ter sido explicadas em algum post perdido por aí, assim como já falei que sempre tive grande simpatia pelo tricolor carioca. É o meu segundo time. Suas vitorias fazem meu pai feliz e consequentemente me fazem feliz também. Em 1995 o Fluminense completaria 10 anos sem conquistar nenhum título e vinha de uma sequência de fracassos no campeonato carioca, que então era bem mais importante do que é hoje. Era o ano do centenário do Flamengo, que repatriou Romário e ameaçava formar o melhor ataque do mundo, junto com Sávio e Edmundo. O Fluminense tinha como seu grande astro o folclórico Renato Gaúcho. Não sei exatamente como é que aquele campeonato transcorreu, já que aqueles eram tempos em que não havia internet e o andamento do campeonato era conhecido por meio das tabelas de classificação publicadas nos jornais e dos gols exibidos no glorioso domingo da ...

Misteriosa Figura

Vejo ele quase todos os dias. No começo achei que era alguém que também esperava para atravessar a rua quando o sinal ficasse vermelho para os carros. Até que reparei que ele não atravessava a rua. Aliás, ele fica numa posição de quem não atravessa a rua, no gramado, ao invés de ficar próximo a faixa de pedestres. Buscando pela memória, tenho dúvidas se ele usa uma pochete ou se é apenas uma barriga protuberante. Ele usa boné e alguma corrente e está sempre lá. Cheguei a imaginar que ele é um desses caras que entregam jornais ou outros panfletos em semáforos. Mas ele não carrega nada. Só sei que ele está sempre lá. O semáforo fecha, ele se aproxima do meio fio, faz que irá gesticular com alguém do outro lado, mas não há ninguém lá. Um agente secreto? Um fugitivo do hospital psiquiátrico que fica a poucos metros dali? Jamais saberei.

Oasis, Coldplay, Foo Fighters, White Stripes e lembranças musicais de dez anos atrás

O ano de 2005 foi um ano diferente para a minha relação com a música e imagino que para a relação de muita gente. Foi nesse ano que os sites de compartilhamento de arquivos começaram a se popularizar. Lembro do lendário Yousendit e principalmente do Rapidshare. Sites que nos livraram do Emule, Kazaa e outros programas similares que nos enchiam de MP3s e vírus, na mesma proporção. Com uma facilidade maior para baixar discos inteiros de uma vez, incorporei um novo hábito: escutar discos em mp3 antes de eles saírem em seus formatos físicos. Isso não chegava a ser uma novidade em 2005, mas ainda era um hábito pouco comum. Pense você que até então nós íamos as lojas para comprar um disco que escutaríamos pela vez. Exatamente por esta época 10 anos atrás, eu tive uma experiência forte com isso. Quatro bandas que eu gostava, ou acompanhava, lançaram discos em um período de quinze dias. Oasis, Coldplay, White Stripes e Foo Fighters lançaram singles, clipes e discos em um período bem próxi...

Lembranças de um ano da Copa

Há um ano atrás eu confessor que fui dormir ansioso. O dia seguinte, 12 de junho, era o Dia dos Namorados, mas era o dia em que começava a Copa do Mundo. Poucas coisas no mundo podem ser mais legais do que uma Copa do Mundo. Menos ainda quando a Copa do Mundo é no seu país e sua cidade será sede dos jogos. É difícil explicar a excitação por assistir Camarões x México em uma tarde de sexta-feira e constatar que foi um jogo muito legal. Acompanhar as notícias sobre os jogos, os jogadores, o extra-campo. A ansiedade com o início da transmissão direto do estádio, os jogadores subindo para o aquecimento. A preparação para a entrada final, os jogadores no túnel. A música da FIFA, a entrada no gramado, os jogadores perfilados e o hino nacional. O hino nacional é um momento sublime da Copa do Mundo e vê-los cantados por seus torcedores é sensacional. As escalações, o apito inicial. Lembranças daquele 12 de junho, o gol contra do Marcelo, o pênalti fajuto sobre o Fred, mostrando que as cois...