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Resgatando Rascunhos: O Cerco da Violência

Alguns textos você não tem ideia do que é que se passou pela sua cabeça quando você escreveu. Em outros, você sabe exatamente. Esse aqui deveria ser uma coluna para o Centro Burnier de alguma coisa. Escrevi depois que, após algumas mudanças no bairro, a sensação de insegurança aumentou consideravelmente e um assalto passou a parecer uma questão de tempo. É até um bom texto, acho que não soube encerrá-lo. Mas, provavelmente, ele só ficou adormecido até hoje, desde o dia 16 de maio de 2013, porque eu me esqueci completamente de sua existência. Foi em algum dia do ano de 2001 que a vida do meu bairro mudou. O vizinho da casa de trás foi assaltado, rendido enquanto entrava em casa, trancado no banheiro e os assaltantes fugiram levando tudo o que coube no carro. A partir daí, acelerou-se os processos de precaução que já estavam sendo tomados. Se antes o portão só era trancado na hora de dormir, passou-se a trancá-lo o tempo todo, o carro sempre dentro de casa. Alguns meses depois, o viz...

Weezer, Foo Fighters e Pink Floyd

Três bandas que estão entre as minhas favoritas - ou pelo menos entre as que eu mais escutei na minha vida, lançaram discos nesses últimos meses. Discos de qualidade diferente, com expectativas diferentes. O Weezer lançou Everything Will Be Alright In The End , nono disco da carreira. Um disco que recebi com pouca expectativa, porque não dá para ter muita expectativa com o Weezer do novo século. Ainda mais depois do péssimo Hurley e de uns flertes bizarros com o rap. Pois, Everything surpreende positivamente. Não há um hit como Porks and Beans e é claro que não é a mesma coisa dos dois primeiros discos. Mas, EWBAITE consegue se colocar ali no meio da tabela do Weezer, competindo com o disco verde e com Make Believe. Composições fáceis, guitarras pesadas e um outro momento marcante. Música no piloto automático, mas agradável. O Foo Fighters reaparece com Sonic Highways, seu oitavo disco. Depois do excepcional Wasting Light, o disco que fez com que o FF voltasse a valer a pena,...

Sino Errado

Nas manhãs em que eu vou à academia, quase sempre passo pela escola da esquina no horário em que o sino está tocando, o sino que anuncia que a aula vai começar. Sempre saio de casa mais ou menos no mesmo horário, sempre passo mais ou menos por lá nessa hora. Hoje não foi diferente. Escutei aquele barulho familiar, mas, havia alguma coisa diferente. Ao contrário de outras oportunidades, em que a calçada estava cheia de alunos, assim como o pátio do colégio, hoje não havia ninguém por lá. Em um primeiro momento achei estranho, mas logo percebi que estamos no dia 17 de dezembro. Se estamos no dia 17 de dezembro, muito provavelmente estamos já no período das férias escolares. Por isso, não havia estudante nenhum no pátio do colégio, apenas um vigia de braços cruzados e aspecto enfadonho. Não faz o menor sentido que o sino do colégio toque em um dia em que não há sala de aula. Imaginei que isso acontece porquê o sinal deve ser pré-programado e que ninguém lembrou, ou ninguém sabe como f...

Uma ode para Definitely Maybe

Oasis é aquela típica banda cuja apreciação só foi liberada após algum tempo. Logo ali, no auge do sucesso da banda, gostar de Oasis poderia soar como uma crime. Seja pela arrogância dos irmãos Gallagher (tão famosos como polêmicos), polêmicas relacionadas a plágios e principalmente, um sucesso enorme que atingiu várias camadas de público. Wonderwall tocou em novela e pode ser reconhecível até por fãs de Vítor e Léo, um crime. Após dois discos muito bons, a banda entrou numa espiral descendente, lançou discos medíocres enquanto a voz de Liam Gallagher se deteriorava, os shows ficavam cada vez mais frios e os críticos podiam rir da desgraça alheia. Foi só após o lançamento do ótimo Dig Out Your Soul , seguido pelo fim da banda, que o Oasis foi absolvido. Noel Gallagher lançou um bom disco solo e as pessoas puderam admitir sua genialidade. Vinte anos após seu lançamento, podemos ouvir Definitely Maybe sem culpa e escutar como é um disco excepcional. Uma das melhores estreias de ...

500 dias depois: Simulado contra desastres

(Talvez inspirada pela última crônica do Antônio Prata, começo essa nova série: "500 dias depois". Textos que mostram uma visão diferente sobre fatos que presenciei, mas que minha situação profissional me impedem de publicá-los imediatamente. Resolvi escrever esses textos e submetê-los a uma quarentena de 500 dias, até que eles vejam a luz do dia). A previsão era de que o Simulado contra desastres iria começar às 8h em ponto. Quando cheguei até o local, pontualmente atrasado em dois minutos, esperei que já veria pessoas correndo de um lado para o outro, fugindo da enchente imaginária que iria se abater sobre a Cohab São Gonçalo. Engano meu. Meus dois minutos atrasados foram suficientes para encontrar algumas pessoas sentadas sob uma tenda e alguns militares montando outras barracas. O pessoal da Defesa Civil chegou cinco minutos mais tarde. Sob um sol escaldante, começaram a organizar a tragédia. Já havia alguns representantes da imprensa no local, todos chegando por volt...

Bernie Ecclestone e o seu umbigo

Não há como negar que a Fórmula 1 passa por uma crise. Crise de público, de audiência, crise financeira de equipes que cada vez mais sofrem para conseguir se manter disputando a temporada. O único que tenta negar isso é Bernie Ecclestone, o todo poderoso da categoria. Em entrevista recente para a imprensa alemã, Ecclestone disse que não via sentido em investir em jovens, porque os produtos que ele vende são para os mais velhos. Disse que não liga para as redes sociais, que a Fórmula 1 não precisa delas, assim como não precisa das equipes pequenas. Não há como negar que Bernie é o responsável por transformar a categoria na fábrica de dinheiro que ela é. Aliás, acho que inclusive, ele próprio é quem mais ganhou dinheiro nessa história. Só que sua visão não acompanha as mudanças do mundo e vai acabar por afundar a F1. Ao não investir na formação de um público novo, a tendência é a audiência só diminua, até o dia em que ela desaparecerá. E para trabalhar com esse novo público, é prec...

A revolta dos cupins

Há um dia que se repete todo ano em Cuiabá. Talvez se repita em outra cidade de Mato Grosso, do Brasil, ou do mundo. Talvez no mundo inteiro exista esse dia. Não exatamente no mesmo dia cronológico, mas nos acontecimentos que acontecem ele. O dia é assim: amanhece nublado, depois de um longo período de calor. As nuvens cinzas e escuras se instalam sobre a cidade e logo começam a cair. Cai uma chuva de intensidade diferente ao longo do dia, deve ser assim que funciona em Londres. E então surgem os cupins. Eles começam a voar desvairadamente e desrespeitosamente pelo céu da cidade, batendo na cara das pessoas, nos carros, se afogando em poças d'água, piscinas e lagos. Você olhará pelo chão e verá uma pilha de asas de cupins que foram por aí. Todo ano esse dia acontece uma vez. Não sei quando. Tenho impressão de que às vezes é no fim do ano, mas talvez já tenha acontecido no começo, ou no meio. O fato é que sempre acontece. Todo ano acontece um ataque de cupins.

Uma certa decepção com o Silva

A primeira vez que eu ouvi falar em Silva, foi em meados de 2012, quando fui assistir um show dos Los Hermanos em Brasília. Alguém cantarolou um trecho de uma música e eu não dei a mínima, esses cantores com um nome só - como Cícero - me dão a impressão de fazer aquele sambinha indie indecente, ou um pop cafona com ares grandiloquentes. Um tempo depois, ele apareceu ao público com o clipe da música A Visita . E que grande música. Um pop perfeito, o violino no melhor estilo Stéphane Grappelli, a batida gostosa e uma letra interessante. O clipe bem feito completava o jogo. Baixei o seu EP e não há como negar que foi estranho. Não havia nenhuma música como A Visita naquelas cinco músicas. Era um disco, em boa parte, eletrônico. Mesmo susto quando ele lançou Claridão , seu primeiro disco. As batidas eletrônicas, sua voz que não chega a ser brilhante, letras no meio termo entre o inteligente e o pueril. Mas nada como A Visita . A culpa não chega a ser dele, é claro. Em suas entre...

Conspiração do destino

Em 2012, pela primeira vez saí de férias com minha namorada. Me debrucei sobre opções, pesquiseis hotéis e passagens e enfim definimos tudo. Compramos as passagens com uns dois meses de antecedência, como manda o figurino, para conseguir preços melhores. Logo depois, quando tudo estava certo, Ben Kweller anunciou dois shows no Brasil. Seus dois primeiros shows no Brasil. Ben Kweller é um dos meus artistas favoritos e é praticamente desconhecido por aqui. Veio bancado pelos seus fãs e tocou no Rio de Janeiro e em São Paulo. Eu estava no Rio de Janeiro no dia em que ele tocou em São Paulo. E estava em São Paulo no dia em que ele tocou no Rio de Janeiro. No ano seguinte, novas férias, novas frustrações com shows não marcados. O Planeta Terra confirmou que teria seu melhor line-up da história, com Blur, Travis e Beck, um pouco depois que as passagens estavam compradas. Estávamos escutando muito o Apanhador Só, mas ele tocou em São Paulo uma semana depois de estarmos lá. Descobrimos o...

Meu voto nulo

Ainda consigo me lembrar de todos os meus votos. Isso não significa lá muita coisa, já que o meu histórico eleitoral é recente, ainda não completou dez anos. Nesse tempo, minha relação com o voto e com os candidatos já mudou muito. Já fui mais adepto ao voto nulo, depois passei a tentar encontrar opções. Hoje, quando não vejo opções, digo que sofro um pouco por anular. Penso se não seria o caso de optar por uma política de redução de danos, mas ainda tento ter como lema que, se nenhum candidato me representa, nenhum deles merece meu voto. Comecei minha vida eleitoral anulando um voto. Foi naquele referendo sobre o desarmamento, quando eu tinha 18 anos e achei que era tudo uma palhaçada, uma tentativa de passar para a população uma decisão que já estava tomada e que, na prática, não ia alterar em nada a vida do cidadão normal. Nas eleições de 2006, minhas primeiras eleições de fato, meu único voto nulo é aquele do qual ainda me orgulho. Para deputado estadual, votei em Luis Soares...

Centímetros e segundos

Nessa vida nós controlamos muita coisa, mas tenho certeza que não podemos calcular os centímetros e os segundos. Menos controle ainda temos sobre os milímetros e os milésimos. Aquele segundo em que achávamos que conseguiríamos pegar um objeto, que dava para atravessar a rua, a bola que bate no aro, que um segundo a mais ou amenos, por uns centímetros a mais ou a menos, tudo teria terminado bem. O acidente de Jules Bianchi no último Grande Prêmio do Japão foi um acidente de centímetros e segundos. A única imagem amadora do evento, mostra que o trator que estava retirando o carro de Adrian Sutil estava voltando para trás, quando repentinamente o carro de Bianchi surge rasgando tudo e se estraçalhando. Por poucos segundos, o caminhão estaria mais a frente e Bianchi se estatelaria contra o muro, ou contra a proteção de pneus sem maiores consequência. Por poucos centímetros, ele não bateu de traseira e saiu ileso do choque. Mas nos segundos e centímetros exatos, ele passou por debaixo...

Sobre as eleições

As manifestações de junho do ano passado continuam sendo um fenômeno difícil de entender. Não existiu um objetivo comum, sequer um objetivo claro, mas o fato é que elas demonstraram insatisfações. A repercussão mudou bastante a avaliação pública sobre o cenário político até então. Dilma navegava em mares tranquilos para a reeleição e tinha um governo bem avaliado pelo povo. Sua aprovação era de 65% em março de 2013 e caiu para 30% no final de junho. Prova também de como nem sempre as pessoas sabem avaliar se o governo é bom ou ruim é o porquê. Outros governadores também sofreram com quedas drásticas de avaliação, sendo Sérgio Cabral no Rio de Janeiro o maior exemplo. Toda essa movimentação gerou uma expectativa para o resultado das eleições agora em 2014. A avaliação é de que poderíamos ter mudanças drásticas no Congresso Nacional (um dos maiores alvos do protesto) e nos executivos estaduais. Passada as eleições e com o povo escolhendo algumas velhas figurinhas carimbadas, a impres...

Resgatando Rascunhos: Sobre as fotos

O Blogger é uma ferramenta que permite que você salve rascunhos de textos que pretende postar algum dia. Algo que é bem interessante, já que em modelos antigos você corria o risco de ver sua sessão expirando a internet caindo e o texto se esvaindo pelo ralo da nuvem. Mas, no caso desse blog aqui, o rascunho não serve para muita coisa. Geralmente posto textos mais espontâneos por aqui e se alguma coisa vai para o rascunho, para ser escrita depois, adeus. Ficara para sempre no limbo da rede mundial de computadores. É o caso desse texto abaixo, rascunho desde março de 2013. Sabe-se lá o que eu pensei na época, devia estar melancólico, vendo fotos antigas. Fotos antigas são sempre melancólicas. Ia filosofar mas devia estar com preguiça e a filosofia foi embora. Um pouco baseado naquele texto do CH3 que eu já fiz, certa vez. Só que aqui, o foco estará no fato de que as fotos digitais não tem a magia das fotos em papel. As fotos em papel capturavam um momento, uma espécie de cerimônia...

Um corpo no asfalto

O congestionamento e as pessoas na calçada indicavam um acidente. Um carro com o para-brisa todo trincado mostrava que havia sido um atropelamento. O camburão do IML mostrava que o acidente havia sido fatal. Muitas vezes nós não temos noção da violência e da brutalidade de um atropelamento. Um impacto capaz de mutilar as vítimas, despedaçar ossos, numa morte horrível e dolorosa. Vi o cadáver, estirado no asfalto escaldante, rígidos e acidentados em frente ao Sesi Papa. Depois vi nos sites que a vítima se chamava Augusto Peixoto dos Santos e tinha 97 anos. Morava na região e costumava a caminhar por ali. Tentou atravessar a rua e foi atingido pelo carro. Viver 97 anos e morrer atropelado. O destino é cruel.