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20 anos sem Collor

O impeachment de Fernando Collor em 1992 é dessas lembranças que ficam claras na mente. Lembro de ter cinco anos e estar na casa da minha avó assistindo a votação dos deputados pela sua saída. Me lembro bem da vibração quando alguém votava sim e da reação negativa de quando alguém dizia ser contrário. Cada um que subia na tribuna para falar "não" ganhava automaticamente um carimbo de "corrupto na testa". Mas do que o dia em si, eu me lembro do período que antecedeu sua queda. Lembro daquele clamor popular pela sua saída, das pessoas de preto nas ruas e lembro da minha família, torcendo para que ele caísse. E não tenho dúvida, o clamor pela sua queda foi motivado pelo dia em que ele confiscou as poupanças, o que complicou a vida de muita gente. Por vezes, surge algum defensor de Collor que o classifica como um injustiçado, que nada jamais ficou provado contra ele e que ele foi derrubado pela mídia. De fato, a imprensa contribuiu para sua queda, da mesma forma ...

A Falta de Amor em Revolver

Os Beatles falavam apenas de amor. Romances bobos, declarações juvenis, histórias de amor. Tudo era amor. Mesmo nas melhores melodias. Yesterday era sobre amor. Mesmo nas melhores letras. Norwegian Wood era sobre um caso extra-conjugal, mas amor de alguma forma. Mesmo em temas mais amplos. In My life era sobre memórias, mas era sobre amor. The Word era sobre o amor universal, mas amor. Desta forma, não deixa de ser surpreendente que e1966 o amor convencional desaparecesse da vida dos Beatles. Algo que já havia aparecido no single Paperback Writter/Rain , vejamos, uma música de Paul sobre um novelista e outra de John, contemplando as maravilhas psicodélicas da chuva. E eis então, que Revolver começa com uma música irônica de protesto contra o pagamento de impostos, Taxma n. Impostos? Como um tema tão difícil é transformado em uma canção pop de três segundos, em que o Taxman se dispõe a taxar as ruas de quem dirige e os assentos, se você quiser sentar.  Na sequência ...

O Sino da Escola

Estava no trânsito, esperando uma brecha para acessar a Fernando Correa. Estava parado ao lado da escola da esquina, dentro do carro, distraído. Escutei aquele barulho, parecia uma sirene. Olhei pelo retrovisor, para os lados, em busca de uma ambulância, na expectativa de desobstruir o caminho. Notei que ninguém sequer desviou o olhar. Era apenas o sino da escola. Por algum motivo, o sino da escola é algo que ficou apagado da minha memória. Talvez sejam os anos da faculdade, de entrada livre em qualquer horário. Talvez seja apenas o acúmulo dos anos, quase oito anos longe de uma escola. Mas aquele sino soou como se eu nunca tivesse escutado algo parecido. Mas, sempre escutava. Mesmo que alguma vez já tenha perdido uma entrada, por estar longe e distraído. O sino fazia parte da rotina escolar. O sino que marcava o começo do dia, o sino do breve intervalo. O libertador sino da última aula da sexta-feira. Bons tempos. Ou não.

Andei Escutando (37)

Ben Folds – Way to Normal (2008) : Tenho a impressão de que aqui o Ben Folds tenta sair da melancolia da sua carreira solo para tentar voltar a fazer algo bem humorado, como na época do seu trio. O resultado é mais ou menos. Melhores : Cologne e Errant Dog Chico Buarque – Sinal Fechado (1974): Tenho certeza que Chico Buarque gravou este disco inteiro de covers só para colocar Acorda Amor , uma de suas mais cruas críticas a ditadura militar, no meio, dificultando a percepção da censura. Melhores: Acorda Amor e Festa Imodesta . Girls – Album (2009) : Veja só, o que é a natureza. Se fosse por esse primeiro disco do Girls, eu nunca mais procuraria nada da banda. Disco bem medíocre, com poucos momentos aproveitáveis. Melhores: Laura e Ghost Mouth . My Bloody Valentine – Loveless (1991): O My Bloody Valentine é uma das maiores farsas da humanidade. Anos e anos em que as pessoas falam sobre o grupo, sobre o shoegaze e tudo mais. Não dá pra negar que umas três canções são sen...

Zanardi

Difícil falar isso, mas Alessandro Zanardi virou um personagem muito mais interessante depois que ele perdeu as pernas. Antes do terrível acidente que lhe vitimou as duas pernas, em setembro de 2011 na Alemanha, Zanardi era um piloto com uma passagem de sucesso na Formula Indy. Campeão duas vezes, resultados expressivos. Mas, o que pegava era seu desempenho na Fórmula 1, a categoria máxima do automobilismo. Uma passagem discreta no começo dos anos 90, quando era uma promessa, mas, correndo por equipes medíocres conseguiu apenas um ponto. Foi para os Estados Unidos e conseguiu dois títulos, 15 vitórias e a oportunidade de voltar para a Fórmula 1, ganhou uma chance na Williams. A Williams não era mais a potência de um pouco antes, mas tinha um carro competitivo. A grande dúvida, era se Zanardi repetiria o sucesso de Jacques Villeneuve, campeão nos Estados Unidos e na Fórmula 1, ou se repetiria o fracasso de Michael Andretti, também campeão nos Estados Unidos mas de pontos minguados...

Guiding Light

As paraolimpíadas são sensacionais, é claro. Os jogos paraolímpicos mostram dia-a-dia exemplos de superação incríveis. O que você faria se não tivesse um braço, uma perna, a visão? Esses atletas poderiam ter escolhido ficar em casa reclamando da vida, mas foram a luta. As paraolimpíadas são para quem tem coragem. Destacar os nadadores, corredores, saltadores, jogadores, é óbvio, apesar de merecido, é claro. Mas se há alguém que sempre me chamou a atenção nessas competições, esse alguém é o guia dos cegos. Correr 100 metros em 12 segundos, 11 segundos é sensacional para um cego. Mas é sensacional para qualquer ser humano. Quantas pessoas no mundo conseguem correr 100 metros em 12 segundos? O guia é um atleta em potencial. Alguém que, talvez, se tivesse um treinamento adequado, poderia brilhar em uma Olimpíada. Mas não. Porque razões? Como ele chegou até essa situação? Ser um ótimo atleta que é um coadjuvante eficaz. Faz coisas sensacionais, mas não recebe nenhum reconhecimento, me...

Félix +

Alguns personagens nascem para ser marginalizados pela história. Os Beatles fizeram sucesso APESAR do Ringo Starr e não com ele. Da mesma forma, muito se diz que a seleção brasileira de 1970 ganhou a Copa do Mundo apesar do goleiro Félix e não por causa dele. Uma injustiça que a vida comete com aqueles que eram bons, mas que não eram brilhantes, bons e cercados pelos ótimos. A seleção brasileira de 1970 ganhou todos os seus jogos e o seu ataque marcou impressionantes 19 gols nos seis jogos. É claro que a seleção entrou para a história por conta do seu ataque, de Pelé, Tostão, Jairzinho e Rivellino. Por conta de Gérson, Carlos Alberto, Clodoaldo, Piazza. Félix podia não ser genial, mas teve sua contribuição. A seleção teria ganho com um poste no seu lugar? Provável que não. Ao longo daquela competição, o Brasil sofreu 7 gols nos 6 jogos. Pode não ser um desempenho excepcional, mas era expressivo para a época. A vice-campeã Itália sofreu 8. Os alemães, terceiros colocados, sofreram 1...

Andei Escutando (36)

Beirut – The Rip Tide (2011): O último disco de Beirut é, por assim dizer, mais convencional. The Rip Tide tem instrumentos mais convencionais, piano, violão. O grupo soa como uma boa banda que sabe utilizar bem os metais, mas não tem o charme épico dos dois primeiros trabalhos. Melhores: East Harlen e Port of Call. Ben Folds Five (1995) : Com um clima de festa esvaziada, esse deve ser o melhor disco do Ben Folds. Bem descontraído, bem humorado. Melhores: Underground e Philosophy . Bob Dylan – Empire Burlesque (1985): Sim, é difícil imaginar que qualquer um fosse capaz de lançar um disco bom em 1985. Mas, os anos 80 foram cruéis até demais com Dylan. Ele se mostra perdido entre tentar ser o mesmo de sempre e a tentativa de abraçar uma nova época. O instrumental é simplesmente pavoroso. Melhores: I’ll Remember You e Emotionally Yours . Girls – Father, Son, Holy Ghost (2011): Esse disco já transforma o Girls em minha nova banda favorita. Rock alternativo com melodias e...

O Brasil Olímpico

Qualquer análise sobre a participação brasileira em Londres, tende a apontar o desempenho nacional como um fiasco. Concordo em termos, mas geralmente, não pelos motivos citados. O principal aponta para o Quadro de Medalhas. O Brasil ficou atrás de países com economias menores, e até qualidade de vida menor, como Irã, Cazaquistão, Cuba, Jamaica. Isso não significa muita coisa. O Brasil também ficou a frente do Canadá, Noruega, Suécia, Suíça, Dinamarca, países mais ricos. Nesse caso o que precisa ser visto é se o país tem o ganho de medalhas olímpicas como uma prioridade. Acredito que este não seja o caso da Noruega ou do Canadá. São países ricos, com altos índices de desenvolvimento, não devem ter um ouro olímpico como sonho de consumo. O Brasil tem. O Ministério do Esporte, as Confederações investem cada vez mais nos atletas de alto desempenho. E a partir daí que a análise precisa ser feita. Mesmo assim, ficar atrás do Cazaquistão, ou da Jamaica, não é um motivo de vergonha. Toda...

Seis Match Points, Oito anos depois

Todas as vitórias são importantes. Mas, algumas são mais marcantes do que as outras. Algumas vitórias ganham significados maiores. É o caso da vitória da seleção feminina de vôlei contra a Rússia, na última terça-feira. Esse time ganhou a medalha de ouro nas Olimpíadas de Pequim, em 2008, perdendo apenas um set ao longo da competição. Mas, nem por isso ganhou o coração dos torcedores. A vitória na China foi um passeio, mas sempre há a dúvida sobre sua capacidade nos momentos decisivos. Quando a pressão aumenta, as meninas entregam. Essa sempre foi a avaliação. Uma espécie de maldição/desconfiança que tem um começo claro. Os seis match points desperdiçados na semifinal olímpica contra a Rússia em 2004. O time fazia uma grande campanha, ganhou os dois primeiros sets contra as russas, perderam o terceiro e chegaram ao cabalístico placar de 24x19 para fechar o placar. Uma vitória tranquila que se transformou em drama à medida em que as chances foram desperdiçadas miseravelmente possibi...

O cavalo Big Star

Os olhos bateram e viram, o cavalo que liderava a prova do hipismo se chamava Big Star. Estrela Grande é um nome bom para um cavalo, um nome normal acho. Não acho provável que o cavaleiro fosse um fã da banda de Alex Chilton e Chris Bell. Pouco me importava. Para mim, o legado da maior banda que nunca foi grande estava ali representado. Para mim, era a chance do Big Star finalmente ser reconhecido, ficar para a história. Mesmo que fosse através de uma medalha olímpica. Estava eu então, torcendo pelo cavalo Big Star e seu cavaleiro britânico, cujo nome pouco importava. Big Star ajudou o time britânico a conquistar a medalha de ouro na prova por equipes. Bom, mas eu queria o brilho individual. E Big Star foi ótimo. Pulou todos os obstáculos na primeira eliminatória, repetiu o desempenho na segunda. Na terceira, idem. No tira-teima contra os holandeses pelo ouro coletivo, mais uma vez Big Star passou zerado. Chegou ao último dia como líder, apesar da armadilha de a pontuação ser ze...

O Ouro de Zanetti

Quando Artur Zanetti foi impulsionado para alcançar as argolas, respirou e começou a sua série, ele só pensava no que teria que fazer. Pode ter pensado na sua vida, no seu esforço pessoal, em tudo o que ele fez na vida. Mas, ele estava concentrado apenas no que teria que fazer. Zanetti era o atual vice-campeão mundial da prova, mas as pessoas não sabiam disso. Ele brigava por uma medalha, mas a grande maioria das pessoas nem imaginava. Zanetti não tinha sobre ele a pressão que colocaram sobre os irmãos Hypólitho, Daiane dos Santos e tantos os outros. Quando Zanetti segurou nas argolas, a televisão não estava na sua casa, mostrando os familiares com camisetas com sua foto estampada. Ele não era a esperança do Brasil, a medalha desejada, a medalha certa. Era apenas ele, ele e o seu trabalho. Como não tinha a possibilidade do fracasso, foi tranquilo para o ouro. Agora, pobre Zanetti. Se antes não tinha apoio algum, treinando em aparelhos feitos pelo pai, irá virar uma estrela. Ao ch...

Bolt, o raio

O ano era 1996 e o canadense Donovan Bailey venceu a prova dos 100 metros do atletismo, com o tempo de 9s84. Novo recorde mundial, marca impressionante que ficou em minha cabeça. Correr abaixo dos 9s9, era para os bons. Abaixo dos 9s8 era dos gênios. Ontem, em Londres, cinco atletas correram abaixo dos 9.9. Quatro superaram a marca de Donovan Bailey, três abaixo dos 9.8. Mas, apenas um ficou abaixo de 9.7. 9.63 foi o tempo de Usain Bolt. Ele não cruzou a linha batendo no peito como fez ao quebrar o recorde mundial em 2008. Não fez os 9.58 de 2009. Mas dominou seus adversários. Na prova mais veloz da história, ele foi o melhor, não deixou dúvidas. Ver Bolt correndo é um privilégio para todos. Menos para os seus concorrentes.

A derrota de Cielo

Quando os caracteres mostraram que César Cielo havia batido na terceira colocação, a sensação foi de derrota. Ok, era uma medalha de bronze, mas a sensação foi a de perder uma Copa do Mundo. Aquela derrota que te deixa incrédulo diante da televisão, com aquela expectativa de que tudo tenha sido um engano. Esperando que quando você voltar do banheiro a televisão estará mostrando que não foi isso o que aconteceu. A derrota de Cielo foi a derrota de um ídolo, foi a queda de um super herói. Trouxe aquela triste sensação de que não, ele não era invencível. Que ele poderia ser batido também. Todos podem, claro, mas é algo que não gostamos de acreditar. Talvez Cielo não consiga chegar até as Olimpíadas de 2016 e o bronze nos 50 metros tenha sido a sua última participação nos Jogos. Ele terá 29 anos no Rio de Janeiro, idade avançada para uma natação cada vez mais formada por jovens e adolescentes. Mas, por mais que o ignorante e cruel público já queira taxar Cielo de perdedor, ele já tem...