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Essência de Temer

De certa forma, no meio dessa crise toda dos caminhoneiros, pudemos acompanhar Michel Temer em sua essência. Não conseguiu avaliar corretamente uma situação, tentou ser enérgico sem convicção, precisou voltar atrás e no final terminou humilhado, tentando transmitir a imagem que se saiu vitorioso. Subestimou a dimensão da paralisação dos caminhões e chegou a participar de atos partidários, como se estivesse diante de mais um dia normal. Estava errado e precisou correr atrás quando o estrago começava a ficar grande demais. Chamou para conversar uma série de lideranças, que não eram bem lideranças. Tratou com eles como se conversasse com lideranças da Câmara e chegou a um acordo com eles, como se fosse um acordo com deputados. Mas não eram deputados. O primeiro acordo não deu em nada e - pior - eles já sabiam que não ia dar em nada, mas o anunciaram só porque achavam que precisavam falar alguma coisa. Em um primeiro momento acharam que não era nada, depois insistiram na tese do loca...

Iniesta

Lembro de quando Andrés Iniesta começou a participar com frequência dos jogos do Barcelona. Temporada 2004/05, Frank Rijkaard o colocava geralmente no segundo tempo, substituindo Ludovic Giuly no lado direito do ataque catalão. Na temporada seguinte ele começaria a virar titular da equipe, jogando pelos lados do campo, centralizado, como volante. Iniesta transformava a ponta esquerda ou qualquer pequeno pedaço do campo em um latifúndio. Porque Iniesta é desses raros jogadores que jogam futebol com clarividência. Ele parecia vir do futuro para acertar a jogada que parecia perdida. Era um facilitador capaz de trocar passes curtos, passes longos, controlava a bola e driblava com tranquilidade. É um senhor do tempo e do espaço e formou ao lado de Xavi, coadjuvados por Busquets, o meio de campo mais fantástico que eu já vi jogar. Iniesta é um símbolo dessa nova geração de jogadores, capazes de jogarem em alto nível por mais de dez anos (preparação física, talvez), televisionado em toda ...

Algumas poucas palavras sobre Naná

Naná morreu um dia antes do aniversário de Cuiabá, vítima de leucemia felina. Repentinamente me peguei sem palavras para falar sobre esta gatinha com quem convivi durante 14 anos. Talvez porque depois que eu me casei e sai de casa, eu mal a tenha visto. Naná não superou muito bem a minha traição, o fato de eu ter abandonado o nosso relacionamento construído arduamente após uns bons três anos em que ela me ignorou. Lembro dela ainda filhote agarrada na janela do meu quarto. Eu havia acabado de chegar do colégio, um pouco mais cedo, muito provavelmente porque era semana de provas. Ao abrir o portão me deparei com ela grudada na janela do meu quarto e miando, enquanto os cachorros babavam de ansiedade embaixo. Ela ainda não estava enturmada com os cachorros, tinha pouco tempo de casa e nem era para estar ali, devia ter fugido. Depois que eu a resgatei, o que ficou de mensagem para ela não era que ela não deveria encarar os cachorros ou o que fosse: ela entendeu que toda vez que pula...

A vida de Cristina

Cristina, ou melhor Maria Cristina, é uma mulher que recebe muito telefonemas de cooperativas de crédito. Ela morava em Pedra Preta, mas decidiu se mudar para Campo Novo do Parecis em dezembro do ano passado, contratando um caminhão para fazer a mudança entre as cidades mato-grossenses. Antes de se mudar, ela decidiu vender uma moto Fan 2014, anunciando-a em um grupo de WhatsApp. Agora em Campo Novo, ela mantém amizade com o Cassiano (caubói) e com a Sirley, que é muito insistente nas mensagens de bom dia. Certamente Cristina tem algum descendente que estuda na turma do 5º Ano A. Ela participa de retiros espirituais, que podem durar o sábado inteiro, em que cada um deve levar sua bíblia e deixar o celular em casa. Ela também tem aulas no sábado, no PAP Cursos. Maria Cristina entrou na minha vida por meio das ligações por engano. Eram tantas e tão frequentes, que passei a desconfiar de que alguma coisa estava errada. A partir do momento em que os contatos começaram a ser feitos po...

Questão de Tempo

Seiscentos e sessenta e quatro milésimos. Essa foi a diferença que Lewis Hamilton colocou na concorrência direta no primeiro treino classificatório do ano, na Austrália. Traduzindo, Hamilton será pentacampeão do mundo no fim do ano. Não há de onde as equipes adversárias tirarem essa vantagem. Correndo contra um companheiro, Bottas, claramente inferior, Hamilton só não será campeão se despirocar no meio do campeonato, e olhe lá. Vamos comparar a diferença da Mercedes em relação a concorrência em relação aos últimos anos, exceção feita a 2014, quando choveu na Austrália (depois choveu na Malásia e só no Bahrein, no primeiro treino com condições normais, a Mercedes enfiou quase nove décimos no adversário mais próximo). - Em 2015, quando a Mercedes passeou apesar do incômodo constante de Vettel, a diferença foi de 1,397 para o adversário mais próximo. Nos treinos seguintes a diferença se manteve em uma média de oito décimos. - Em 2016, quando a Mercedes só não venceu todas as corrida...

Quem ganha com a intervenção?

Michel Temer é um senhor idoso que por vezes flerta com a senilidade. Mesmo ostentando recordes de rejeição - é praticamente humanamente impossível alguém ser tão rejeitado quanto o senhor Elias Lulia - ele sonha com a possibilidade de ser candidato a re-eleição. Possibilidade, claro, que só pode ser aventada por pessoas com falhas cognitivas e que vivam completamente alienadas do mundo. Durante muito tempo o nosso presidente pensou que conseguiria o sucesso por meio de medidas impopulares que lá na frente se mostrariam eficazes e fariam que o povo brasileiro, em massa, o aclamasse presidente. A re-eleição, era só isso que ele queria, nem fazia questão dos pedidos de desculpas. No entanto, com o tempo passando e sua aprovação patinando no lodo do fundo do poço, ele percebeu que medidas impopulares não aumentam a popularidade e resolveu apelar para um novo artifício, mexendo com um assunto que está sempre pulsando na mente humana: a insegurança. Até o momento a economia parecia ser ...

Estatísticas da Copa: Maiores Artilheiros

Eis uma lista dos 50 maiores artilheiros, entre os jogadores que podem disputar a Copa do Mundo de 2018. Constam na lista jogadores convocados no último ano pelas 32 seleções classificadas para a disputa. Por isso aparecem alguns jogadores que provavelmente não estarão lá (David Villa e Diego Tardelli) e ficam de fora àqueles que aparentemente não estarão lá, apesar de ainda jogarem futebol (Ibrahimovic). Nessa lista (que sim, confirmo, não é a mais exata do mundo e pode ter distorções) também ficam de fora vários jogadores badalados, mas ainda jovens, ou mesmo àqueles que fazem muitas jogadas e poucos gols. Entram uma série de centroavantes natos e bem desconhecidos, artilheiros cuja vida foi construída na base de gols no campeonato panamenho. A ordem decrescente: 50) Jamie Vardy (Inglaterra) 149 gols - 31 anos 49) Shinji Kagawa (Japão) 152 gols - 28 anos 48) Alfreð Finnbogason (Islândia) 153 gols - 29 anos 47) Giovanni Moreno (Colômbia) 155 gols  - 31...

Intervenção

Os números do anuário de segurança pública mostram que o Rio de Janeiro é o 10º Estado mais violento do Brasil. Os dados estatísticos mostram que o número de ocorrências policiais na capital Rio de Janeiro caíram um pouco em relação ao ano passado e despencaram em relação a dois anos atrás. Os números, portanto, mostram que não há nenhuma excepcionalidade na situação de violência do Rio de Janeiro. Isso mesmo com a superexposição das imagens de arrastões, roubos e ataques violentos contra as pessoas no carnaval, imagens que se somam a sensação de caos generalizado provocado pela crise econômica que arrasa o Estado. Não há nada científico que justifique uma intervenção militar por lá, pois o problema é o mesmo de sempre. No entanto, a violência do Rio de Janeiro é mais assustadora pelo fato de que ela é visível. É visível por ser uma cidade enorme, cartão-postal brasileiro no exterior, e é visível porque a violência ocorre nas áreas ricas da cidade. Ao contrário de outras capitais bra...

MC Loma

Depois de décadas de domínio da música produzida na Bahia com Ivete Sangalo, Asa de Águia, Daniela Mercury, Chiclete com Banana e seus derivados, ocorreu um processo de descentralização do Hit do Carnaval, que já passou pelas mãos de Michel Teló e abraçou cada vez mais o sertanejo universitário e o funk.  Além de sair de sua terra natal - fruto talvez do crescimento do carnaval de rua em várias outras cidades do país? - a popular música festeira brasileira saiu da mão de seus hitmakers consagrados e passou a cair nos colos de One Hit Wonders, como Psirico (Lepo Lepo), Banda Vingadora (cujas metralhadoras desapareceram) e o saudoso MC G15, que talvez tenha morrido de tanta onda e nós nem ficamos sabendo. Artistas que acertam apenas um tiro certeiro e alcançam o estrelato nacional proporcionado por emplacar um Hit de Carnaval (matérias nos jornais, convites para festas e shows, dinheiro, superexposição midiática). Parecia ser justamente o caso de Juju Toddynho que pareceu su...

Amsterdã

Havíamos acabado de cruzar a fila da imigração e a sensação era a de ter conquistado o mundo. O enorme aeroporto com seus corredores iluminados e idiomas misturados, as placas com uma língua incompreensível. Sento no banco para conectar o wi-fi e me certificar do trajeto do trem, com a sensação de que há uma vida inteira para ser vivida. Ali eu estava, em Amsterdã, com a pessoa que eu mais gosto no mundo prestes a iniciar os 20 dias da viagem mais planejada de todos os tempos. Observava o Albert Heijn sem saber como eles dominam o país. O trem era algo tão diferente para nós que só tivemos certeza que tinha dado certo quando chegamos no hotel. Deixamos nossas coisas por lá e saímos. Era um dia de sol, de um sol maravilhoso que não iríamos ver pelos próximos dez dias. Caminhamos pelo De Pipj e já estávamos suficientemente encantados com aquelas muralhas de prédios cor de telhado e o tram que passava o tempo inteiro e as pessoas tão bonitas em suas incontáveis bicicletas. Então chega...

Geografia da Copa

Uma compilação de dados inúteis   curiosos relacionados a geografia, geopolítica, economia na Copa do Mundo de 2018. Área A Rússia, anfitriã do torneio, é o país com maior dimensão territorial. São mais de 17 milhões de km². 1) Rússia 17.075.200 km² 2) Brasil 8.515.767 km² 3) Austrália 7.692.024 km² 4) Argentina 2.780.400 km² 5) Arábia Saudita 2.149.360 km² Por outro lado, com apenas 30 mil km², a Bélgica é o menor país da Copa. Ou seja, dentro da Rússia cabem 559 bélgicas. 1) Bélgica 30.528 km² 2) Suíça 41.285 km² 3) Dinamarca 42.931 km² 4) Costa Rica 51.000 km² 5) Croácia 56.594 km² O território da Rússia é equivalente ao de outros 29 países do torneio. População Com 208 milhões de habitantes, o Brasil é o país mais populoso do torneio. 1) Brasil 208.243.982 2) Nigéria 185.989.460 3) Rússia 144.463.451 4) Japão 126.672.000 5) México 119.530.753 Já o país com a menor torcida do torneio é a Islândia, com 332 mil habitantes. Portanto, para cada islan...

Cidadão exemplar

O síndico do meu condomínio - nem sempre ele foi síndico - mas ele sempre despertou uma sensação estranha em mim, um desconforto com alguma coisa que eu não sabia explicar direito. O jeito como ele falava nas reuniões - mesmo quando ele não era síndico - me passava uma sensação de que ele se considerava um cidadão exemplar. Sabe aquele cara que adora contar para os outros como ele é totalmente correto e justo em suas ações. Um dia, encontrei ele no restaurante do bairro e percebi que ele tinha uma tatuagem em cada um de seus antebraços. Percebi que eram nomes de um homem e de uma mulher. Do seu casal de filhos, de sua esposa e do seu filho, dos seus pais, não sei, não perguntei. Isso só me reforçou que ele além de um cidadão exemplar ainda é um cara que faz tudo para defender sua família. Posso imaginá-lo irritantemente em uma reunião com amigos usando seu senso de justiça e correção para justificar todo e qualquer ato. "Você sabe que eu faço o que é certo", diz. Acuso...

Vitórias contra o Big Four

Depois de definidas as quartas-de-final do Australian Open, com uma pré-definição da repetição da final do ano passado entre Federer e Nadal, algumas pessoas chamaram a atenção para um nome que poderia evitar isso: Tomas Berdych. O tcheco está há anos no top-20 mundial, passou outros tantos no top-10 e costuma sempre a fazer campanhas dignas nos Grand Slams. No entanto, tem uma estatística ruim contra os tenistas do Big Four. No entanto, quem tem bons números contra esses caras? Fiz um apanhado para saber quem são os tenistas que tem melhores resultados contra os quatro jogadores que dominam o esporte há mais de uma década. Estabeleci alguns critérios: ter enfrentado Federer, Murray, Nadal e Djokovic pelo menos duas vezes cada, em um total de pelo menos 10 jogos contra os nomes do Big Four. Pré-selecionei os tenistas entre o top-20 atual e aqueles que disputaram os ATP Finals desde 2006. No total, 31 nomes se estabeleceram nos critérios e entre ele, o que tem o melhor desempenho é:...

(Sem Assunto)

Se há alguma verdade na minha vida, é que passei os últimos 10 anos imerso em uma grande maré de tranquilidade e felicidade. Naveguei na calmaria de não enfrentar o medo de um dia se ver sozinho diante do mundo. Vivi com a certeza de que sempre teria alguém para contar nos momentos em que a loucura mundana parecesse incontrolável e que quando o futuro parecesse intransponível, teria alguém para ajudar a decifrar os caminhos e manter o controle da vida. Estou há 10 anos ao lado da Ana Rosa, arrastando malas por calçadas alheias, descobrindo como queijos são melhores no dia seguinte – depois de passarem uma noite enrolados em guardanapos dentro de uma bolsa, levantando de restaurantes quando percebemos que estamos diante de uma cilada – sim estamos há anos descobrindo juntos as ciladas da vida e aprimorando nosso feeling para evitá-las. Conhecendo tantos lugares e voltando a tantos outros, na expectativa que um dia todas as esquinas do planeta tenham uma lembrança de nós dois. Mas ta...