Pular para o conteúdo principal

Postagens

Menino Lobo

Vou dizer que eu sei até a data, porque minha memória costuma a associar fatos cotidianos com eventos esportivos. Portanto, foi na madrugada do sábado, 05 de março, para o domingo, 06 de março de 2005. Nesse dia era disputado o Grande Prêmio da Austrália de Fórmula 1, prova que abria aquela temporada. Temporada de mudança, com a expectativa de que a Renault havia construído um bom carro e seria capaz de terminar com a hegemonia da Ferrari. Expectativa que se confirmou naquele dia com a vitória do improvável Giancarlo Fisichella e no fim do ano com o título de Fernando Alonso. Vivia eu também uma época de mudanças, já que mais ou menos um mês depois eu começaria a faculdade. No entanto, devido aos ajustes de semestre da UFMT, nesse momento eu era um desocupado meio perdido na vida. Mas, enfim, foi nesse dia, nessa madrugada que a Kinu atacou o Mogli. Kinu era uma boxer que minha tia adquiriu uns quatro anos antes e que sempre teve um comportamento arredio com os outros cães. Depois ...

Topografia do Terror. Sim o terror existe e é real

Há em Berlim um lugar chamado Topografia do Terror, que é mais um dos memoriais que os alemães mantém para lembrar a população dos horrores da guerra. Afinal, a Alemanha foi protagonista das duas guerras mundiais - sempre do lado perdedor, foi sede de um governo genocida e depois foi dividida em duas por mais de 40 anos, com um muro separando sua capital. Sim, Berlim é um cidade com prédios muito bonitos, mas com um clima um pouco melancólico, porque suas ruas já protagonizaram muitas tragédias e não podemos nos esquecer delas, para que elas não se repitam. Há o Memorial do Muro de Berlim, há o Palácio das Lágrimas, a Estação de Grunewald (local em que os judeus eram enviados para campos de concentração), o Memorial dos Judeus Mortos, o Checkpoint Charlie, pedras nas calçadas em frente as casas que pertenciam a judeus assassinados no holocausto e, enfim, há a Topografia do Terror. Este museu/memorial/arquivo é focados na ascensão do Partido Nazista ao poder na Alemanha. Há claro a ...

Roupas velhas

Pelas razões que sejam, duas amigas minhas do Facebook estão se desfazendo de itens pessoais, colocando-os a venda. Itens de decoração, livros (seriam livros igualmente itens de decoração?) e roupas. As roupas me impressionam. Certo que mulheres gastam mais com roupa (em quantidade e qualidade) e por isso tem alguma oportunidade de vender algo que não vão mais usar. Mas, penso no meu caso. Se eu precisasse passar por uma situação assim. Olho para meus livros e penso que sim, pessoas se interessariam por eles, dependendo do preço que eu definisse. Dois quadrinhos que eu tenho podem interessar alguém. Mas, as roupas, uau, se eu precisasse me desfazer delas duvido que uma pessoa em sã consciência se dispusesse a pagar que valor que seja numa camiseta comprada na Riachuelo uns 10 anos atrás. Talvez um mendigo? Isso, talvez eu devesse procurar mendigos na rua e perguntar se eles aceitariam as roupas e humilhados pela falta de oportunidades aceitariam. Ou talvez algum lugar que re...

Uma coisa não exclui a outra

Uma coisa não exclui a outra. Nesses tempos de polarização e ódio, me parece que esse é o grande exercício diário de sabedoria, o grande esforço de compreensão que é preciso empreender. Um fato não anula o outro. Sempre posso citar o caso do Lula, a grande figura da polêmica nacional. É possível aceitar que seu governo proporcionou avanços sociais? Sim. Dá pra dizer que há uma perseguição, ou um superdimensionamento dos fatos relacionados ao ex-presidente na chamada grande mídia, e que mesmo o juiz Sérgio Moro e os procuradores de Curitiba tem atuações muitas vezes partidárias contra ele? Sim. Mas isso não exclui o fato de que, ao que tudo indica, Lula se apoderou de dinheiro público em causa própria, que praticou tráfico de influência, enfim, utilizou o poder em benefício próprio. Mas, geralmente ou se está de um lado ou se está de outro. O mesmo pode ser dito em relação ao Moro. Errou e agiu de maneira política em alguns casos - vide vazamento de grampos feitos fora do horário de...

Drivin' is a gas it ain't gonna last

Uma manhã estranha, tudo parece estranho. Entro no meu carro, um pequeno carro preto e o som começa a tocar Big Black Car do Big Star. Mais uma música tão triste dessa banda tão melancólica. Os arranjos distantes, a voz distante. "Driving in my big black car, nothing can go wrong, I'm going and I don't know how far. So, so long". Estou no meu pequeno carro e tudo parece que não vai dar errado. Olho para o céu, enquanto passo por um quebra-molas e vejo um pássaro qualquer batendo asas e ele parece voar no ritmo do piano desconexo no fundo da música. "Nothing can hurt me. Nothing, can touch me". Nada, nada. Ali dentro nada pode acontecer. Penso em não sair mais do meu carro. Why Should I Care? Drivin' is a gas it ain't gonna last. Não vai durar. A manhã seguirá estranha. Tudo continuará estranho.

A despedida de Bolt

Foi o maior anticlímax da história. Já havia sido um pouco decepcionante ver Usain Bolt conquistar o bronze nos 100 metros rasos, no fim de semana passado. Desde as Olimpíadas de 2008 nos acostumamos com um Bolt invencível, um fenômeno da velocidade incapaz de ser derrotado. Acabou sendo, ficou em terceiro. Um sinal de que a idade, ou mais do que a idade, o desgaste físico e a perda de rendimento chega para todos. Que Bolt, por mais que não pareça, é apenas um ser humano com incríveis capacidades musculares e motoras. No entanto, ainda haveria uma última corrida. A final do revezamento 4x100, prova que a Jamaica dominou nos últimos anos, mas que estava longe de ser a favorita dessa vez. Mesmo sem o ouro e com Bolt já dentro de sua nova dimensão humana, seria pelo menos a oportunidade de vê-lo correndo por uma última vez. Em uma prova de revezamento, e sendo Bolt o último a correr a esperança é de que ninguém fizesse nenhuma besteira antes, que o bastão não ficasse pelo meio do ca...

Duas Araras

Molhando a grama em uma manhã ensolarada de quarta-feira, um dia de inverno extremamente seco. O calor do sol já espantou o frio da madrugada. Céu extremamente azul, com aquela névoa seca que caracteriza o nosso inverno. Escuto um barulho que já escutei outra vez pelos céus sobre minha casa. São araras. Já vi araras-azuis voando sobre minha casa em fins de tarde em outras ocasiões. O barulho é igual, mas desta vez as araras são vermelhas. Duas. Um casal, pai e filho, duas amigas, não sei. Voam de maneira meio descoordenada e fazendo muito barulho. Penso naqueles clichês sobre Mato Grosso, de onças e jacarés da rua, do destino selvagem que parecemos ser diante do mundo e nesse instante tudo faz sentido. Somos o destino inalcançável, o lugar por onde araras passam por sobre nossas cabeças como se fosse mais um dia normal. O barulho aumenta e percebo que as araras retornaram, voando no sentido contrário, para onde elas originalmente vieram. Escuto seus gritos e as observo indo cada ...

As instituições estão funcionando

As instituições estão funcionando, elas estão funcionando, esse é o mantra repetido por autoridades, especialistas, comentaristas, para dizer que está tudo bem. Como se fossem aquele meme do cachorro dizendo que está tudo bem enquanto tudo ao seu redor pega fogo. As instituições estão funcionando, temos um vice-presidente eleito e que assumiu dentro do que é previsto pela constituição, o legislativo segue legislando e o judiciário continua julgando. Teoricamente, a democracia prevê a existência de três poderes harmônicos e independentes entre si. No entanto, o que vemos atualmente é um Poder Executivo acuado diante dos outros dois. Ok, podemos dizer que o Executivo fez por merecer e tem sido ineficiente nos últimos anos. Mas, o que os outros fizeram para não serem tão atingidos pela crise representativa nacional? Acredito que foi o Cássio Cunha Lima - melhor analista do que senador - que afirmou que o Brasil vive em um momento de parlamentarismo improvisado. O centro nervoso de dec...

Imagens da morte

Quando aquela noiva morreu no fim do ano passado, ou no começo deste ano, não sei direito, todos nós ficamos chocados. Claro que não há um bom dia para morrer, mas existem dias que são piores do que os outros. Ninguém deveria morrer no dia do casamento, no dia do aniversário. Aliás, ninguém tem o direito de ter qualquer sofrimento nestes dias, em que desejamos tanta felicidade para os envolvidos. Assim sendo, uma noiva morrer no dia do casamento, enquanto ia para o casamento e os convidados e o noivo a esperavam, isso é o horror. Certamente terrível para a pessoa que morreu, mas ainda pior para os que ficaram aqui e vão viver os restos de suas vidas com estas lembranças traumáticas. Agora, ficamos todos chocados novamente com as imagens do acidente. A fotógrafa que acompanhava a noiva filmou todo o trajeto fatal, provavelmente para registrar essas imagens da aventura da noiva, que iria fazer uma surpresa para o seu futuro marido que não sabia que ela desceria de helicóptero no local ...

Pequenas histórias

Em um primeiro momento, o Celso parecia o chefe louco que veio de algum lugar para aterrorizar nossas vidas. Afinal, tinha um personalidade forte e algo extravagante, falava alto como os cariocas, fumava alucinadamente e não fugia de uma briga. Ninguém sabia de suas origens, o que em Cuiabá sempre pode parecer um crime.  Ao longo do tempo foi possível ver que sua personalidade era tão polêmica quanto parecia ser, o que afugentou e provocou ojeriza de muita gente. Não é a toa que ao final da sua passagem pela Secom-MT, ele foi vítima de uma das maiores sacanagens que já presenciei, tudo por conta da briga pelo poder. Pois bem, o Celso de Castro Barbosa morreu ontem, me informou o Facebook. Perdi algum tempo lendo as lembranças dos amigos, sempre tão saudosas (provavelmente, ele foi meu primeiro contato do Facebook a morrer). Convivi com o Celso durante dois anos, período em que no fim tivemos uma boa relação, em que ele confiou no meu trabalho. Lembro sempre de que no dia do meu c...

Conversa com Darwin

Meus vizinhos tem um cachorro chamado Darwin, que ao que tudo indica, faz coisas que cachorros normalmente fazem: corre alucinadamente, pula incontrolavelmente, destrói alguns objetos e por vezes provoca intervenções paisagísticas dramáticas. Por fazer coisas que cachorros geralmente fazem, no caso de Darwin, um labrador branco, essa coisa pode ser sua simples existência, meus vizinhos parecem gostar muito de seu animal. No entanto, essas outras coisas de cachorro, essa parte que envolve destruição e roubo de objetos, não deixam meus vizinhos tão felizes assim. Nesses dias, eles brigam com o Darwin. Não sei como é a casa do meu vizinho e por isso não posso dizer exatamente como a cena se desenvolve, mas sei que dia desses ele mexeu no lixo. Sim, o lixo, principalmente quando contém objetos orgânicos em estado de decomposição, pode ser um tanto quanto irresistível para um cão. Por outro lado, este objeto de fascínio canino é bastante repugnante para o ser humano. Essa é uma contra...

Lua Sorridente

No alto do céu, a lua parecia um enorme sorriso. Uma lua enorme, talvez uma super-lua. A porção iluminada da lua era ínfima, um simples risco e a posição da lua no céu nos fazia entender exatamente o seu movimento em relação ao sol. Quem brilhava não era o lado esquerdo ou diretio da lua, mas sim sua porção inferior. Pensando uma um pouco, era possível imaginar o sol escondido depois da curva do planeta e sua luz refletindo naquele pequeno pedaço do nosso satélite. Um sorriso como o do gato de Alice n país das maravilhas. Um fiapo de sorriso, mas um sorriso perfeito e absolutamente simétrico. Tão enorme, que era impossível manter a atenção no que acontecia na terra.

Os 30 anos de Lionel Messi

Foi no dia 06 de Abril de 2010. Não havia uma pessoa no mundo que acompanhasse o futebol que não estivesse espantada com o que Lionel Messi havia acabado de fazer. Pelas quartas-de-final da Champions League, o Barcelona venceu o Arsenal por 4x1, de virada, com quatro gols do argentino. Quatro golaços, que transformaram um jogo complicado em um passeio. Depois da partida, um embasbacado Arsene Wenger declarou que Messi era um jogador de videogame. Duas semanas antes, Messi havia dado outra demonstração de poderes sobrenaturais, durante a vitória por 4x2 contra o Zaragoza. Três gols, sendo que o segundo foi uma demonstração de luta e técnica poucas vezes vista. Naquele momento, estávamos todos encantados com Messi. Ele já era o cara que tinha feito um gol antológico contra o Getafe, marcado três gols no clássico contra o Real Madrid, já era o melhor do mundo eleito pela Fifa. Mas aqueles dias foram decisivos para percebermos que ele não era apenas um grande jogador. Era algo mais, al...

Vinte anos do Guga

As manchetes dos sites esportivos e o vasto material divulgado nos últimos dias fazem questão de nos lembrar: faz 20 anos que Gustavo Kuerten despontou no cenário do esporte mundial ao conquistar o titulo de Roland Garros pela primeira. Foi em um dia 8 de junho, de 1997, que Guga derrotou Sergi Brugera por 3x0 na final do Grand Slam francês. Tenho na memória um pouco desse dia. Acordei cedo na manhã de domingo, esse era um costume lá em casa por conta das corridas Fórmula 1. Naquele domingo não havia corrida, mas encontrei meu pai na frente da TV assistindo um esporte diferente. Era a TV Manchete que exibia a final do jogo de tênis. Meu pai fez um breve apanhado sobre a situação, explicou que um brasileiro estava jogando a final de um dos torneios mais importantes do mundo, que era um jovem, falou algo sobre suas roupas diferentes e enfim. Acompanhei provavelmente um parte do terceiro set, sem entender nada daquele sistema de pontuação maluco. Fiquei feliz quando Guga venceu, afina...