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Topografia do Terror. Sim o terror existe e é real

Há em Berlim um lugar chamado Topografia do Terror, que é mais um dos memoriais que os alemães mantém para lembrar a população dos horrores da guerra. Afinal, a Alemanha foi protagonista das duas guerras mundiais - sempre do lado perdedor, foi sede de um governo genocida e depois foi dividida em duas por mais de 40 anos, com um muro separando sua capital. Sim, Berlim é um cidade com prédios muito bonitos, mas com um clima um pouco melancólico, porque suas ruas já protagonizaram muitas tragédias e não podemos nos esquecer delas, para que elas não se repitam.

Há o Memorial do Muro de Berlim, há o Palácio das Lágrimas, a Estação de Grunewald (local em que os judeus eram enviados para campos de concentração), o Memorial dos Judeus Mortos, o Checkpoint Charlie, pedras nas calçadas em frente as casas que pertenciam a judeus assassinados no holocausto e, enfim, há a Topografia do Terror.

Este museu/memorial/arquivo é focados na ascensão do Partido Nazista ao poder na Alemanha. Há claro a lembrança da guerra e do holocausto, mas a estratégia para a conquista do poder nazista é o destaque. Às vezes nos esquecemos disso, mas além de um genocida megalômano, Adolf Hitler era também um ditador. A Alemanha vivia em um estado de exceção, de culto ao nacionalismo e a imagem de Hitler. Por vezes nos perguntamos "os alemães não achavam que alguma coisa estava errada?". Bem, alguns talvez até pensassem, mas àqueles que, ao ver um oficial do regime, não fizesse o tradicional cumprimento nazista com a mão estendida, seria entendido como inimigo da nação, perseguido e provavelmente morto. Não é qualquer um que quer ser um inimigo da nação.

A Topografia do Terror é um lugar obviamente perturbador, mas o principal fator de perturbação talvez não seja assim tão óbvio: o memorial parece oferecer uma espécie de spoiler do futuro do Brasil. Sim, é impossível não ler os precedentes da ascensão nazista e não imaginar que aquilo ali na verdade é um relato sobre o Brasil atual. O memorial funciona como um guia da chegada dos fascista ao poder e parece que seguimos esse guia perfeitamente.

A crise econômica de 1929 atingiu a Alemanha fortemente. A tensão provocada pelo desemprego em massa levou ao colapso. Autoridades berlinenses foram envolvidas em um escândalo de corrupção - fraude no fornecimento de uniformes para funcionários da prefeitura. Os donos da empresa envolvida no escândalo eram judeus, o que inclusive fortaleceu o discurso anti-semita. A população perdeu a confiança nos políticos. Toda essa crise favoreceu o crescimento dos Nazistas. Em seis meses Hitler era o chanceler alemão.

Crise econômica, desemprego, corrupção, falta de confiança nos políticos, fascistas. É o Brasil, não é mesmo?

Goebbels, ao assumir um assento no parlamento alemão disse que estava lá para usar as armas da democracia. Os nazistas eram muito bom em fazer mobilizações na rua para chamar a atenção e demonstrar poder (isso te lembra alguma coisa?). Deturpavam informações (oi?). Houve quem defendesse o diálogo com eles e até uma composição partidária.

O que chama muito a atenção é que a estratégia nazista foi, digamos, sorrateira. Eles não chegaram lá e resolveram quebrar tudo. Foram dando passos calculados rumo aos seus objetivos, como se não quisessem tirar ninguém da zona de conforto e chamar atenção. Liberdades individuais foram suprimidas vagarosamente, a perseguição aos judeus - e ciganos, homossexuais, entre outros - aumentaram em doses homeopáticas, até que, quando vamos ver, existiam campos de concentração e a Alemanha estava invadindo outros países.

Chamaram minha atenção alguns panfletos de propaganda nazista que em muito lembram os nossos memes atuais. Um com um cidadão saudável trabalhando enquanto carregava nas costas dois deficientes físicos em muito me lembra o discurso liberal meritocrático de algumas organizações apartidárias dos tempos atuais. E bem, a essa altura é bem difícil não pensar no Bolsonaro, não? Mas então vem essa imagem:

Que dispensa comentários. (Vale um sim. A legenda diz que o panfleto tentava criar a imagem de que Hitler era o idealizador das AutoBahns alemãs, planejadas antes dele. Pós-verdade de raiz).

Sim, eu saí muito assustado da Topografia do Terror. Porque não dá pra negar que o cenário atual do Brasil fortalece a imagem de políticos que se vendem como salvadores da pátria, que personificam a imagem da esperança e isso não é saudável. A discussão política em memes não é saudável. A última pesquisa que mostra que muitos brasileiros tem Lula e Bolsonaro (independente da ordem) como principais opções políticas, João Dória, mesmo Luciano Huck, mostram que o Brasil não pensa em política, mas pensa no salvador dos problemas. A Topografia do Terror nos mostra que esse caminho, invariavelmente, é o caminho do horror mesmo.

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