Pular para o conteúdo principal

Menino Lobo

Vou dizer que eu sei até a data, porque minha memória costuma a associar fatos cotidianos com eventos esportivos. Portanto, foi na madrugada do sábado, 05 de março, para o domingo, 06 de março de 2005. Nesse dia era disputado o Grande Prêmio da Austrália de Fórmula 1, prova que abria aquela temporada. Temporada de mudança, com a expectativa de que a Renault havia construído um bom carro e seria capaz de terminar com a hegemonia da Ferrari. Expectativa que se confirmou naquele dia com a vitória do improvável Giancarlo Fisichella e no fim do ano com o título de Fernando Alonso.

Vivia eu também uma época de mudanças, já que mais ou menos um mês depois eu começaria a faculdade. No entanto, devido aos ajustes de semestre da UFMT, nesse momento eu era um desocupado meio perdido na vida. Mas, enfim, foi nesse dia, nessa madrugada que a Kinu atacou o Mogli.

Kinu era uma boxer que minha tia adquiriu uns quatro anos antes e que sempre teve um comportamento arredio com os outros cães. Depois da morte da Dogue Alemão que fazia a função de líder da matilha, Kinu surtou e começou a atacar todos os outros cachorros da casa. Tempos depois ela acabou tendo que ser doada.

Mogli era um gato vira-lata que havia sido resgatado da rua, quando ainda era um minúsculo gatinho, no fim do ano anterior. Ainda era um pequenino gato quando teve sua cabeça mastigada pela Kinu.

Como sempre acontecia quando havia alguma emergência com um dos animais, meu pai - veterinário - foi chamado, e uma espécie de sala de emergência foi montada na área de serviço da casa da minha tia. Assisti a corrida sozinho e durante todo o tempo a expectativa é de que o Mogli iria morrer.

Lembro da minha melancolia com aquela notícia. Mogli era um gatinho filhote, bonitinho como todos os filhotinhos de gato, mesmo com sua pelagem diferente. Um gatinho simpático e carinhoso que perdia a vida logo no começo, de uma maneira estúpida. Resgatado da rua para morrer atacado por um cão em casa. Tão novo para conhecer o mundo. A vida é muito cruel.

Os dias seguintes se passaram com Mogli desenganado. Mas, sabe-se lá como, ele reagiu e começou a se recuperar. E, milagrosamente, sobreviveu.

Lembro do dia em que ele voltou para casa - não exatamente a data - mas lembro de ver aquele pequeno gato, com seu pelo branco cheio de manchas do iodo usado em suas feridas. Uma das dentadas do cachorro abriu sua traqueia e quando ele tentava miar, seu miado saia rouco, uma característica que nunca perdeu totalmente. Outra dentada partiu sua língua ao meio e ela sempre saia para fora lateralmente. Era de uma crueldade engraçada ele tentando lamber as patas enquanto a língua ia para o outro lado. Sua cabeça havia ficado assimétrica e os olhos pareciam estar em hemisférios diferentes.

Cresceu e virou um gato extremamente sociável, que se comportava como se fosse um cachorro. Quando ia na casa da minha tia, sempre que atravessava o portão conseguia vê-lo correndo de longe, para se esconder atrás dos arbustos, para pular na minha frente, como se quisesse me atacar. Como a tentativa sempre falhava, ele se jogava no chão e dava seu miado rouco.

Mudou-se para Florianópolis junto com minha tia, onde morreu no último fim de semana, vítima de uma leucemia. Sua morte me trás as lembranças daquela noite, melancólica noite, e do milagre da recuperação. Viveu gloriosos 13 anos e posso dizer que com ele a vida não foi tão cruel assim. Ele pode conhecer o mundo.

Comentários

Postagens mais visitadas

Os 50 maiores artilheiros do São Paulo no Século

(Até o dia 1º de março de 2025) 1) Luís Fabiano 212 gols 2) Rogério Ceni 112 gols 3) Luciano 105 gols 4) Jonathan Calleri 86 gols 5) França 69 gols 6) Dagoberto 61 gols 7) Lucas Moura 58 gols 8) Borges 54 gols 9) Hernanes 53 gols 10) Kaká 51 gols 11) Alexandre Pato 49 gols 12) Washington 45 gols 13) Reinaldo (Atacante 2001-2002) 41 gols 13) Grafite 41 gols 15) Danilo 39 gols 15) Diego Tardelli 39 gols 17) Souza 35 gols 18) Pablo 32 gols 18) Reinaldo (o lateral esquerdo) 32 gols 20) Hugo 30 gols 21) Brenner 27 gols 22) Gustavo Nery 26 gols 23) Alan Kardec 25 gols 24) Paulo Henrique Ganso 24 gols 24) Robert Arboleda 24 gols 26) Aloísio Chulapa 23 gols 27) Júlio Baptista 22 gols 27) Jorge Wagner 22 gols 27) Michel Bastos 22 gols 27) André Silva 22 gols 31) Aloísio Boi Bandido 21 gols 31) Cicinho 21 gols 31) Jadson 21 gols 31) Osvaldo 21 gols 35) Fábio Simplício 20 gols 35) Cícero 20 gols 35) Christian Cueva 20 gols 38) Thiago Ribeiro 19 gols 39) Amoroso 18 gols 40) Adriano Imperador 17 go...

2004, um ano bem louco

Não sei dizer exatamente quando é que começou. Talvez a Copa de 2002 tenha sido um aviso. Por mais que as duas seleções mais vitoriosas da história, Brasil e Alemanha, tenham decidido o título, Turquia e Coreia do Sul chegaram as semifinais. Vimos a Coreia eliminar Itália e Espanha, a França cair diante do Senegal, a Argentina naufragar na primeira fase. Uma copa em que a zebra foi o padrão. Talvez tenha sido um aviso, mas nada como o ano de 2004. Esse foi um ano bem louco para o futebol. O grande aviso mesmo aconteceu no dia 7 de abril de 2014. Naquele dia, o La Coruña meteu 4x0 no Milan e se classificou para a semifinal da Champions League. Um resultado bem improvável, uma vez que o time espanhol começava a entrar numa fase de declínio e o Milan ainda era uma das maiores potências europeias, os atuais campeões do torneio. Ainda mais improvável, porque o Milan havia dado um baile no jogo de ida, vencendo por 4x1, em grande atuação de Kaká. Ainda mais improvável, porque o Deportivo f...

George Harrison de 1 a 10

A carreira solo de George Harrison talvez seja a mais consistente entre todos os ex-integrantes dos Beatles. Entre sua estreia avassaladora até o seu último disco póstumo, George entregou uma série de álbuns razoáveis, sem tantos momentos erráticos quanto seus ex-companheiros. Vamos a uma breve análise da sua discografia. Estreias experimentais Antes de tudo havia o barulho. A estreia solo oficial de George Harrison é com o álbum Wonderwall Music de 1968, trilha sonora para o filme experimental  Wonderwall (alô Noel Gallagher). É uma trilha incidental de base indiana, mas você pode até gostar de Ski-Ing . Em 1969 George lançou Electronic Sound , que avança no território da música eletrônica de vanguarda. (John Lennon havia feito a mesma coisa em parceria com Yoko Ono nessa época). Deixo qualquer opinião para os especialistas. All Things Must Pass (1970) Estreia de fato de George, All Things Must Pass é um disco triplo, sendo que o terceiro LP é uma grande jam experimental. O álbu...