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Os 30 anos de Lionel Messi

Foi no dia 06 de Abril de 2010. Não havia uma pessoa no mundo que acompanhasse o futebol que não estivesse espantada com o que Lionel Messi havia acabado de fazer. Pelas quartas-de-final da Champions League, o Barcelona venceu o Arsenal por 4x1, de virada, com quatro gols do argentino. Quatro golaços, que transformaram um jogo complicado em um passeio. Depois da partida, um embasbacado Arsene Wenger declarou que Messi era um jogador de videogame.

Duas semanas antes, Messi havia dado outra demonstração de poderes sobrenaturais, durante a vitória por 4x2 contra o Zaragoza. Três gols, sendo que o segundo foi uma demonstração de luta e técnica poucas vezes vista. Naquele momento, estávamos todos encantados com Messi. Ele já era o cara que tinha feito um gol antológico contra o Getafe, marcado três gols no clássico contra o Real Madrid, já era o melhor do mundo eleito pela Fifa. Mas aqueles dias foram decisivos para percebermos que ele não era apenas um grande jogador. Era algo mais, algo difícil de descrever. Algo que Wenger tentou explicar como um jogador de videogame, mas ele estava errado.

Lionel Messi é um dos primeiros craques cujos passos foram acompanhados pelo mundo desde o começo. Eu me lembro do seu primeiro gol, contra o Albacete, recebendo um passe de Ronaldinho Gaúcho e tocando por cobertura com uma frieza impressionante. Poucos minutos antes ele havia feito a mesma jogada, mas o gol foi anulado por impedimento. Sempre que ele entrava em campo, havia uma expectativa, aquela sensação de "vamos ficar de olho nesse cara", mas era difícil apostar que ele viraria o que virou.

Existiu uma época, entre 2009 e 2012, em que quando Messi dominava a bola na intermediária, próximo a lateral, todos nós sabíamos que iria sair o gol. Ele poderia arrancar para o centro deixando todos para trás, tabelar com Daniel Alves e entrar para a área, chutar da entrada da área em curva, bater no contra pé do goleiro, dar um toque humilhante de cobertura. O repertório era incalculável, apenas sabíamos que o gol iria sair.

Messi ainda não tinha completado 23 anos no dia em que destruiu o Arsenal. Outra razão para que ficássemos espantados, era a perspectiva de que ele ainda não estivesse em seu auge e o quanto é que ele ainda poderia fazer. Bem, de certa forma aquele acabou sendo seu auge, depois de uma lesão sofrida em 2013, Messi perdeu alguma dose extra de magia, apesar de continuar fazendo coisas das quais nossas retinas chegam a duvidar.

Essa, aliás, é a principal qualidade de Messi e que me faz discordar da máxima do videogame de Arsene Wenger. Videogames não tem a imprevisibilidade do jogo de Messi. O drible de Boateng e sua consequente queda não existem em Fifas da vida. Cristiano Ronaldo, com suas skills editadas ao máximo e a maneira como joga como um míssel teleguiado em relação ao gol, se parece muito mais com o jogador perfeito de videogame.

Nos acostumamos tão mal com o nível de jogo estabelecido por Messi, que é possível apontar como frustrante uma temporada na qual ele marca 54 gols em 52 jogos. Nos decepcionamos se ele não faz um gol driblando metade do time adversário. Achamos pouco uma assistência genial que acaba desperdiçada pelo centroavante. Questionamos se ele não merece o status de gênio por não ter ganho uma copa. Chegamos nesse estranho paradoxo do tempo atual, em que alguém fracassa por não ser o melhor da história.

Sete anos depois daquele jogo contra o Arsenal, já é possível observar Messi com aquela estranha sensação de que tudo está terminando. Que ele não vai conseguir fazer mais do que já fez até agora e bem, talvez ninguém seja capaz de fazer o que ele já fez até agora. Lionel Messi sempre será daqueles jogadores que nós diremos para as futuras gerações "nós vimos esse cara jogar. Acredite, era inacreditável".

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