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Rosberg no caminho inevitável da história

Em todas as 66 temporadas da Fórmula 1, poucas vezes um piloto conseguiu vencer as três primeiras corridas. Nessas poucas vezes, o autor da façanha acabou se tornando campeão do mundo. Na 67ª temporada da Fórmula 1, Nico Rosberg conseguiu vencer as três primeiras corridas. O que acontecer de agora em diante entrará inevitavelmente para a história. Se for campeão, Nico será o segundo filho de campeão a repetir a façanha do pai. O segundo piloto a conquistar o título após dois vice-campeonatos em sequência (Prost foi o primeiro) e talvez a estatística mais impressionante: o piloto que precisou correr mais corridas para ser campeão pela primeira vez. Nigel Mansell é o atual recordista com 176 corridas antes de conquistar o título e Rosberg já largou 188 vezes. Nico não será o campeão mais brilhante de todos os tempos. Aproveita-se de um carro muito superior em relação a concorrência e mantém a calma enquanto Lewis Hamilton mantém o hábito de entrar em combustão espontânea ainda nas pr...

A Pampa das múltiplas interpretações

Após o quebra-mola me aproximo de uma Pampa preta, caindo aos pedaços como era de se esperar, que se arrastava pela Avenida das Torres. Carregava alguns equipamentos, alguns canos, como também era de se esperar. Quando chego mais perto, vejo a escrita na tampa traseira, que parecia feita de Errorex. "Fora Dilma". Penso em um instante que uma foto desse caro seria daquelas que faria sucesso em páginas do Facebook como a do Movimento Brasil Livre, mostrando que o pedido de impeachment não é um desejo apenas das elites, é uma vontade enraizada na sociedade brasileira. Que até aquele pobre cidadão, sofrido em sua Pampa preta está comungando nessa corrente para frente, ou para fora. Antes que concluísse os pensamentos vejo que um pouco a baixo, de maneira não muito simétrica, está o complemento ao "Fora Dilma": "Sua Vadia". Penso então que a foto faria sucesso nas páginas da socialista morena, mostrando o machismo que existe por trás do impeachment, de como...

Cruyff

O ano, se eu não me engano, era 1999. A revista placar publicou uma série de edições especiais e uma delas continha a sempre pretensiosa e polêmica listagem: os 100 maiores jogadores de todos os tempos. Como era uma espécie de consenso naqueles tempos, Pelé aparecia em primeiro lugar e Maradona em segundo. A partir daí é que a polêmica sempre aumentava e o terceiro lugar era ocupado por Johan Cruyff. Lembro de ter ficado fascinado com aquele holandês magrelo que na foto aparecia sentado sobre a bola, envergando a diferente, mas sempre bela camisa do Ajax. Magro, cabelos longos, parecia até um pouco desengonçado. Não parecia um atleta. O texto colaborava com essa impressão. Cruyff era filho de uma faxineira do clube e passou a treinar futebol por incentivo da mãe, para ver se ele conseguia superar uma má-formação em seus pés. Johan também fumava de maneira alucinada, incluindo um cigarro no intervalo dos jogos. Mesmo assim era o terceiro maior jogador da história. Poucos jogadores...

Leicester rumo ao improvável

Neste momento a humanidade inteira pode ser dividida em dois grupos: de um lado estão aqueles que torcem para que o Leicester FC seja o campeão inglês desta temporada. Do outro lado estão as pessoas ruins, sem coração, pessoas desprezíveis que não merecem nenhuma felicidade na vida. Nesses meus 28 anos de vida eu nunca vi nada parecido com o que o Leicester vem fazendo na atual temporada e imagino que algumas outras pessoas mais velhas jamais tenham visto. No futebol existem zebras, é claro, mas não vejo nenhuma que se compare ao que o time azul do norte de Londres está fazendo. O Blackburn foi campeão inglês em 1995. Mas o Blackburn recebeu um grande investimento, tinha Alan Shearer no comando de ataque, Kenny Dalglish no banco de reservas, e vinha realizando boas campanhas no campeonato inglês. Derby County, Ipswich, Burnley, vários outros times menores foram campeões nos anos 60 e 70, mas eram tempos diferentes, o campeonato inglês não era milionário e sempre foi marcado pelo eq...

Mercedes: o maior domínio da história?

Muitas temporadas da história da Fórmula 1 ficaram marcadas pelo domínio absoluto de uma equipe sobre as adversárias. Mas, ao que tudo indica, a Mercedes atual está prestes a estabelecer o maior domínio que uma equipe conseguiu exercer ao longo da história da categoria. A equipe e seus dois pilotos, Lewis Hamilton e Nico Rosberg, partem para o terceiro ano seguido conquistando a dobradinha no campeonato, o que seria um fato inédito. Mas há mais razões para afirmar que esse seria o maior domínio da história. Vamos a eles. Foi só a partir dos anos 70 em que a Fórmula 1 passou a adotar o padrão de dois carros por equipe. Desde então é possível lembrar de alguns carros históricos, algumas grandes equipes, mas nenhuma delas conseguiu fazer o que a Mercedes faz agora. Recentemente, a Red Bull conquistou quatro títulos seguidos com Sebastian Vettel. Dois títulos foram conquistados no sufoco da última corrida e dois foram bem fáceis, com ampla superioridade e recorde de vitórias, em 201...

Antologia de George Martin

Anthology, o documentário dos Beatles, é um dos poucos DVDs que eu assisti mais de uma vez na minha vida. Todos os cinco DVDs duplos. Gosto da maneira como a narrativa é construída, das imagens raras, do material conseguido para a montagem e, claro, o assunto é a minha banda favorita em todos os tempos. Mas se o documentário fosse ruim, dificilmente teria me dado ao trabalho de assistir novamente. As primeiras partes mostram um olhar nostálgico para os primeiros dias dos seus integrantes e para os primeiros passos do conjunto. Os shows em bares em Liverpool e em Hamburgo, as viagens em um furgão quando a fama começou a chegar, o espanto com essa fama, com o fato de tocar no Paladium. Histórias de garotos legais, vivendo uma vida que nunca imaginaram que viveriam. Mas há uma parte especial no documentário que é justamente a que retrata o período mais fértil dos Beatles, que começou em 1965. As histórias hilárias e assustadoras sobre as primeiras experiências com as drogas e o proces...

Mamonas Assassinas, um fenômeno em nossas vidas

Não me lembrava a data exata, mas as efemérides me lembram que foi em um dia 02 de março, um sábado. Dia em que a TV estava ligada na Globo de manhã, como costumava a estar em todos os sábados para assistir algum desenho ou alguma programação esportiva, quando veio a terrível música do plantão: um acidente na Serra da Cantareira com um avião, onde provavelmente estavam os integrantes da banda Mamonas Assassinas. A certeza foi quase imediata de que eles haviam morrido e realmente, é difícil ter sobreviventes em um acidente de avião. Os dias seguintes foram de comoção com a exibição do vídeo do tecladista, que dois dias antes do acidente sonhou com a morte em um acidente de avião, reportagens especiais em todos os canais de TV tentando explicar o acidente, para muitos inexplicáveis (estaria o Dinho no comando da aeronave? Me lembro dos relatos sobre as imagens dos corpos vistas por especialistas da terceira série). Os Mamonas Assassinas foram provavelmente a banda com a carreira m...

By The Way, 14 anos depois

Quando foi lançado em 2002, By The Way deu sequência ao sucesso que o Red Hot Chili Peppers havia conquistado com seu lançamento anterior, Californication . Deu início também a um processo de decadência da banda que, digamos, amadureceu, e foi se afastando de suas raízes no funk rock, funk metal, ou seja lá o que for. Lembro bem de quando a música By The Way  foi lançada, com seu clipe bizarro na MTV. Era o melhor do RHCP. Baixo frenético, vocais acelerados, refrão melódico. A faixa título foi seguida por outros dois singles muito bons, The Zephyr Song - uma balada romântica embalada por um clipe lindo e caleidoscópico - e Can't Stop , outro funk rock com refrão grudento. Mas nem tudo era perfeito e o resto do disco me pareceu bem ruim na época. Lembro de escutá-lo no Terra Rádio, talvez na Usina do Som, numa época em que o streaming parecia uma solução paliativa ao poder da MP3, tanto que os principais sites de streaming faliram logo depois e, estranhamente, uns dez anos depo...

Tia Iraci

Leio o noticiário e vejo que um acidente vitimou três pessoas na BR-364, uma das rodovias mais perigosas do Brasil, na altura da cidade de Jaciara. Entre as vítimas estava uma pessoa chamada Iraci Romagnolli. Seu nome poderia não me dizer nada, mais sua foto não me deixaria não saber quem era. Tia Iraci, minha professora de pré-escola, minha primeira professora no colégio Patronato Santo Antônio. Tia Iraci com seu jeito tranquilo, seus cabelos loiros e seu fusca vermelho me ensinou, lá em 1993, quando é que o M ou o N deveriam ser usados antes de outras consoantes. Contou longas histórias sobre cada uma das letras do alfabeto e o que elas faziam, como elas deveriam ser usadas. Me colocou para fazer caligrafia, mas não adiantou muita coisa. Fiz parte da primeira turma de Pré-Escola do Patronato Santo Antônio e quando eu deixei o colégio em 2004, ela ainda estava trilhando os alunos nos primeiros caminhos da vida escolar. Pelo o que vi no noticiário, ela continuava trabalhando por ...

Não deve ser fácil ser Andy Murray

Ali está Andy Murray. É um grande tenista, não um tenista perfeito, mas um dos melhores que já vimos nos últimos anos. Se defende muito bem, tem um jogo de fundo quadra muito bom, bate muito bem de esquerda e ainda tem qualidade para subir na rede. O principal problema de Andy Murray é sua cabeça, que muitas vezes viaja além da conta. Nos jogos do escocês, suas reações, lutando contra seus demônios internos, muitas vezes são uma atração a parte. Andy Murray conquistou dois títulos de Grand Slam na carreira. É um bom número, mas talvez seja pouco para alguém com o talento que ele tem. Andy Murray deve se atormentar ainda mais, lamentando ter nascido em 1987 e por ser obrigado a jogar com adversários que fazem parte de uma espécie de Segunda Era Dourada do tênis. Assim como no início dos anos 80 o esporte foi dominado por Bjorn Borg, John McEnroe e Jimmy Connors, o tênis desde a metade da década passada foi dominado por Roger Federer, Rafael Nadal e Novak Djokovic, nessa ordem. Murra...

Oito Odiados

Ah, pensei em falar aqui sobre Quentin Tarantino e o seu estilo de cinema, amado por muitos e odiados por outros tantos. Pensei em falar que Oito Odiados parece encerrar uma trilogia de filmes de época do cineastra. Assim como na sua primeira trilogia de violência urbana, o terceiro filme é o pior. Oito Odiados parece ser uma mistura de vários filmes de Tarantino. Se desenvolve um pouco como Cães de Aluguel, é dividido como Bastardos Inglórios e acaba em um banho de sangue como Django Livre. Tim Roth interpreta o mesmo personagem interpretado por Christoph Waltz nos últimos dois filmes de Tarantino e enfim. É um bom entretenimento, mas saí do cinema com a percepção de que já havia visto isso antes.

David Bowie e a morte como último ato

Em 1997, aos 65 anos, a lenda norte-americana do Country, Johnny Cash, foi diagnosticado com uma doença degenerativa que iria o matar em breve. Demorou seis anos, período no qual Cash voltou a conquistar sucesso com o público após alguns anos de esquecimento. O momento máximo desse reencontro foi o lançamento do clipe de Hurt, um cover do Nine Inch Nails adaptado ao estilo de Cash. A versão era tão poderosa, que acabou por se transformar na versão definitiva da canção. O próprio Trent Reznor confirmaria essa impressão. Se a versão original do NIN era sobre o vício em drogas e autodestruição, na voz daquele senhor de quase 70 anos - que todos sabiam que iria morrer em breve - Hurt se transformou em um grande balanço sobre a vida. A letra triste e as contatações "Todos que eu conheço vão embora no final", "Eu vou fazer você sofrer" e "Se eu pudesse começar de novo a milhões de milhas por aqui, eu poderia me encontrar, eu acharia um caminho" fazem chorar. A...

Grilo

O grilo, sempre simpático, sempre falante, apareceu na nossa sala, sobre o ventilador. Precisamos tirar esse grilo daí, ele precisa voltar para o jardim. Chegamos perto do ventilador e o grilo se virou para nós e levantou suas assas. Esse grilo não está para brincadeira. Ele seria capaz de matar uma pessoa. Muita sacanagem fez Deus a jogar milhares deles sobre o povo egípcio. Mas o grilo não pode ficar aí. Jogamos um pouco de veneno no grilo. Ele fica meio tonto e conseguimos jogá-lo para fora. Pouco depois vemos ele subindo a parede. Uma máquina. Uma máquina mortífera. Mais tarde vemos o grilo agonizando até a morte. O veneno não o mata instantaneamente, mas sim lentamente. Ele treme e pouco depois morre. Que morte horrível. Por que fizemos isso? Me sinto um ser humano predador da natureza e vou dormir com peso na consciência.

Museu da Língua Portuguesa

Em setembro de 2007 eu estava de férias em São Paulo e fui ao Museu da Língua Portuguesa com um tio e uma prima. Não sei se tinha muita expectativa em visitar aquele prédio histórico com um museu que homenageia algo tão intangível quanto uma língua. Sei que tive uma experiência moldadora de caráter lá dentro. Primeiro na exposição temporária, sobre Clarice Lispector, que me deixou espantado com dezenas de frases e me levou a comprar um livro dela que eu li com muito esforço. O impacto das frases de Clarice Lispector naqueles paredes permanece maior em mim do que qualquer livro ou post de Facebook. Descobri várias coisas lá dentro, naquele ambiente interativo. Uma visita ao Museu da Língua Portuguesa me valeu tanto conhecimento sobre o assunto quanto alguns anos de colégio. Deveria ser uma visita obrigatória para alunos de escolas públicas. Voltei até lá uma outra vez, em 2014. Antes de que o prédio fosse consumido pelas chamas. O prédio pode ser reconstruído, a maior parte de seu...