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David Bowie e a morte como último ato

Em 1997, aos 65 anos, a lenda norte-americana do Country, Johnny Cash, foi diagnosticado com uma doença degenerativa que iria o matar em breve. Demorou seis anos, período no qual Cash voltou a conquistar sucesso com o público após alguns anos de esquecimento.

O momento máximo desse reencontro foi o lançamento do clipe de Hurt, um cover do Nine Inch Nails adaptado ao estilo de Cash. A versão era tão poderosa, que acabou por se transformar na versão definitiva da canção. O próprio Trent Reznor confirmaria essa impressão. Se a versão original do NIN era sobre o vício em drogas e autodestruição, na voz daquele senhor de quase 70 anos - que todos sabiam que iria morrer em breve - Hurt se transformou em um grande balanço sobre a vida. A letra triste e as contatações "Todos que eu conheço vão embora no final", "Eu vou fazer você sofrer" e "Se eu pudesse começar de novo a milhões de milhas por aqui, eu poderia me encontrar, eu acharia um caminho" fazem chorar. Ainda mais com o emotivo clipe que contrasta imagens de Cash jovem e velho e de flores em seu esplendor e morrendo.

Johnny Cash morreria seis meses depois e Hurt sempre será uma espécie de funeral público dele enquanto artista. Uma acontecimento praticamente único no mundo da música.

Janeiro de 2016. David Bowie lança o clipe de Lazarus, presente em Blackstar 27º disco gravado em estúdio por um artista que se transformou em um sinônimo de reinvenção. Clipe lançado na sexta-feira e as pessoas reparam na sua produção impecável, algumas em como Bowie ainda mantém a forma, mesmo já estando bem mais velho. Até que três dias depois David Bowie morre e todos passam a perceber o que era aquilo.

David Bowie foi um artista que nunca chegou a ser esquecido pelo público. Seus discos sempre tiveram boas performances de vendas no Reino Unido, muito porque ele sempre foi um lançador de tendências, um cara que entendeu o mundo a sua volta e utilizou suas referências para transformar o mundo em arte.

A trajetória de Bowie é tão cheia de mudanças e aventuras artísticas, que por vezes parece inacreditável que tudo aquilo fosse natural. De fato, acredito que foi tudo planejado. Bowie devia saber desde o começo onde é que tudo iria terminar.

Suas letras muitas vezes nonsense, seus personagens andróginos e surreais que eram mortos no auge do sucesso. Bowie transformou sua vida em arte, fez da arte sua vida. Participou de filmes, de peças de teatro, escreveu musicais. Nunca quis ser o mesmo. Foi ele próprio de maneiras muito diferentes. Abraçou o folk, o glam rock, a psicodelia, o hard rock, a música eletrônica, a dance music, sempre de maneira natural. Sua atuação faz com que ele não possa ser comparado apenas a outros músicos. David Bowie realmente foi um artista.

Sumiu após uma cirurgia cardíaca realizada em 2004. Não fez mais shows desde 2006. Voltou em 2013 com o lançamento de um disco após dez anos. Blackstar parecia ser apenas a continuação de uma carreira, mas não era.

Depois de morrer, tudo passou a fazer mais sentido em Lazarus, seu último clipe. É impossível não olhar agora e não ver como Bowie estava doente, magro, a pele sem brilho. Não há como não olhar para a letra e não ver a despedida, de alguém que sabia que a música seria muito mais escutada depois que ele morresse. Sua cena deitado na cama, sem conseguir levantar. Sua dança frágil e suas últimas palavras escritas em um papel. O perturbador final em que ele entra num armário para nunca mais sair.

Ele sabia de tudo, sabia de sua morte e a utilizou como um último ato artístico. Transformou sua morte em arte, da mesma maneira que fez com sua vida. Um ato frio, calculista, até mesmo extremista. Perturbador como a frieza de quem tem como um dos últimos atos em vida, seguir o perfil de Deus no Twitter.

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