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Todos juntos, vamos?

No dia em que o Brasil estreou na Copa de 1994 fui pego de surpresa ao ser liberado mais cedo da aula. De fato, não havia me ligado que o Brasil jogaria naquele dia e estranhei ainda mais que, quando fomos liberados, o pátio já estava cheio de pais que foram buscar seus filhos, inclusive minha mãe. Como é que todos sabiam disso? Onde é que eles haviam combinado? Vale lembrar que na época não existia Facebook. O jogo da seleção era um evento nacional que reunia pessoas em volta da televisão. Tive a certeza naquele dia de que ninguém morria em hora de jogo do Brasil na Copa. Aliás, jogos da seleção pareciam ter uma certa importância. Me lembro de jogos das Eliminatórias, Copa América, aqueles torneios amistosos excêntricos disputados na Europa, incluindo um esquizofrênico Torneio disputado na França em 1997 que foi vencido pela Inglaterra. Ou as trágicas Olimpíadas perdidas para Nigéria de Kanu, ele é perigoso. Para a Copa de 1998 eu já tinha noção de que o país parava para assistir ...

Man, algumas coisas nunca mudam

Em meio ao barulho dos carros que passavam na Fernando Corrêa, aquela melodia vindo de dentro do colégio me chamava a atenção. Uma música perdida dentro da cabeça, dessas que você não escutava a algum tempo. Assim que virei a esquina e os carros ficaram um pouco para trás consegui reconhecer: "Totaly Crazy, forget I'm a lady". Como era o nome dessa música mesmo? O refrão me responde "Man, I feel like a woman". Shania Twain cantava essa música. Um hit de 1999, 2000. Música que todas as meninas escutavam, e achavam graça. Um hino feminista, de liberdade das mulheres? Não tenho a menor ideia. Acho que apenas gostavam do ritmo, "é gostoso pra dançar", como falam hoje em dia. Aliás, As meninas mais bonitas da turma sempre dançavam essa música, mexendo com a imaginação dos pobres meninos da sexta-série. Olho para dentro do colégio e vejo: meninas da sexta-série dançando essa música. O pop descartável prevê que a canção de sucesso de 1999 seja completamen...

Maldita seja a minha opinião

Foram anos e anos de repressão por parte de um governo autoritário que cerceava a liberdade de expressão de todo e qualquer cidadão. Aliado a isso, não era fácil tornar sua opinião pública, além da mesa de jantar com a família ou da roda de bar com os amigos. Imagino que não era fácil conseguir um quarto de página fora do centro ótico para falar sobre o que quer que você quisesse. A internet resolveu em parte esse problema. Você pode criar um blog, um site, para publicar suas opiniões. Pode emiti-la em 140 caracteres no Twitter ou em infinitos toques no Facebook. Você pode falar sobre manifestações políticas, eleições, futebol, novela, Big Brother, alienação da sociedade de consumo ou monopólio dos meios de comunicação. Pode montar seu palanque virtual. Beleza, porque todo mundo tem direito a opinião e essa não é uma conquista fácil de todos os nossos ancestrais. Mas eis que uma hora enche o saco o fato de todo mundo ter uma opinião. Dar opinião na internet acaba virando uma espé...

A razão de cada um

*Artigo meia boca pro site do Centro Burnier Eu não entendi e tenho a impressão de que você também não entendeu. A imprensa, professores, políticos, todos estão gastando seus neurônios tentando desvendas os motivos que levam milhares de pessoas as ruas em diversas cidades brasileiras. Os jornalistas não sabem nem como chamar as manifestações. É contra o aumento da tarifa de ônibus? Contra os gastos para a Copa do Mundo? Qual é a importância dos 20 centavos? Todo mundo tenta entender. Tenho para mim que essa manifestação é sim contra os 20 centavos, mas é também contra a qualidade do transporte público, contra a PEC 37, contra os gastos com estádios para a Copa do Mundo, contra a violência policial, a corrupção, contra a falta de saúde de qualidade, educação de qualidade, para que as pessoas não escutem música sem fone de ouvido no ônibus, para que o Hulk não seja mais titular da seleção brasileira. Sim, todas essas reivindicações estavam em cartazes nas ruas. Diria que cada uma d...

Pensamentos sobre "Se Beber Não Case"

"Se Beber não Case", o primeiro filme de 2009, era muito engraçado. Poucas vezes ri tanto em uma sala de cinema. Já o segundo filme da série era bem ruim e o terceiro, lançado nesta semana, pode ser considerado apenas fraco. Fora o desgaste natural que qualquer "trilogia" sofre, quando as continuações são feitas apenas para ganhar dinheiro, existem alguns motivos para que o segundo e o terceiro filme não sejam bons. O primeiro Hangover era sobre as besteiras que todos fazem quando ficam bêbados. Você vai para uma despedida de solteiro em Las Vegas e de repente acorda em um quarto de hotel destruído e descobre que lá dentro estão uma criança, uma galinha e um tigre. E pior, o noivo sumiu. Na busca por esse noivo desaparecido, os amigos reconstroem os passos da noite anterior e  descobrem que um deles arrancou um dente e se casou com uma prostituta, que eles roubaram um tigre do Mike Tyson e o carro de um policial, sequestraram um criminosos chinês e gastaram uma ...

Não, o novo do Strokes não é uma merda completa

Não vamos ser ingênuos. Todos nós estávamos prontos para detonar o disco novo do Strokes. E a culpa disso, não tem como negar, é deles próprios. A verdade é que os Strokes nos decepcionaram. Lançaram um ótimo disco de estreia, um razoável segundo disco e depois lançaram dois discos bem ruins. A diferença na ruindade desses dois trabalhos, é que First Impressions of the Earth tinha uma ruindade convencional, enquanto que Angels era ruim inovando. A semelhança é que os dois tinha singles muito bons. Quando foi lançada One Way Trigger , a primeira música do quinto álbum dos antigos salvadores do rock, Comedown Machine , todos nós nos assustamos. O começo da música lembra um desses tecnobregas da vida e Julian Casablancas cantava em um falsete bisonho. Pronto. Dessa vez nem o primeiro single deles é bom, o álbum vai ser uma porcaria. A partir daí todos pegamos em pedras e esperamos o lançamento do disco para arremessa-las. Li uma resenha que enumerava uma centena de palavras para def...

Pattie Boyd

Pattie Boyd O romance envolvendo George Harrison, Pattie Boyd e Eric Clapton é um dos mais conhecidos triângulos amorosos da história. Sempre achei o caso interessante. A princípio, a visão que nós temos é bem simplista. Pattie trocou o sensível George Harrison, aquele que lhe cantou a sentimental Something na cozinha, pelo intempestivo Eric, aquele que a mostrou a passional Layla na sala. E se há uma mulher irresistível neste mundo, esta mulher é Pattie Boyd. Só que o trio Boyd-Harrison-Clapton é apenas a parte mais famosa de uma série de relações amorosas e traições, que envolveram metade do rock britânico da época. E o que eu acho incrível, é que todos continuaram convivendo ao longo dos anos. George Harrison Pattie Boyd era uma modelo que fazia figuração em um vagão de trem durante a gravação de uma cena de A Hard Day’s Night, o primeiro filme dos Beatles. George era justamente um Beatle. Eric Clapton era o deus da guitarra e converteu vários fãs em suas inúmeras bandas...

Laerte

A revista piauí de Abril deste ano trouxe um perturbador perfil sobre o cartunista Laerte, um dos principais cartunistas brasileiros dos anos 80 que recentemente passou a se vestir de mulher. Considero o perfil perturbados por um simples motivo: não consegui entender os motivos dele ao final do texto. Faço parte de uma geração, ou um grupo de pessoas que entende que existam homens que gostem de homens, mulheres que gostem de mulheres, quem goste de todo mundo, quem queira mudar de sexo porque se sente aprisionado em um corpo errado. Laerte não parece estar em nenhum caso. Laerte se assume bissexual, mas não me deixou convencido sobre os motivos que o fazem querer se vestir igual uma mulher. Nem ele nem a maior parte dos crossdressers entrevistados ao longo do texto. Não me parece que eles se sintam melhores vestidos como mulheres, que eles queiram ser mulheres. Parece mais que eles estão ali por um fetiche, ou, talvez, pela diversão de contrariar as convenções da sociedade. Uma que...

Os 23 de Felipão na Copa das Confederações

A lista de 23 convocados de Luís Felipe Scolari para a Copa das Confederações trouxe uma grande polêmica: a ausência de Ronaldinho Gaúcho. Tenho que dizer que concordo com sua não-convocação. Ronaldinho é um jogador com brilhantes passagens em sua carreira mas que sempre fracassou na seleção brasileira, para esperneio de Lúcio de Castro. Já jogou como meia-armador, ponta esquerda, segundo-atacante e teve poucos momentos de brilho. Foi coadjuvante de Ronaldo e Rivaldo em 2002, coadjuvante de Adriano na Copa das Confederações em 2005 e fracassou na Copa de 2006, quando era o melhor do mundo. Tudo porque Ronaldinho é um jogador sem sangue. Falta a ele a percepção de que decide jogos decisivos. Acabou com aquele histórico Barcelona e Real Madrid em 2006, mas o jogo já estava 1x0 quando ele apareceu com brilho. Na final da Champions League daquela temporada, Ronaldinho foi uma nulidade em campo. Seus maiores momentos de brilho na carreira, ocorreram em jogos que já estavam mais "tr...

Os 10 anos de Elephant

Minha tia assinava a Folha de S. Paulo. Creio que sempre foi assim e lá pela época da virada do Século XXI eu sempre ia na casa dela para dar uma olhada no caderno de esportes nos quadrinhos do Ilustrada. Criei até uma ordem para ler os quadrinhos, de forma que meus preferidos ficassem para o final. Em 2003 não era diferente. Mas, nesta época eu estava me interessando por música e aproveitava para dar uma olhada na parte musical do caderno. Foi ai então, em algum dia de março ou abril de 2003, que vi uma matéria sobre o lançamento do novo disco dos White Stripes. Texto provavelmente escrito por Lúcio Ribeiro, provavelmente falando bem do disco, porque o Lúcio era bem puxa-saco dos Stripes. A única informação que ficou gravada na minha cabeça é de que o lançamento de Elephant tinha sido antecipado, devido ao seu vazamento na internet. Aquilo ainda era uma coisa nova. Naqueles tempos não era fácil escutar música na internet. O Youtube não existia, assim como os sites de compartil...

Reminiscências de Primeiros de Maio

O Primeiro de Maio nunca foi meu feriado preferido. Claro que na vida adulta todos os feriados são legais, mas quando se é criança é diferente. No Primeiro de Maio ninguém ganhava presentes e, tal qual acontecia no Sete de Setembro, a programação de desenhos era interrompida para ficar mostrando discursos e outros eventos. Além do mais, quando se é criança não se sabe o que é trabalho e logo não se valoriza o Dia do Trabalhador. Minha relação com o Primeiro de Maio ficou ainda pior em 1994. O fim de semana macabro da Fórmula 1 que vitimou dois pilotos após mais de 10 anos sem acidentes fatais. Olhando em retrospectiva, parece óbvio que algo estava errado. O terrível acidente de Rubens Barrichello na sexta, o horrível acidente de Ratzenberger no sábado. Sim, que cena horrível foi ver aquele carro despedaçado surgir do nada, a cabeça mole, a mancha de sangue. Mas, não achei que ele morreria, com minha incredulidade de alguém de sete anos que não sabia que pessoas morriam na Fórmula 1. ...

O medo nas estradas

Tatiana era a menina mais alta da 3ª Série. Nessa época em que as meninas crescem mais rápido e algumas acabam se destacando. A menina mais alta da turma costuma a ser uma figura caricata, meio abobada, tira notas baixas e se destaca nos esportes de força, como a queimada. Costuma a ser alvos de muitas piadas e invariavelmente bate nas meninas menores e acho que nos meninos também, afinal, ela é mais forte. Numa dessas situações, Tatiana estava brigando com alguém - aquelas brigas de crianças se empurrando - escorregou e caiu em cima de mim, que estava sentado junto a parede. Fui parcialmente espremido contra a parede e fiquei meio zonzo. As outras pessoas em volta começaram a gritar, aquele grito de "eeee eeee", de quando alguém faz uma besteira. O alvo dos gritos invariavelmente irá sofrer algum tipo de punição. Tatiana então se ajoelhou ao meu lado para pedir desculpas, jurando que não havia sido por querer. Falei que tudo bem e ficou por isso mesmo, tirando o gosto de...

Informação na Internet

(Artigo meio meia-boca para o site do Centro Burnier) Uma das coisas mais interessantes que a internet proporciona é o acesso ao conhecimento. Na minha época de estudante de colégio, realizar um trabalho sobre qualquer assunto não era das tarefas mais fáceis. Era preciso buscar algum livro que falasse sobre o assunto desejado e na maioria das vezes este livro não estava na sua casa. Era uma sorte grande ter um parente que tivesse uma enciclopédia em casa. Não é a toa que existiam tantos vendedores de Barsa antigamente. Uma enciclopédia significava todo o conhecimento do mundo dividido em 20 e poucos fascículos dispostos na estante da sala. Para fazer o trabalho, você se sentava e passava a copiar manualmente o artigo sobre o item que você pesquisava, absorvendo algo durante o processo. Nos tempos da internet isso mudou. A informação está em várias fontes aleatórias que podem ser alcançadas com uma busca simples no Google. Ficou infinitamente mais fácil se informar sobre qualquer...

Três cenas no interior (Comunidades Inimagináveis)

Quando eu fiz minha monografia, fui apresentado a um conceito de Benedict Anderson que dizia que as nações eram comunidades imaginadas. Tudo porque nós não conhecemos a maior parte das pessoas que vivem em nosso país, mas podemos imaginar a sua existência. Podemos imaginar o movimento anônimo e constante nas ruas. Imaginamos a nação como algo que sempre existiu e que sempre vai existir, vagando solidamente pelo espaço e pelo tempo. Aliás, Anderson diz que qualquer comunidade maior do que uma vila com poucos habitantes já é imaginada, pelas razões especificadas. Viajando pelo interior de Mato Grosso, muitas vezes me deparo com situações que vão além das comunidades imaginadas. São as verdadeiras comunidades inimagináveis, que não conhecemos, não pensamos que possam existir de verdade. E ainda existem os lugares ainda mais inimagináveis. 1) Me lembro de que em uma das minhas primeiras viagens, vim de Rondonópolis para Cuiabá por uma série de estradas vicinais que chegariam a Barão do...