Pular para o conteúdo principal

A viagem do Carrinho

O aniversário do meu filho estava chegando e o meu pai teve a ideia de dar para ele uma miniatura da Ferrari do Charles Leclerc, já que não deve ter nada que meu filho goste mais do que de carrinho, de Ferrari e do Charles Leclerc (coitado).

Pois bem, fui no site da Amazon, encontrei um modelo, o prazo de entrega era compatível e comprei. Só no dia seguinte, quando o produto foi enviado, é que eu percebi que eu acabei enviando o carrinho para a casa do meu tio em Florianópolis.

Explico, uma vez eu comprei um presente para minha afilhada lá e o endereço ficou salvo. E, por alguma razão, a Amazon achou que esse era o endereço principal de entrega. Eu sempre trocava, mas dessa vez, pelo jeito, esqueci.

Tentei falar com atendentes para trocar o destino, mas não foi possível. Aliás, mais do que impossível, eles me deixaram na dúvida, falando que talvez desse certo, talvez não, só me restava esperar.

Bem, a loja que vendeu o carrinho ficava em São José. São José, para quem não sabe, é o município vizinho de Florianópolis. A loja, aliás, ficava em uma rua meio esquisita, mas tudo bem. Até joguei no Google e vi que a distância do estabelecimento até a casa do meu tio era de 32 km, pelo menos a entrega ia ser rápida.

Pois, o pacote foi inicialmente enviado para Itajaí - era o sentido contrário, mas tudo bem, pode ser a logística de distribuição local deles.

Só que aí, no dia seguinte, mandaram o pacote para Barueri-SP. Não fazia muito sentido, a não ser que… sim, que eles tenham conseguido alterar o endereço e o carrinho fosse ser entregue aqui em casa. Vai dar tudo certo, pensei.

Só que aí no dia seguinte o pacote voltou para Itajaí. Em dois dias, o pacote saiu de Itajaí, viajou 600 km até Barueri, recebeu alguns carimbos e voltou para Itajaí. Mil e duzentos quilômetros em dois dias, nada mal para uma Ferrari em miniatura.

No entanto, esse mirabolante plano de acúmulo de milhas do carrinho do meu filho ainda não havia terminado.  No dia 19 o pacote foi mandado para… Jundiaí! Jundiaí fica a 50 km de Barueri, mas a transportadora resolveu fazer essa viagem dando uma volta de 1.200 km. Tudo isso para dois dias depois o pacote voltar para Barueri novamente.

A essa altura eu já entendia nada, não tinha a menor expectativa de onde esse pacote seria entregue. Ele estava em Barueri no dia 16 de abril e cinco dias depois estava no mesmo lugar, só que dando uma volta pelo Brasil.

Finalmente no dia 22 o pacote chegou em uma instalação da transportadora em… adivinha: em São José. Foram nove dias na estrada para voltar ao local onde já estava a loja que vendeu o produto. Certamente essa logística foi planejada por um certo ex-ministro da Saúde do Brasil, que era especialista no assunto.

O pedido foi finalmente entregue na casa dos meus tios. Lembra a distância de 32 km entre a loja e a casa do meu tio? Ele foi vencido em dez dias, depois do carrinho percorrer aproximados 2.687 km (isso dá quase nove corridas).

Não tenho a menor ideia de quanto de combustível foi desperdiçado nessa enorme demonstração da eficiência infalível da iniciativa privada.

Comentários

Postagens mais visitadas

Rio 16 +10

 Há pouco mais de dez anos, no dia 5 de agosto de 2016, saí do trabalho um pouco mais cedo. Era o dia da cerimônia de abertura dos Jogos do Rio de Janeiro e, por mais que eu não me considerasse um fã dessas cerimônias, acabei me contaminando pela empolgação do meu chefe. (O sair um pouco mais cedo significa que eu deixei o trabalho por volta das 19h, em vez de ficar até às 19h30 como de costume). Sei que quando cheguei em casa a cerimônia estava em andamento. Perdi o Paulinho da Viola tocando o hino. Mas o que vi depois me deixou maravilhado. Um show de música, história e efeitos visuais. As favelas construídas ao som de Chico Buarque. O voo de Santos Dumont mostrando o Rio de Janeiro ao som do Samba do Avião. Poucas vezes o Brasil acertou tanto ao se mostrar. Um país de suas belezas e mazelas, glorioso em sua grandeza e miséria. Longe da perfeição, mas sincero. Jorge Ben fez a festa e o final com Caetano, Gil & Anitta foi a apoteose. Também teve a nossa tocha. Quando Guga viro...

Aonde quer que eu vá

De vez em quando me pego pensando nisso. Como todos sabem, Herbert Vianna, dos Paralamas do Sucesso, sofreu um acidente de avião em 2001. Acabou ficando paraplégico e sua mulher morreu. Existe uma música dos Paralamas, chamada "Aonde quer que eu vá" que é bem significativa. Alguns trechos da letra: "Olhos fechados / para te encontrar / não estou ao seu lado / mas posso sonhar". "Longe daqui / Longe de tudo / meus sonhos vão te buscar / Volta pra mim / vem pro meu mundo / eu sempre vou te esperar". A segunda parte, principalmente na parte "vem pro meu mundo" parece ter um significado claro. E realmente teria significado óbvio, se ela fosse feita depois do acidente. A descrição do acidente e de estar perdido no mar "olhos fechados para te encontrar". E depois a saudade. O grande detalhe é que ela foi feita e lançada em 1999. Dois anos antes do acidente. Uma letra que tem grande semelhança com fatos que aconteceriam depois. Assombroso.

(...)

Existem textos que não deveriam ser escritos, simples assim. No mundo perfeito, um texto sobre a morte de alguém não deveria ser feito. Quando esse alguém era um amigo muito querido, a situação é pior ainda. Eu não queria ter que escrever sobre o Dyolen. Mas percebi que precisava. Eu devia fazer essa homenagem a ele, antes que o tempo cicatrizasse as feridas de um fim-de-semana que mais pareceu um pesadelo. Pensei em tantas coisas. Pensamentos abstratos sobre a vida. Mas tentei ser objetivo. E listar momentos marcantes nesses cinco anos em que convivi com ele. 1 Festa do Calouro: Era uma festa do calouro organizada pela nossa turma, estávamos no segundo semestre em 2006. Em certo momento, Dyolen foi nos ensinar três movimentos básicos da dança “atira, defende, a faca”. Não dá para explicar os movimentos em palavras. Mas a dança do Dyolen foi um marco. É quase impossível se lembrar do Dyolen sem pensar em “divertido”. Dyolen me cumprimentava rindo. Sempre ria ao encontrar qualquer pess...