Banda londrina surgida no início dos anos 60, o The Who é até hoje um dos conjuntos mais importantes da história. Um quarteto explosivo, com uma base rítmica muito forte e potente. Ao longo de mais de 60 anos de carreira eles gravaram 12 discos de estúdio, lançaram inúmeras coletâneas e gravações ao vivo, porque sempre foi nos shows que o som deles fazia sentido. Abaixo faço uma análise dos trabalhos de estúdio, com adições de algumas coletâneas importantes e grandes registros ao vivo.
My Generation (1965)
O cartão de visitas do The Who mostra uma banda enérgica, que adora R&B, mas ainda sem encontrar o seu ápice. Há dois covers de James Brown, muitas músicas explorando harmonias vocais à la Motown (aproveitando o fato de que os quatro membros se arriscavam a cantar na época), um single clássico (The Kids Are Alright) e, claro, My Generation, música que marcou a história do grupo e virou sua assinatura, com a batida firme e o verso sobre querer morrer antes de envelhecer. Uma exceção na produção, que tem a tendência de tentar conter o som do grupo, para não descambar para a selvageria.
A Quick One (1966)
O segundo disco do The Who funciona como uma continuidade do primeiro trabalho, um pouco mais pop e ainda dialogando com a invasão britânica. A música que se destaca é a última, A Quick One While He’s Away. Um protótipo de ópera rock que guiaria os trabalhos seguintes do grupo. O final catártico empolga e as versões ao vivo eram apoteóticas, incluindo uma clássica na apresentação do grupo no Rock N Roll Circus dos Rolling Stones. A versão é tão boa que, dizem as más línguas, os Stones não lançaram este álbum ao vivo por ciúme da qualidade do Who.
The Who Sell Out (1967)
Pensado como um disco conceitual, no qual as músicas são amarradas por pequenas propagandas fictícias, The Who Sell Out é o grande disco de estúdio do Who. Estamos em 1967, portanto o quarteto também bebeu da inspiração psicodélica e de um pouco de folk rock, fazendo seu primeiro disco realmente coeso. Entre as grandes músicas estão a engraçada Tattoo, a bela Our Love Was e Sunrise, número solo de Townshend com influência de Bossa Nova. Há ainda I Can See For Miles, música que indiretamente inspirou o surgimento do Heavy Metal.
Tommy (1969)
Talvez o trabalho mais famoso do grupo e certamente àquele que definiu a imagem pública dele durante muito tempo. Trata-se de uma ópera rock, provavelmente o primeiro trabalho da história a ganhar esta descrição. Tommy narra a história de um garoto que, após sofrer um trauma infantil, se torna catatônico. Em busca de uma solução ele é submetido a todo tipo de abuso físico, psicológico e sexual, utiliza drogas e só consegue se expressar por meio do pinball, ganhando uma legião de seguidores fanáticos. Ele acaba libertado por meio da terapia, após um médico descobrir que os sintomas eram psicossomáticos. Tommy então se transforma em um líder religioso. Uma história complexa e o próprio disco não é fácil, com vários pequenos números preenchendo a história. Que seja, Pinball Wizard se tornou o primeiro grande clássico do grupo desde My Generation.
Live at Leeds (1970)
Com quatro bons discos de estúdio e uma boa coleção de singles, o The Who ainda não tinha um trabalho exatamente espetacular. Mesmo os melhores discos tinham inconsistências e uma falta de foco que os colocavam atrás de contemporâneos como Kinks, Stones e, claro, Beatles. Parte desta sensação vinha da impressão de que eles eram ótimos músicos, mas essa potência não era bem captada em uma sala com microfones. Por isso, Live at Leeds é o disco definitivo do quarteto.
Aqui tudo soa perfeito. Keith Moon conduz as baquetas como uma locomotiva sem freio, enquanto Entwistle toca o baixo com maestria. Townshend coloca sua guitarra para uivar. Aqui está o The Who pai do Hard Rock e padrasto do punk. As músicas de Tommy, executadas quase na íntegra, ganham um novo pulso. A abertura com Heaven & Hell é catarse pura, enquanto Magic Bus - originalmente uma bobagem riponga em estúdio - se transforma em uma apoteose. Impressionante como quatro caras conseguem fazer tanto barulho com acordes relativamente simples.
O disco foi gravado no refeitório da Universidade de Leeds e ganhou aclamação mundial. Tal qual Pelé, que recebeu uma placa por um gol marcado no Maracanã, o The Who recebeu uma placa em Leeds, lembrando que ali foi gravado o maior disco ao vivo de todos os tempos.
Who's Next (1971)
Outro clássico da banda, mostrando que o grupo estava no seu auge criativo. Who’s Next é a primeira vez em que o The Who soa como The Who em estúdio. Mesmo sendo fruto de uma tentativa frustrada de fazer uma nova ópera-rock, esse trabalho é coeso sonoramente. Desde a abertura com Baba O’Riley, em que Roger Daltrey parece ter finalmente encontrado sua voz de cantor, soando como se estivesse no topo de uma montanha cantando para devotos. O disco termina com Won’t Get Fooled Again, épico de oito minutos e meio com um fantástico solo de bateria e um grito seminal de Daltrey, que muitos consideram o maior momento do rock. (Mas, caso queiram saber, as versões ao vivo lançadas como bônus alguns anos depois mostram que o Who sempre podia melhorar ao vivo).
Meaty Beaty Big and Bouncy (1971)
Coletânea de singles, boa parte nunca esteve presente em álbuns. Uma ótima forma de conhecer o trabalho inicial do grupo, incluindo o single inicial I Can’t Explain, a magnífica The Seeker e Substitute, talvez a melhor canção do grupo pré-Tommy (e um dos raros casos de canção perfeita em estúdio e nem tanto ao vivo).
Quadrophenia (1973)
O sexto disco do Who é mais uma ópera-rock, desta vez sobre um jovem trabalhador anfetaminado que gosta de curtir a vida e o The Who. Apesar do sucesso de crítica e de ser querido pelos fãs, Quadrophenia é um disco mais difícil de se apegar. Abusa bastante dos sintetizadores e a produção é um pouco exagerada, perdendo muito da espontaneidade que sempre marcou o trabalho deles. Mesmo assim, o número final é mais um clássico: Love Reign O’er Me.
Odds & Sods (1974)
Nova compilação, dessa vez de músicas nunca lançadas antes, ou que foram apenas lados B. Talvez seja o disco mais rock de arena do The Who, com belas músicas como Too Much of Anything e Naked Eye. Para ficar um pouco melhor, Odds & Sods poderia ter incluído alguns singles extras como Let’s See Action e Join Together.
The Who By Numbers (1975)
A crise dos 30 anos bateu em Pete Townshend na forma de um bloqueio criativo. Também há uma pitada de desilusão e depressão, o que faz com que este seja o disco mais triste lançado pelo conjunto. Squeeze Box ainda é uma tentativa de soar como o que se imagina que seja o The Who, mas no geral o grupo parece desesperançoso como nunca antes - ou depois. Imagine a Man é quase um bilhete suicida, enquanto How Many Friends coloca a vida de famoso em retrospectiva.
Who Are You (1978)
A faixa-título que encerra o disco é um clássico do grupo, sempre tocada em seus shows, música emblemática imortalizada em uma das aberturas de CSI. Mas, Who Are You é certamente o pior trabalho que o The Who lançou até então. É o momento exato em que eles se transformam em dinossauros do rock (processo iniciado lá no Quadrophenia). Não há mais energia e a produção tenta compensar, incorporando elementos do rock mais comercial da época, tentativa de tocar nas rádios após o relativo fracasso comercial de Who By Numbers. Neste processo, músicas como Music Must Change e Guitar and Pen se tornam bem irritantes. Este seria o último trabalho lançado pelo baterista Keith Moon. Ele morreria de overdose de sedativos 20 dias após o lançamento de Who Are You.
Face Dances (1981)
Coube a Kenney Jones a quase impossível tarefa de substituir Keith Moon nas baquetas. E, claro, ele não conseguiu. O disco também não ajudou. Face Dances é uma continuação do trabalho anterior como mais uma música estilo o que o The Who deveria soar (You Better You Bet) e um punhado de canções fracas.
It's Hard (1982)
Por muito tempo este seria o último disco de estúdio do The Who. E se eles já eram dinossauros, aqui a idade chegou de vez. Na capa do disco eles já parecem com um bando de senhores tentando parecer descolados. O álbum é um compilado de hard rock com sonoridade blues. Pouquíssima coisa se salva, talvez só It’s Your Turn. Eminence Front é uma tentativa de fazer uma nova Won’t Get Fooled Again, mas é irritante. Triste fim.
Join Together (1990)
O Who acabou oficialmente em 1983 e retornou para uma turnê em 1989 (apesar de uma breve reunião para o Live Aid em 1985). Essa turnê de retorno originou Join Together, gravado em vários locais dos Estados Unidos. Há Tommy na íntegra (como em Live at Leeds) e outros clássicos de várias épocas. Mas o resultado é muito ruim. Se Keith Moon fazia o grupo explodir ao vivo, o novo baterista Simon Phillips é melancólico. I Can See For Miles perde toda a tensão psicodélica com uma bateria extremamente marcada. A virada de Won’t Get Fooled Again é mecânica. O mito não resiste.
Thirty Years of Maximum R&B (1994)
Grande coletânea lançada em 1994 que reúne singles, greatest hits, b-sides, versões ao vivo e gravações raras. São quatro discos com um grande apanhado da carreira da banda, a melhor coletânea expandida deles.
Live at the Isle of Wight Festival 1970 (1996)
Registro de um histórico show no festival da Ilha de Wight em 1970, espécie de Woodstock britânico. Não é tão bom quanto Live at Leeds, mas é sensacional. Diante de uma multidão incompreensível eles fazem o seu melhor, com boas versões para canções que na época eram esperadas para o Who’s Next, como I Don’t Even Know Myself e Naked Eye. O lançamento também serve para marcar o retorno oficial da banda às atividades.
BBC Sessions (2000)
Compilação com apresentações do grupo na rádio BBC entre 1965 e 1970. Versões ao vivo bem gravadas, enérgicas e boas de serem escutadas. Há gravações inéditas como Just You and Me, Darling e a capa é ilustrada pela icônica foto do grupo enrolado na bandeira britânica, símbolo da invasão dos anos 60.
Endless Wire (2006)
Um quarto de década se passou até que o The Who voltasse a gravar um disco em estúdio. (Dois anos antes eles lançaram uma coletânea, Then & Now, com duas canções novas: Old Red Wine e Real Good Looking Boy). Este é o primeiro disco do Who como um duo, formado por Daltrey e Townshend, já que John Entwistle morreu de overdose de cocaína em 2002. A voz de Roger soa menos potente, mas se adapta ao tom baixo das canções. O disco, para variar, tem um lado conceitual, com uma mini-ópera rock e termina com uma bela canção: Tea & Theatre, balada reflexiva sobre o passar dos anos.
WHO (2019)
Mais alguns anos se passaram e o novo disco, por incrível que pareça, é o mais parecido com o velho The Who em mais de 40 anos. Zak Starkey mostra em All This Music Must Fade e Detour que ele pode ser filho do Ringo Starr, mas que de fato aprendeu a tocar bateria com Keith Moon. Detour, aliás, traz aquela vibração da Motown típica dos primeiros discos. Se este for o final, é um fim digno.
Por fim, segue a minha ordem de discos do The Who do menos até o meu favorito.
12 It's Hard
11 Face Dances
10 Who Are You
9 Endless Wire
8 WHO
7 Quadrophenia
6 The Who By Numbers
5 A Quick One
4 My Generation
3 Tommy
2 Who's Next
1 The Who Sell Out











Comentários