O correspondente de guerra é uma figura quase mítica do mundo jornalístico. Um repórter que é enviado ao campo de batalha para percorrer escombros, fugir de bombardeios, conversar com refugiados e questionar autoridades em busca de informações sobre o conflito que será noticiado.
O jornalismo sempre foi a busca objetiva dos fatos e não há maneira melhor de encontrar a notícia do que vê-la de perto. Já o fato de que um dos postos mais prestigiados do jornalismo é ser um cidadão constantemente ameaçado de morte diz muito sobre as misérias da profissão.
No entanto, o papel do correspondente tem mudado nos últimos conflitos midiáticos. Não vemos mais Marcos Losekann desviando de mísseis na Faixa de Gaza. A cobertura das guerras atuais diz muito sobre as tendências do jornalismo atual.
Primeiro, é preciso levar em conta que o jornalismo é uma profissão que vive em conflito com o mundo da internet. Há uma crise de credibilidade e uma eterna crise financeira, que leva à busca constante pela eficiência dos recursos - ou corte de gastos.
(Deve ser extremamente caro mandar um cidadão para um país em guerra, tantos nos custos de transporte, quanto de hospedagem, além dos seguros de vida. Pelo menos hoje em dia é mais fácil transmitir as imagens com qualquer equipamento).
A cobertura do conflito entre a Rússia e a Ucrânia, assim como dos EUA e Israel contra o Irã se baseia cada vez mais em declarações oficiais. Ok, isso faz parte, mas se em outros tempos havia alguém no local para contestar pontos fracos do discurso oficial, isso hoje em dia não existe. Israel declara que fez tal coisa. O Irã contesta. E assim, entre discursos oficiais - por vezes divulgados em redes sociais - temos que tentar achar o caminho.
O declaracionismo é uma das maldições do jornalismo atual. Aspas fortes rendem manchetes, talvez gerem engajamento, e parece que é mais interessante saber o que uma pessoa disse, em vez de o que ela fez. As manchetes preferem um “Trump diz que matou aiatolá” do que “Trump matou aiatolá”. (Até porque é mais fácil comprovar que alguém falou).
Para ajudar a entender esse emaranhado de declarações, surgem os especialistas. Cientistas sociais, pós-graduados em política internacional, especializados em relações exteriores, mestres em oriente médio, doutores em defesa nacional, ou enfim. Quem vai ajudar a entender as peças do xadrez que se movem diante dos nossos olhos.
Isso também não é diferente do jornalismo atual, cada vez mais recheado de programas de especialistas debatendo assuntos, mesmo que o que eles façam não sejam necessariamente debates, mas monólogos simultâneos sobre o mesmo tema. Fruto talvez da era das celebridades potencializada pelas redes sociais, em que cada um tem sua arroba favorita para se informar sobre determinado assunto.
Por fim, temos as imagens de redes sociais. Em outros tempos havia cinegrafistas contratados, especialistas em áreas de conflitos, TVs locais que distribuíam as cenas. Hoje em dia vivemos com a divulgação de imagens publicadas em redes sociais. O que mais vemos da guerra são cenas filmadas de janelas de apartamento, o que contribui para um certo distanciamento do conflito.
(Isso também não se diferencia da cobertura atual. Jornais televisivos se especializaram em repercutir vídeos enviados por cidadãos denunciando uma série de absurdos, sem se dignar a ir até o local para compreender a dimensão deste absurdo. É uma espécie de terceirização da produção jornalística, em que o profissional deixa de tentar mediar o diálogo entre cidadão e poder público para se transformar em mero reprodutor de conteúdo alheio).
De todos esses fatores, o que mais me incomoda é o declaracionismo. O que os líderes nacionais dizem é importante e tem que ser levado em conta, é claro, mas estamos diante de conflitos levados adiante por completos malucos, que não são nem um pouco confiáveis em suas intenções, tampouco declarações. Deixar a narrativa em suas mãos não ajuda em nada a entender o conflito.
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