Pular para o conteúdo principal

Campeões piores do que Lando Norris

Ao final da última temporada, Lando Norris entrou para a galeria dos campeões mundiais de F1, clube que tem 35 pilotos participantes. Por razões difusas, Norris acabou se tornando odiado em muitos círculos da Fórmula 1 nas redes sociais, alvo preferencial dos fã-clubes de Verstappen e Piastri (?). O que teve de gente falando que ele seria o pior campeão da história não é brincadeira. Mas isso não é verdade. Norris pode não ter aquele brilho de gênios geracionais como Verstappen, Hamilton, Schumacher e etc, mas está longe de ser uma vergonha na lista.

Vejamos:

Eram piores do que Norris (mas isso não significam que eram ruins. Ninguém vira campeão de Fórmula 1 sendo um Nikita Mazepin da vida)

Phil Hill: o norte-americano foi campeão mundial em 1961, ano em que a Ferrari destruiu a concorrência com seu modelo nariz de tubarão. Neste ano Hill fez pole em cinco das oito corridas e venceu duas delas. Estava sendo superado pelo não tão brilhante assim Wolfgang von Trips, até o trágico acidente que vitimou o alemão em Monza. Venceu duas corridas no ano do título e três na carreira, menor número entre todos os campeões até hoje.

Alan Jones: o australiano conseguiu bons resultados na Shadow (incluindo uma marcante vitória, a única da pequena equipe). Foi para Williams e a partir de 1979 passou a ter o melhor carro da categoria na mão. O regulamento de 1979 não permitiu lutar pelo título, mas em 1980 foi campeão sobre Nelson Piquet e a Brabham, que não deveriam ter dado tanto trabalho assim. Para conquistar o título apareceu uma das características de Jones: o jogo duro, quase sujo, no GP do Canadá. Em 1981 perdeu uma disputa de quase aposentados com Carlos Reutemann e a Williams não foi campeã mesmo tendo o melhor carro. Detalhe: perdeu no duelo de classificações para Reutemann, que não era exatamente um poleman.

Keke Rosberg: campeão culposo de 1982. A seu favor joga o fato de que ele não tinha o melhor carro, mas só uma série de infortúnios e bobeadas alheias lhe deu aquele título. Venceu apenas uma corrida e marcou 44 pontos (imagina alguém ser campeão com 200 pontos na atualidade. É mais ou menos isso). Depois teve momentos razoáveis na Williams, fracassou na McLaren, mas é um campeão sem brilho.

Damon Hill: Tem 22 vitórias, o que é um número impressionante. Mas, dirigiu alguns dos melhores carros dos anos 90 e dá para dizer que só venceu por estar lá. Deu algum calor no Prost em 1993, mas isso diz mais sobre o ano irregular do francês. Perdeu um título impensável em 1995 e, em 1996, com um carro muito mais rápido do que a concorrência, só derrotou um inconstante Villeneuve na última corrida do ano. Em equipes menores fez um brilho na Hungria com a Arrows, ganhou aquele GP da Bélgica com a Jordan, mas, nunca pareceu aquele pobre abnegado fazendo milagres com carros ruins. Sem dúvida pior que Norris.

Cabe discussão (talvez sejam piores, mas há argumentos para dizer o contrário)

Mike Hawthorn: Campeão em 1958 com uma vitória, vencendo o mais rápido Stirling Moss na base da constância. Hawthorn teve uma carreira consistente nos anos 50, mas é aquele típico piloto que fez algum sucesso por conservar bem o equipamento em tempos de muitas quebras. Longe de deixar qualquer marca na categoria, tem seus méritos por entender as corridas da época. Eu acho pior que o Norris, mas cabe discussão.

James Hunt: Muito rápido, personagem folclórico e lendário, esteve presente em uma disputa incrível com Lauda em 1976. Mas, convenhamos, se o austríaco não tivesse quase morrido, perdido duas corridas e voltado após pouco tempo debilitado fisicamente e ainda sofrendo com queimaduras, James Hunt dificilmente teria sido campeão. Enquanto Lauda esteve na disputa em 76, ele abriu 35 pontos em nove corridas. Fez apenas 7 nas últimas 7, nas condições em que estava e Hunt foi campeão por um ponto. Teve uma vitória na pobre Hesketh, poderia ter tido resultados melhores em 1977, mas o personagem é mais interessante que o piloto. Eu acho pior que o Norris, mas cabe discussão.

Mario Andretti: Outro que tem uma áurea especial, um mito norte-americano. Mas, só foi campeão quando teve uma Lotus surreal em mãos e tendo Ronnie Peterson subjugado como segundo piloto por contrato. Seu grande mérito está na sua história nas pistas norte-americanas e em outras categorias, mas na Fórmula 1 não tem números tão brilhantes. Ainda acho melhor que o Norris, mas cabe discussão.

Jacques Villeneuve: Causou boa impressão nas primeiras corridas, foi errático na sua temporada de estreia e, em 1997, foi um campeão discutível. Sua Williams naquele ano tinha mais vantagem sobre a Ferrari do que a McLaren de 2025 teve sobre qualquer adversária. No início do ano frequentemente era mais de meio segundo mais rápido que qualquer concorrente. Largou mal na Austrália e se envolveu em um acidente, após outro começo ruim bateu em Mônaco, novamente no Canadá, rodou na Alemanha, enfim, complicou um campeonato que era para ser fácil e venceu na última rodada. Seu grande mérito foi ter peitado o Schumacher. Depois do título teve momentos razoáveis até 2001, mas foi aos poucos se apagando e se tornou dispensável cedo demais. Acho um pouco pior que o Norris, mas cabe discussão.

Nico Rosberg: um brilho ou outro na Williams e na Mercedes pré-2014. Tem o mérito indiscutível de vencer Lewis Hamilton com o mesmo equipamento, mas contou com algumas presepadas do inglês em 2016, principalmente no início da temporada e na volta das férias. Um dado curioso: Rosberg só superou Hamilton naquele ano quando o inglês fechou a primeira volta abaixo da quinta posição. Pelos números, ainda é um pouco melhor que Norris, mas cabe discussão.

O tempo dirá (Norris ainda terá alguns anos para frente e, esses anos, vão definir seu legado)

John Surtees: o britânico é uma lenda da velocidade, sendo o único homem a ser campeão na Moto GP e na Fórmula 1. Seu título pode ser considerado o mais sortudo de todos os tempos - contou com uma quebra de Jim Clark a duas voltas do fim e com seu companheiro Lorenzo Bandini tirando Graham Hill da corrida e cedendo o segundo lugar na última curva. Mas como foi dito, é uma lenda. Conseguiu seis vitórias, foi vice-campeão em 1966, mas não tem números que emocionem. A depender do que Norris fizer em sua carreira, ficará acima ou abaixo.

Denny Hulme: O neozelandês era um tipo de piloto que hoje em dia dificilmente conseguiria fazer sucesso. Estava longe de ser um expoente da velocidade pura, mas entregava consistência. Para se ter uma ideia, ele marcou apenas uma pole position nas 112 corridas que disputou e isso foi em 1973, quando ele já era campeão e estava perto de se aposentar. Cuidava bem do seu equipamento e chegava ao fim das corridas em uma época em que abandonos eram constantes. Abandonou 29,4% das corridas que disputou. Disparado o melhor índice entre os campeões dos anos 60. O mais próximo é Jackie Stewart com 37%. (Vejam bem, o primeiro campeão e ter um índice menor foi Michael Schumacher, Surtees chegava a 53%). Foi um piloto do seu tempo e conquistou um título na maciota, concorrendo contra um tricampeão do mundo e chefe. Isso o deixa na frente, mas tudo pode mudar.

Jody Scheckter: O sul-africano foi um dos pilotos mais consistentes do grid a partir de 1974. Foi campeão em 1979, vice-campeão em 1977 (correndo de Wolf) e ainda tem dois terceiros lugares (1974 e 1976). Conquistou 10 vitórias e, para ser justo, tem uma carreira muito parecida com Norris - conseguindo resultados consistentes quando não tinha um carro melhor e aproveitando a chance que teve para ser campeão. Portanto, só quando Norris se aposentar poderemos dizer.

Jenson Button: Eis o maior exemplo para explicar porque é importante esperar até o fim para poder tentar se estabelecer uma comparação justa. Quando Jenson Button foi campeão em 2009, ele certamente tinha uma carreira inferior a Norris até aquele ponto. Um terceiro lugar no campeonato de 2004, mais nenhum top 5, um bom desempenho com a Honda em 2006 e boas atuações com a Renault em 2002. Estava sofrendo na Honda de 2007 e 2008 e talvez fosse visto já na fila da aposentadoria, até participar do milagre chamado Brawn GP. Era visto como rápido, porém inconsistente, pouco trabalhador e alguém que desperdiça oportunidades. (Qualquer semelhança com Norris é mera coincidência). No entanto, após o título de 2009 embarcou na McLaren, dobrou o seu número de vitórias, se mostrou um dos pilotos mais inteligentes do grid e conquistou um vice-campeonato brilhante em 2011. Depois sofreu um bocado na péssima parceria com a Honda (eis um homem para tremer quando ver um Civic na rua) e deixou o grid conceituado.

Pois bem, há uma lista ali de pilotos que aconteça o que acontecer, para mim serão piores que Norris. Mas tudo depende do futuro. Caso o inglês consiga um bicampeonato, aí teríamos que compará-lo com Mika Hakkinen, aceitar que ele fez mais do que Farina, Rindt e outros campeões isolados. Se ele não vencer nenhuma corrida a mais até o fim dos seus dias, o seu ponto de comparação passa a ser o Jacques Villeneuve. Mas, aconteça o que acontecer, o pior ele não é não.

Comentários

Postagens mais visitadas

George Harrison de 1 a 10

A carreira solo de George Harrison talvez seja a mais consistente entre todos os ex-integrantes dos Beatles. Entre sua estreia avassaladora até o seu último disco póstumo, George entregou uma série de álbuns razoáveis, sem tantos momentos erráticos quanto seus ex-companheiros. Vamos a uma breve análise da sua discografia. Estreias experimentais Antes de tudo havia o barulho. A estreia solo oficial de George Harrison é com o álbum Wonderwall Music de 1968, trilha sonora para o filme experimental  Wonderwall (alô Noel Gallagher). É uma trilha incidental de base indiana, mas você pode até gostar de Ski-Ing . Em 1969 George lançou Electronic Sound , que avança no território da música eletrônica de vanguarda. (John Lennon havia feito a mesma coisa em parceria com Yoko Ono nessa época). Deixo qualquer opinião para os especialistas. All Things Must Pass (1970) Estreia de fato de George, All Things Must Pass é um disco triplo, sendo que o terceiro LP é uma grande jam experimental. O álbu...

Os 50 maiores artilheiros do São Paulo no Século

(Até o dia 1º de março de 2025) 1) Luís Fabiano 212 gols 2) Rogério Ceni 112 gols 3) Luciano 105 gols 4) Jonathan Calleri 86 gols 5) França 69 gols 6) Dagoberto 61 gols 7) Lucas Moura 58 gols 8) Borges 54 gols 9) Hernanes 53 gols 10) Kaká 51 gols 11) Alexandre Pato 49 gols 12) Washington 45 gols 13) Reinaldo (Atacante 2001-2002) 41 gols 13) Grafite 41 gols 15) Danilo 39 gols 15) Diego Tardelli 39 gols 17) Souza 35 gols 18) Pablo 32 gols 18) Reinaldo (o lateral esquerdo) 32 gols 20) Hugo 30 gols 21) Brenner 27 gols 22) Gustavo Nery 26 gols 23) Alan Kardec 25 gols 24) Paulo Henrique Ganso 24 gols 24) Robert Arboleda 24 gols 26) Aloísio Chulapa 23 gols 27) Júlio Baptista 22 gols 27) Jorge Wagner 22 gols 27) Michel Bastos 22 gols 27) André Silva 22 gols 31) Aloísio Boi Bandido 21 gols 31) Cicinho 21 gols 31) Jadson 21 gols 31) Osvaldo 21 gols 35) Fábio Simplício 20 gols 35) Cícero 20 gols 35) Christian Cueva 20 gols 38) Thiago Ribeiro 19 gols 39) Amoroso 18 gols 40) Adriano Imperador 17 go...

Outras Ausências de Grandes Seleções

Karl Marx diria que a história se repete primeiro como tragédia e depois como farsa. O filósofo alemão não teve tempo de elaborar o que aconteceu com a seleção italiana, que conseguiu a proeza de não se classificar para três Copas do Mundo em sequência. Algo que nunca aconteceu com seleções mais tradicionais. Vamos relembrar as últimas três desclassificações de algumas delas. Itália 2026: As coisas já começaram a ficar estranhas para os italianos quando o sorteio colocou a Noruega no mesmo grupo. Para piorar, a Itália estrearia duas rodadas depois e justamente contra a Noruega em Oslo. A vitória nórdica por 3x0 colocou um abismo de nove pontos e dez gols de saldo que se mostraria impossível de ser descontada. Para piorar, os noruegueses seguiram atropelando adversários - só o Haaland fez 16 gols - de forma que a Itália chegou na última rodada precisando bater a Noruega por 9 gols de diferença. Perderam de 4x1. Haveria ainda a repescagem, mas após uma vitória sobre a Irlanda do Norte, a...