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Doze discos especialmente diferentes

Alguns artistas lançam ao longo de suas carreiras discos que se destacam absolutamente em relação ao resto que foi produzido. Não só pela qualidade, mas pela sonoridade, temática e enfim. Não se trata apenas de ser o melhor disco, mas de ser um disco diferente. Mas um diferente que não foi pensando (tipo igual o Radiohead faz), mas um diferente quase acidental.

Não pretendo falar de bandas que tem um álbum excelente e outros que seguiram o mesmo estilo, só que menos inspirado (tipo Television ou Strokes). Ou artistas que tem fases bem marcadas com um grande disco dentro delas (Pink Floyd e David Bowie), ou ainda dos camaleões como Bowie, Beck e Neil Young.

Ainda tento evitar a armadilha de citar muitos discos de estreia, em que essa sonoridade era fruto da inspiração e angústia da juventude, bandas que começaram muito bem e depois apenas tentariam repetir a fórmula mas sem tanta inspiração (Black Crowes, Fratellis).

Bert Jansch - Bert Jansch (1965)

Disco de estreia do monstro sagrado do folk britânico (olha eu me contradizendo). Aqui Bert conseguiu produzir uma obra simples e cativante. Parece ter sido gravado diretamente na sala do seu apartamento, entre um cigarro e outro. A produção simples valoriza o dedilhado no violão e sua melancolia elegante. Alguns dos destaques: Courting Blues, Oh How Your Love is Strong e Needle of Death - essa última é um relato intenso sobre um amigo que morreu por overdose de heroína. Essa espontaneidade nunca mais foi repetida, com os discos seguintes tentando ser mais complexos, produzidos e barrocos. Sua voz, inclusive, não combina com a complexidade. Apesar dos bons trabalhos, Jansch nunca mais conseguiu repetir aquela sensação abafada, esfumaçada e íntima dessa estreia.

Ryan Adams - Gold (2001)

Garoto de ouro do alt-country norte-americano, Ryan Adams já tinha alguns anos de estrada com a banda Whiskeytown e um bom álbum de estreia - Heartbreaker. Mas em Gold ele deixa a vibração caipira de lado e passa a sensação de ser um menino do interior, encontrando a cidade grande e buscando conquistar a metrópole e depois o mundo. Gold transpira euforia, empolgação juvenil e narcóticos estimulantes. Há uma pureza do jovem que achava que estava fazendo algo grande, mas sem ter certeza de que ia conseguir. Soa um pouco como os Stones da virada dos anos 60, sem tanto sexo. Ele declara seus amores por Nova York, lamenta os corações partidos, mas sempre em movimento. Depois de Gold, Adams voltou a lançar alguns bons discos como Love is Hell, experimentou o rock, retornou ao country, mas não há nada que se assemelhe a isso aqui. Resumo do disco? O refrão de Firecracker: "I Just wanna be your Firecracker and maybe be your baby tonight".

The Kinks Are The Village Green Preservation Society (1968)

Os Kinks podem ser pais involuntários do hard rock (You Really Got Me), padrinhos do punk e terem presenteado o mundo com uma ode a beleza da simplicidade da vida (Waterloo Sunset - no meu mundo Terry e Julie continuam a se encontra todas a sextas-feiras na estação Waterloo). Mas, nenhum dos seus discos era incrivelmente fabuloso. Em Village Green, toda a força criativa de Ray Davies convergiu em um álbum especial. Um som quase infantil, letras nostálgicas, influências da psicodelia da época e pianos magnéticos. Um disco quase conceitual, tendo a nostalgia como tema central. Aos poucos os álbuns dos Kinks foram se transformando em uma sonoridade de rock de Arena, por mais que vez ou outra eles nos presenteassem com uma lembrança da Vila Verde (falo de Sweet Lady Genevie). O espírito desse disco é resumido na segunda faixa, Do You Remember Walter, com uma bela letra sobre a amizade infantil que se perdeu, não por nenhuma razão específica, mas simplesmente porque a vida é assim e um dia as crianças crescem e desistem de querer construir barcos e navegar pelo mundo.

The Byrds - Mr. Tambourine Man (1965)

Em sua estreia, os Byrds praticamente inventaram o folk-rock e definiram como esse estilo deveria soar. É como se fosse o casamento dos Beatles com o Bob Dylan, algo que tentou ser repetido várias vezes, mas só aqui esse casamento foi feliz para sempre. O segredo é que esse é o único disco deles que teve Gene Clark inteiramente presente. O padrinho do Power Pop contribuiu diretamente naquela que talvez seja a melhor música do grupo: I'll Feel a Whole Lot Better. Junto com o poder harmônico de David Crosby, os Byrds nunca mais soaram assim. Depois eles seguiram no folk, abraçaram o rock psicodélico e foram pioneiros do country rock, mas a estreia é inigualável.

Love - Forever Changes (1967)

O Love é um grupo incrivelmente subestimado. Os dois primeiros discos são ótimos, respirando o verão lisérgico californiano. Seus últimos discos aceleraram na direção de Jimi Hendrix. Mas, ali no meio do caminho há o Forever Changes. Gravado por uma banda que se desfazia aos poucos, é uma trilha sonora de filme faroeste, só que gravado no deserto mexicano com orquestra mariachi e batidas marciais. You Set the Scene é o épico definitivo do psicodelismo dos anos 60, criando um som que ninguém nunca mais conseguiu fazer. (Sim, tome cuidado. Ao escutar Alone Again Or, talvez você sinta vontade de embarcar em um fusca baja e atravessar a fronteira de Tijuana com cargas ilícitas).

Derek & The Dominos - Layla and other Assorted Love Songs (1970)

Aqui você pode se questionar: é claro que vai ser um disco único, eles só lançaram este! Mas falo da carreira do Eric Clapton, já que Derek & The Dominos é praticamente sua estreia solo, acompanhado por uma grande banda. Poucos guitarristas tiveram o impacto cultural que Eric Clapton teve - só Hendrix se compara. Logo que ele surgiu, muros britânicos foram pichados com afirmações de que Clapton seria Deus. Suas aparições com John Mayall e Yardbirds mostravam o potencial e o Cream foi um supergrupo, que mostrava o que três músicos incrivelmente virtuosos e impulsivos poderiam fazer juntos - para o bem e para o mal. Mas, Layla não tem comparações. Carregando a culpa de estar apaixonado pela esposa do melhor amigo, Clapton criou uma torrente de guitarras, um fluxo de pensamento bluesístico para catalisar o caos pessoal. Cada arranjo de guitarra é uma pérola e as letras trazem o lamento universal do amor impossível. Após Layla, a carreira solo de Clapton se resume a músicas fáceis para sua guitarra brilhar e, por mais que brilhe muito em alguns momentos, não teve mais tanto a graça. Escute o inesperado cover de It's Too Late (originalmente de Buddy Holly) para entender.

Badfinger - No Dice (1971)

Os dois primeiros discos do Badfinger eram pueris demais - como se eles fossem os Beatles tentando gravar From Me To You para todo sempre. Os últimos discos já haviam perdido a esperança. Mas em No Dice eles criaram um power pop perfeito, para cantar junto e se despreocupar da vida. Um momento de brilho e esperança antes do final mais trágico de todos. Escute No Matter What, a canção power pop definitiva.

Dead Kennedys - Fresh Fruits for Rotting Vegetables (1980)

A estreia dos Kennedys tem uma ironia devastadora, críticas pesadas embaladas em humor negro. A fúria estava lá quando eles cantavam Let’s Lynch de Landlord ou Kill the Poor, mas vejam, todos entendiam a ironia em cantar sobre matar os pobres. Nos discos seguintes a raiva aumentou, mas a acidez se perdeu. As letras ficaram mais panfletárias, com discursos mais diretos sobre as mazelas do mundo. O som ficou um pouco mais elaborado, mas muitas vezes é uma massa esquisita, sem aquela espontaneidade, de ser quase que propositalmente ruim.

XTC - Skylarking (1986)

O XTC era uma banda extremamente idiossincrática, que se recusava a fazer turnês e não dava a mínima para obrigações comerciais. Em algum momento eles encontraram Todd Rundgren, operário do pop perfeito, que tirou o grupo da zona de conforto e trabalhou em músicas ousadas e diferentes. Aquela mistura de powerpop com pós punk ficou para trás e Skylarking é a ponte entre os Kinks e o Blur de Parklife. Um disco britânico até a medula que mistura tradição e modernidade. Um balé para dias chuvosos.

Manic Street Preachers - Everything Must Go (1996)

Os Manics sempre foram uma banda meio apartada do cenário Britpop, por conta das letras expressivas e depressivas de Richey Edwards e a sonoridade, que descendia mais do Hard Rock do que das tradições britânicas. Mas, um dia Edwards desaparece e no meio dessa confusão eles criam Everything Must Go. Um disco único em que eles uniram o peso guitarreiro com a catarse britpop. Esse é o trabalho mais acessível deles, juntando as letras existenciais com refrões melódicos (A Design To Life, talvez a maior canção do disco, começa citando uma frase estampada nos portões de campos de concentração). Depois disso eles caminharam para um formato mais formulaico de britpop, se reinventaram algumas vezes, mas nunca conseguiram repetir esse som catártico pós-traumático.

Beirut - Gulag Orkestar (2006)

Zach Condon tinha 19 anos e estava fascinado com música balcânica. No disco de estreia do Beirut, Condon transforma uma viagem adolescente ao leste europeu em uma sonoridade única, uma releitura americana. É um disco para se ouvir em alguma taberna de Bratislava, cantando em coro com os amigos enquanto segura um copo de conhaque no alto. Há uma ingenuidade e intensidade que não foram repetidas jamais, mas também seria difícil repetir esse clima. Depois ele amadureceu, se apaixonou por música francesa, foi encaixando suas músicas em fórmulas de indie adulto com ukulele e Gulag Orkestar permaneceu como uma experiência única.

The Replacements - Let it Be (1984)

Uma banda originalmente punk que ao longo dos anos se converteu ao Power Pop. O disco seguinte, Tim, é parecido, mas não tem tanta energia e a produção é bem esquisita, com um instrumental embolado. Let it Be conseguiu unir a paixão por Big Star com college rock e o caos punk, promovendo hinos como I Will Dare, Favorite Thing e Unsatisfied. O único momento em que eles conseguiram fazer um som cru e sofisticado, como se fosse uma iguaria culinária de difícil preparo.

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