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Ryan Adams, de 1 a 16

Uma das carreiras mais prolíficas e erráticas do século XXI. Começo promissor, o meio é titubeante, um breve retorno à forma interrompido por acusações de abuso psicológico. A discografia de Ryan Adams é desafiadora: muitas músicas, muita coisa ruim e algumas pérolas escondidas no meio do caminho.

Heartbreaker (2000)

Antes de sair em carreira solo, Ryan Adams lançou três discos pelo Whiskeytown, cultuado conjunto de alt-country, que nunca chegou a ser sucesso de público. Em sua estreia solitária, Adams se aproxima do folk e o resultado é mais um disco bem recebido pela crítica. Coeso em sua produção, Heartbreaker peca por ser extremamente extenso e com alguns momentos sonolentos. O destaque fica por conta de Come, Pick Me Up - a melhor música que Adams escreveu em sua vida. A faixa de abertura To Be Young (is to be sad, is to be high) é outro ponto alto, traçando no início a altura do sarrafo que ele poderia alcançar. Como faixa bônus há uma versão ao vivo de uma canção que não poderia ter ficado fora do álbum: Goodbye Honey. Aqui já era possível perceber que Adams muitas vezes não sabia trabalhar bem o material que tinha em mãos.

Gold (2001)

Desde a batida no violão que abre a primeira música, New York, New York, já dá pra saber que esse será o melhor disco da carreira de Ryan Adams. Gold é um disco que consegue manter a peteca lá em cima durante suas inacreditáveis 16 faixas. O próprio autor diria que estava tentando fazer um clássico moderno. Answering Bell, The Rescue Blues, When The Stars Go Blue, são outras das músicas que poderiam tocar em qualquer rádio pop, sem perder seu valor artístico. Infelizmente, olhando em perspectiva, Gold é um disco que destoa completamente do resto de sua carreira. É um disco tão, mas tão bom e tão focado, que dá até pra duvidar que foi ele mesmo que conseguiu fazer.

Demolition (2002)

Nem o próprio Ryan Adams gosta deste álbum. Ele queria gravar três discos: um de rock mais pesado, um de baladas quase fúnebres e outro de country rocks animadinhos. É lógico que a gravadora não topou essa empreitada e resolveu compilar os melhores momentos em uma única prensagem. Um enorme amontoado desconexo em que se salva apenas Cry on Demand, que não chega a ser muita coisa. Uma pena para o artista e sua liberdade, mas, se por outro lado, isso aqui é o melhor que ele tinha, os tais três discos tinham tudo para ser uma bomba. As sessões de gravação para os discos originais circulam na internet há algum tempo e, apesar de fãs mais fervorosos defenderem a genialidade do material, no fim das contas é um punhado de músicas esquecíveis. Nas faixas extras há outra boa canção: Blue.

Rock N Roll (2003)

Como o nome entrega, este é um disco de Rock & Roll. De roupas pretas e pose blasé, Ryan Adams entregou um conjunto de 14 canções distorcidas, aceleradas e no geral amplamente esquecíveis (exceção feita à faixa título, que ironicamente é uma balada sonolenta). Curiosamente, as b-sides do single de This Is It (uma provável ironia com o álbum de estreia dos Strokes, com quem Adams aprontou altas loucuras na Nova York do começo do século) se destacam. Red Lights e Closer When She Goes apontam um lado mais melódico que faz mais sentido.

Hey Parker, It's Christmas / Don't Even Know Her Name (2003)
Single natalino que Adams lançou no fim de 2003. A primeira música é uma balada correta ao piano, enquanto a segunda é um country rock animado. Nada exatamente memorável, mas a sonoridade é mais animadora do que a dos últimos dois discos.

Moroccan Role (2004)
Logo na sequência, este pequeno EP que apontava um caminho promissor. Com três canções, sendo a última uma repetição de Don't Even Know Her Name. O compacto abre com Ah, Life, outro country rock de bom nível e segue com I'm Coming Over, balada dramática e com lembranças de hard rock. Certamente longe do nível de Gold, mas um sinal promissor.

Love is Hell (2004)

O quinto disco de Ryan Adams em cinco anos mostra que realmente ele não parava de escrever canções. Love is Hell teve mais uma celeuma com sua gravadora, que achou que o resultado não era comercialmente viável e decidiu separar as faixas em dois EPs. No fim das contas o disco veio à tona com 16 canções. É fácil entender a relutância da gravadora. Love is Hell é o disco mais depressivo da carreira de Adams, chegando a soar fúnebre em alguns momentos, como em Thank You Louise. Como sempre, faltou um pouco de foco no processo. Três ou quatro canções a menos e o disco seria quase excepcional. Mesmo assim, Love is Hell tem seus méritos de, pela primeira vez após Gold, apresentar um conjunto de músicas boas. De bônus, há um cover de Wonderwall que garantiu atenção midiática e fez até mesmo Noel Gallagher voltar a cantá-la em shows, dizendo que a versão de Adams o fez redescobrir a beleza da música.

Cold Roses (2005)

Cold Roses é o primeiro de três discos lançados por Ryan Adams em 2005 e o melhor deles. Também é o primeiro lançamento dele com uma banda fixa de apoio, chamada de The Cardinals. Aliás, o disco foi creditado a Ryan Adams & The Cardinals, algo como Elvis Costello & The Atractions ou Neil Young & Crazy Horse. Cold Roses é um disco de baladas country e folks assobiáveis. Mas, mais uma vez peca pelo excesso. São 18 canções, lançadas em formato de disco duplo apenas por capricho do compositor. Se fechasse em 12 seria excelente. Mas, em todo caso, seria o último bom disco dele em algum tempo, com bons números como When Will You Come Back Home, Cherry Lane e Dance All Night.

Jacksonville City Nights (2005)

Quatro meses após Cold Roses, Ryan Adams lançou seu segundo disco com os Cardinals. Se o primeiro era um conjunto de baladonas, esse é o disco mais country de Adams. Canções com aquela viola ao fundo, piano caipira, enfim, lembra bastante sua ex-banda Whiskeytown. São 14 canções, das quais no máximo três não são completamente insignificantes.

29 (2005)

O terceiro e último disco de 2005 é assinado só por Adams. O disco seria uma espécie de álbum conceitual sobre os seus 20 anos, mas, pra variar, o resultado beira o esquecível. Há The Sadness, que é uma boa canção, o resto está perdido em um mar de mediocridade. No fim das contas, Adams lançou 41 canções em 2005, se tivesse descartado umas 30 e lançado um único disco de 11, poderia ter ficado bom.

Easy Tiger (2007)

Após um ano de folga, Ryan Adams volta com seu incrível nono disco. Mais um trabalho francamente esquecível. Dessa vez, a escolha é por canções mais simples e não dá pra negar uma coisa a Adams: trabalhar os discos de uma forma coesa. Geralmente todas as canções do seu disco realmente parecem fazer parte de um conjunto, com sonoridade linear. No caso de Easy Tiger, uma sonoridade que chega a dar dor de cabeça de tão chata.

Follow the Lights (2007)
EP lançado no fim de 2007, traz duas boas músicas novas (Follow the Lights e My Love For You is Real), um cover de Down in a Hole do Alice in Chains e quatro regravações de músicas previamente lançadas. O resultado é bom, com as novas versões parecendo melhores que as originais e as novas músicas sendo melhores do que qualquer coisa lançada nos últimos três discos. Será que Adams deveria viver de EPs ao invés de insistir em gravar 20 discos por ano?

Cardinology (2008)

Último disco gravado com os Cardinals, é mais uma obra absolutamente irrelevante. A essa altura esse texto já começa a ficar repetitivo, mas acredite, não tanto quanto a discografia de Ryan Adams. Não há aqui nada, absolutamente nada, nenhuma canção que você escute e pense "isso aqui é bom". Provável que o próprio cantor estivesse de saco cheio, já que depois desse lançamento ele dispensou sua banda de apoio e resolveu entrar em hiato por três anos.

Singles de 2009
Bem, mas quem achou que se veria livre de Ryan Adams durante esse hiato estava enganado. Logo em 2009 ele lançou uma série de singles com músicas inéditas para sua nova gravadora. No total, parece que foram oito músicas em quatro lançamentos, mas essa parte da carreira de Adams é realmente obscura e existe pouca informação real. De qualquer forma os singles seriam: Alumette/What Colour is Rain, duas músicas que felizmente acabam rápido, Lost And Found/What Colour is Rain - a primeira parece uma ideia inacabada enquanto a segunda é bem razoável e poderia estar em algum de seus últimos discos e Tomorrowland/Disco Queen - a primeira é realmente boa e a segunda parece, mas não é um cover do ABBA, fazendo com que este seja o melhor dos três lançamentos. Há ainda Oblivon/People Need Sunlight, a primeira é um protótipo de punk rock e a segunda parece outra ideia inacabada.

Orion (2010)

Bem, eis que Adams lança um disco de Heavy Metal e Hard Rock. Gravado como brincadeira durante as sessões para Easy Tiger, as faixas poderiam ter sido deletadas, mas por alguma razão resolveram que elas deveriam ser lançadas em um disco doentio.

III/IV (2010)

Aproveitando o hiato para desengavetar material, surge um novo álbum duplo de Adams com os Cardinals. Músicas gravadas, mais uma vez, durante a sessão de Easy Tiger, com uma levada mais roqueira do que as que entraram no fraco álbum de 2007. Bem, permaneceram três anos guardadas para dar origem a outro álbum fraco e novamente duplo. Pelo menos há algumas canções que te fazem prestar atenção, como Breakdown into the Resolve e Typecast.

Class Mythology (2011)
EP lançado no Record Store Day com algumas sobras da sessão que deu origem a Cardinology. Esperamos sinceramente que todas as sobras de sessões de Ryan Adams já tenham sido lançadas.

Empty Room (2011)
Bom single que precedeu os novos trabalhos de Adams. Um bom sinal do que viria.

Ashes & Fire (2011)

Após um longo e tenebroso inverno, eis que Ryan Adams surge com um disco bom novamente. É seu trabalho mais leve e apaixonado, com melodias inspiradas e um ritmo tranquilo, que poderia até ser gravado por Norah Jones. Embalado pelo single Lucky Now e pela faixa de abertura, Dirty Rain, Ashes & Fire alcançou os melhores resultados comerciais da carreira do norte-americano e o fez ser notado novamente no mundo da música. Seria o início de uma nova fase artística, menos prolífica, mas muito melhor.

Heartbreak a Stranger / Black Sheets of Rain (2012)
Single com duas versões ao vivo de música de Bob Mould, com Ryan sozinho no violão. Legais.

1984 (2014)
Pode ser considerada outra homenagem a Bob Mould, já que este EP de 10 músicas e 12 minutos emula o punk rock e rock alternativo norte-americano dos anos 80. É tudo muito igual, mas, como a vibe mudou depois do último disco, esse lançamento pode ser considerado divertido.

Ryan Adams (2014)

Chega a ser surpreendente que ele ainda não tivesse lançado um disco com seu nome. Ryan Adams não chega a ser brilhante, mas é um disco agradável de escutar e que ainda mantém o bom nível alcançado pelo seu predecessor. A atmosfera lembra alguma coisa dos anos 80. Lançado três anos depois do disco anterior, dava a sensação de que realmente o cantor resolveu mudar o gerenciamento de sua carreira.

1989 (2015)

Foi pelo Twitter que Ryan Adams anunciou: estava apaixonado pelas músicas de 1989, disco multiplatinado de Taylor Swift e pretendia regravar todas elas. Parecia uma galhofa e de certa forma é mesmo uma presepada. Mas, ao resolver desconstruir as canções de um dos discos mais vendidos da década nos Estados Unidos, Adams conseguiu uma atenção midiática que ele jamais conseguiu antes. O resultado é difícil de avaliar, uma vez que as canções mudaram completamente de perfil. Mas, no geral agradou os seus fãs e levou seu nome para um público que provavelmente jamais tinha escutado falar nele. A versão de Style se destaca.

Prisoner (2017)

Segue a linha do seu disco anterior de originais, principalmente na faixa de abertura. Depois reforça mais sua origem country/folk. Uma evolução do seu álbum de estreia, um Demolition que deu certo, um disco para fazer bonito em uma carreira errática, seguindo uma incrível boa fase nos anos 2010, alcançando o top-10 nos principais mercados do mundo.

***

No entanto, este foi quase o fim. No começo de 2019 Adams anunciou que iria lançar três álbuns no ano. O primeiro com 15 músicas e o segundo com 17. Previsivelmente uma merda, o material não foi lançado porque em fevereiro uma reportagem do New York Times acusou o cantor de conduta imprópria. Ele faria terror psicológico com mulheres, enviava mensagens pornográficas e ameaçava arruinar a carreira delas, caso não cedessem às suas investidas. As acusações foram reforçadas por sua ex-mulher. Adams adiou os planos de lançar os discos, cancelou shows, teve outros cancelados, enfim, foi cancelado. Em julho, ele lançou uma nova música chamada "I'm Sorry and I Love You", uma passada de recibo incrível.

Por fim, os 16 discos de estúdio de Adams antes da polêmica, da ordem do pior até o melhor até este momento.

16 Orion
15 Demolition
14 Easy Tiger
13 Jacksonville City Nights
12 III/IV
11 Cardinology
10 Rock 'n' Roll
9 1989
8 29
7 Ryan Adams
6 Love is Hell
5 Prisoner
4 Cold Roses
3 Heartbreaker
2 Ashes & Fire
1 Gold

Mas ok, vamos falar brevemente sobre o Adams pós 2020.

Neste ano ele lançou Wednesdays, disco chatíssimo. Em 2021 veio Big Colors que é um pouco melhor. 2022 viu o lançamento de Romeo & Juliet, FM e Devolver, Em 2024 foram Sword & Stone, Star Sign, Heatwave, 1985 e Blackhole - sendo 1985 o mais interessante de todos, em audições descompromissadas.

Como se não bastasse, ele ainda lançou regravações de Nebraska, do Bruce Springsteen, Blood on the Tracks do Bob Dylan e Morning Glory do Oasis. O do Springsteen é legalzinho. Há ainda outro chamado Changes, apenas com covers diversos.

Em 2025 ele ainda fez regravações desnecessárias das músicas do Heartbreaker, para celebrar os 25 anos de sua estreia. Dessa forma já são mais de 30 discos gravados. Praticamente a metade nos últimos 5 anos. Ninguém tem saúde mental para acompanhar isso.

(Desde que comecei a escrever esse texto é possível que sua discografia tenha ganho novos trabalhos. No dia em que você ler isso, provavelmente serão mais 10)

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