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Resgatando Rascunho: Governo em chamas

Qualquer pessoa que escreve textos de maneira não profissional - ou seja, que não recebe um tostão por isso - acaba tendo ideias que subitamente são abandonadas. Textos que surgiram promissores na cabeça, mas que foram perdendo fôlego a cada parágrafo escrito. Nesta pequena série chamada Resgatando Rascunhos, eu faço justamente o que o título sugere: resgato um rascunho a muito tempo abandonado. Um texto que se mostrou improdutivo, ou que em outros casos, perdeu todo o sentido com o passar dos anos.

Vamos a este pequeno texto, que estava adormecido no rascunho desde 16 de outubro de 2019. Mais de seis anos.

Nesse momento de certa forma surreal, em que observamos o partido do presidente da República se unindo com a oposição para obstruir a votação de uma Medida Provisória do próprio presidente, em meio a uma batalha pelo comando do PSL. Isso me fez pensar nos tipos diferentes de figuras difusas que aderiram ao bolsonarismo e que tem em comum apenas o fato de serem deploráveis.

O texto, você podem perceber, foi escrito ainda no primeiro ano do governo de Jair Messias Bolsonaro como presidente da República. Uma gestão tumultuada desde o início e que, na minha inocência, não iria chegar até o fim do jeito que as coisas estavam. Mas, é claro que chegou ao fim e - pior do que isso - quase que não acabou.

O que eu pretendia fazer era uma análise pretensiosa sobre os acontecimentos nacionais, mas, antes disso, eu queria analisar os subgrupos do chamado bolsonarismo. Porque o Bolsonaro não tinha uma ideologia assim clara, ele serviu como aglutinador de vários grupos insatisfeitos contra muitas coisas. Com o passar do tempo, boa parte dessas questões foi suplantadas, com a revolta se tornando cada vez mais difusa e intangível.

Militaristas: Saudosos da ditadura militar, da ordem e do progresso, nacionalistas, saudosistas em geral que acham que no passado isso daí não acontecia.

Fetichistas da violência: Cidadão que sonha em ter sua própria arma para sair por aí promovendo a Justiça tal qual fosse um Charles Bronson em Desejo de Matar. O pessoal do bandido bom é bandido morto, que gostaria de metralhar favelas e tudo mais.

Combate à corrupção: Grupo que não aguenta mais a corrupção, que acha que é preciso dar um basta nisso daí e quebrar o sistema.

Defensores da Família: Pessoas que querem muito defender as pobres criancinhas da ideologia de gênero, dos pedófilos, da televisão e etc.

Anticomunistas:


Percebam que eu não consegui traçar uma única linha sobre os anticomunistas e foi nesse momento em que eu desisti do texto para todo o sempre. Talvez porque tenha sido nesse ponto que eu tenha percebido que esses subgrupos, apesar de existiram ali na raiz do problema, já estavam misturados a muito tempo e qualquer um que já estivesse identificado com a pauta bolsonarista já estava alinhado em três ou mais desses grupos. Eram os saudosos da ditatura militar, porque naquela época não tinha corrupção por causa dos comunistas. Ou quem quer ter um arma própria para proteger a família e a sua propriedade contra os comunistas. 

Enfim. Assim o texto foi abandonado. Mas ele não acaba ali. Porque eu ainda tinha deixado mais três subgrupos sem nenhum tipo de formatação, perdidos no rascunho, como que um lembrete para o meu eu do futuro do que ele ainda deveria abordar em um hipotético dia inspirado. (Percebo agora que esqueci dos liberais na economia).

Homofóbicos e outros preconceituosos em geral
Pessoas em busca do salvador da pátria
Aproveitadores em geral

E é assim que morre um texto (e nasce outro, afinal).

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