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Antologia de George Martin

Anthology, o documentário dos Beatles, é um dos poucos DVDs que eu assisti mais de uma vez na minha vida. Todos os cinco DVDs duplos. Gosto da maneira como a narrativa é construída, das imagens raras, do material conseguido para a montagem e, claro, o assunto é a minha banda favorita em todos os tempos. Mas se o documentário fosse ruim, dificilmente teria me dado ao trabalho de assistir novamente. As primeiras partes mostram um olhar nostálgico para os primeiros dias dos seus integrantes e para os primeiros passos do conjunto. Os shows em bares em Liverpool e em Hamburgo, as viagens em um furgão quando a fama começou a chegar, o espanto com essa fama, com o fato de tocar no Paladium. Histórias de garotos legais, vivendo uma vida que nunca imaginaram que viveriam. Mas há uma parte especial no documentário que é justamente a que retrata o período mais fértil dos Beatles, que começou em 1965. As histórias hilárias e assustadoras sobre as primeiras experiências com as drogas e o proces...

Mamonas Assassinas, um fenômeno em nossas vidas

Não me lembrava a data exata, mas as efemérides me lembram que foi em um dia 02 de março, um sábado. Dia em que a TV estava ligada na Globo de manhã, como costumava a estar em todos os sábados para assistir algum desenho ou alguma programação esportiva, quando veio a terrível música do plantão: um acidente na Serra da Cantareira com um avião, onde provavelmente estavam os integrantes da banda Mamonas Assassinas. A certeza foi quase imediata de que eles haviam morrido e realmente, é difícil ter sobreviventes em um acidente de avião. Os dias seguintes foram de comoção com a exibição do vídeo do tecladista, que dois dias antes do acidente sonhou com a morte em um acidente de avião, reportagens especiais em todos os canais de TV tentando explicar o acidente, para muitos inexplicáveis (estaria o Dinho no comando da aeronave? Me lembro dos relatos sobre as imagens dos corpos vistas por especialistas da terceira série). Os Mamonas Assassinas foram provavelmente a banda com a carreira m...

By The Way, 14 anos depois

Quando foi lançado em 2002, By The Way deu sequência ao sucesso que o Red Hot Chili Peppers havia conquistado com seu lançamento anterior, Californication . Deu início também a um processo de decadência da banda que, digamos, amadureceu, e foi se afastando de suas raízes no funk rock, funk metal, ou seja lá o que for. Lembro bem de quando a música By The Way  foi lançada, com seu clipe bizarro na MTV. Era o melhor do RHCP. Baixo frenético, vocais acelerados, refrão melódico. A faixa título foi seguida por outros dois singles muito bons, The Zephyr Song - uma balada romântica embalada por um clipe lindo e caleidoscópico - e Can't Stop , outro funk rock com refrão grudento. Mas nem tudo era perfeito e o resto do disco me pareceu bem ruim na época. Lembro de escutá-lo no Terra Rádio, talvez na Usina do Som, numa época em que o streaming parecia uma solução paliativa ao poder da MP3, tanto que os principais sites de streaming faliram logo depois e, estranhamente, uns dez anos depo...

Tia Iraci

Leio o noticiário e vejo que um acidente vitimou três pessoas na BR-364, uma das rodovias mais perigosas do Brasil, na altura da cidade de Jaciara. Entre as vítimas estava uma pessoa chamada Iraci Romagnolli. Seu nome poderia não me dizer nada, mais sua foto não me deixaria não saber quem era. Tia Iraci, minha professora de pré-escola, minha primeira professora no colégio Patronato Santo Antônio. Tia Iraci com seu jeito tranquilo, seus cabelos loiros e seu fusca vermelho me ensinou, lá em 1993, quando é que o M ou o N deveriam ser usados antes de outras consoantes. Contou longas histórias sobre cada uma das letras do alfabeto e o que elas faziam, como elas deveriam ser usadas. Me colocou para fazer caligrafia, mas não adiantou muita coisa. Fiz parte da primeira turma de Pré-Escola do Patronato Santo Antônio e quando eu deixei o colégio em 2004, ela ainda estava trilhando os alunos nos primeiros caminhos da vida escolar. Pelo o que vi no noticiário, ela continuava trabalhando por ...

Não deve ser fácil ser Andy Murray

Ali está Andy Murray. É um grande tenista, não um tenista perfeito, mas um dos melhores que já vimos nos últimos anos. Se defende muito bem, tem um jogo de fundo quadra muito bom, bate muito bem de esquerda e ainda tem qualidade para subir na rede. O principal problema de Andy Murray é sua cabeça, que muitas vezes viaja além da conta. Nos jogos do escocês, suas reações, lutando contra seus demônios internos, muitas vezes são uma atração a parte. Andy Murray conquistou dois títulos de Grand Slam na carreira. É um bom número, mas talvez seja pouco para alguém com o talento que ele tem. Andy Murray deve se atormentar ainda mais, lamentando ter nascido em 1987 e por ser obrigado a jogar com adversários que fazem parte de uma espécie de Segunda Era Dourada do tênis. Assim como no início dos anos 80 o esporte foi dominado por Bjorn Borg, John McEnroe e Jimmy Connors, o tênis desde a metade da década passada foi dominado por Roger Federer, Rafael Nadal e Novak Djokovic, nessa ordem. Murra...

Oito Odiados

Ah, pensei em falar aqui sobre Quentin Tarantino e o seu estilo de cinema, amado por muitos e odiados por outros tantos. Pensei em falar que Oito Odiados parece encerrar uma trilogia de filmes de época do cineastra. Assim como na sua primeira trilogia de violência urbana, o terceiro filme é o pior. Oito Odiados parece ser uma mistura de vários filmes de Tarantino. Se desenvolve um pouco como Cães de Aluguel, é dividido como Bastardos Inglórios e acaba em um banho de sangue como Django Livre. Tim Roth interpreta o mesmo personagem interpretado por Christoph Waltz nos últimos dois filmes de Tarantino e enfim. É um bom entretenimento, mas saí do cinema com a percepção de que já havia visto isso antes.

David Bowie e a morte como último ato

Em 1997, aos 65 anos, a lenda norte-americana do Country, Johnny Cash, foi diagnosticado com uma doença degenerativa que iria o matar em breve. Demorou seis anos, período no qual Cash voltou a conquistar sucesso com o público após alguns anos de esquecimento. O momento máximo desse reencontro foi o lançamento do clipe de Hurt, um cover do Nine Inch Nails adaptado ao estilo de Cash. A versão era tão poderosa, que acabou por se transformar na versão definitiva da canção. O próprio Trent Reznor confirmaria essa impressão. Se a versão original do NIN era sobre o vício em drogas e autodestruição, na voz daquele senhor de quase 70 anos - que todos sabiam que iria morrer em breve - Hurt se transformou em um grande balanço sobre a vida. A letra triste e as contatações "Todos que eu conheço vão embora no final", "Eu vou fazer você sofrer" e "Se eu pudesse começar de novo a milhões de milhas por aqui, eu poderia me encontrar, eu acharia um caminho" fazem chorar. A...

Grilo

O grilo, sempre simpático, sempre falante, apareceu na nossa sala, sobre o ventilador. Precisamos tirar esse grilo daí, ele precisa voltar para o jardim. Chegamos perto do ventilador e o grilo se virou para nós e levantou suas assas. Esse grilo não está para brincadeira. Ele seria capaz de matar uma pessoa. Muita sacanagem fez Deus a jogar milhares deles sobre o povo egípcio. Mas o grilo não pode ficar aí. Jogamos um pouco de veneno no grilo. Ele fica meio tonto e conseguimos jogá-lo para fora. Pouco depois vemos ele subindo a parede. Uma máquina. Uma máquina mortífera. Mais tarde vemos o grilo agonizando até a morte. O veneno não o mata instantaneamente, mas sim lentamente. Ele treme e pouco depois morre. Que morte horrível. Por que fizemos isso? Me sinto um ser humano predador da natureza e vou dormir com peso na consciência.

Museu da Língua Portuguesa

Em setembro de 2007 eu estava de férias em São Paulo e fui ao Museu da Língua Portuguesa com um tio e uma prima. Não sei se tinha muita expectativa em visitar aquele prédio histórico com um museu que homenageia algo tão intangível quanto uma língua. Sei que tive uma experiência moldadora de caráter lá dentro. Primeiro na exposição temporária, sobre Clarice Lispector, que me deixou espantado com dezenas de frases e me levou a comprar um livro dela que eu li com muito esforço. O impacto das frases de Clarice Lispector naqueles paredes permanece maior em mim do que qualquer livro ou post de Facebook. Descobri várias coisas lá dentro, naquele ambiente interativo. Uma visita ao Museu da Língua Portuguesa me valeu tanto conhecimento sobre o assunto quanto alguns anos de colégio. Deveria ser uma visita obrigatória para alunos de escolas públicas. Voltei até lá uma outra vez, em 2014. Antes de que o prédio fosse consumido pelas chamas. O prédio pode ser reconstruído, a maior parte de seu...

Bwana

Bwana era uma Força da Natureza. Aquele pequeno filhote que chegou aqui em casa sem nome e que cabia em uma mão logo cresceu e passou a ser capaz de mover vasos, arrancar árvores, roer canos, mover o eixo do planeta. Bwana tinha força para atravessar a piscina, caçar folhas em poças de água, pular muros e portões, rastrear qualquer presença de pão de queijo em um raio de dois quilômetros. Aos poucos, a idade foi chegando e toda essa força foi se dissipando. Até que hoje sua energia terminou. Foram doze anos desde que Bwana chegou aqui em casa e desde então nossas vidas não foram mais as mesmas. Eu era um estudante de 2º ano do Ensino Médio, que nunca mais entrou na piscina sozinho. Entrei na faculdade, me formei, me casei. Mas Bwana foi uma presença tão forte por aqui, que parece que ela sempre existiu e sempre existirá, com seu melancólico, esperançoso e companheiro olhar de labrador.

Rogério Ceni

Como quase todo são-paulino, vivi uma relação de amor e ódio com Rogério Ceni até um certo dia de dezembro de 2005. Certo que qualquer resquício de ódio já havia desaparecido com a conquista da Libertadores e sua comemoração extasiada em campo, dizendo que poderia ir embora, que nada mais importava a partir daquele dia. Mas a final do mundial de 2015 foi marcante. Até então, Rogério Ceni era o goleiro artilheiro, de boas defesas, algumas falhas, muita marra e poucos títulos. O cara zoado por se ajoelhar em lances cara-a-cara com o adversário. Que viveu um mau momento ali em 2001/2002 - curiosamente quando fez parte do elenco campeão da Copa do Mundo, que falhou no jogo que eliminou o São Paulo contra o Once Caldas na semifinal da Libertadores de 2004. Era também o cara que fez milagres em alguns jogos do Campeonato Brasileiro de 1999 - contra Grêmio, Inter e Ponte Preta (na fase de classificação e também em um mata-mata surreal). Do gol de falta contra o Santos no Paulista de 2000....

Uma temporada que prometia e foi sofrível

Terminado o ano de 2015 para a Fórmula 1, só resta uma comemoração: a de que terminou. Escrevi após a primeira corrida do ano que a temporada prometia ser sofrível e a expectativa se confirmou com sobras. Creio que 2015 foi uma das piores temporadas da Fórmula 1 que eu já assisti. A Mercedes fez um carro amplamente superior a concorrência, como fizeram a Ferrari em 2004 e 2002, a Williams em 1992 e 1993 e a McLaren em 1988, ou mesmo a Red Bull de 2011 e 2013. Mas em 2002, 2004, 2011 e 2013 as outras equipes conseguiam incomodar em determinadas situações e não vimos em Rubens Barrichello e Mark Webber, pilotos comparáveis a Nico Rosberg, a facilidade para andar na frente do resto dos pilotos. Em 1992 e 1993 a Williams era muito superior e faria dobradinha em todas as 16 corridas da temporada, mas os carros sofriam mais com problemas mecânicos, possibilitando algumas zebras históricas e disputadas nas posições intermediárias. O atual domínio da Mercedes só é comparável a McLaren de 1...

Dez anos de Ronaldinho - ou sem Ronaldinho

Os jornais não me deixam esquecer que foi em 19 de novembro de 2005 que Ronaldinho Gaúcho viveu sua maior atuação na história, uma das maiores de qualquer jogador em qualquer tempo. Uma lendária vitória do Barcelona sobre o Real Madrid, por 3x0, em pleno estádio Santiago Bernabeu, com dois gols do gaúcho. Volto para os 31 minutos e pouco daquele jogo que foi assistido pelo mundo. O placar já apontava 2x0 e todos ainda estavam maravilhados com o primeiro gol de Ronaldinho, quando ele recebeu a bola na intermediária. No momento em que a bola chegou até ele, todos sabiam que o gol iria sair. Os dois gols de Ronaldinho naquele jogo estão umbilicalmente ligados. O segundo provocou uma enorme sensação de Deja Vu, com sua arrancada pela meia esquerda, cortando zagueiros rumo ao gol. Foram duas jogadas em que o R10 arrancou para o gol como se fosse um míssil teleguiado. O gol era o seu destino final e nada seria capaz de interceptá-lo. O segundo gol de Ronaldinho era óbvio, porque era uma ...

Sexta-feira 13

Sob a sombra de uma árvore, um gato preto enterrava suas necessidades no gramado do Palácio Paiaguás. Satisfeito, ele saiu correndo e só não passou pela minha frente porque eu cheguei antes ao espaço pelo qual ele pretendia passar. Para os supersticiosos, um preságio de azar. No meu caso, apenas o preságio de um almoço muito ruim. Mais tarde, atiradores e homens bomba matariam mais de 150 pessoas em Paris numa série de ataques terroristas coordenados. Os corpos ainda estavam quentes quando a internet começou a ser inundada por comentários preconceituosos e xenófobos, de pessoas que não tem o mínimo de compaixão. O Brasil ainda se recupera do mar de lama tóxica que invade Minas Gerais e o Espírito Santo, devastando toda forma de vida pela frente, quando um terremoto atinge o Japão e passa desapercebido pela situação francesa. Enquanto isso, em Cuiabá, Jair Bolsonaro desfila seu discurso de ódio em uma palestra sobre Direitos Humanos em um evento de produtores de calcário. Pode não...