Pular para o conteúdo principal

Postagens

O fator surpresa do frio

(Artigo para o Centro Burnier. Parece meio prepotente chamar qualquer texto de artigo, não é?) Costumo a falar que o maior calor que eu já passei na minha vida foi em um mês de janeiro em Porto Alegre. A frase, dita por um morador de Cuiabá, soa como uma espécie de provocação barata, uma vez que Cuiabá é famosa justamente pelo seu calor, destacado pelas garotas do tempo dos mais variados telejornais. Por outro lado, por mais estranho que possa ser, Cuiabá é um dos lugares em que mais passo frio e já escutei pessoas de fora que também falam isso. É tudo uma questão de preparo. O fator surpresa é essencial para estabelecer a sua sensação térmica. Em Porto Alegre, todos estão preparados para o frio. As pessoas guardam em seus guarda-roupas as maiores variedades de calças, jaquetas, moletons, casacos, cachecóis, sobretudos e gorros que os manterão aquecidos. Suas casas têm aquecedores e são projetadas para manter a família sã e salva do frio do lado de fora. Agora, quando o calor chega...

O Vácuo das Ideias

A ideia surge de maneira espontânea, em uma espécie de milagre aristotélico. Estou ingenuamente tomando banho, escovando os dentes, lavando a louça, quando a ideia chega! Genial! Que ótimo texto isso vai dar! O texto começa a ser desenvolvido em minha cabeça, com suas múltiplas variáveis, seu encaminhamento lógico. Provavelmente fiz isso quando a ideia sobre o vácuo de ideias me surgiu. No entanto, eu não posso largar o que eu estou fazendo para começar a escrever, porque, como eu já disse, estou escovando os dentes, lavando a louça ou tomando banho. Sigo matutando tudo aquilo e começo a me policiar para se lembrar de tudo isso quando chegar a um lugar em que eu possa pelo menos anotar a ideia. As vezes dá tempo, muitas vezes não dá. A ideia desaparece. Fico agoniado tentando me lembrar que ideia é essa. Sei que ela existiu, sei que eu pensei sobre ela, mas ela simplesmente foi embora, se transformou em vácuo. Só me resta a pertubação de uma ideia que morreu antes mesmo de se con...

Grandes Lábios, Pequenos Lábios

Sempre achei graça naqueles diálogos aleatórios que nós pescamos no cotidiano. Aquele diálogo meio surreal que você acompanha parcialmente quando passa por duas pessoas conversando. Ou quando alguém fala no telefone e você só pega um lado. Sempre fiquei imaginando o resto da conversa, coisa minha. Hoje passei por um diálogo aleatório, talvez o melhor da minha vida. Descia a escada de uma repartição pública, rumo ao estacionamento. Parei para esperar o carro e olhei a hora no celular. Escutei uma senhora sentada numa mureta, conversando com uma interlocutora desconhecida, dentro de um carro. - Sabe os grandes lábios? Aquela parte maior de fora. Ai tem os pequenos lábios, foi lá que ela cortou. - No clitôris? (sic) - Não, não foi no clitóris. - No grelo! - Não aquilo ali não é grelo. Foi nos pequenos lábios. Um diálogo tão fascinante que eu pensei até em subir a escada de volta e interagir. Foi isso mesmo que eu escutei? Quem é que cortou o grelo? Como foi isso. Até me descon...

Paixão nacional

Estou prestes a subir a escada do trabalho quando escuto um prestador de serviços conversando com um segurança: - São Paulo tá mal né? Perdeu sábado pro Bahia, 2x1 de virada. (Ok, pode não ter sido o melhor exemplo de uma conversa, já que peguei a fala de apenas um cidadão). Sempre se fala que o futebol é a paixão nacional e que o brasileiro está sempre conversando sobre futebol nas ruas, bares, corredores e pés de escada do nosso país. Não deixa de ser verdade, olha aí o povo discutindo a crise no São Paulo. O detalhe é que o São Paulo não jogou no sábado, jogou no domingo. Também não perdeu para o Bahia, perdeu para o Vitória. E o placar não foi de 2x1, mas de 3x2. Ele acertou que o São Paulo perdeu, mas errou o dia, o adversário e o Placar. Detalhes. Em último caso, o São Paulo perdeu também para o Bahia, mas foi na quarta-feira e o placar foi 2x0. É, brasileiro gosta de futebol, mas isso não significa que ele esteja absolutamente informado sobre o assunto.

Navegue rápido

Estava caminhando pela rua quando vi uma placa afixada em um portão: "Quer navegar rápido? Me procure!" acompanhado de dois números de telefone, provavelmente um de cada operadora diferente. Não era nenhum grande cartaz, impresso em grandes gráficas. Era uma cartolina feita a mão. Apesar de ser claramente um anúncio sobre internet, velocidade de internet, que o cidadão prometia uma internet super rápida, de 20 megas, 40 megas, 4G de última geração, apesar disso, outra coisa me veio na cabeça. Pensei em um anúncio que oferecia a oportunidade de ser o cara de trás nesse barco. Quer navegar rápido? Me procure

Voa!

O que mais me assusta no TelexFree, aquele que provavelmente é o mais novo esquema de pirâmide financeira, é o comportamento dos seus adeptos. Os voadores parecem fazer parte de uma ceita, uma sociedade secreta, talvez. O modelo de sociedade deles tem um líder. O que esse líder faz, eu não sei, mas os seus seguidores se referem a essa pessoa como "nosso grande líder", como se ele fosse uma espécie de Jim Jones. Algumas pessoas são destacadas como "pioneiro do TelexFree" em determinada região. Quem participa do TelexFree monta uma espécie de guerrilha virtual, especialista em marketing viral. Todas as possíveis notícias boas sobre o grupo são difundidas instantaneamente. Enquanto isso, as notícias ruins ganham inúmeros comentários difamatórios. De certa forma, parece que quem entra no grupo passa por uma espécie de lavagem cerebral. Parece com quem entra em alguma dessas Igrejas radicais.

Todos juntos, vamos?

No dia em que o Brasil estreou na Copa de 1994 fui pego de surpresa ao ser liberado mais cedo da aula. De fato, não havia me ligado que o Brasil jogaria naquele dia e estranhei ainda mais que, quando fomos liberados, o pátio já estava cheio de pais que foram buscar seus filhos, inclusive minha mãe. Como é que todos sabiam disso? Onde é que eles haviam combinado? Vale lembrar que na época não existia Facebook. O jogo da seleção era um evento nacional que reunia pessoas em volta da televisão. Tive a certeza naquele dia de que ninguém morria em hora de jogo do Brasil na Copa. Aliás, jogos da seleção pareciam ter uma certa importância. Me lembro de jogos das Eliminatórias, Copa América, aqueles torneios amistosos excêntricos disputados na Europa, incluindo um esquizofrênico Torneio disputado na França em 1997 que foi vencido pela Inglaterra. Ou as trágicas Olimpíadas perdidas para Nigéria de Kanu, ele é perigoso. Para a Copa de 1998 eu já tinha noção de que o país parava para assistir ...

Man, algumas coisas nunca mudam

Em meio ao barulho dos carros que passavam na Fernando Corrêa, aquela melodia vindo de dentro do colégio me chamava a atenção. Uma música perdida dentro da cabeça, dessas que você não escutava a algum tempo. Assim que virei a esquina e os carros ficaram um pouco para trás consegui reconhecer: "Totaly Crazy, forget I'm a lady". Como era o nome dessa música mesmo? O refrão me responde "Man, I feel like a woman". Shania Twain cantava essa música. Um hit de 1999, 2000. Música que todas as meninas escutavam, e achavam graça. Um hino feminista, de liberdade das mulheres? Não tenho a menor ideia. Acho que apenas gostavam do ritmo, "é gostoso pra dançar", como falam hoje em dia. Aliás, As meninas mais bonitas da turma sempre dançavam essa música, mexendo com a imaginação dos pobres meninos da sexta-série. Olho para dentro do colégio e vejo: meninas da sexta-série dançando essa música. O pop descartável prevê que a canção de sucesso de 1999 seja completamen...

Maldita seja a minha opinião

Foram anos e anos de repressão por parte de um governo autoritário que cerceava a liberdade de expressão de todo e qualquer cidadão. Aliado a isso, não era fácil tornar sua opinião pública, além da mesa de jantar com a família ou da roda de bar com os amigos. Imagino que não era fácil conseguir um quarto de página fora do centro ótico para falar sobre o que quer que você quisesse. A internet resolveu em parte esse problema. Você pode criar um blog, um site, para publicar suas opiniões. Pode emiti-la em 140 caracteres no Twitter ou em infinitos toques no Facebook. Você pode falar sobre manifestações políticas, eleições, futebol, novela, Big Brother, alienação da sociedade de consumo ou monopólio dos meios de comunicação. Pode montar seu palanque virtual. Beleza, porque todo mundo tem direito a opinião e essa não é uma conquista fácil de todos os nossos ancestrais. Mas eis que uma hora enche o saco o fato de todo mundo ter uma opinião. Dar opinião na internet acaba virando uma espé...

A razão de cada um

*Artigo meia boca pro site do Centro Burnier Eu não entendi e tenho a impressão de que você também não entendeu. A imprensa, professores, políticos, todos estão gastando seus neurônios tentando desvendas os motivos que levam milhares de pessoas as ruas em diversas cidades brasileiras. Os jornalistas não sabem nem como chamar as manifestações. É contra o aumento da tarifa de ônibus? Contra os gastos para a Copa do Mundo? Qual é a importância dos 20 centavos? Todo mundo tenta entender. Tenho para mim que essa manifestação é sim contra os 20 centavos, mas é também contra a qualidade do transporte público, contra a PEC 37, contra os gastos com estádios para a Copa do Mundo, contra a violência policial, a corrupção, contra a falta de saúde de qualidade, educação de qualidade, para que as pessoas não escutem música sem fone de ouvido no ônibus, para que o Hulk não seja mais titular da seleção brasileira. Sim, todas essas reivindicações estavam em cartazes nas ruas. Diria que cada uma d...

Pensamentos sobre "Se Beber Não Case"

"Se Beber não Case", o primeiro filme de 2009, era muito engraçado. Poucas vezes ri tanto em uma sala de cinema. Já o segundo filme da série era bem ruim e o terceiro, lançado nesta semana, pode ser considerado apenas fraco. Fora o desgaste natural que qualquer "trilogia" sofre, quando as continuações são feitas apenas para ganhar dinheiro, existem alguns motivos para que o segundo e o terceiro filme não sejam bons. O primeiro Hangover era sobre as besteiras que todos fazem quando ficam bêbados. Você vai para uma despedida de solteiro em Las Vegas e de repente acorda em um quarto de hotel destruído e descobre que lá dentro estão uma criança, uma galinha e um tigre. E pior, o noivo sumiu. Na busca por esse noivo desaparecido, os amigos reconstroem os passos da noite anterior e  descobrem que um deles arrancou um dente e se casou com uma prostituta, que eles roubaram um tigre do Mike Tyson e o carro de um policial, sequestraram um criminosos chinês e gastaram uma ...

Não, o novo do Strokes não é uma merda completa

Não vamos ser ingênuos. Todos nós estávamos prontos para detonar o disco novo do Strokes. E a culpa disso, não tem como negar, é deles próprios. A verdade é que os Strokes nos decepcionaram. Lançaram um ótimo disco de estreia, um razoável segundo disco e depois lançaram dois discos bem ruins. A diferença na ruindade desses dois trabalhos, é que First Impressions of the Earth tinha uma ruindade convencional, enquanto que Angels era ruim inovando. A semelhança é que os dois tinha singles muito bons. Quando foi lançada One Way Trigger , a primeira música do quinto álbum dos antigos salvadores do rock, Comedown Machine , todos nós nos assustamos. O começo da música lembra um desses tecnobregas da vida e Julian Casablancas cantava em um falsete bisonho. Pronto. Dessa vez nem o primeiro single deles é bom, o álbum vai ser uma porcaria. A partir daí todos pegamos em pedras e esperamos o lançamento do disco para arremessa-las. Li uma resenha que enumerava uma centena de palavras para def...

Pattie Boyd

Pattie Boyd O romance envolvendo George Harrison, Pattie Boyd e Eric Clapton é um dos mais conhecidos triângulos amorosos da história. Sempre achei o caso interessante. A princípio, a visão que nós temos é bem simplista. Pattie trocou o sensível George Harrison, aquele que lhe cantou a sentimental Something na cozinha, pelo intempestivo Eric, aquele que a mostrou a passional Layla na sala. E se há uma mulher irresistível neste mundo, esta mulher é Pattie Boyd. Só que o trio Boyd-Harrison-Clapton é apenas a parte mais famosa de uma série de relações amorosas e traições, que envolveram metade do rock britânico da época. E o que eu acho incrível, é que todos continuaram convivendo ao longo dos anos. George Harrison Pattie Boyd era uma modelo que fazia figuração em um vagão de trem durante a gravação de uma cena de A Hard Day’s Night, o primeiro filme dos Beatles. George era justamente um Beatle. Eric Clapton era o deus da guitarra e converteu vários fãs em suas inúmeras bandas...

Laerte

A revista piauí de Abril deste ano trouxe um perturbador perfil sobre o cartunista Laerte, um dos principais cartunistas brasileiros dos anos 80 que recentemente passou a se vestir de mulher. Considero o perfil perturbados por um simples motivo: não consegui entender os motivos dele ao final do texto. Faço parte de uma geração, ou um grupo de pessoas que entende que existam homens que gostem de homens, mulheres que gostem de mulheres, quem goste de todo mundo, quem queira mudar de sexo porque se sente aprisionado em um corpo errado. Laerte não parece estar em nenhum caso. Laerte se assume bissexual, mas não me deixou convencido sobre os motivos que o fazem querer se vestir igual uma mulher. Nem ele nem a maior parte dos crossdressers entrevistados ao longo do texto. Não me parece que eles se sintam melhores vestidos como mulheres, que eles queiram ser mulheres. Parece mais que eles estão ali por um fetiche, ou, talvez, pela diversão de contrariar as convenções da sociedade. Uma que...