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A diversão de Jon Fratelli

Prestes a lançar seu primeiro disco solo, Jon Fratelli constatou: o disco solo era a melhor coisa que ele já fez. Se continuasse numa banda, continuaria infeliz. Ele pode estar tão feliz quanto ele imagine. Mas isso não significa que ele esteja fazendo boa música. Ao sair dos Fratellis, banda altamente influenciada pelo britrock, ele abandonou o seu sobrenome artístico para assumir o sobrenome de batismo, Lawler, e formou o Codeine Velvet Club, uma banda pop com influência de música de cabaré. Lançou um disco, se cansou e partiu para a carreira solo. E então, retomou o Fratelli. Deve ser a sua tentativa em fazer com que as pessoas se lembrem quem ele é. O disco é uma continuação do que ele fazia nos Fratellis, com alguma liberdade para experimentar mais. Ele enche o disco de coros, instrumentos diferentes, e torra a paciência. Ele vai bem, justamente quando lembra sua antiga banda. Caso do primeiro single, Santo Domingo. Mas no geral, o disco parece uma coletânea de b-side...

O Cuiabano e o Frio

Passar pelas ruas de Cuiabá em uma madrugada fria é perceber. Perceber que o cuiabano não nasceu para o frio. Vejo moradores de rua tentando se aquecer. Pessoas nos bares vazios. Guardadores de carro na boate quase abandonada. Caminhantes noturnos. No rosto de cada um é possível perceber que eles não estavam preparados para aquilo.

Geladeiras

Na minha infância, todas as geladeiras eram marrons. Não sei dizer se marrom é a definição mais precisa para a sua cor (definitivamente não sou bom para definir uma cor precisamente), mas era algo por aí. Você deve ter na sua cabeça. As duas primeiras geladeiras aqui de casa, ao que eu me lembre, eram marrons. Combinavam com o fogão, que também era marrom. Vejo fotos mais antigas e observo que muitas geladeiras eram pintadas num tom de azul bem claro. Devia ser a moda da época, de geladeiras que desfilavam no eixo Paris-Milão. Agora, todas são brancas. Aqui em casa é branca. Na casa da minha tia é branca. Na casa da minha namorada é branca. Olho nas lojas e só vejo geladeiras brancas. Disputam algum espaço com as que têm revestimento de aço (bem, creio que não seja realmente aço), mas no geral são brancas. Imagino que elas queiram passar a noção de limpeza. Deve ser a era clean do catálogo das cozinhas. Mas até por isso, sujam facilmente. Facilmente. É provável que as gelad...

Relógios

Júlio Cortazar já dizia "quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado". (Vale a pena se alongar antes de discorrer sobre a idéia, porque o trecho é genial). Não dão somente o relógio, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, suíço com âncora de rubis; não dão de presente somente esse miúdo quebra-pedras que você atará ao pulso e levará a passear. Dão a você — eles não sabem, o terrível é que não sabem — dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. Dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; dão a obsessão de olhar a hora certa nas vitrines das joalherias, na notícia do rádio, no serviço telefônico. Dão o medo de perdê-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. Dão sua marca ...

Andei Escutando (24)

Ash – Free All Angels (2001): Um disco em que o Ash acerta em vários momentos. Consegue bons refrões e mantém um peso nas músicas. No entanto, o resultado é meio pífio quando eles tentam experimentar com orquestrações. Melhores: Shinning Light e Burn Baby Burn Creedence Clearwater Revival – Bayou Country (1969): Discos do CCR são sempre parecidos. Sempre tem ótimas músicas, mas a impressão é que a discografia é meio cansativa. Melhores: Penthouse Paper e Proud Mary . Elliott Smith – From a Basement on the Hill (2004): Sempre há uma expectativa mórbida sobre um disco póstumo. Ainda mais no caso de Smith, que cometeu suicídio com duas facadas no peito. Esperamos uma nota de despedida. Não é o caso. O disco traz as características de sempre, músicas vibrantes de uma vibração desesperada. O disco segue também a linha de evolução de sua carreira. Escutada cronologicamente, é possível notar claramente o traço de evolução. As músicas acústicas do começo foram ganhando produção aos pouc...

Cielo

Nunca tive dúvidas de que César Cielo conseguiria se recuperar esportivamente. Já ganhou uma prova no Mundial de natação e imagino que ganhará outras duas. Talvez perca uma, mas sua presença no pódio é garantida. A grande dúvida a respeito da carreira de Cielo, é se ele vai recuperar a sua imagem. Está arranhada sem dúvida. Cielo deixou de ser um garoto que se emocionava no pódio, para ganhar a imagem de um esportista sujo. Sempre que Cielo ganhar uma medalha, todos olharão com desconfiança. Nesse mundial, todos o olharão pensando que ele não deveria estar ali. E de fato, Cielo não devia. Pode ser que seu doping tenha sido um acidente, realmente. Acontece que inúmeros outros atletas passaram por situações semelhantes, comprovaram a não intenção de ganhar vantagem esportiva, que não ganharam essa vantagem. Mas, foram igualmente punidos. Não digo que Cielo deveria ser banido, punido por dois anos. Mas, alguma punição deveria acontecer. A punição talvez não limpasse a sua imagem. Mas, pre...

Montevideo

Quando se caminha por Montevidéu, a impressão é que você voltou no tempo. Andar em Montevidéu, com seus prédios antigos e bem conservados, é como andar nos anos 50. Observando os carros antigos, bem antigos que passam. É como se o espírito uruguaio continuasse preso aos seus anos de glórias. Glórias que, glórias? Se elas existem eu não sei, mas é sempre bom imaginar que elas existiram. Passado presente nas inúmeras feiras de antiguidade, colocadas em suas praças frescas e arborizadas. De um povo que aprecia o preparo de uma carne, como quem esculpe uma estátua. Que gosta de bons vinhos e peixes, com preços acessíveis. Uma cidade horizontal, em que os prédios não ultrapassam os quatro andares. Uma cidade de vento, e como venta a beira do mar, que chamam de rio. Se essas glórias eram passadas, agora podem ser presentes. O time uruguaio que conquistou a Copa América é de orgulhar. Já havia feito uma campanha emocionante na Copa do Mundo e consagrou uma geração no torneio continental. Os u...

Auro Ida

A morte de Auro Ida me chocou de uma maneira diferente. Eu não o conhecia. Ou melhor, quase não o conheci. Na noite de quinta-feira eu fui ao cinema, no shopping 3 Américas. Passando em frente a rampa da Livraria Janina, minha namorada cumprimentou um homem. Pele queimada, cabelos cheios e grisalhos, japonês de camisa vermelha. Um japonês grande, para os padrões japoneses. Conversam sobre amenidades da profissão jornalística. E então, ela me apresenta. Cumprimento também o japonês. Ele também apresenta a jovem de cabelos pintados de loiro ao seu lado, a sua namorada. Estavam juntos de outro menino, que devia ter uns 14 anos. Seguimos em frente, após a breve conversa. Pergunto a minha namorada quem ele era. Ela diz que era o Auro Ida. Em um primeiro momento, entendi Auro William. Explica que é um jornalista, desses jornalistas das antigas, já trabalhou na Gazeta, já foi secretário de comunicação da prefeitura de Cuiabá. O ingresso para o cinema foi comprado as 20h52. Creio que encontrei...

Mosquinhas de banheiro

Quando eu era criança, adorava matar mosquinhas de banheiro. Essas moscas exóticas, que até parecem um coração. Matava várias. Umas 10, 20, 30, em um único dia. Acho que matei tantas, que elas desapareceram. Do nada. Matá-las era fácil. Elas não ofereciam resistência. Não era preciso muita coisa para poder esmagá-las contra a parede. Vez por outra aparece uma, perdida, mosquinha no meu banheiro. Tento matá-la e é mais difícil. Elas estão mais rápidas. Escapam. Lutam pela vida. Será que eu não sou mais o mesmo? Será que não se fazem mais mosquinhas como antigamente? Ou será que Darwin me manda um recado enquanto eu tomo banho?

A manhã e a tarde

A manhã tem um sol cristalino, branco em céu azul límpido. A tarde tem um sol opaco, em um céu alaranjado. As sombras se põe de lados diferentes. A sombra da manhã é refrescante e a da tarde parece perdida num ambiente homogêneo de calor. A manhã queima os olhos e a pele. A tarde parece te derreter.

Andei Escutando (23)

Band of Skulls – Baby Darling Doll Face Honey (2009): Muitas bandas fazem músicas perfeitas que não tem nenhuma emoção. Não é o caso desse grupo, que tem um par de canções fracas, mas que transpiram energia e vibração. O resultado acaba sendo positivo, com canções que grudam na cabeça. Melhores: Fires e Death by Diamond and Pearls . Love (1966): O disco de estréia do Love é algo na linha do folk/rock dos Byrds. Bem longe de Forever Changes e seus arranjos de cordas, instrumentos de sopro, música cigana, fanfarras e o que mais a mente humana conseguir imaginar. Melhores: My flash on you e Colored Balls Falling . Pernice Brothers – Yours, Mine & Ours (2003): Um disco simpático, com uma audição agradável, meio melancólico, mas que não se destaca. Melhores: Waiting for the Universe e The Weakest shade of Blue . R.E.M. – Reckoning (1984): O R.E.M. nunca fez muito a minha cabeça, apesar de ter bons discos. Só continuo achando interessante que a melhor banda dos anos 80 tenha la...

Tenho...

... estado sem assunto. Não tenho tido assuntos para falar. Ou talvez, não tenho tido inspiração. É dessas épocas em que as palavras parecem fugir. Gostaria de ter falado sobre a edição da piauí de Maio. Uma das melhores revistas que já li em minha vida. Uma revista que teve um foco humano incrível, grandes histórias. A matéria sobre a tragédia em Nova Friburgo é uma espécie de Hiroshima de John Hersey, feita no Brasil. Em alguns momentos, precisei parar para tomar um folego. Há ainda a matéria sobre a vida de um analfabeto, as revoltas na usina do Jirau, o caso Champinha, os viciados em Crack. Muitas matérias boas. Tinha algum outro assunto que eu pensei em escrever... mas esqueci. Quando me lembro, não evoluo. Travado.

Como Funciona

Quando você gosta de assistir esportes funciona mais ou menos assim: você bate o olho e está ocorrendo um jogo. Logo você cria uma identificação com um dos lados e passa a torcer por esse lado. Não que torcer signifique que você dará piruetas com os exitos e tiros na cabeça com os fracassos. Significa que você cria uma expectativa, uma vibração interna para um dos lados. Comecei a assistir tênis na época do Guga. Além de brasileiro, ele era um cara extremamente carismático. Cabelos grandes, jeito desengonçado, roupas coloridas. E jogava muito. Hoje torço pelo sérvio Djokovic. Djoko tem a minha idade, é um cara engraçado, com senso de humor e que sempre leva tudo na esportiva. Não gosto do suíço Federer e seu jeito enfadonho. Nem muito de Nadal. Dallas Mavericks e Miami Heat jogavam a final da NBA. Comecei a torcer pelo Dallas. Porque? Porque Dallas tem Dirk Nowitzki, jogador alemão de quem sou fã desde que comecei a gostar de basquete no Mundial de 2002. Também tem o grande Jason Kidd....

Relações não-pessoais

Andava pela rua quando um cara dentro do carro me pergunta uma informação. No dia seguinte, o fato voltou a ocorrer. E ocorreu novamente na semana seguinte. Penso se é tão normal pedir informação na rua e se as outras pessoas são perguntadas sempre. Eu sempre dei muitas informações. Talvez eu pareça confiável. E de fato, conheço bem as ruas do meu bairro. Não pareço confiável para caixas de supermercado. Sempre tenho a impressão de que elas não foram com a minha cara. Ou será que elas não vão com a cara de ninguém? Seria esse emprego tão ruim? Não costumo a ter essa sensação com o pessoal da fila do pão, ou dos frios. Mas minhas melhores relações são com guardinhas/porteiros e afins. Sempre tenho a impressão que da próxima vez o cara vai me mandar entrar sem saber se eu posso mesmo.