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Andei Escutando (15)

Ash – Nu-Clear Sogns (1998): O Ash sempre mistura o rock pesado com baladas açucaradas. Se dá bem e mal nas duas frentes. Alguns rocks são empolgantes, outros constrangedores. Tão constrangedor quanto algumas baladas são – por outro lado, outras são sensacionais. Na média, a banda é bem isso... média. Melhores: Folk Song e Wild Surf . Cold War Kids – Robbers & Cowards (2006): Uma banda de rock com bastante influência do gospel e ritmos com percussão. Baixo forte, teclados e tambores. Do meio dessa confusão, saem algumas músicas boas e outras que talvez soem melhores caso você seja uma pessoa que usa camisa regata branca e sandália. Melhores: Hang me up to dry e Saint John . Dead Kennedys – Plastic Surgery Disasters (1982): É tudo uma questão de tempo. Esse disco soa menos irônico. O humor negro e politicamente incorreto que sugeria a morte dos pobres foi deixado de lado, para um protesto mais politizado. Sem essa ironia, os Kennedys perdem muita da sua graça. O EP In God We ...

As ruas pelas quais ando

Quando eu estava na quinta-série, adquiri o hábito de voltar a pé para casa do colégio. Andava a longa rua de terra inabitada. Era um hábito solitário, que durava entre 15 e 20 minutos. Foram sete anos com o mesmo trajeto de 1,5km. Durante a maior parte do trajeto, eu escutava apenas os meus passos. Acompanhei a construção de algumas casas, a reforma de outras. A fila do INSS, o movimento no bar. Gostava de admirar a beleza do azul, um profundo azul, no céu durante o outono. A ausência das nuvens e o contraste do topo das mangueiras, verdes, bem verdes. De ver os aviões que passavam e desapareciam no fim do céu. Sempre demorava um tempo razoável, um tempo que servia para refletir sobre o dia, a vida e tudo mais. Quantas vezes não me senti nostálgico? Era uma caminhada inspiradora. Quando entrei na faculdade, o trajeto mudou um pouco. Demorava um pouco menos, mas também era cotidiano. Descia do ônibus, atravessava a avenida e começava. O movimento dos correios, o campo vazio onde os men...

Veja e Carta Capital

Meu respeito pela Veja foi caindo aos poucos. Pelas capas sempre bizarras e forçadas. José Serra com a mão no queijo, Lula com os "ll" de Collor... Difícil citar uma pior, visto que toda semana éramos presenteados com um atentado ao bom-senso. As colunas forçadas e doentias do Diogo Mainardi (alguém ainda aguenta ler aquelas comparações do tipo "Os Irmãos Karamazov da Asa Sul de Brasília"?). Os textos adjetivando e negativando as pessoas, como se fosse a mais neutra das opiniões. No dia em que Reinaldo Azevedo escreveu uma coluna defendendo a postura da imprensa no pequeno espetáculo midiático que foi a morte de Isabella Nardoni (sim, a imprensa devia mostrar o apartamento o dia todo. As pessoas que estavam ali, foram por livre e espontânea vontade. As críticas vêm daqueles que querem controlar a imprensa) eu parei. Sim, parei. De vez em quando ainda dou uma olhada na parte de cultura, ou na entrevista curtinha e bizarra do começo da revista. Mas passo longe de qual...

Pequeno conto dramático-apocalíptico

Vi cachorros, andando com passos firmes. Todos iam na direção contraria da qual eu ia. Na minha direção, vi apenas pessoas que carregavam balões como se carregassem suas vidas. Vi folhas que corriam pela rua, pedaços de papelão espalhados pelo asfalto. (Ou então: passei por quatro cachorros, por mais pessoas do que costumo passar. E parecia que estava ventando muito forte. Mas, quando desci do carro, ventando não estava).

Sonhos

Tinha 2 anos, aproximadamente, e estava no banco traseiro da Panorama do meu pai. Ele desceu para fechar o portão e o freio de mão falhou. O carro desceu rua abaixo e ficou parado num barranco, meio pendurado. A porta trancada fez com que demorasse muito tempo para que eu fosse tirado. Quanto tempo eu não sei, afinal, eu tinha 2 anos, mas pareceu uma eternidade. Essa é a memória mais antiga, que eu me lembro de ter. Lembro de estar engatinhando próximo a um cachorro também, mas não sei se é realmente uma lembrança real, ou adquirida por fotos. Mas o fato do carro me acompanhou. Durante anos, toda noite eu sonhava estar no banco de trás de um carro que andava sozinho. Geralmente na Avenida do CPA - acho que era a Avenida pela qual eu mais passava - na altura em que hoje se encontra o Comper. Às vezes, o carro estava sozinho, às vezes meus pais sumiam do nada. Geralmente era um sonho em primeira pessoa. Não sei quantas vezes eu tive esse sonho, foi o sonho mais recorrente em minha vida. ...

Dúvida Cruel

Dilma e Serra, Serra e Dilma. O governo do PT tem seus méritos. Chamam de assistencialismo barato, mas ajudou algumas pessoas - mesmo eu tendo certeza de que não é o ideal. Mas a economia brasileira parece mais tranqüila do que no governo FHC - falo por achismo. Mas eu não gosto da Dilma. Não vejo nela nenhum potencial de comando. Não gosto do PT, pelos problemas políticos em que se envolveu, problemas esses que pareciam distante do Partido dos Trabalhadores. Mostraram-se iguais aos outros. Inclusive na sanha pelo poder. As recentes declarações de Lula, Zé Dirceu contra a imprensa me enojam. Mas do outro lado temos o Serra e o PSDB. Eles mesmos, que estavam no poder nos 8 anos anteriores. Me lembro da movimentação para que Lula fosse eleito e tirasse o PSDB do poder. Da alegria com o resultado. Da esperança. De um lado, o PT é aquele que matou a esperança. Do outro, o PSDB é aquele que nunca a fez nascer.

Reflexões sobre as eleições

Algumas análises de alguém não tão entendido. - Talvez "coronelismo" não seja o melhor termo, mas Mato Grosso vive no império de Blairo Maggi. Mauro Mendes conseguiu vencer em Cuiabá e Rondonópolis (particularmente surpreendente) e teve bons números em Sinop e Várzea Grande. Mas no interior remoto, sua derrota foi massacrante. A explicação? Nas cidades menores onde um líder político se faz influente, os votos são mais amarrados. E o grupo de Silval/Maggi domina essas regiões. - Eu pelo menos, acho o segundo turno uma alternativa mais democrática. - Mauro Mendes teve uma ascensão surpreendente. E surge como principal rival de Maggi. Não que seja absolutamente bom, são pessoas de perfis parecidos. Mas é inegável que uma oposição é necessária. Nos próximos 4 anos ele precisará se aproximar dessas lideranças do interior. Não adianta ganhar Cuiabá para chegar ao governo. Cidades em que Silval ganhou em vermelho. Cidades em que Mauro ganhou, de amarelo. - A vitória de Maggi no Sena...

Andei Escutando (14)

Belle & Sebastian Write About Love (2010): Mais do mesmo na carreira do B&S. Muitas historinhas, músicas animadas – será adjetivado de fofo, por aqueles que não têm vergonha de utilizar a palavra. O grande destaque é a participação de Norah Jones na melhor faixa do disco. Melhores: Little Jou, Ugly Jack, Prophet John e Calculating Bimbo . Built to Spill – Keep it like a Secret (1999): As descrições sobre a banda trazem a relevante informação de que Doug Martsch tem uma voz singular. De fato, não dá pra negar. Mas sua voz não atrapalha e até combina com as músicas, guiadas por guitarras. E não, não é apenas barulho. Melhores: Carry the Zero e Time Trap . Chico Buarque de Hollanda, Volume 3 (1968): Impossível não admirar pelo menos meia dúzia das letras deste disco. Suas figuras, suas metáforas. E toda a genialidade de Roda Viva . Melhores : Roda Viva e Ela Desatinou . Dead Kennedys – Fresh Fruit for rotting vegetables (1980): Em alguns momentos, o som é tão tosco, que ...

Texto Perdido - Em busca dos garotos perdidos

(Durante uma época da minha vida, eu escrevi alguns textos para um site do qual eu era colaborador. Foi um período no qual era colunista. Após um tempo fora do ar, o site voltou em 2007. Escrevi o texto seguinte, sobre o show dos Forgotten Boys no festival Grito Rock. O site acabou morrendo, antes que esse texto fosse publicado. Por isso, o mesmo não foi concluído. Analiso-o agora, com o passar dos tempos.) Ai está então, o Festival do Grito Rock, com esses negócios de Cena Independente e etc. Sem dúvida, o show do Forgotten Boys era o mais interessante, até tenho um CD deles. As músicas são boas, as guitarras são fantásticas, alguns dos riffs mais empolgantes que ouvi foram feitos por eles. A bateria e o baixo são muito bons também, o vocal é que costuma a deixar a desejar às vezes. Mas importa pouco, perto das guitarras. (Eu tinho um estilo bem descompromissado de escrita. Ainda tenho. Mas vendo esse começo, era algo como "não sei o que escreve na abertura, portanto, vou escreve...

A censura de cada tempo

Bonito, ver José Dirceu falar que o problema do Brasil é o excesso de liberdade de imprensa. Primeiro, porque é uma declaração completamente antidemocrática. Pode-se discutir se a imprensa trabalha bem, ou não. E de fato, muitas vezes ela trabalha mal. Mas não dá pra criticar o excesso da - essencial - liberdade. Entre outros motivos, porque não acredito que exista uma liberdade restrita. Uma liberdade condicional para a imprensa. E segundo, podemos não passar por um momento de perseguição contra a imprensa, ou contra posições políticas defendidas por jornalistas. Não temos a censura prévia estatal e ninguém é necessariamente preso pelo que escreve. E isso é uma conquista democrática, como não, José Dirceu? Mas nós vivemos numa era de censura financeira. Ninguém mais precisa matar ou prender. Apenas compra-se o silêncio da mídia. Basta ver nos jornais, o deputado que nunca é citado, o candidato que apenas faz o bem, o opositor fraudulento. A censura prévia deixou de ser feita pelo esta...

Calango

E lá está o calango subindo a árvore. Fazia um certo tempo que os calangos não apareciam aqui em casa. Houve uma época em que minha rua tinha preás, tamanduás e se bobear até as históricas capivaras. Talvez seja o preço da civilização, mas todos desapareceram. Assim como os vagalumes. Os macacos. Algumas espécies sortidas de pássaros que já habitaram a região. Os calangos foram os últimos da resistência. Foram depois que os sininbús também foram. Até os sapos minguaram. Em seu lugar ficaram as cercas elétricas e o assaltante da beira do rio. Maldita civilização, maldito progresso. Espero que os calangos continuem por aí, andando em muros e árvores. Eram uma vizinhança mais simpática.

Me lembro, Barcelona

E de repente, lá estava eu em Barcelona. A oportunidade apareceu e eu acabei indo. Já fazem 9 anos, mas me lembro bem da semana em que estive lá. Semana que começou complicada, com o ataque as torres gêmeas, a sensação de que estávamos prestes a uma terceira guerra mundial, o medo de voar. Mas eu estava lá. Cheguei lá num dia 15 de setembro de 2001. Me lembro da longa viagem, que passava um filme com a Liv Tyler, mas não cheguei a terminar de ver nenhum dos seis filmes. Me lembro da conexão em Paris - da longa fila - do sotaque afetado do comissário me oferecendo uma Pepsi e de ter visto a Torre Eiffel pela janela do avião. Também me lembro da volta, de um fim de semana de volta as origens na Alemanha e o coração apertado durante a viagem, aquela sensação que temos, de que nunca mais seremos felizes daquele jeito. Mas me lembro principalmente de Barcelona. Gosto de muitas cidades. Gosto dos museus e inúmeros restaurantes de São Paulo, gosto da paisagem do rio e gosto de algumas cidades...

Memórias musicais

Estava escutando música antes de dormir. Na ordem de músicas que o tocador sempre toca. Comecei a perceber que me lembrava exatamente onde estava da última vez que tinha escutado tal música. Atravessando a rua, lavando a louça. Lembro as músicas que escutei no carro e em que situação. Gasto minha memória com coisas inúteis.

1993

"Taí o Casemiro, autor do gol, ele que é garoto, apenas 18 anos, nasceu em 1993". Dizia o narrador. Como assim, em 1993? Nessa época eu já estava no colégio. Quem nasceu em 1993 não era nascido quando o muro de Berlim caiu, quando a União Soviética acabou. Não viu tantas coisas que eu vi na minha infância. E agora estão aí, fazendo gols. Me sinto velho, agora.