Fenômeno cultural, ícones pop, revolucionários do estúdio. Os Beatles são a banda mais bem documentada da história, com uma discografia quase irretocável e cheia de marcos bem definidos. A seguir, uma opinião pessoal sobre os álbuns lançados pelo Fab Four.
Please Please Me (1963)
Gravado em uma tarde de fevereiro de 1963, o álbum de estreia capta o som dos Beatles em todo o seu frescor. George Martin comanda a produção, dando início a um dos casamentos mais profícuos da história da música. Paul McCartney conta até quatro e dá início a I Saw Her Standing There, música autoral que sintetiza o espírito jovem da época. Os números se alternam entre composições próprias e covers até culminar em Twist and Shout, uma das gravações mais marcantes do grupo, com John Lennon se esgoelando e os inigualáveis backing vocals. Logo na estreia os Beatles já mostram o que eles sabiam fazer de melhor: melodias incríveis, harmonias marcantes e uma incrível capacidade de funcionar enquanto grupo.
With the Beatles (1963)
O lançamento do primeiro disco inaugurou a Beatlemania. A febre foi confirmada com o lançamento do single She Loves You (que no Brasil acabaria batizando o Ié Ié Ié). With The Beatles é uma continuidade do álbum de estreia, mas com mais tempo de gravação e ainda mais confiança na fórmula de composição. Paul apresenta outra de suas pérolas pop com All My Loving, enquanto John canta a versão definitiva de Please Mr. Postman. Mais do que discos, os Beatles estavam criando uma nova linguagem pop. O jeito de cantar meio rouco e melancólico de John, viraria um paradigma dos cantores britânicos por toda a eternidade. Uma semana após esse disco eles lançaram um novo single: I Want to Hold Your Hand. E aí, o mundo era deles.
A Hard Day's Night (1964)
O sucesso colossal trouxe a sensação de que discos seriam uma oportunidade limitada de promoção e daí veio a ideia de começar a fazer filmes, tal qual Elvis Presley. "A Hard Day’s Night", o filme, é uma obra de humor meio anárquica, com cenas espetaculares e uma história meio boba. O disco é a trilha sonora do filme, com um lado A repleto de clássicos e um lado B feito no piloto automático. A fórmula é muito parecida com os discos anteriores, por mais que faixas como I Should Have Known Better comecem a apontar um pouco mais para o folk-rock, movimento que explodiria de vez no ano seguinte.
Beatles for Sale (1964)
Os Beatles tem uma mitologia muito bem estabelecida. Desta forma, o quarto trabalho de estúdio deles é reflexo do encontro com Bob Dylan (e a maconha), o interesse pelo folk e country e a busca por letras mais profundas. O nome do disco é uma ironia que mostra que eles estavam se cansando um pouco de toda a balbúrdia da fama. O resultado é diverso: por um lado há músicas muito interessantes como Baby’s in Black e I’m a Loser, assim como Eight Days a Week, outra pérola pop. Mas o lado B, novamente, passa a sensação de ter sido feito às pressas para acumular 14 músicas no LP.
Help! (1965)
O sucesso interminável e a sensação de que a demanda por Beatles jamais seria suprimida gerou um segundo filme. Se "A Hard Day’s Night" tem seu valor, "Help!" é uma bobagem interminável que só deve ter divertido o quarteto, que participou das gravações em estado de permanente entorpecimento. O disco, por outro lado, mostra uma guinada, como se uma sementinha para a revolução estivesse sendo plantada. Help!, a música, tem uma melancolia intrigante, enquanto You’ve Got to Hide Your Love Away é reflexiva como John jamais havia sido. Ticket To Ride alcança a perfeição pop com uma construção diferente da habitual, destacando a letra metafórica. Paul compôs e cantou Yesterday, marcando a primeira experiência dos Beatles com cordas, naquela que seria uma das músicas mais reproduzidas da história. Há outras canções extremamente satisfatórias, como You’re Going to Lose That Girl e mesmo George começa a dar sinais de evolução na composição, com a simpática I Need You.
Rubber Soul (1965)
Eis o momento em que os Beatles realmente começam a experimentar e transformar o estúdio em mais um instrumento musical. Tudo o que eles faziam era aceito pelo público e isso deu confiança para arriscar. A base é o folk-rock vigente da época, levando as harmonias vocais para um novo patamar. Rubber Soul é um disco praticamente irretocável. Ainda tem o vigor da juventude e o cheiro do baseado acesso, com uma euforia juvenil e a incerteza sobre as inovações. As letras já estão muito mais maduras, com Norwegian Wood relatando um adultério de forma poética e embalada por cítaras. Nowhere Man entrega vocais etéreos e uma reflexão abstrata sobre o vazio existencial em uma atmosfera absolutamente chapada. In My Life é um clássico e embalou muitos ppts compartilhados por e-mail no começo dos anos 2000.
Revolver (1966)
Eis o disco que virou o patrono do rock psicodélico do fim dos anos 60, basicamente uma introdução dos efeitos do LSD para o grande público (droga que substituiu a maconha no cotidiano do grupo). Revolver é um disco que se recusa a se encaixar dentro de qualquer padrão. Há pop barroco orquestral (Eleanor Rigby), música infantil (Yellow Submarine), viagens de ácido (She Said e And Your Bird Can Sing) e o caos de Tomorrow Never Knows. Paul compôs a mais linda canção de amor de todos os tempos (Here, There and Everywhere) e uma das mais dolorosas sobre separação (For no One). John assume o prazer da preguiça em I’m Only Sleeping e George entrega sua primeira canção, a proeza de musicar a insatisfação com o pagamento de impostos (Taxman). Revolver é provavelmente o disco mais influente que os Beatles lançaram, um marco geracional.
Sgt. Peppers's Lonely Hearts Club Band (1967)
Os grandes debates sobre os Beatles sempre envolvem a preferência por Sgt. Peppers ou Revolver. Os dois vivem duelando pelo topo da lista de melhor disco da história. Sgt. Peppers tem suas vantagens: é o disco mais coeso do ponto de vista artístico, um mergulho profundo na psicodelia e no verão do amor, com suas roupas coloridas e extravagantes, músicas solares e perturbadoras, arranjo orquestrais grandiosos e onipresentes e a liberdade para falar sobre qualquer assunto. Pelo menos três músicas foram proibidas de tocar nas rádios por suposta apologia às drogas ou incentivo a delinquência juvenil. A Day in the Life é forte concorrente ao posto de maior música de todos os tempos e há pouca coisa para ser criticada aqui. Ano após ano os Beatles entravam em estúdio para marcar um novo gol de placa.
Magical Mystery Tour (1967)
Se você olhar apenas para a lista de canções, não terá muitas dúvidas de que Magical Mystery Tour é o grande disco dos Beatles. Afinal, um trabalho que reúne Penny Lane, Strawberry Fields Forever, All You Need is Love, Hello Goodbye e etc só pode ser magistral. No entanto, as coisas não são tão simples assim. MMT é a trilha sonora do filme (mais um), lançado no mesmo ano e que é outra grande bobagem. O lado A tem as canções originais do filme, das quais se destaca apenas Fool on The Hill. O lado B junta os singles lançados na época do Sgt. Peppers, já que o grupo mantinha a ética de trabalho de não colocar os singles nos álbuns. Desta forma, falta uma coesão estética que sempre sobrou nos trabalhos dos Beatles. Magical Mystery Tour é mais uma coletânea do que um disco propriamente pensado. Além disso, o processo de gravação do filme marca o momento em que o clima na banda começou a azedar. Curiosidade, o disco foi originalmente lançado apenas no mercado norte-americano, mas a partir da unificação do catálogo em 1988 ele entrou na discografia oficial do conjunto.
The Beatles (1968)
Praticamente tudo o que os Beatles gravavam era bem recebido pela crítica e pelo público, fazia sucesso, gerava impacto cultural e se tornava relevante. Talvez, a falta de contraponto tenha levado os rapazes a buscar explicações existenciais mais profundas, culminando em uma conturbada viagem para a Índia (Ringo odiou, Paul não gostou, John teve sentimentos mistos e George queria ter continuado lá). No retiro do Maharishi eles começaram a escrever o que seria o White Album, processo que continuou na volta para Londres. A gravação foi extremamente conturbada, com George se sentindo excluído, Ringo chegando a abandonar o grupo e John e Paul dialogando pouco. De certa forma, é como se fossem trabalhos solos de cada um deles, contando com os outros como músicos de apoio (nem sempre, Paul toca bateria em Back in the USSR, por exemplo e trabalha sozinho em I Will). O resultado desse processo caótico, se analisado friamente, é certamente inferior aos outros trabalhos. Mas, uma banda desse tamanho se expondo tanto ao incerto gerou um material para ser cultuado. John praticamente inaugura a estética lo-fi em Julia, com sua letra incrivelmente confessional. Paul inventa o Heavy Metal em Helter Skelter. O baixo áspero de Paul em Dear Prudence ou While My Guitar Gently Weeps provocam um contraste artístico inigualável. E, vá lá, não dá para defender Everybody’s Got Something to Hide e Birthday, ou ainda Rocky Raccoon e Piggies, mas mesmo as bobagens servem para cultivar o mito. Para melhorar, a capa minimalista consegue, para variar, ser marcante, destacando o contrates com a era psicodélica.
Yellow Submarine (1969)
Mais um filme, dessa vez uma animação infantil. Há pouca dúvida de que a animação de George Dunning é o trabalho ficcional dos Beatles que melhor sobreviveu ao tempo. O disco com a trilha sonora, por outro lado, tem a função primordial de acabar com a dúvida de qualquer fã sobre qual é o pior disco dos Beatles. São 13 canções, sendo que o lado B é todo composto por música instrumental de George Martin. Das outras seis, apenas quatro são inéditas e delas apenas Hey Bulldog merece algum destaque.
Abbey Road (1969)
A relação entre os quatro Beatles se deteriorou rapidamente a partir de 1968 e quando eles entraram em estúdio para gravar Abbey Road a sensação era de que o divórcio era apenas questão de tempo. Há uma certa consciência coletiva de que esse seria o último trabalho deles, apesar de documentos posteriores mostrarem que o quarteto seguiu fazendo planos para novos trabalhos - afinal, é normal tentar salvar um casamento que está no fim. George Martin exigiu disciplina de trabalho. As gravações começaram apenas três semanas depois das tensas sessões de Get Back. Sonoramente, Abbey Road tenta seguir um lado explorado no White Album de buscar gravações mais simples, fugindo da grandiloquência da era psicodélica. Mesmo assim, Maxwell’s Silver Hammer quase enlouqueceu George, John e Ringo com seus infinitos takes, enquanto Oh! Darling tem uma performance vocal inspirada de Paul. Come Together é pulsante. George mostra sua evolução com a belíssima Something e Here Comes the Sun, que com sua aura good vibes se transformou na música mais tocada do grupo no Spotify. O lado B é quase inteiramente composto por um medley de pequenas músicas inacabadas, grudadas uma nas outras, conduzindo para o final épico de The End (se você for levar ao pé da letra, o disco termina com Her Majesty, canção que era para ser excluída mas foi esquecida ali. Acaba sendo um charme). Um grande trabalho, que embalado por aquela que talvez seja a mais icônica das capas de disco de todos os tempos - existe alguma que gerou tantas referências e problemas no trânsito londrino na tentativa de copiá-la? - Abbey Road é um disco fantástico.
Let it Be (1970)
Um disco que é um grande asterisco, que sempre precisa de uma explicação: apesar de ser o último lançado, ele foi gravado antes de Abbey Road. O problema é que as sessões foram tão caóticas que ninguém teve paciência de encarar o trabalho de mixagem. Além disso, os Beatles não chegaram ao resultado esperado no projeto Get Back. Coube a Phil Spector, o mago da Motown, aplicar sua técnica do Wall of Sound para tentar salvar o disco. O resultado acaba sendo diferente de quase tudo aquilo que os Beatles queriam no início do projeto. Em vez de simplicidade, há coros, orquestras, camadas de instrumentos. The Long And Winding Road ganhou esse ar de música do Burt Bacharach, o que combinou. Across the Universe, é uma pena, nunca teve uma versão definitiva. O disco foi lançado cerca de um mês depois do fim oficial do grupo e, por mais que as canções continuem ótimas, ele perde em conjunto. No início dos anos 2000 Paul empreendeu um esforço para lançar uma versão Naked do álbum, sem os arranjos de Spector. O resultado é visível em Long and Winding Road (perdendo sua grandeza cafona) e Let it Be. No resto é só uma curiosidade para ouvidos mais atentos.
Past Masters (1988)
Duas compilações lançadas em 1988, cobrindo todos os singles que não estavam presentes nos discos. A ideia surgiu com o advento do CD Player e a unificação do catálogo, transformando todos os discos americanos em uma excentricidade estadunidense. É aqui que você encontra de She Loves You a Hey Jude, de This Boy até You Know My Name. Para colecionistas, é um item obrigatório.
Anthology
Coleção lançada a partir dos anos 90 contendo versões alternativas, takes iniciais, ensaios, apresentações ao vivo, algumas músicas nunca lançadas e outras coisas. Há coisas lindas como a versão demo de While My Guitar Gently Weeps, curiosidades como If You've Got Trouble e momentos extremamente chatos. O projeto foi uma oportunidade para Paul, George e Ringo trabalharem fitas caseiras de John na tentativa de gravar novas músicas assinadas pelo quarteto de Liverpool. A primeira é uma bela Free as a Bird, o resultado mais admirável. Em Real Love, os Beatles funcionam como banda de estúdio para uma gravação quase finalizada de John. Quase 30 anos depois, a Inteligência Artificial permitiu que Paul trabalhasse Now & Them, abandonada nos encontros de 1994. Talvez a tentativa final de encerrar a carreira dos Beatles em grande estilo, com uma música piegas, mas emotiva.
Por fim, a lista dos 13 discos de estúdio dos Beatles, do pior até o melhor
13 Yellow Submarine
12 Let it Be
11 Magical Mystery Tour
10 A Hard Day's Night
9 The Beatles For Sale
8 Please Please Me
7 Help!
6 With The Beatles
5 Revolver
4 White Album
3 Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band
2 Abbey Road
1 Rubber Soul
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