Pular para o conteúdo principal

1996 (De Novo)

Uma equipe inglesa dominante. Dois pilotos inconstantes brigando pelo título sem empolgar ninguém. O melhor piloto do grid correndo naquele que talvez seja o terceiro melhor carro do grid, mas mesmo assim conseguindo algumas grandes exibições que comprovam o seu status.

Você pode imaginar que eu estou falando sobre a atual temporada da Fórmula 1, mas estou aqui descrevendo o ano de 1996. Quase 29 anos depois, assistimos o enredo de repetir, como se fosse um remake de temporada.

Vejamos, se agora a McLaren entregou o melhor carro do ano, com folga, em 1996 este equipamento era o da Williams. O mundial é liderado por Oscar Piastri, que tal qual Damon Hill é um piloto constante, capaz de apagões eventuais, mas extremamente insosso. Seus adversários e companheiros era pilotos um pouco mais carismáticos, mas muito mais erráticos e que davam a impressão de não se importarem muito com a competição: Jacques Villeneuve e Lando Norris.

(Para ser melhor, só se Piastri e Norris invertessem papéis, criando o cenário de britânicos insossos contra ex-colônias britânicas erráticas).

No Papel que antes foi desempenhado por Michael Schumacher, agora temos Max Verstappen. Se quisesse forçar um pouco mais diria que a Mercedes de hoje é a Benetton de então, o provável segundo melhor carro, mas que não entrega muito.

Para sermos justos, a Ferrari de 1996 era um carro aparentemente pior do que a Red Bull de hoje, mas mesmo assim Schumacher teve um par de grandes exibições.

Mesmo com um automóvel que chegava a ser um segundo mais lento em algumas pistas, Schumacher fez 4 poles. Em San Marino, Mônaco, França e Hungria. Uma a mais do que Villeneuve (Verstappen lidera as poles neste ano). Por mais que não tenha convertido nenhuma das poles em vitórias (bateu na primeira caótica volta de Mônaco, não largou na França foi superado nas últimas duas), terminou o ano com três vitórias, uma delas absolutamente espetacular sob um dilúvio na Espanha.

Terminou o ano em terceiro lugar com 59 pontos e seu companheiro foi apenas o 10º, com apenas 11. Qualquer semelhança entre a situação atual de Verstappen e Tsunoda é mera coincidência.

Verstappen nesse ano conseguiu se manter mais próximo no campeonato - carros quebram menos, mais pontos são distribuídos, de forma que após duas vitórias seguidas nos estertores do campeonato ainda pode sonhar com alguma possibilidade de título. Algo que Schumacher não conseguiu ao vencer duas seguidas no fim de 1996.

Mas, ao que tudo indicar, Damon Piastri, digo, Oscar Hill, deve ficar com o título deste ano, mantendo o mesmo enredo da novela original.

--------

Não é exatamente uma grande novidade. A história já reservou alguns campeonatos que se desenvolveram de forma muito parecida com outra edição do passado

O de 2024, por exemplo, guarda muitas semelhanças com 1991. Nos dois, os atuais campeões e com carros dominantes dos últimos anos começaram o campeonato de forma avassaladora, abrindo grande vantagem sobre os adversários. Falamos de Senna e Verstappen. Durante o campeonato, um piloto britânico de uma equipe britânica começa a crescer e cortar a vantagem. Mas os britânicos (Mansell e Norris), cometem erros, assim como suas equipes e a vantagem inicial nunca chega a ficar realmente perto de ser cortada - ficou mais perto em 1991.

(2009 tem um roteiro um pouco parecido. Mas nesse ano, ao contrário dos citados, o líder inicial desabou de produção enquanto equipes natimortas renasceram na metade final).

O caso mais absurdo é a comparação entre 1986 e 2007. Dois anos que viram uma equipe britânica com o melhor carro - lá Williams cá McLaren, mas que conviveu com rixas internas entre seus dois pilotos. Ao mesmo tempo, a segunda melhor equipe - aqui vale dizer que a Ferrari de 2007 estava menos atrás que a McLaren de 1986 - consegue se manter na briga com um único piloto. 

Para piorar, o jovem britânico - Mansell ou Hamilton - abre grande vantagem e parece ter o título nas mãos. Mas, acaba cometendo erros estúpidos na penúltima corrida, o que mantém a disputa para a última corrida. Só que, enfim, o piloto da equipe mais fraca acaba virando o campeonato na última corrida e leva o título.

(Mansell tinha 11 pontos de vantagem sobre Prost a duas corridas do fim. Só precisava subir no pódio para ser campeão no fim. Seu companheiro Piquet teria sido campeão em caso de vitória no fim. Já em 2007 Hamilton tinha incríveis 17 pontos de vantagem sobre Raikkonen a duas corridas do fim. Teria sido campeão com um quinto lugar na última corrida. Para Alonso bastava uma segunda colocação)

Enfim, caso este fosse um espaço famoso de opiniões, terminaria pedindo para a comunidade do blog falar sobre outros casos de campeonato semelhantes.

Comentários

Postagens mais visitadas

Os 27 singles do Oasis: do pior até o melhor

Oasis é uma banda que sempre foi conhecida por lançar grandes b-sides, escondendo músicas que muitas vezes eram melhores do que outras que entraram nos discos. Tanto que uma coletânea deles, The Masterplan, é quase unanimemente considerada o 3º melhor disco deles. Faço aqui então um ranking dos 27 singles lançados pelo Oasis, desde o pior até o melhor. Uma avaliação estritamente pessoal, mas com alguns pequenos critérios: 1) São contados apenas o lançamentos britânicos, então Don't Go Away - lançado apenas no Japão, e os singles australianos não estão na lista. As músicas levadas em consideração são justamente as que estão nos lançamentos do Reino Unido. 2) Tanto a A-Side, quanto as b-sides tem o mesmo peso. Então, uma grande faixa de trabalho acompanhada por músicas irrelevantes pode aparecer atrás de um single mediano, mas com lados B muitos bons. 3) Versões demo lançadas em edições especiais, principalmente a partir de 2002, não entram em contra. A versão White Label de Columbia...

Correspondente de Guerra Contemporâneo

O correspondente de guerra é uma figura quase mítica do mundo jornalístico. Um repórter que é enviado ao campo de batalha para percorrer escombros, fugir de bombardeios, conversar com refugiados e questionar autoridades em busca de informações sobre o conflito que será noticiado. O jornalismo sempre foi a busca objetiva dos fatos e não há maneira melhor de encontrar a notícia do que vê-la de perto. Já o fato de que um dos postos mais prestigiados do jornalismo é ser um cidadão constantemente ameaçado de morte diz muito sobre as misérias da profissão. No entanto, o papel do correspondente tem mudado nos últimos conflitos midiáticos. Não vemos mais Marcos Losekann desviando de mísseis na Faixa de Gaza. A cobertura das guerras atuais diz muito sobre as tendências do jornalismo atual. Primeiro, é preciso levar em conta que o jornalismo é uma profissão que vive em conflito com o mundo da internet. Há uma crise de credibilidade e uma eterna crise financeira, que leva à busca constante pela e...

Tame Impala & Ben Kweller

O Tame Impala é uma banda que teve certo impacto na bolha da qual eu faço parte, quando o grupo liderado por Kevin Parker estourou no final de 2012. Eles estavam lançando o seu segundo disco, Lonerism , que lapidava a psicodelia bruta e pesada do disco anterior, Innerspeaker . O disco de estreia flertava com a estética lo-fi, com uma psicodelia construída a partir dos bons riffs de guitarra e vocais abafados. Em Lonerism surgiam teclas das mais variadas, texturas psicodélicas e aquilo que se convém chamar de groove. Desde a batida inicial de Be Above It , a viagem de Apocalypse Dreams , o riff de Mind Mischief , o transe de Elephant e a grande obra-prima Feels Like We Only Go Backwards . A jornada psicodélica de 1967 estava de volta. Tudo começou a desandar em Currents , quando Parker começou a abandonar qualquer resquício de organicidade em busca de um som eletrônico, com pegada de R&B moderno e synth-pop. Canções pop triviais receberam texturas psicodélicas eletrônicas. Mas, ok, ...