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Uma legítima alegria do basquete brasileiro

O dia era 30 de Agosto de 2002. Já tinha visto algo sobre o Campeonato Mundial de Basquete realizado em Indianápolis - terra da lendária vitória na final do Pan de 1987. Milton Leite e Wlamir Marques estavam lá transmitindo os jogos pela ESPN e naquela tarde eu assisti os últimos minutos de Brasil x Turquia. Bem, nada como ser apresentado as loucuras do basquete de forma tão explícita assim. Aquele minuto final interminável, uma cesta de três do Marcelinho Machado no último segundo para garantir a vitória, o Milton Leite perdendo a voz na narração. Foi o início da minha jornada de sofrimento com a seleção brasileira de basquete masculino. Nesses 22 anos foram algumas poucas alegrias. Quase todas elas acompanhadas por uma enorme frustração dias depois. Vejamos os mundiais: Após essa vitória contra a Turquia o Brasil venceu Porto Rico e Angola para se garantir nas quartas-de-final. Depois, perdeu todos os jogos e terminou em oitavo lugar. Em 2006 não houve felicidade nenhuma, apenas um t...

O tempo passa até para Cristiano Ronaldo

 A rivalidade entre Messi e Cristiano Ronaldo proporcionou uma série de debates acalorados nas redes sociais. Fãs do argentino e do português se digladiavam virtualmente - por vezes mesmos nos programas de TV - discutindo quem, afinal, era o maior. Um dos grandes momentos desse debate ocorreu ainda no início da Copa de 2018, quando começou a circular por aí um áudio de WhatsApp de um fervoroso defensor do CR7. Se você não se lembra, é o áudio do homem, da máquina, da besta enjaulada com ódio.    "Se botar você de 10 do Real Madrid, ele vai olhar dentro da tua cara filho da puta, ele vai te convencer que você é Ronaldinho Gaúcho". Uma das grandes frases da literatura brasileira. Dentro do vai e vem do melhor do mundo, a discussão naquela época oferecia argumentos fortemente favoráveis ao Cristiano Ronaldo. Tinha acabado de vencer três Champions League seguidas com o Real Madrid. Portugal havia conquistado a Eurocopa de 2016 - uma das piores vencedoras de todos os tempos e ...

Fuso Horário

Ela me perguntou sobre o fuso horário, se era diferente do local onde estávamos. Sim, informei que Mato Grosso está uma hora atrasado em relação ao Ceará. Perguntou se sentíamos alguma diferença, tive que falar que não. A pergunta sobre o fuso horário foi o suficiente para uma pequeno comentário sobre como lá no Ceará o sol se põe cedo e nasce cedo. Isso é exatamente ao contrário do Paraná, de onde ela veio, onde o sol se põe muito tarde. Ela demorou para se acostumar com isso. Não é nem seis da tarde e o sol se pôs. Não é nem seis da manhã e o sol já está gritando no topo do céu. Pensei por um instante que esse era um assunto de interesse dela. Que ela estava ali guiando turistas até um restaurante não facilmente acessível em Canoa Quebrada, mas o que ela gosta mesmo é do céu. Do movimento dos corpos, da translação e etc. Talvez ela pudesse pesquisar sobre o assunto, se tivesse o incentivo, ou se tivesse a oportunidade. Não sei. Talvez ela seja feliz na sua função atual. Talvez tenha ...

Fã de Esporte

A vida no começo de 2005 era um pouco estranha. Eu tinha saído do colégio e passado no vestibular para jornalismo. Mas, devido ao atraso de programação provocado pelas greves, as aulas iriam começar só no final de abril. Foram quatro meses de um pequeno vácuo existencial. Talvez fosse até bom tirar um período sabático após o fim do Ensino Médio, mas seria melhor se fosse algo programado, enfim. Nesse período, boa parte da minha vida se dedicava a acompanhar a programação da ESPN Brasil. Não que eu já não acompanhasse antes, o Linha de Passe da segunda-feira era um compromisso de agenda há algum tempo, assim como o Sportscenter no fim do dia, principalmente nos dias de rodada noturna na quarta-feira. Eram tempos que a internet ainda engatinhava e o Sportscenter era uma grande oportunidade de saber os resultados da rodada. Aquela ESPN de José Trajano moldou o caráter de uma geração de jornalistas e fãs de esporte, como eles passaram a chamar seus telespectadores. Sempre gerava ironias de...

Imola 94

Ayrton Senna era meu herói de infância. Uma constatação um tanto banal para um brasileiro nascido no final dos anos 80, todo mundo adorava o Senna, mas eu sentia que era um pouco a mais no meu caso. Eu via todas as corridas, sabia os resultados, o nome dos pilotos e das equipes. No começo de ano comprava revistas com guias para a temporada que iria começar, tinha um macacão e um carrinho de pedal com o qual dava voltas ao redor da casa após cada corrida. Para comemorar as vitórias do Senna ou para fazer justiça com meus pedais as suas derrotas. Acidentes eram parte da diversão de qualquer corrida. No meu mundo de seis anos, eles corriam sem maiores riscos. Pilotos por vezes davam batidas espetaculares, saiam ricocheteando por aí e depois ficava tudo bem. Já fazia 12 anos que ninguém morria em uma corrida. Oito sem ninguém morrer em qualquer tipo de acidente. Os últimos com mais gravidade tinham sido o do Streiff e do Martin Donelly, mas eu nem sabia disso, para dizer a verdade. Não sab...

Ziraldo e viagem sentimental por Ilha Grande

Em janeiro de 1995 pela primeira vez eu saí de férias em família. Já havia viajado outras vezes, mas acho que nunca com esse conceito de férias, de viajar de férias. Há uma diferença entre entrar em um avião para ir passar uns dias na casa dos seus tios e pegar o carro e ir para uma praia. Dormir em um hotel. Foi a primeira vez que eu, conscientemente, dormi em um hotel. Contribui para isso o fato de que, com sete anos, eu havia acabado de terminar a primeira série, o ano em que de fato eu virei um estudante. Então, é provável que pela primeira vez eu entendesse o conceito de férias. Entramos em uma Parati cinza e saímos de Cuiabá eu, meus pais, minha prima e minha avó. Ao mesmo tempo em que essas eram as minhas primeiras férias, elas eram também a última viagem da minha avó. A essa altura ela já estava com um câncer no pâncreas e sem muitas perspectivas de longo prazo. Disso eu não sabia na época. Mas ela morreu cerca de um ano depois, no começo de 1996, após muitas passagens pelo hos...

Ranking de Segundos Pilotos

Dia desses caí em um vídeo no qual os jornalistas Flávio Gomes e Fábio Seixas debatiam qual era a maior disparidade entre um primeiro e um segundo piloto da história da Fórmula 1. Gerhard Berger, Rubens Barrichello, enfim, qual seria o piloto que viveu as dores e delícias de ser coadjuvante de um campeão, qual deles seria o mais desprezível? Não lembro qual foi a conclusão deles, mas resolvi fazer uma análise de dados. Primeiro criei um critério de seleção. Para entrar nessa lista, o primeiro piloto precisa ter sido campeão por duas vezes tendo o mesmo companheiro ao seu lado. É importante, não pode ter visto seu adversário como campeão, o que eliminaria as linhas de dois pilotos. Dessa forma, chegamos a oito duplas.  Resolvi analisar três dados: retrospecto no grid de largada, retrospecto na linha de chegada e pontos somados enquanto os dois estiveram juntos. Vamos às oito duplas, em ordem cronológica. Jackie Stewart e François Cevert Tricampeão do mundo, o escocês Jackie Stewart ...

Faixa-a-faixa de Shaka Rock, o último disco do Jet

 Ou: analisando um dos piores discos da história Com origem na cidade de Melbourne, o Jet foi um dos destaques do novo rock, como convencionou-se chamar a leva de bandas nascidas no início dos anos 2000, que em geral faziam um revival de sons mais antigos. No caso do Jet, sua influência mais óbvia eram seus conterrâneos do AC/DC na pegada Hard Rock. Mas Rolling Stones não outra influência clara - nos rocks e nas baladas, além do Oasis - principalmente nas baladas. O primeiro disco do grupo, Get Born , era muito bom. Nada de muito inovador, mas uma coleção de riffs e refrãos pegajosos, expondo uma nova geração ao headbang. Na sequência, Shine On  decepcionava, mas ainda tinha seus pontos positivos. Em 2009 eles colocaram ao mundo Shaka Rock , seu terceiro e último disco. Uma bomba sem tamanho, uma coleção de músicas pouco inspiradas com algumas francamente ruins. A primeira faixa K.I.A. (Killed in Action) é uma crítica rasa ao consumismo em que uma guitarrinha aqui e ali t...

Trilhos Geográficos

 Ou, as referências citadinas no primeiro disco da banda The Thrills. The Thrills é uma banda que surgiu no começo dos anos 2000 em Dublin, na capital da Irlanda. Entre 2004 e 2007 o quinteto lançou três discos, três pequenas pérolas pop que, ao contrário do que poderia se esperar de irlandeses, não cantam sobre cerveja escura, bebedeiras em pubs e dias chuvosos. Liderados pela voz anasalada, por vezes fanha, de Conor Deasy, The Thrills é fortemente influenciado pelo som pop psicodélico da Costa Oeste norte-americana nos anos 60. Não a toa, seus integrantes moraram alguns meses em San Diego, na California, antes de darem forma a banda. Mas, não podemos esquecer que no fundo eles são irlandeses, então em vez do pop ensolarado da Costa Oeste, eles fazem um pop psicodélico chuvoso, de jovens dublinenses que gostariam de estar na Califórnia. Seu primeiro disco, So Much For The City , é o melhor de todos. A melancolia transborda por todos os lados, mesmo nos momentos mais felizes. E enf...

Reflexões Pós-Paul

Acho que sei bem o momento em que tudo ficou claro. Foi durante Something. Uma música que nem é do Paul, mas a qual ele defende com unhas e dentes durante sua homenagem ao amigo George Harrison. Empunhando seu pequeno instrumento, Paul McCartney pediu para todos cantarem por George. Aproveitando a ausência dos outros instrumentos, a voz e o ukulele de Paul ecoavam pelo Maracanã. As pessoas já cantavam junto, em um momento bem bonito. Até que veio o refrão, que todo mundo ali conhecia. E aquele I Don't Know veio subindo pelas arquibancadas do antigo maior do mundo, criando um daqueles ecos que provocam um sentido de comunhão sagrada. Sim, ali foi possível entender. Paul McCartney está, talvez, em sua passagem mais unânime pelo Brasil. Sempre houve expectativa em suas outras apresentações, não há registro de uma única viva alma que tenha se arrependido de assistir o Beatle ao vivo. Só que agora ele está velho. Muito velho. Um senhor de 81 anos de idade, que apesar do vigor, já dá sin...

Reflexões pré-McCartney

 Talvez eu pudesse ter assistido um show do Paul McCartney antes. De 2010 para cá o ex-Beatle veio um par de vezes ao Brasil e se apresentou nas grandes capitais como Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Porto Alegre, Curitiba, Belo Horizonte, Salvador, Fortaleza e Recife. Tocou até em locais fora do grande eixo de shows, como Florianópolis, Goiânia e Cariacica. Sim, no Espírito Santo. Algumas vezes faltou vontade, um pouco mais de esforço. Em outras sobraram algumas desculpas pessoais, apesar de que, como é que não se pensou em ir até Brasília ver um show? Na última vez estávamos grávidos e aí não tinha como. Em um dos shows dele, acho até que estávamos em São Paulo, mas esperando para ir de férias para outro lugar. Ele chegou a estar no Brasil enquanto eu estava na Europa. Foram tantos shows que chegou a parecer banal e trivial. Qualquer dia viria essa oportunidade. Eu nem gostava tanto do Paul, essa chatice existencial que muitas vezes tenta diminuir os fatos bons por qualquer i...

Tópicos sobre a Seleção do Diniz

 - Tite ainda é o melhor treinador brasileiro em atividade. O salto de produtividade que a seleção deu sob o seu comando é notável. Quando ele assumiu o time nas Eliminatórias para 2018, a situação da equipe era parecida com a atual. Com o agravante de que eram duas vagas a menos. - O trabalho de Tite foi bom, apesar de que possa ser dividido em dois momentos: foi muito bom até o título da Copa América de 2019, razoável depois disso. A equipe que arrancou para vitórias consecutivas em 2018 teve grandes atuações, momentos de espetáculo, com Neymar e Philippe Coutinho em grande fase. Uma defesa forte, meio campo articulado, ataque móvel. Após o título da Copa América de 2019, o time foi ficando mais previsível e monótono. - Dizem que Tite ficou obcecado após enfrentar uma linha de 5 da Inglaterra em um amistoso de 2018. O que o levou a uma busca insana pelo tal jogo posicional. Acho este um marco da seleção rumo a monotonia. - A grande crítica ao time do Tite é a falta de habilidade ...

Genética

Eu estava no Ensino Médio quando formulei uma teoria que basicamente dizia "genética é uma merda". Entre aulas que mostrava cruzamentos de fenótipos, genes recessivos, X e x e análises sobre a probabilidade de alguém ter olho azul, eu cheguei a essa conclusão. Algo pensado há muitos anos e que basicamente significa que você vai herdar tudo quanto é coisa ruim que for possível. Acho que comecei a pensar nisso quando eu descobri que tinha colesterol alto aos 10 anos. "Igual ao pai" falaram. Meus triglicerídeos sempre estiveram em níveis alarmantes, mesmo nos momentos mais saudáveis da minha vida. Depois vieram a pressão alta, também paterna. Os óculos de grau. É preciso ficar atendo ao câncer de próstata e ao câncer de pele, de origem paterna, assim como a diabetes. Sem contar que seus dois avôs tiveram derrames. E o refluxo, igual ao da família da mãe. Veja, ninguém nunca surge por aí ostentando a visão perfeita que veio da mãe. Ou um sistema cardiovascular impecável...

Os discos que The Doors lançou sem Jim Morrison

Imagine, um disco do The Doors sem o Jim Morrison. Que sacrilégio, que blasfêmia. Eis algo difícil de raciocinar, afinal, o Jim Morrison era o Doors. Tudo bem que boa parte da graça das músicas estava no teclado hipnótico do Manzarek, mas a banda era o Morrison. Um cara bonito, com presença de palco, carismático, chamativo, que cantava bem, era polêmico, autodestrutivo e tinha uma veia poética. Sem ele The Doors não seria nada. É como um museu sem sua obra principal, ou uma dessas comparações feitas pela Adriana Calcanhoto. Mas essa blasfêmia é real, como não. Três meses após a morte de Jim Morrison, os três membros restantes colocaram na praça Other Voices , disco que é bem verdade, começou a ser gravado ainda antes de um Morrison bêbado, gordo, barbudo e deprimido ter uma overdose de heroína na banheira do apartamento onde vivia no Marais, em Paris. Other Voices parece um disco de demos, com algumas bases boas mas que parecem não ter sido desenvolvidas o suficiente. A própria banda ...