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Sapato Abandonado

Passo pela rua e vejo um sapato abandonado no meio do canteiro central. Não sei dizer qual era o modelo, mas era um sapato masculino, estilo social, feito de couto ou alguma imitação. Apenas um pé estava abandonado. Desde criança, sapatos abandonados na rua sempre me chamaram a atenção em um misto de curiosidade e melancolia. Quem será essa pessoa que deixou seu sapato no meio do canteiro central? Esse chinelo no meio-fio? A pessoa não teve tempo para voltar e pegar? Como é que alguém chega descalço em casa, ou com apenas um pé? Sapato não é algo simples de se perder. Não é um brinco que pode ter caído, um relógio que pode ter sido furtado. Não se perde um calçado impunemente. E como tem sapato nas ruas. Sapatos, tênis, chinelos, sandálias, dos mais variados tamanhos. Seriam eles de pessoas que foram atropeladas? Não sei. Nunca saberei.

Questão de Segurança

Passo por um carro de uma empresa de segurança, um Uno Mille, um carro que talvez não passe uma ideia muito grande de segurança. O carro é adesivado com a logomarca da empresa e a foto de um de seus seguranças. Um negro alto, corpulento, cabeça raspada, mal encarado. Ele veste uma camisa azul e segura uma espingarda contra o seu próprio corpo. O tipo de pessoa que é um bom segurança. Penso por um momento nesse esterótipo usado nas propagandas. Talvez o modelo da foto seja apenas um pai de família que não sabe dar um tiro e não conseguiria matar uma barata. Mas ele parece um segurança, um cara que é melhor você não brincar com ele, porque ele pode acabar com você. Eu poderia ser um ótimo atirador e um estrategista da segurança pessoal. Mas ninguém olharia para mim e se sentiria seguro. Penso que os seguranças de filme não são necessariamente negros, altos, corpulentos, cabeça raspada, mal encarados. Eles são mais parecidos com o Kevin Costner. Um negro, alto, corpulento, cabeça ra...

O que há onde há fumaça?

Cuiabá é um cidade com um relevo curioso, de tal forma que você invariavelmente passa por um lugar mais alto e tem uma ampla visão do entorno. Até por conta desse relevo, as ruas de Cuiabá não são retas e não formam quadras perfeitas, para desgosto de Lúcio Costa. Cuiabá também é uma cidade que sofre com um longo período de estiagem, época em que as queimadas urbanas se sucedem interminavelmente, provocando um caos de fumaça. Quase sempre você está no topo de um morro e vê um desses focos de calor* e começa a imaginar de onde vem essa fumaça. Mas, isso é impossível, com raras exceções. Com o tempo, aprendi que a fumaça não é tridimensional e é impossível ter qualquer sensação de profundidade ao olhar seu rastro. Simplesmente não dá pra saber se aquilo que vemos é um fiapo de fumaça atrás do prédio do outro lado da rua ou se é um campo de futebol pegando fogo do outro lado da cidade. O Morro de Santo Antônio finalmente se revelou um vulcão adormecido ou é apenas uma ilusão de ótica?...

Crises do Jornalismo

Tenho para mim a impressão de que o jornalismo está em uma crise eterna. Certa vez li um livro de Gay Talese, que ele falava sobre a crise do jornalismo nos anos 60, quando da popularização da televisão. Talese citava o atual momento crítico de alguns anos atrás, pelos mais diversos motivos. Desde que entrei na faculdade de jornalismo em 2005, a crise sempre foi discutida e o fim do jornal impresso sempre esteve marcado para o próximo mês. Acho que não seria possível criar verbetes na Wikipédia sobre a crise de 2006, ou a crise de 2009, ou a crise dos intermediários em 2013. É a mesma crise, uma eterna crise. Mas, enfim, digo duas coisas que me irritam na cobertura jornalística atual. Amarildo sumiu no Twitter bem antes de ele sumir na Rede Globo ou nos grandes portais. Amarildo já era procurado no Facebook muito antes de passar no Jornal Nacional. Tenho impressão de que os principais veículos não se adaptaram a essas manifestações populares de junho, que pressionaram também a im...

Polêmicas sobre o Eixo

Pablo Capilé se transformou em um personagem central das discussões nessas semana, depois de sua entrevista ao Roda Viva. Capilé é daqueles tipos ao qual ninguém se mantém neutro. Ou amam, ou odeiam. Um Silas Malafaia, um Galvão Bueno. Sua entrevista no Roda Viva foi assim. Eu achei que foram 90 minutos de tergiversação diante de uma bancada experiente, mas que não tinha a menor ideia do que é que estava fazendo ali.  No meio de tantas matérias e polêmicas, ele deu uma entrevista ao UOL . Que rapidamente me fez lembrar de uma entrevista dada no distante janeiro de 2010, para O Inimigo . No geral, as entrevistas são muito parecidas, respeitando a passagem do tempo para o desenvolvimento de uma ideia (Aliás, os comentários são os mesmos, as polêmica são as mesmas). No entanto, uma coisa me chamou a atenção. Questionado, em 2013, sobre a questão do pagamento de cachês para os artistas, Capilé responde: " Não existe uma política do Fora do Eixo contra o cachê ". E explica que...

Surf's Up e meu gosto pelos discos errados

Os Beach Boys sempre foram um sucesso de crítica, mas não exatamente um sucesso no meu mundo musical. Gosto de algumas músicas, é claro, mas sempre achei seus discos extremamente mais ou menos. O clássico e aclamado Pet Sounds, e sua famosa história de rivalidade com os Beatles, me parece um disco insosso. Claro que não dá pra resistir ao encantamento de God Only Knows e o charme nostálgico de Wouldn’t it be Nice e Here Today, mas ao todo, o disco me parece uma coleção de músicas de comercial. Recentemente escutei Surf’s Up, disco que parece estar meio a margem dos principais sucessos da banda. Para minha surpresa, este foi o primeiro disco dos Beach Boys que realmente gostei. Músicas com personalidade, sem parecer se preocupar apenas com adicionar intermináveis camadas de Backing Vocals. E tem Long Promised Road, ótima, mesmo com esse péssimo clipe. Carl Wilson parece um total retardado. Tenho um certo gosto pelos discos errados, aqueles discos que não costumam a ser apontados...

O Universo

Vejo nos sites a notícia de que o mendigo Universo reencontrou sua família. Ele se chamava Bruno, fugiu de sua casa em Queimados há 10 anos. Era ex-fuzileiro naval, sofria com problemas psiquiátricos, tocava violão, jogava xadrez. Estava em Chapada dos Guimarães, onde ostentava o título de "o mendigo mais querido da cidade" e foi encontrado depois que machucou o pé. Há tempos não encontrava o Universo. Só me lembro dele no período em que ele frequentou o saguão do Instituto de Linguagens, uns cinco ou seis anos atrás, em uma parada antes de ir para a Chapada. Me lembro de sua imagem barbuda e cabeluda, quase como um cover do Seu Jorge, sentado no saguão lendo uma Super Interessante que era vendida por um cara que tinha uma banquinha. Nos dias de frio, ele andava por lá, com um cachecol enrolado no pescoço. Carregava um certo ar aristocrático. Mas, a minha maior lembrança dele ocorreu em um sábado, num daqueles sábados em que a aula se enrolava para lá e para cá. Estava se...

O bairro transformado em rota alternativa

Por um momento eu me pergunto como é que seria minha vida se meu bairro sempre tivesse sido uma rota alternativa para o trânsito. Eu teria sobrevivido esse tempo todo? Nos 15 anos em que caminho por essas ruas, vindo do colégio, do ponto de ônibus, da academia. Eu teria sobrevivido aos carros e motos que rasgam pelo asfalto, andando a quase 100 km/h em um bairro residencial, com crianças e cachorros nas calçadas? Como eu faria para atravessar as ruas com esse trânsito? Meus tornozelos sobreviveriam tanto tempo nas calçadas desniveladas pelas quais eu tenho que passar agora? Quanto tempo alguém sobrevive tendo que pegar congestionamento na esquina de casa?

O fator surpresa do frio

(Artigo para o Centro Burnier. Parece meio prepotente chamar qualquer texto de artigo, não é?) Costumo a falar que o maior calor que eu já passei na minha vida foi em um mês de janeiro em Porto Alegre. A frase, dita por um morador de Cuiabá, soa como uma espécie de provocação barata, uma vez que Cuiabá é famosa justamente pelo seu calor, destacado pelas garotas do tempo dos mais variados telejornais. Por outro lado, por mais estranho que possa ser, Cuiabá é um dos lugares em que mais passo frio e já escutei pessoas de fora que também falam isso. É tudo uma questão de preparo. O fator surpresa é essencial para estabelecer a sua sensação térmica. Em Porto Alegre, todos estão preparados para o frio. As pessoas guardam em seus guarda-roupas as maiores variedades de calças, jaquetas, moletons, casacos, cachecóis, sobretudos e gorros que os manterão aquecidos. Suas casas têm aquecedores e são projetadas para manter a família sã e salva do frio do lado de fora. Agora, quando o calor chega...

O Vácuo das Ideias

A ideia surge de maneira espontânea, em uma espécie de milagre aristotélico. Estou ingenuamente tomando banho, escovando os dentes, lavando a louça, quando a ideia chega! Genial! Que ótimo texto isso vai dar! O texto começa a ser desenvolvido em minha cabeça, com suas múltiplas variáveis, seu encaminhamento lógico. Provavelmente fiz isso quando a ideia sobre o vácuo de ideias me surgiu. No entanto, eu não posso largar o que eu estou fazendo para começar a escrever, porque, como eu já disse, estou escovando os dentes, lavando a louça ou tomando banho. Sigo matutando tudo aquilo e começo a me policiar para se lembrar de tudo isso quando chegar a um lugar em que eu possa pelo menos anotar a ideia. As vezes dá tempo, muitas vezes não dá. A ideia desaparece. Fico agoniado tentando me lembrar que ideia é essa. Sei que ela existiu, sei que eu pensei sobre ela, mas ela simplesmente foi embora, se transformou em vácuo. Só me resta a pertubação de uma ideia que morreu antes mesmo de se con...

Grandes Lábios, Pequenos Lábios

Sempre achei graça naqueles diálogos aleatórios que nós pescamos no cotidiano. Aquele diálogo meio surreal que você acompanha parcialmente quando passa por duas pessoas conversando. Ou quando alguém fala no telefone e você só pega um lado. Sempre fiquei imaginando o resto da conversa, coisa minha. Hoje passei por um diálogo aleatório, talvez o melhor da minha vida. Descia a escada de uma repartição pública, rumo ao estacionamento. Parei para esperar o carro e olhei a hora no celular. Escutei uma senhora sentada numa mureta, conversando com uma interlocutora desconhecida, dentro de um carro. - Sabe os grandes lábios? Aquela parte maior de fora. Ai tem os pequenos lábios, foi lá que ela cortou. - No clitôris? (sic) - Não, não foi no clitóris. - No grelo! - Não aquilo ali não é grelo. Foi nos pequenos lábios. Um diálogo tão fascinante que eu pensei até em subir a escada de volta e interagir. Foi isso mesmo que eu escutei? Quem é que cortou o grelo? Como foi isso. Até me descon...

Paixão nacional

Estou prestes a subir a escada do trabalho quando escuto um prestador de serviços conversando com um segurança: - São Paulo tá mal né? Perdeu sábado pro Bahia, 2x1 de virada. (Ok, pode não ter sido o melhor exemplo de uma conversa, já que peguei a fala de apenas um cidadão). Sempre se fala que o futebol é a paixão nacional e que o brasileiro está sempre conversando sobre futebol nas ruas, bares, corredores e pés de escada do nosso país. Não deixa de ser verdade, olha aí o povo discutindo a crise no São Paulo. O detalhe é que o São Paulo não jogou no sábado, jogou no domingo. Também não perdeu para o Bahia, perdeu para o Vitória. E o placar não foi de 2x1, mas de 3x2. Ele acertou que o São Paulo perdeu, mas errou o dia, o adversário e o Placar. Detalhes. Em último caso, o São Paulo perdeu também para o Bahia, mas foi na quarta-feira e o placar foi 2x0. É, brasileiro gosta de futebol, mas isso não significa que ele esteja absolutamente informado sobre o assunto.

Navegue rápido

Estava caminhando pela rua quando vi uma placa afixada em um portão: "Quer navegar rápido? Me procure!" acompanhado de dois números de telefone, provavelmente um de cada operadora diferente. Não era nenhum grande cartaz, impresso em grandes gráficas. Era uma cartolina feita a mão. Apesar de ser claramente um anúncio sobre internet, velocidade de internet, que o cidadão prometia uma internet super rápida, de 20 megas, 40 megas, 4G de última geração, apesar disso, outra coisa me veio na cabeça. Pensei em um anúncio que oferecia a oportunidade de ser o cara de trás nesse barco. Quer navegar rápido? Me procure

Voa!

O que mais me assusta no TelexFree, aquele que provavelmente é o mais novo esquema de pirâmide financeira, é o comportamento dos seus adeptos. Os voadores parecem fazer parte de uma ceita, uma sociedade secreta, talvez. O modelo de sociedade deles tem um líder. O que esse líder faz, eu não sei, mas os seus seguidores se referem a essa pessoa como "nosso grande líder", como se ele fosse uma espécie de Jim Jones. Algumas pessoas são destacadas como "pioneiro do TelexFree" em determinada região. Quem participa do TelexFree monta uma espécie de guerrilha virtual, especialista em marketing viral. Todas as possíveis notícias boas sobre o grupo são difundidas instantaneamente. Enquanto isso, as notícias ruins ganham inúmeros comentários difamatórios. De certa forma, parece que quem entra no grupo passa por uma espécie de lavagem cerebral. Parece com quem entra em alguma dessas Igrejas radicais.