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Há 10 anos...

Dez anos é um tempo razoável na vida de uma pessoa. Tempo para se transformar em outra pessoa, viver em um outro mundo. Tempo razoável para mudar de opinião sobre várias coisas. Há dez anos que eu comecei a prestar atenção em música, escutando os discos disponibilizados para streaming, assistir MTV no período da tarde e a conhecer minhas primeiras bandas. Faço abaixo uma análise sobre quatro lançamentos daquele ano, que eu tive a oportunidade de escutar naquele ano e o que mudou na minha percepção daquela época. Não irei falar de discos como Yankee Hotel Foxtrot, Sha Sha ou Songs for the Deaf, porque eu simplesmente não os escutei naquela época. Oasis - Heathen Chemistry O que se falava: Os irmãos Gallagher, famosos por sua polêmica e pela música, lançam um novo disco, calcado na tradição do rock britânico e chupando Beatles até a medula. O que eu pensava: que os irmãos Gallaghers eram deuses e tinham lançado uma obra prima. Ou talvez nem tanto, porque eu já achava as ...

A batalha do livro

Ler um livro é uma batalha. Ao contrário de outras expressões artísticas populares, a literatura demanda algum tempo da sua vida. Um filme lhe custa duas horas da sua vida, um disco menos de uma. Um livro vai lhe custar alguns dias, mais de um mês às vezes. Vai lhe tomar um tempo da sua vida. Um filme bom irá te prender por algumas horas após o seu fim, mas a reflexão ainda passa. Uma boa música também, mas nos tempos modernos, você pode carregar ela com você. O bom livro irá lhe custar mais. No começo, você estuda o seu oponente. Lê com calma, sem saber aonde é que isso vai dar. Em algum momento, é provável que você possa desistir, olhando o longo caminho que ainda irá percorrer. Até que há um estalo. Aquele momento que você entra em um túnel, um estalo que te coloca em concentração total e você passa a ler cada página do livro como se sua vida dependesse disso. E é custoso interromper esse processo, porque há outras coisas que precisam ser feitas. Você passa o dia na expectativ...

Os barcos e as palavras

E de repente lá estavam aquelas duas mulheres, remando em um barco, fugindo do quadro. Estavam lá mudando a minha experiência com museus. Nunca fui exatamente um fã de museus. Por mais que minha experiência com grandes museus esteja resumida ao Museu Imperial de Petrópolis. Talvez por isso, porque nunca fui exatamente um fã, um apreciador em observar mobílias antigas, por mais histórias que elas carreguem. Confesso também, que nunca me senti tentado a ver a Mona Lisa de perto. Museus também me trazem memórias modorrentas de viagens em família. De quando se para naquela cidade minúscula, na qual não se sabe o que fazer, até que se descobre que lá há um museu. Chega-se ao local para observar uma pequena coleção de roupas velhas e papéis que não dizem nada. Minha experiência com museus mudou para melhor quando conheci o Museu da Língua Portuguesa, em 2008. Uma ideia fascinante, um museu de palavras, elas, tão difíceis de explicar, que falamos sem conhecer sua origem, tão íntimas e t...

Memória Futebolística

No dia 13 de dezembro de 1992, há 20 anos, o São Paulo conquistava seu primeiro título mundial. Vitória contra o grande time de Barcelona de então, de Stoichkov, Laudrup. Os gols de Raí se repetem em looping hoje na televisão, o primeiro com a grande jogada de Muller, o segundo em uma cobrança surpreendente de falta. O São Paulo tinha então um grande time. Não saberia dizer qual foi a data do jogo sem consultar em um livro ou na internet. Mas, trata-se de um dos jogos mais antigos que eu me lembro de estar assistindo. Me lembro de pouca coisa do título da Libertadores daquele ano. Sei que assisti os jogos e tinha noção do que acontecia, mas não me lembro do jogo em si. Lembro de alguns jogos do campeonato brasileiro de 1992, de uma derrota para o Vasco, ou do jogo final, mais pela que da arquibancada do Maracanã. (O jogo mais antigo que me lembro foi a final do Campeonato Carioca de 1991, Flamengo 4x2 Fluminense, com Super Ézio abrindo o placar e depois com Júnior acabando com o jo...

Andei Escutando (40)

Badfinger – Airwaves (1979) : Imagine que o principal compositor da sua banda cometeu suicídio. Você seguiria o trabalho? Não, né? Pois o Badfinger resolveu lançar discos sem Pete Ham. Somado ao futuro suicídio de Tom Evans, isso me faz acreditar que Joey Molland é dos piores seres vivos do planeta. O disco em si, é fraco e mais uma razão para respeitarem o suicídio alheio. Melhores: Lost Inside Your Love e Love is Gonna Come At Last. Bert Jansch – When Circus Comes to Town (1995): O que mais me chama a atenção neste simpático disco é que a voz de Bert permanece praticamente a mesma de 30 anos antes, quando ele estreou. Melhores: Back Home e Morning Brings Peace of Mind . Joni Mitchell – Blue (1971): Não vou mentir: você precisa de um pouco de coragem e insistência para se acostumar com a voz aguda de Mitchell. Melhores: All I Want e Little Green . Moby Grape – 20 Granite Creek (1971): Mais ou menos. Melhores: Gypsy Wedding e Road to the Sun . Pearl Jam – Vita...

Niemeyer

Não é preciso gostar de alguma coisa, para entender sua importância. Pode parecer piegas, mas é verdade. Posso não gostar de Picasso e de suas linhas inexplicáveis, mas admiro enquanto obra de arte. Entendo a complexidade de um quadro como guernica. Não era fã de Niemeyer e seus prédios abstratos de concreto. Acho Brasília monótona com seu excesso de concreto, sua igreja sonolenta. Gosto menos ainda dos prédios seguintes, inspirados em seu concreto armado. Não vejo graça na Pampulha. Mas, é difícil não reconhecer sua importância. A beleza do processo criativo em si. Sua criação a partir do nada. Assim como seu trabalho. De suas idas aos canteiros de obras mesmo após seu centenário. Não há como não admirar alguém que tem uma obra, construída em um século. Nada mal paragem comunista ateu, heim.

Balanço da Temporada 2012 da Fórmula 1

A última corrida da melhor temporada que eu vi da Fórmula 1, confirma este fato. A melhor temporada que eu já vi. Interlagos viu uma corrida maluca, cheia de alternativas. Vettel teve todo o azar do mundo: largada ruim, espremido pelo companheiro de equipe, atingido por Bruno Senna na primeira volta, caiu para o último lugar. Fechou a primeira volta na 22ª colocação e no final da sétima volta já era o sexto colocado. Ganhou 16 posições em 6 voltas, um feito impressionante no sabão que estava a pista de Interlagos, durante aquele chove não molha. Daí para a frente, ele contou com a chuva, com ataques de Kobayashi um pit stop completamente equivocada da Red Bull e outra troca de pneus demorada, que o fez cair para a 11ª posição. Teve que ultrapassar Kobayashi e Schumacher com a pista escorregadia para alcançar a sexta posição que lhe daria o título. Atuação sensacional contra um também sensacional Fernando Alonso. Mas, farei aqui uma avaliação da atuação de cada piloto ao longo desta ...

A melhor temporada da Fórmula 1?

Acompanho Fórmula 1 desde 1991, quando fiz 4 anos e ganhei um quadro com o calendário e os pilotos da temporada. Anoitei os vencedores e tenho o quadro afixado na minha parede até hoje. Nos últimos tempos tem ganhado força a teoria de que o campeonato de 2012 tenha sido o melhor de todos os tempos. Existem vários tipos de campeonatos. Existem aqueles em que o piloto corre sozinho para o título, como Mansell em 92, Prost em 93, Schumacher em 95, 2001, 2002 e 2004 ou Vettel em 2011. Existem aqueles em que o piloto abre uma vantagem no começo e passa o resto do ano administrando, como Senna em 91, Hill em 96, Alonso em 2005 ou Button em 2009. E existem aqueles campeonatos absolutamente disputados, são os melhores campeonatos. E é deles, os que eu acompanhei, que tentarei me lembrar aqui, divagando sobre a melhor temporada que já vi. 1994: Foi um ano confuso. Tudo desenhava para um embate épico entre Senna, na Williams, e Schumacher na Benneton, interrompido pelo acidente fatal do bras...

As opções pós-Mano

Mano Menezes não é mais o técnico da seleção brasileira. Seu trabalho foi mediano, mas é difícil saber quem poderia ter feito melhor. O problema maior é com o material de trabalho. Enfim, quem poderia substituir Mano na seleção? Quem são os sete ou oito nomes falados por Andres Sanchez? Tite: O técnico do Corinthians está entre os nomes mais lembrados. Realiza atualmente o melhor trabalho no futebol brasileiro e seria aparentemente o melhor nome para dirigir a seleção. No entanto, seria louco em trocar um grande momento no Corinthians para entrar na fogueira da seleção brasileira. Além disso, Tite é famoso por fazer trabalhos de longo prazo, até implantar sua metodologia. Não seria um nome indicado para treinar um grupo uma vez por mês. Abel Braga: Atual técnico campeão brasileiro, talvez tivesse o perfil para trabalhar em uma seleção. No entanto, está prestes a encarar uma Libertadores com um elenco forte, brigando para ser campeão. É outro para quem não valeria a pena trocar um g...

Andei Escutando (39)

Bert Jansch – Birthday Blues (1969): Arrastado. Melhores : Come Sing me a Happy Song e Promised Land . Blur – Think Tank (2003): Há algo de diferente em um disco do Blur. Quando você escuta, percebe que é o disco de uma grande banda. Mesmo tendo canções arrastadas, irritantes, há uma busca pelo diferente, pela construção do grandioso por vias incomuns, há um brilho que faz com que o disco seja agradável. Por mais que os discos da época de ouro do Britpop tenham feito mais sucesso, não tenho dúvida que essa busca alternativa dos últimos três trabalhos é que tornou o Blur uma banda respeitada. Melhores: Good Song e Sweet Song . Donovan – Fairytale (1965): Disco folk bacaninha. Melhores: To Try For the Sun e Oh Deed I Do. Elton John – Madmand Across the Water (1971): A música de Elton John sempre soa fora de tempo, escutada nos tempos atuais. Um rock com pianos, um pop com guitarras? Se fosse lançado em 2012, que público ele atingiria? Melhores : Levon e Tiny Dance...

O rebaixamento do Palmeiras

O rebaixamento do Palmeiras, ontem, teve um quê de patético, como diria Nelson Rodrigues. O time foi rebaixado dentro de um ônibus. O drama palmeirense não teve um lugar. Não foi em Salvador, Belo Horizonte ou Porto Alegre. Foi em um ônibus nas proximidades de Itatiaia. O rebaixamento não foi em Volta Redonda, local do jogo contra o Flamengo. Quando a partida terminou empatada, o resultado praticamente decretava a queda, mas faltavam os acertos matemáticos, que só vieram com o empate da Portuguesa, quando o time estava dentro do ônibus. A falta de definição deixou o fim da partida ainda mais patético. Não vimos jogadores estirados no gramado, desejando a morte. Sem a imagens de crianças chorando, torcedores desesperados querendo arrancar o próprio intestino para se enforcar com eles. A imagem era de desolação, de não saber o que fazer. O rebaixamento do Palmeiras não teve drama, sofrim...

Sobre Lance Armstrong

(Será que algum jornal deu a manchete Lance Ilegal?) Pensei comigo mesmo: acho que Lance Armstrong deveria ser preso, se confirmada a sua farsa. O ciclista norte-americano era um dos maiores nomes do Esporte, de qualquer modalidade. Superou uma doença terrível, um câncer nos testículos, para vencer a Volta da França, principal competição da categoria por sete vezes, um recorde. Tratava-se da maior história do esporte mundial. Um dos maiores vencedores de sua modalidade com a mais incrível das superações. Some-se a isso, que o ciclismo é um esporte manchado pelo doping, talvez o esporte que mais sofra com o uso de substâncias ilegais. Nesse cenário, Armstrong era praticamente um superhumano, um superatleta. Estátuas suas deveriam ser erguidas em todas as praças públicas do mundo. Eis que toda a história foi por água abaixo, com a descoberta de que ele se dopava. Sim, e mais do que isso, que ele montou uma grande rede para fraudar os resultados dos exames antidoping. Coisa de soc...

O artista é livre

A manchete era simples, mas chamou minha atenção. "Fãs querem que Plant toque mais Led Zeppelin". Robert Plant, lenda viva e vocalista do Led Zeppelin está tocando em São Paulo neste exato momento. Pelo o que eu li, no seu show ele toca cerca de 20 canções, sendo que apenas 7 são do Led Zeppelin. Sim, o LZ é o principal momento da sua carreira, mas Plant tem uma carreira justamente. Seu conjunto não lança discos há 30 anos e nesse período ele teve inúmeros projetos. Em 40 e poucos anos de carreira, o Led Zeppelin não ocupou um 1/3. Creio que nada seja mais natural do que ele dar espaço a tudo o que ele já fez em tantos anos. Os fãs também tem o direito de querer ver as músicas que mais gostam. Mas, não sei se o Robert Plant de hoje é o mesmo de 40 anos atrás. Talvez, o Plant de hoje não escute nada de rock, seu interesse esteja justamente em música indiana, marroquina. Talvez, no carro, ele escute músicas que ninguém imagina que ele escutaria. O artista, em uma carreira...

As Horas Mortas do Horário de Verão

O primeiro dia útil após o começo do horário de verão pode ser o pior dia do resto de nossas vidas. Na noite anterior, o sono não veio como o esperado. Tudo porque você adiantou em uma hora o seu relógio, os seus relógios, mas não adiantou seu relógio interno. O sono veio no horário de sempre. O problema é que no dia seguinte o relógio tocou no mesmo horário de sempre. Ou melhor, no horário mecânico correto, o horário atualizado. Seu corpo não. O horário de verão tira uma hora da sua vida. E não repõe jamais.