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Andei Escutando (7)

Blind Faith (1969): Mais uma das inúmeras bandas de Eric Clapton. O Blind Faith foi formado com o baterista Ginger Baker – antigo companheiro de Clapton no Cream – e também com Steven Winwood do Traffic. O objetivo inicial era apenas fazer ensaios descompromissados. Do grande Jam eles lançaram um disco, que une enormes improvisos desnecessários com viagens sonoras interessantes. Melhores: Presence of the Lord e Sea of Joy . Emma Pollock – The Law of large numbers (2009): A ex-vocalista dos Delgados chega ao seu segundo disco solo, mostrando que ela era a responsável pelas belas melodias da banda. Law of Large Numbers não é superior ao excelente debute de Watch the fireworks, mas a bela voz de Emma é sempre uma boa companhia para dias bucólicos, nostálgicos e apaixonados. Melhores: The Loop e The Child in Me . Hüsker Dü – Warehouse: songs and stories (1987): Este disco poderia estar num dicionário musical, encaixado no verbete “Rock Alternativo Americano dos anos 80”. Baterias aceler...

Pacto com o demônio

O Black Rebel Motorcycle Club é uma banda malvada. Eles já lançaram um disco cujo nome era o de um poema de Allan Ginsberg sobre atravessar o inferno. Eles já versaram sobre encruzilhadas, sobre a espera do diabo e a salvação. Em outras músicas a maldade estava apenas no som, por vezes denso e sombrio. Escrevo isso no momento em que escuto o quinto disco da banda. Cujo o nome faz referência ao oculto, novamente: “Beat the devil’s Tattoo”. Penso que a única coisa que a banda não fez com o diabo, foi o pacto. A história do homem que vai a encruzilhada e vende sua alma ao diabo em troco do sucesso. Eles são contemporâneos dos Strokes e não tenho medo de errar em dizer que sua carreira é muito mais relevante. Enquanto os Strokes vivem da eterna expectativa de um disco ao nível do primeiro, o BRMC já saiu da obscuridade, fez sons mais sujos, se atolou no folk/gospel/blues e depois misturou tudo novamente. E sempre com um bom padrão de qualidade. No entanto o sucesso sempre passou longe da b...

Traduções in the air

Os tradutores de nome de filme adoram sacanear. Existem sim, alguns poucos casos em que a tradução alterada fica boa. É o caso de Mystic River, filme de Clint Eastwood, traduzido como "Sobre meninos e lobos". O nome original, Rio Mystic não tem muita poesia. O Mystic era o rio que cruzava a cidade e que escondeu alguns segredos. Sobre meninos e lobos diz muito mais sobre o filme, e é bem auto-explicativo. "Onde os fracos não têm vez" também foi uma boa adaptação para "No Country for old men". Mas no geral as traduções são péssimas. Como é o caso de "Hangover" traduzido como "Se beber não case". Uma vez que o casamento não é o assunto principal tratado no filme, era bem melhor a simples tradução como "A Ressaca". Os produtores devem ter achado pouco comercial. "The Hurt Locker" traduzido como "Guerra ao terror" também é péssimo. Mas o pior caso que eu realmente me lembro foi o de "Up in the air" qu...

Sapos suicidas

Por anos, as galinhas ocuparam o lugar de animal mais idiota do mundo no meu imaginário. Se estão seguras na calçada, elas preferem se jogar na frente do carro para sair correndo. Uma atitude típica de um animal que gosta de viver a vida perigosamente. Ou de maneira idiota. Mas ontem descobrir que sapos são piores. Eles não arriscam sua vida com corridas perigosas. Eles preferem a clara tentativa de suicídio. Estava voltando a noite para casa. Chuvisco leve, rua molhada, paredes úmidas. Anfíbios gostam de climas assim. E do nada, vejo um sapo saltando alucinadamente na direção do meu carro. Tentei desviar, mas não sei se poupei a vida do batráquio, depois de sua corrida kamikaze. Pouco mais a frente, outro sapo, menorzinho, repete o ato desesperado. Comecei a pensar que fosse o fim do mundo e que os sapos estivessem cometendo suicídio em um ato desesperado. Depois descobri o real motivo. A luz do carro reflete nos insetos. Os sapos então são atraídos pela imagem do farto banquete e par...

Paradigma de coceira

Mudei meus paradigmas do que é uma coceira. A partir de agora acredito que pessoas possam se coçar até a morte. Ou que a pior punição para alguém seja a condenação à coceira perpétua. Fora o stress físico, a coceira destrói sua mente. Mina suas forças psicológicas. Faz o tempo passar devagar. A espera na fila, o trânsito. Tudo. Os dias de coceira não terminam nunca.

Memórias Hipocondríacas

Quando eu era pequeno tomava injeções todos os dias. Depois sua frequência diminuiu até chegar ao uma vez por ano. Também tomava alguns remédios, pela combinação de alergia, bronquite e asma. Dimetapp. Eis o nome do remédio que eu tomava todo dia. Lembro-me do seu medidor comprido com a boca alargada. E lembro-me do seu gosto, algo que lembrava um suco de uva de garrafinha. Lembro que eu gostava do remédio e até ficava feliz em tomá-lo. Quando o tratamento acabou, vez ou outra eu ainda o tomava, era um descongestionante nasal. Seu sabor lembrava minha infância. Foi em 2000 que ele foi proibido. Ele continha feniproplonamina, substância proibida porque poderia provocar hipertensão. Quando o Dimetapp foi proibido, eu poderia ter ficado preocupado por ter tomado o remédio por tantos anos. Mas não. Senti uma tristeza nostálgica.

The Beatles - Live at Budokan

É difícil que algum material envolvendo os Beatles seja ruim. Por mais que a qualidade técnica não seja significante, o registro histórico é justamente.... histórico. É o caso desse DVD. Não há nada de excepcional nas filmagens, o som tem chiados e a gritaria dos japoneses abafa as canções. No entanto, é bem interessante ver a banda no palco, em 1966, pouco antes do Revolver a prestes a abandonar os palcos. Rock'n'Roll Music aparece numa versão mais bluezeira, Yesterday é tocada de maneira elétrica e a tentativa de reproduzir os multi-vocais de Nowhere Man e Paperback Wirtter é heróica, por assim dizer. E interessante ver os shows em outras épocas. Produção simples, pessoas sentadas e duração de meia hora. Paul McCartney trava um grande duelo com o microfone que insiste em se mover para o lado. Os Beatles surgiram antes da era dos mega shows. Mas, mesmo assim, esse show no Budokan é imperdível, justamente por ser histórico, para ver a história em cima do palco.

Andei Escutando (6,5)

Chico Buarque de Hollanda, Volume 4 (1970): É um disco mais simples e baseado no samba. Não é genial como Construção , mas tem bons momentos, principalmente pelas letras, sempre ótimas. Melhores: Essa moça ‘ta diferente e Rosa dos Ventos . Forgotten Boys (2000): O primeiro disco dos Forgotten Boys é punk rock. Feito por garotos que escutavam muito Ramones na época, provavelmente. Com o tempo eles iriam evoluir e melhorar bastante. Melhores: I wanna live untill I die e Rosana. Queens of the Stone Age – Era Vulgaris (2007) : É o disco menos obscuro do QOTSA e muito provavelmente é o menos genial. O som é mais cru e chapado. No entanto, eles são das poucas bandas da atualidade que fazem um bom disco ser apenas mediano em sua discografia. Melhores: 3’s & 7’s e Turnin’ on the screw Radiohead – Kid A (2000): Depois de anos tomando coragem, escutei Kid A . E, não é tão assustador quanto parece, nem tão genial quanto dizem. Existem músicas geniais e outras que são um pé no saco. Mesm...

Ninguém mandou

Foi notícia umas duas semanas atrás. A delegação da seleção togolesa de futebol estava se preparando para a Copa Africana de Nações. Ao entrar no território da Cabinda, área marcada por conflitos separatistas, sofreram um atentado. O ônibus da equipe foi metralhado. Ao final do tiroteio, que durou meia hora, três mortos, dois jogadores baleados, e todos em estado de choque. Enquanto se cogitava o cancelamento da competição na mídia internacional, um representante da CAF (Confederação Africana de Futebol) disse que o Togo deveria ter viajado de avião, conforme recomendação. Após discussões internas, o governo do Togo decidiu que a seleção devia voltar para casa e abandonar a competição. O resultado disso? Hoje a CAF anunciou que o Togo está suspenso das duas próximas edições da Copa Africana. Porque a Confederação não pode admitir interferência governamental na disputa. Funciona mais ou menos assim: a Confederação marca jogos na Cabinda, que poderia ser um equivalente da Faixa de Gaza o...

Andei Escutando (6)

Bob Dylan – Together Through Life (2009): O ano de 1997 marcou o renascimento da carreira de Dylan. Time Out of Mind foi seu primeiro disco realmente bom em 20 anos. Depois de ter sido trovador, rebelde, pastor, caipira, e de alguns anos perdidos, tentando se adaptar aos tempos modernos, foi a partir desse disco que Dylan deixou de ser um personagem para ser apenas Bob Dylan. Desde então ele vem lançando bons discos e esse é mais um deles. Baseado nos sons tradicionais americanos e com um clima romântico. Dylan nunca pareceu tão satisfeito e tranqüilo. Melhores: Life is Hard e Beyond Here Lies Nothin’ . Nota: 7,75 Codeine Velvet Club (2009): O projeto paralelo de Jon Lawler (ou Jon Fratelli) é uma mistura de trilha sonora de filme do James Bond com música de cabaré francês. Ele divide os vocais com Lou Hickey (que eu sinceramente não sei quem é). Cada vez que ela canta é impossível não imaginar dançarinas de Cancã. Vale por realmente ser algo completamente diferente de sua banda of...

O dia em que Narciso errou

O Santos sobrava em campo. Havia dominado o primeiro tempo e jogou melhor o segundo, até a metade e com isso garantia a vitória por 1x0. Nos minutos finais o time cansou. O técnico santista, Narciso, recuou a equipe e o São Paulo passou a pressionar em busca do empate. A pressão resultou no empate são-paulino, aos 40 do segundo tempo. A pressão continuou e os minutos finais foram de sufoco para a defesa santista. Narciso dos Santos foi um volante medíocre (mediano), jogador limitado. Mas virou um exemplo de superação, quando aos 28 anos descobriu que tinha leucemia. Teve um tratamento complicado, mas conseguiu voltar a campo, para jogar apenas uma partida. Foi aplaudido de pé. Não conseguiu voltar a jogar novamente, mas a figura humana se tornou notável. Aposentou-se oficialmente em 2005 e virou treinador das categorias de base do Santos. O erro de Narciso não foi recuar a equipe. São coisas do futebol. Narciso errou ao meio-dia, assim que o jogo acabou e ficou decidido que a Copa São ...

Coisa Estranha

Uma coisa estranha é quando você está lendo um site, uma revista, um jornal e de repente tem a impressão de ter visto uma palavra de relance. Só que você não tem certeza se realmente viu essa palavra. E essa dúvida fica na sua cabeça "essa palavra realmente está aqui?". E você fica tentando achar aquela palavra, por mais desinteressante que ela possa ser. Eu por exemplo, acabei de jurar que vi a palavra "Madonna" no site do Yahoo. Mas não tive certeza se realmente vi essa palavra, ou se ela foi fruto da imaginação. Lá quero saber da Madonna, mas fiquei procurando por ela no site. Não achei. Fico meio decepcionado quando isso acontece. Não sei porque. Lembrei depois que o Firefox tem a função do Ctrl-F. E realmente, a Madonna não estava lá.

Pisca alerta

Estava no começo da Tenente Coronel Duarte quando vi um ônibus quebrado, parado na faixa dos ônibus. Menos de 100 metros depois outro ônibus quebrado. Entrei na XV de Novembro e vi uma picape, Ford Ranger com a roda empenada e sendo empurrada. Seria a revolta das máquinas? Enquanto isso, passei a me lembrar dos meus sonhos. Nem sempre é bom. Tenho sonhos estranhos, que ficam repercutindo na minha cabeça ao longo do dia. Ultimamente sonhei com esportes estranhos, quedas, aparições fantasmagóricas e com o apocalipse. Eram bons tempos àqueles em que eu acordava sem me lembrar dos sonhos estranhos que tenho.

Do pé

Quando eu era pequeno havia um pé de amora na casa da minha tia. Eu sempre comia. Gostava das amoras quase roxas e doces. Era a única fruta que eu comia direto do pé. Tinha um pé de acerola, outro de pitanga, que eu achava azedos. Havia ainda um limoeiro, e meia de cajueiros. Até gostava dos três pés de goiaba, principalmente das, para mim, exóticas goiabas brancas. Mas dava muito bicho. O problema do pé de amora é que ele cresceu muito. Passou a ser impossível alcançar uma frutinha qualquer. E os pássaros dominaram o pé. Pegava uma amora e... lá estava ela, meio comida. Uma vez tentei comer amora que vendia no supermercado. Elas eram maiores e mais gordas. Mas eram azedas, insuportáveis. Devia ser um outro tipo de amora. E o pé de amora da casa da minha tia, um dia morreu. Ano passado acho. Mas eu já não ligava para amoras. Tanto que demorei um tempo para perceber a morte, e começar a sentir a falta nostálgica das amoras que eu não comi, e que não mais comerei.