Uma breve lista de grandes artistas (ou pelo menos interessantes) que lançaram álbuns lamentáveis. Não são apenas trabalhos ruins, mas discos que nos fazem sentir pena dos autores. Geralmente frutos de fases ruins, tentativas malsucedidas de prosseguir uma carreira que não deveria existir naquele ponto.
The Zombies - New World (1991)
Quando Time of the Season se transformou no único hit dos Zombies em 1968, eles já haviam encerrado as atividades, descontentes com os seguidos fracassos comerciais. O sucesso póstumo transformou os Zombies em uma espécie de banda fantasma, cujos rostos ninguém conhecia, e por isso vários impostores faziam shows como se fossem eles. Diante deste cenário curioso, membros originais da banda se reuniram em 1989 para marcar território e proteger a marca.
No entanto, o retorno não se restringiu somente aos palcos e eles voltaram ao estúdio sem o seu principal compositor, Rod Argent. Coube ao pianista suíço/chileno, Sebastian Santa Maria criar a maioria das músicas para Colin Blunstone cantar. O resultado é deprimente. Produção datada, músicas que parecem uma coleção de baladas ruins de rádio easy. Mas muito ruins. Monday Morning Dance é um mambo infernal que parece propositalmente ruim. When Love Break Down termina com um fade-out melancólico no meio do refrão.
Para ficar ainda pior, eles gravaram uma versão bar decadente de Time of the Season, o que nos leva a pensar que outros impostores se passaram por eles.
The Hollies - Staying Power (2006)
Os Hollies nunca foram um grupo com ter formações estáveis. Mas, seja lá quem fosse que estivesse no grupo, eles entregaram trabalhos razoáveis de pop/rock cantado em harmonia e pitadas de folk/rock genérico. Apesar de nunca terem oficialmente encerrado suas atividades, quando eles lançaram Staying Power, em 2006, já estavam há 23 anos sem entrar em estúdio.
Se a história dos Zombies traz uma certa desolação sobre o trabalho ruim, o dos Hollies faz você passar por todos os cinco estágios do luto. O jovem Peter Howarth (nasceu quando os Hollies já estavam na estrada) assumiu os vocais para cantar como se fosse um desses membros que os jurados do The Voice ficam na dúvida se devem virar a cadeira ou não.
No geral a banda soa como se um grupo com +50 anos tentasse participar de um reality show para ser os Backstreet Boys da melhor idade. So Damn Beautiful é a coisa mais constrangedora que você vai ouvir em toda a sua vida.
Blind Melon - For My Friends (2008)
Embalado pelo hit No Rain, o Blind Melon adicionou algum charme hippie à cena alternativa norte-americana dos anos 90. Infelizmente, o vocalista Shannon Hoon morreu em 1995, aos 28 anos, após dois discos gravados.
A banda deveria ter encerrado suas atividades, mas voltou em meados dos anos 2000 com Travis Warren nos vocais. E se o falecido Hoon era uma espécie de Janis Joplin renascida em um corpo masculino, Warren tem uma vozinha chata, sem potência e que não emociona. Não é um disco tão trágico, quanto os anteriores, mas é triste uma banda que não aceita o fim.
Pink Floyd - A Momentary Lapse of Reason (1987)
As coisas não estavam fáceis para o Pink Floyd nos idos de 1987. O grupo somava então vinte anos desde o lançamento do seu primeiro disco e já havia passeado pelo psicodelismo, viraram sinônimos de rock progressivo e lançaram um punhado de discos conceituais. Mas a banda ficou pequena demais para o ego de seus integrantes e, após o sonolento The Final Cut, de 1983, o líder e principal letrista do grupo, Roger Waters, abandonou o barco. Foram anos de disputas judiciais até que os outros remanescentes ganhassem o direito de continuarem utilizando o nome Pink Floyd. Para marcar essa volta dos que não foram, eles lançaram A Momentary Lapse of Reason.
Ruim com Roger Waters, pior sem ele. A Momentary Lapse of Reason é simplesmente pavoroso, um dos piores discos já lançados por uma banda respeitável. As músicas não tem lá muita inspiração, com letras que tentam emular um clima de ficção científica - talvez porque tenham identificado que essa era a marca registrada da banda - mas nesse caso uma ficção que só passaria no SBT após o programa do Silvio Santos. Para piorar, a produção extremamente anos 80 não ajuda nem um pouco. Pouca coisa se salva: desde o instrumental de documentário sobre a vida selvagem em VHS de Signs of Life, passando pelo blues de puteiro de Dogs of War e Terminal Frost, outra instrumental que talvez Kenny G tivesse vergonha de tocar.
Não há razões no lançamento desse disco que mostra como a mistura de rock progressivo com os anos 80 pode ser terrível.
The Doors - Full Circle (1972)
Segundo disco lançado após a morte de Jim Morrison (como assim?), o oitavo registro lançado sob o nome The Doors é o pior de todos. As músicas até são bem trabalhadas. The Peking Bee & The New York Queen e The Mosquito tem instrumentais agradáveis, embora soem intermináveis. Good Rockin' e 4 Billions Souls se destacam, lembrando bem o som que o grupo fez no final dos anos 60. Uma boa banda cover talvez.
Mas as letras só pioram. Jim Morrison certamente ficaria constrangido ao saber que sua banda abre o disco cantando "Vamos lá pessoal, levantem e dancem". A já citada Peking Bee é um fábula bem chata, que cita metade do mundo e Manzarek tende a fazer letras teatrais. Isso não precisava ter existido.
Jet - Shaka Rock (2009)
Quando surgiu no começo dos anos 2000, o Jet foi uma novidade no mundo do rock. Com bons riffs e belas baladas, eles pareciam filhos de um casamento legítimo entre o AC/DC e o Britpop. Até chegar em Shaka Rock. Certo que a inspiração muitas vezes nos abandona, mas precisamos ter bom senso de saber a hora em que é melhor não fazer nada, para não se expor ao ridículo. Esse disco é uma coleção de músicas sem inspirações, gritos clichês e uma tendência anormal aos refrões ruins.
A primeira faixa K.I.A. (Killed in Action) é uma crítica rasa ao consumismo em que uma guitarrinha marota tenta dar o tom, mas não é possível que eles escolheram isso aqui para abrir o disco. Chris Cester tenta entregar em performance, mas nada é digno de nota. As más impressões são reforçadas com Beat on Repeat, segunda música. Esses malucos realmente estavam querendo grava um soul funkeado? Seventeen é uma cópia descarada de Cheap Trick. Walk tem refrão irritante e parece que a banda está de sacanagem. Lá pelo meio eles pisam no acelerador, como se fossem o Queen, mas muito longe disso. Times Like These tem um riff decadente um refrão em coro constrangedor. Chega a ser difícil conseguir escutar a música até o fim.
Shaka Rock foi um fracasso comercial perto dos seus antecessores. A banda seguiu em turnê por aproximadamente um ano após o seu lançamento e, em 2012, anunciou sua separação. Também pudera: Shake Rock é destes discos tão ruins que sua existência acaba por amaldiçoar seus criadores. É impossível seguir na ativa sabendo que, juntos, seus quatros integrantes foram responsáveis por criar essa bomba. É algo que o The Clash deve ter passado quando pariu Cut the Crap em 1985.
The Clash - Cut the Crap (1985)
Falando neles, o Clash pode ser considerado a melhor banda punk de todos os tempos, por mais que a carreira deles não se resuma apenas ao punk. Em algum momento após 1979, eles se enveredaram em uma mistura rítmica com reggae, dub,ska. Foram tantas mudanças que em 1985 o líder do grupo, Joe Strummer, resolveu voltar às raízes. Da pior maneira possível.
Se a tentativa era voltar ao punk, Strummer falhou, porque Cut the Crap é muito mais um disco de new wave, com sintetizadores e coros avacalhando as músicas que já eram ruins por natureza. Não há uma única música que se salve. A verdade é que o The Clash já havia terminado em 1985, mas eles se recusaram a aceitar. Cut the Crap é provavelmente o pior disco já lançado por uma banda respeitável. Isso é muito triste.
(Comentário final: o Pink Floyd e o Blind Melon até se salvam, mas as capas no geral mostram que a crise é também estética)





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